Agora que está tretaplégica tetraplégica paraplégica, a sofrida mocinha Luciana vivida pela deliciosa moçona Alinne Moraes na novela das oito “Viver a Vida” descobriu que para ganhar a sua terá que montar um blog – e, obviamente, viver de hypes. Ninguém pode dizer que probloggers não são portadores de necessidades especiais.
Confira uma prévia dos mais novos Sonhos de Luciana:



O endereço oficial é www.sonhosdeluciana.com.br.

157 pedradas\o/
Nasci em 1963 e na hora de me registrarem, por um erro do cartório, me foi dado mais um ano, pois fui registrado como nascido em 1962.
Até os sete anos de idade não foi muito difícil, mas ao completar essa idade começaram os problemas, pois tinha sete anos e responsabilidade de oito. Além de competir com meus coleguinhas mais velhos na escola, conciliava a tarefa de me levantar às cinco horas da manhã para levar café e almoço para meu pai, que trabalhava em uma fazenda como retireiro e após a ordenha continuava trabalhando, pois tinha de sustentar nove bocas, sendo sete, filhos. Eu sou o quarto deles e herdei o lugar do terceiro que veio a falecer, e as duas mais velhas eram meninas, e naquela época mulher era considerada sexo frágil.
Depois que assumi a responsabilidade de irmão mais velho continuei em minha tarefa, que era levar café e almoço para meu pai, pegar leite para minha casa, pegar o material escolar e ir para a escola. O trabalho do meu pai tinha ficava a, aproximadamente, quatro quilômetros da minha casa, e desta à escola uns cinco quilômetros. Muitas vezes tínhamos que levar nossas roupas nas mãos, pois no caminho para a escola tinha córregos, poças eNasci em 1963 e na hora de me registrarem, por um erro do cartório, me foi dado mais um ano, pois fui registrado como nascido em 1962.
Até os sete anos de idade não foi muito difícil, mas ao completar essa idade começaram os problemas, pois tinha sete anos e responsabilidade de oito. Além de competir com meus coleguinhas mais velhos na escola, conciliava a tarefa de me levantar às cinco horas da manhã para levar café e almoço para meu pai, que trabalhava em uma fazenda como retireiro e após a ordenha continuava trabalhando, pois tinha de sustentar nove bocas, sendo sete, filhos. Eu sou o quarto deles e herdei o lugar do terceiro que veio a falecer, e as duas mais velhas eram meninas, e naquela época mulher era considerada sexo frágil.
Depois que assumi a responsabilidade de irmão mais velho continuei em minha tarefa, que era levar café e almoço para meu pai, pegar leite para minha casa, pegar o material escolar e ir para a escola. O trabalho do meu pai tinha ficava a, aproximadamente, quatro quilômetros da minha casa, e desta à escola uns cinco quilômetros. Muitas vezes tínhamos que levar nossas roupas nas mãos, pois no caminho para a escola tinha córregos, poças encarregado de uma turma em uma fazenda no Espírito Santo, não pensou duas vezes e foi logo aceitando. Entre o convite e alguns acertos foram quinze dias, e então nos mudamos. Lembro-me daquele dia, era um domingo de páscoa, quando chegou um caminhão para pegar a nossa mudança, que era nada mais que um fogão, uma talha, um filtro, umas camas, algumas panelas, uns dois colchões, mais algumas quinquilharias e nós, é claro. Saímos às onze horas e só chegamos lá à noite. Fiquei impressionado com a distância, nunca havia viajado tanto. Outra coisa que me impressionou foram os morros. Já tinha ouvido falar em morros, mas não sabia que eram tão bonitos e também tão altos. As estradas pareciam tão estreitas e os animais eram muito pequenos quando olhados de longe, os bois pareciam uns cabritinhos. Chegamos à noite e no dia seguinte, a surpresa: tinha morro para todos os lados. Senti uma diferença enorme, pois, de onde eu vinha, dava para ver onde a vista alcançava e naquele momento eu não conseguia ver a cem metros.
Passamos alguns dias em fase de descoberta, pois era muito difícil saber o que havia depois daquela curva ou atrás daquele morro. Passaram-se mais alguns dias e tive a minha primeira decepção: em uma tarde, meu pai me chamou e disse: ”A partir de amanhã você vai levantar cedo, pegar o leite e ajudar o moço lá no curral”. Naquele momento fui tomado de grande tristeza, pois havia imaginado ter deixado aquela rotina a quilômetros dali. Custei a acreditar que isso estava acontecendo. Passados alguns dias, comecei a ser remunerado, não precisei ser muito inteligente para perceber que começara a trabalhar.
Era uma fazenda de café e tinha máquinas e tratores. Não passou muito tempo, tornei-me um tratorista considerado muito bom aos olhos dos mais experientes. Aos dezessete anos já dirigia caminhonete, automóveis e outros tipos de máquinas agrícolas. Estava muito feliz, pois tinha aberto um leque enorme de possibilidades. Um grande horizonte de trabalho. Aquele garoto curioso tinha conquistado um lugar que era muito almejado. Agora eu tinha profissão até para escolher qual seguir. Faltavam os documentos e a maior-idade. Comecei a pensar então que o moço do cartório que errou em um ano no meu registro poderia ter errado em dois anos, pois assim eu poderia atingir a maior idade mais rapidamente. Naquele momento adorava a idéia de ser um ano mais velho e comecei a tirar proveito disso.
Este salto dos dez aos dezessete anos contado hoje, pareceter sido muito fácil, mas não foi. Foram dias, meses, anos muito complicados e de muito trabalho. Meus pais tiveram que adaptar–se aos costumes daquele povo, daquele Estado. Meus irmãos e eu não tivemos problemas de adaptação, pois éramos crianças e era uma novidade a cada dia. Crescemos juntos e nos tornamos adolescentes normais.
O tempo passou e havia chegado o momento tão esperado por mim: apresentar-me à Junta Militar para o alistamento. Eu não queria servir, estava muito empolgado mesmo era com o mundo das máquinas, dos automóveis, caminhões; na verdade, o que eu mais queria era ser de maior e tirar os meus documentos.
Eu sempre fui magro e alto. Ao chegar à Junta Militar, fui entrevistado e deixei claro que não queria servir. Depois de todos os exames feitos, daí a alguns dias, recebi a notícia de que havia sido aprovado em todos os requisitos, quando me perguntaram se queria servir, pois poderia ser dispensado já que o número de candidatos era maior que o de vagas. Não pensei duas vezes e quis ser dispensado; saí dali pensando em como era bom ser um ano mais velho; com o documento nas mãos, agora, era só tirar os outros e foi o que fiz, aos poucos tirei todos os outros. Eu tinha um carinho e um amor muito especial pelos meus pais e por meus irmãos, mas sentia necessidade de sair daquele lugar, pois dizem que santo de casa não faz milagres e isso é verdade, muitas vezes fui humilhado por pensar diferente, mas agüentei firme ali, a empresa em que eu trabalhava tinha outros investimentos, e sem precisar me indispor com ninguém aos poucos fui me tornando independente daquele lugar.
Mais tarde meu patrão e eu concordamos em que eu deveria morar em um lugar onde fosse mais fácil evitar que viajasse muito. Mudei-me para uma cidade onde fiquei mais centralizado, exercia varias profissões, viajava com meu patrão e paralelamente trabalhava com terraplanagem. O trabalho me dava oportunidade de conhecer muitos lugares lindos, cidades maravilhosas e muitas pessoas; e ai comecei a fazer uso da educação que recebi dos meus pais, que era respeitar a todos e ser honesto sempre.
Sem esquecer os ensinamentos de meus pais, agora tinha a vida, que é uma excelente escola, a vida é e será sempre uma escola Se você quer aprender o que é bom ela te ensina e o que é ruim se você não tomar cuidados, também acaba aprendendo. Passado algum tempo, decidi só prestar serviço no interior, de segunda à sexta, me sentia um bichinho dividido entre a cidade e o interior, da cidade eu tirava tudo de bom que ela tinha para dar, eu vivia intensamente cada momento, começava na chegada: toda iluminada, muitos carros, muita gente junta sem ser festa, e que muitas vezes nem se conheciam, saía gente de todos os lados, as pessoas eram como ondas iam e vinham com muita rapidez até uma determinada hora da noite. Na cidade, se você tem dinheiro, pode comprar quase tudo. A cidade e o interior tinham e têm uma coisa em comum, que é a violência, e essa não merece ser relatada. Chegada a segunda-feira, era hora de ir para o interior e também de esquecer todo conforto que a cidade nos dá. No interior, na maioria das vezes, não tem luz elétrica, água encanada, TV, geladeira, ventilador, ar condicionado, liquidificador, associando essas faltas à presença dos mosquitos, que existem em todos os lugares, o interior é um luxo.
Eu sempre fui e sou preocupado com o interior, a falta de recursos como: luz elétrica, estradas, escolas, postos de saúde, transporte, assistência técnica, financiamento. Isso faz com que as pessoas venham para as cidades, congestionando–as, pois elas também não oferecem se–quer uma condição mínima de sobrevivência para essas pessoas e, assim, as deixam ociosas e desacreditadas, pois muitas das vezes não têm uma profissão, já que nas cidades as profissões são diferentes das usadas no interior. Vivo torcendo para que os nossos governantes descubram que o interior precisa desses e de outros recursos eles deixaram de ser luxo e se tornaram uma necessidade. Faço este relato com base no que vivenciei, eu senti na pele o que é um interior abandonado.
Dividido entre a cidade e o interior tocava a vida atropelando os problemas.
Certo tempo depois, a minha profissão exigia que eu tivesse um conhecimento em mecânica e não hesitei em fazer um curso de mecânica de automóvel, na teoria, pois na prática eu já tinha um grande conhecimento, e mais tarde me tornei mecânico prático em máquinas pesadas.
Minha família continuava morando no Espírito Santo, e eu às vezes tirava um tempinho para visitá-la; agora meus irmãos já eram rapazes e moças; uma era casada, outra morava com meus avós, os meninos e uma das meninas moravam com nossos pais, os meninos se especializaram em cultura de café e seringueira e os de- -mais afazeres em uma fazenda.
Minha mãe estava muito feliz, morava em uma casa muito bonita na mesma fazenda, e já tinha comprado uma casa na cidade. Para completar, já era avó. Meu pai, este sim tinha motivos para estar feliz: havia criado seus filhos. É claro que não tinha formado nenhum em doutor, mas havia formado todos em homens e mulheres fortes, que poderiam caminhar sozinhos.
Tínhamos respeito, carinho e muita admiração por aquele homem humilde que enfrentou e suportou muitas dificuldades, seu sonho era como o sonho de qualquer pai, que é ver seus filhos criados e comprar a casa própria; com esses dois objetivos realizados, faltava agora só aquilo que usamos chamar de pé de meia e eu não duvidava que ele fosse conseguir, sempre foi um homem muito econômico e era de casa para o serviço e vice-versa, nosso pai é que administrava todo o orçamento, a maior prova disso é que trabalhávamos e muitas vezes não sabíamos quanto ganhávamos, pois nosso pai recebia e era tudo para custear as despesas em nossa casa, nosso pai tinha consciência de sua responsabilidade, que era pagar tudo, e assim o fazia, pagava roupas, calçados, dentista, médico, remédios, enfim, o básico para se viver com um pouco dedignidade.
Quando me ausentei de casa, continuei ajudando financeiramente a minha família, ajudava mais a minha mãe e minha irmã, essa então eu me sentia um pouco pai dela, era a nossa caçula.
Um certo domingo, havia combinado de ir à praia com uns amigos, chegado o dia, não havia dormido direito, perdi o sono, senti-me muito triste, pensei em não ir à praia, meus amigos insistiram e eu fui; chegando lá não conseguia divertir-me sequer tirei a camiseta ou molhei os pés, sentia muita vontade de voltar para casa, deixei meus amigos lá, peguei um ônibus e retornei; chegando à casa de minha tia onde passava fins de semana, ao entrar na varanda as pessoas estavam todas na sala, ouvi quando meu primo falou “Olha ele aqui!”, suas caras eram de espanto e sem nenhum rodeio, ou seja, sem nenhuma outra conversa, da janela mesmo meu tio falou “Seu pai morreu”. Naquele momento, achei a piada de muito mal gosto, mas como meu tio não era de muita brincadeira, eu ouvi novamente “Seu pai faleceu!” e mesmo assim custei a acreditar ou não queria acreditar. Nesses momentos as pessoas tentam nos confortar, dizendo que a vida é assim mesmo, que todos nós um dia iremos morrer, o problema é aceitar quando é com um membro de sua família, ou de alguém próximo.
Minha família havia mandado um mensageiro para procurar-me, só que havíamos nos desencontrado. Naquele momento não sabia o que fazer, daí me veio a idéia de ligar para meu patrão, que também era patrão de meu pai e ele havia saído para procurar-me já que sabia do acontecido, mas ele havia deixado recado para que eu o esperasse em sua casa, e quando ele chegou saímos para comprar uma urna e flores. De caminhonete, viajamos para o Espírito Santo, era domingo, tudo ficou mais difícil; às 17 horas chegamos ao local, nunca tinha visto tanta gente junta na casa de meu pai, a notícia havia se espalhado e seus amigos e conhecidos vieram prestar suas últimas homenagens. Naquela noite mesmo, transladamos o corpo para outra cidade, onde seria velado e sepultado; no dia seguinte, após a burocracia e o sepultamento fui para casa, e agora sim acreditei que meu paizinho havia falecido, agora eu tinha vontade de chorar, fazia muito calor e fui para o banheiro, abri o chuveiro, pus-me debaixo e chorei muito. Naquele momento, consciente do que tinha acontecido, agradeci ao Pai Celestial por ter colocado aquele homem aqui na Terra e por ter sido meu pai. Ele foisem dúvida um excelente ser humano.
Hoje, misturada à saudade, tenho a lembrança da última vez que o vi com vida. Certo dia fiquei sabendo que meu pai estava na cidade, fui ate um terminal rodoviário encontrá-lo; chegando lá o ônibus já estava de saída, conversamos um pouco, e assim que o ônibus saiu, eu peguei seu chapéu pela janela e ele então falou “Opa, opa motorista, pare um pouco!”, e eu então devolvi seu chapéu e ele foi embora sorrindo. Meu pai sempre foi um homem saudável, nunca se queixava de dores ou coisas parecidas, porém foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, sua missão foi do período de 1931 a 1986.
Virando esta página, começava uma outra que era muito difícil e complicada, não tínhamos mais o nosso pai, aquele que tinha o segredo e a magia de como fazer uma família forte e unida, com a certeza de que ele era insubstituível. Tocamos a vida para frente, o tempo foi passando e cada vez que tinha que tomar uma decisão em família eu era chamado, depois de dar a minha opinião, minha família aprovava, eu não gostava do que estava acontecendo. Esse papel nunca foi meu, dar a última palavra, mas ao mesmo tempo, tinha consciência de que deveria, no mínimo, proteger minha mãe e a minha irmã, já que osmeninos eram adultos e independentes. O tempo passou, minha família almejava voltar para o nosso Estado de origem, mas agora era para a cidade. Tínhamos um problema que era vender a casa que ficava em outra cidade e comprar na cidade escolhida; meus irmãos deixaram que eu decidisse tudo. É claro, havia chegado a minha vez de levar vantagem; escolhi a cidade em que morava a minha namorada, eles aprovaram e eu adorei a idéia, havia a possibilidade de morar na mesma cidade que moraria minha família e namorada.
Mas os problemas estavam por vir, e tudo começou quando o dinheiro da venda de uma casa não deu para comprar outra que desse para acomodar toda família já que a que morávamos era muito grande, mas problema mesmo teriam meus irmãos, tinham que arrumar emprego em Quissama onde só existiam duas fontes de empregos que era uma usina de açúcar e a prefeitura municipal, mas, não havia vagas para trabalhar, pois o município tinha somente um ano de emancipado; quanto à usina, não havia vagas e não era a área dos meus irmãos, já que os mesmos mexiam com café e seringueira e com outras funções ligadas à agricultura. Diante disso tive que assumir as despesas de minha casa até que eles mesmos encontras–sem um trabalho. Como eles eram determinados e estavam a fim de trabalhar, por intermédio de um amigo, sucessivamente, ingressaram na construção civil e não se limitaram a aprender uma profissão ligada ao ramo. Hoje, os três têm uma profissão na construção civil e são profissionais liberais, dois se casaram e moram em cidades diferentes.
Lembro-me que sempre fui um sonhador, quando eu era menino ficava imaginando quando eu iria comprar uma bicicleta. A infância passou tão rápido que quando chegou este dia, não curtia mais bicicleta, agora meu sonho era uma moto, então comecei a economizar e certo dia comprei uma moto nova. Com um ano de uso, descobri que não gostava mais de moto, então vendi e comprei um carro usado, mais para o trabalho. Eu continuava trabalhando com terraplanagem, na mesma firma, e tinha meu patrão como um dos meus melhores amigos, com ele aprendi tudo que sei profissionalmente e não posso deixar de dizer que socialmente contribuiu em muito para a formação do meu caráter, já que tive que aprender muitas coisas, aquelas que você só aprende com alguém que queira seu bem e que você contribui aprendendo apenas o que é bom. sou e o que sou, e o que estou fazendo aqui?”. Não sou doutor nem produtor, nem filho de nenhum fazendeiro, depois de analisar o que cada um deles dizia cheguei à seguinte conclusão: dizem que doutor é uma pessoa que estudou e se formou em alguma coisa, que produtor é quem produz alguma coisa, que fazendeiro pode ser um cara que tem muito dinheiro e comprou muita terra e filho de fazendeiro é só o filho de um homem que comprou muita terra. Agora era chegada a minha vez, então me apresentei: “Eu sou José Geraldo, sou funcionário de Célio Wagner, ocupo o cargo de operador de máquinas pesadas e agrícolas e sou profissional em terraplanagem. Se um dia este projeto for colocado em prática, creio estar preparado para contribuir com os senhores”.
Ao término daquela reunião e depois de um saboroso almoço, de volta para casa, questionei com Célio Wagner que ele tinha me colocado em uma prova de fogo, me convidando para a festa errada e ele respondeu que eu tinha me se saído muito bem, que ele não esperava outra coisa de mim, pois já que tinha ouvido muitos elogios dos nossos clientes a meu respeito.
Como um bom profissional e muito educado, depois de ouvir esses elogios, cheguei à conclusão de quenão importa qual é a sua profissão, não importa o que você faz, você tem que ser bom e tentar sempre ser o melhor. Quando você pensa assim, todos ganham com você, ganham porque aumentam seus clientes, ganha seu patrão e ganha aquele que não pode perder nunca que é o cliente. Faço este relato profissional em homenagem a todos os meus ex-clientes e a meu ex-patrão Célio Wagner que apostou e investiu em mim e nunca hesitou em colocar em minhas mãos uma máquina nova, para que eu pudesse aprender uma profissão.
Sempre fui um rapaz bem relacionado com as mulheres e tive algumas namoradas, em 1989 conheci Katia, em 1992 ficamos noivos e começamos a planejar o nosso casamento, combinamos que deveríamos primeiro construir aquela que seria nossa casa, já tínhamos o local e algum material e um amigo estava fazendo a planta.
Era chegado o ano de 1994, decidimos que casaríamos naquele ano, estávamos muito felizes, aquele ano que começara tinha tudo para ser o melhor ano de nossas vidas, e o que nos levava a pensar assim era a expectativa da construção da casa, da compra dos móveis e a realização do casamento. Andamos visitando as lojas, namorando os móveis que iríamos comprar, eu particular-não importa qual é a sua profissão, não importa o que você faz, você tem que ser bom e tentar sempre ser o melhor. Quando você pensa assim, todos ganham com você, ganham porque aumentam seus clientes, ganha seu patrão e ganha aquele que não pode perder nunca que é o cliente. Faço este relato profissional em homenagem a todos os meus ex-clientes e a meu ex-patrão Célio Wagner que apostou e investiu em mim e nunca hesitou em colocar em minhas mãos uma máquina nova, para que eu pudesse aprender uma profissão.
Sempre fui um rapaz bem relacionado com as mulheres e tive algumas namoradas, em 1989 conheci Katia, em 1992 ficamos noivos e começamos a planejar o nosso casamento, combinamos que deveríamos primeiro construir aquela que seria nossa casa, já tínhamos o local e algum material e um amigo estava fazendo a planta.
Era chegado o ano de 1994, decidimos que casaríamos naquele ano, estávamos muito felizes, aquele ano que começara tinha tudo para ser o melhor ano de nossas vidas, e o que nos levava a pensar assim era a expectativa da construção da casa, da compra dos móveis e a realização do casamento. Andamos visitando as lojas, namorando os móveis que iríamos comprar, eu particular-monstro que estava vindo próximo a mim, decidi jogar o carro pra fora da estrada, dei um golpe na direção e fechei os olhos, o carro ao bater no meio-fio voltou para a pista, ouvia muitos barulhos de buzinas, abri os olhos e a carreta não estava mais ali, eu já estava invadindo a contra mão e de olhos abertos controlei o carro; como não dava para parar, sair para o acostamento eu fui devagarzinho e, aproximadamente, a um quilômetro dali, existia um posto de gasolina, onde parei. Agora a tempestade já havia passado, minhas pernas tremiam, não conseguia abrir a boca, meu queixo estava duro, um motorista que havia presenciado o episódio veio até mim para saber se estava tudo bem, aos poucos me restabeleci, não havia acontecido nada com o carro, segui a viagem, e sei que mais uma vez Deus estava ali e me salvou de mais um terrível acidente.
Em fevereiro, época de carnaval, nestes feriados curtia ir às praias e cachoeiras com minha noiva e minha família, me misturando entre os três amores: noiva, família e natureza, passei aquele carnaval, e agora era hora de voltar a trabalhar para quem tinha tantos projetos a serem realizados naquele ano.
Havia combinado com o lanterneiro que após o carnaval iria fazer um serviço em meu carro, já queapresentava algumas ferrugens. Na segunda-feira, após o carnaval, fui à oficina; chegando lá encontrei aquele amigo que estava fazendo a planta de nossa casa, ele havia feito um desenho provisório, eu gostei, mas tinha que ser aprovado por Katia, e depois disto levaria para um desenhista profissional. Diante disso resolvi não mais deixar o carro na oficina, já que naquela sexta-feira próxima, teria que resolver alguns problemas de ordem pessoal, em minha cidade, pensei em fazer as duas coisas ao mesmo tempo, então combinei com o dono da oficina que deixaria o carro na sexta-feira, tinha um amigo que viajava comigo às segundas, quartas e sextas-feiras, como havia decidido que não iria trabalhar naquela sexta-feira, pedi que ele não viesse, pois seu serviço dependia do meu.
Na quarta-feira da mesma semana, meu primo me pediu para ir a uma praia da região para pegar um cachorro e umas pranchas de surf, aproveitei a minha hora de almoço para fazer este favor para meu primo e aproveitei a viagem e trouxe um pouco da mudança de minha tia que passara verão naquela praia, e retornara para cidade, já de volta para cidade por um instante me deu uma tristeza muito grande, não conseguia entender o por que daquela tristeza, tive vontade de chorar, por fora não parecia, mas por dentro, eu chorei, fiz toda viagem distante de mim, não consegui ir para o trabalho, passei a tarde e o dia seguinte muito estranho, no final do dia de quinta-feira, ao terminar o expediente, estive com meu patrão e falei com ele que não iria trabalhar na sexta-feira, e para piorar, ele não gostou da idéia, alegando estar com pressa para terminar aquele trabalho, não tive muitos argumentos, sempre separei os meus problemas particulares do trabalho, e com a convicção de que iria trabalhar no dia seguinte, fui embora, agora triste e também aborrecido. Na sexta-feira, trabalhei o dia todo, já estava mais tranqüilo, bem calmo e até um pouco feliz, era chegado o fim de semana e eu estaria com a minha noiva e minha família, com a certeza que na segunda começava uma outra semana, e que o patrão tinha razão, afinal ele era patrão e eu empregado, mas a nossa amizade e a convivência de dezoito anos às vezes nos fazia esquecer desse detalhe.
Naquele final de tarde, o expediente havia terminado quando Célio Wagner apareceu por lá, acertamos alguns detalhes a respeito do trabalho e fomos embora; combinamos passar na cantina para fazer o pagamento das refeições da semana, ao chegarmos lá, chegou também um casal, que estava com problemas em seu carro e eu me sensibilizei e me propus a ajudá-los, já que eu era mecânico e tinha uma caixa de ferramentas no carro. Célio Wagner e um amigo que estava em sua companhia foram para a cantina e depois de verificar e consertar o carro do casal eles foram embora. Fui até à cantina e Célio Wagner e seu amigo já estava de saída, daí lavei as mãos e tomei uma Fanta laranja e fui embora, assim que peguei o asfalto Célio Wagner estava parado em um galpão que pretendia comprar. Segui minha viagem, era sexta-feira 25 de fevereiro de 1994, trafegava pela BR 101, saí do km 8 em direção a Campos dos Goytacazes, dirigia com muita atenção atrás de uma carreta-cegonha, quando ela entrou para um posto; gostei que ela entrasse ali, assim não precisava ultrapassá-la, o que eu não sabia é que estava indo em direção à imprudência e à irresponsabilidade e que me encontraria com aquele que iria fazer mudar a minha história até aqui contada.
Poderia não ser uma linda história, mas eu só tinha trinta e um anos, e muita vontade de viver, tinha no peito um coração cheio de amor. Até aqui não falei em minha fé, mas tinha muita fé em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas a poucos metros dali eu encontrei aquele que mudou a minha história. Ao fazer uma ultrapassagem, um carro se desgovernou e invadiu a contra-mão e veio em cima de mim, porém, dessa vez não deu para fazer nada a não ser tirar para não batermos de frente, foi muito rápido, eu só vi uma luz em cima de mim e o choque, não vi mais nada, nem senti nada, segundo pessoas que presenciaram o episódio e a perícia técnica, o carro desgovernado bateu na roda traseira do meu carro que era um fusca, com o choque, que só não foi de frente porque mais uma vez Papai do Céu estava ali e eu consegui sair a tempo, porém não totalmente e o pior aconteceu: com o choque, fraturei três vértebras cervicais, C3,C4,C5 e na altura da C3 aconteceu uma lesão na medula fazendo com que eu perdesse totalmente os movimentos do corpo. Tenho a lembrança de que, quando os bombeiros estavam me retirando do carro, ter acordado por alguns segundos e dar o número do telefone do meu patrão e ter apagado em seguida.
O carro, com o choque, saiu da pista e foi parado por uma árvore, tudo foi tão rápido que meu patrão passou e não viu o acidente, quando cheguei ao hospital, logo em seguida chegaram os meus amigos e meu patrão Célio Manhães Wagner.
Depois que tiraram algumas radiografias, ficou
constatado que o impacto havia lesionado as três vértebras e a gravidade do problema. Naquela madrugada voltei a mim, sentia muita dor na cabeça e no pescoço, tentei me levantar e meu corpo não se movia, pensei em pegar em alguma coisa, minhas mãos e braços não se moviam, tentava respirar, não conseguia, quando alguém que estava ali do meu lado, mas eu não conseguia ver, disse-me: “Calma você sofreu um acidente e está em observação”, eu pensei “Como, se eu não vejo, nem respiro direito, comecei a me perguntar cadê meu corpo, pois eu não o sentia”.
No dia seguinte, descobri que havia algo que puxava minha cabeça para trás, com muita dificuldade perguntei à minha tia Lúcia e ela falou que tinha uma tração. Achei estranho, afinal eu conhecia muito bem o que era uma tração, na linguagem de mecânico, motorista, operador de máquinas pesadas, mas daquela tração eu nunca tinha ouvido falar, então perguntei novamente à tia Lúcia: “Como assim, uma tração, como ela é e porque ela está puxando a minha cabeça pra trás?” E ela disse que era um aparelhinho que estava preso em minha cabeça e tinha uns oito quilos que era para manter minha cabeça e meu pescoço imóveis, pois eu precisaria fazer uma cirurgia
e se eu me movesse poderia agravar o problema. A essa altura não sentia mais nada, só a minha consciência estava boa, esta eu nunca perdi.
Naquela noite, tia Lúcia ficou vigiando a minha respiração, pois a qualquer momento poderia precisar ir para uma U.T.I., e fiquei imaginando como minha mãe e Kátia iriam receber aquela notícia, mas elas, assim como eu e toda a minha família não sabíamos da gravidade do problema, apenas três pessoas sabiam: Célio Wagner, tia Lúcia e tio Orlando. O que eu sabia era que, para fazer a cirurgia estava faltando muita coisa, eu ouvi falar que um dos melhores especialistas em neurologia estava em um congresso, que naquele hospital não dava pra fazer todos os exames necessários, ou seja, os pré-operatórios e outros específicos, precisava ser removido para outro hospital; Kátia me fez companhia por três dias consecutivos.
No dia da transferência, nunca tinha visto tanta dificuldade para pegar uma pessoa, “cuidado aí, cuidado aqui”, na hora da remoção, tio Orlando foi dizendo ao motorista da ambulância para ter muito cuidado e ele, já acostumado com a rotina não estava nem aí.
Agora, já em outro hospital e com os exames feitos, a constatação foi que o caso era muito grave, precisava colocar uma placa para fixar uma das vértebras e uma das mais recomendadas precisava vir de São Paulo, mas não havia mais tempo para tanta espera. Hoje eu sei porque tudo precisava ser feito nos mínimos detalhes. De posse dos exames, Célio Wagner, mostro-os a um especialista no assunto que, depois de analisá-los , disse não haver muito o que fazer, que eu iria durar alguns dias, que iria durar o tempo que durasse minhas carnes e músculos e que aos poucos meus órgãos iram parar de funcionar e ainda acrescentou, que eu poderia vir a ser abandonado pela minha família e suas ultimas palavras foram que não via saída. E Célio Wagner respondeu dizendo que iria fazer por mim tudo que pudesse ser feito pelos homens e pela medicina e que Deus faria o resto.
O tempo passava e eu ali imóvel, aquela tração me machucava muito. Certo dia a tração se soltou e aí é que eu fui descobrir que ela era presa por dois parafusos enroscados em minha cabeça. O médico que estava me assistindo, quando foi colocá-la de volta, estava muito nervoso e me machucava muito, se não fosse tia Lúcia para acalmá-lo, ele não teria conseguido.
Agora, imagina, você ver nas mãos de uma pessoa dois parafusos e ela tentando enroscá-los em sua cabeça; podemos até imaginar, o que não podemos é sentir, mas, confesso, dói na alma.
Dias se passaram, era 6 de março de 1994, aquele médico que estava em um congresso, havia retornado e iria fazer a cirurgia, embora tivesse discordado daquela placa que o médico que acompanhava o caso selecionou, mas era a única que se aproximava de uma mais moderna, devido à gravidade da lesão, foi decidido que colocaria aquela e depois substituiria por uma moderna.
A cirurgia durou sete horas e meia, o doutor disse que a cirurgia foi linda, mesmo tendo que fazer um enxerto na vértebra mais atingida, que foi a C3. Até aquele dia nunca tinha feito uma cirurgia, não sabia como era um pós-operatório, foi uma experiência terrível, tive muito vômito e a entubação é algo horrível, pois machuca muito a garganta, o efeito da anestesia te deixa alucinado, tive que usar um colete que entrava em minha cabeça, que doía até a alma, e para completar, havia caído alguma coisa em meu olho que queimava igual ao fogo. Naquela noite, tia Lúcia e Kátia ficaram passando soro em meu olho e limpando uma baba gosmenta que saía de minha boca. Passada aquela noite, eu ficava contando as horas de sair daquele lugar e de ficar logo bom, isso era o que eupensava, imaginava que junto com a cirurgia ia recuperar os movimentos de todo corpo, pois eu não sabia que o problema era tão sério.
Comecei fazendo fisioterapia no leito do hospital mesmo e após duas semanas da cirurgia, certo dia, perguntei ao fisioterapeuta se em dois meses ficaria bom e ele falou: “Pode ser, talvez!”, eu já não agüentava mais aquela situação e queria ouvir, “não, serão apenas alguns dias”.
Porém não imaginava que tantos problemas fossem aparecer, começaram a surgir as indesejáveis escaras, umas feridas nas costas que cresciam a cada dia, deitado em uma só posição, era impossível evitá-las.
Passado um mês da cirurgia, foram feitos novos exames, pois os médicos tinham a intenção de trocar a placa por uma moderna que havia comprado em São Paulo, mas depois que analisaram os exames, decidiram que não era preciso trocar a placa, já que as vértebras que foram fraturadas estavam calcificadas e a placa estava certinha, segundo a equipe médica, descartando assim a possibilidade de substituí-la.
Mas eu me queixava de dor na garganta, eu sentia que tinha alguma coisa arranhando a minha gargantaquando eu fazia movimento para engolir a saliva ou qualquer outra coisa, porém o médico que ficou acompanhando o caso dizia ser porque ainda não havia melhorado totalmente da entubação e que eu estava com a garganta irritada e provavelmente com uma inflamaçãozinha.
Neste período tinha minha irmã Jussara, que era minha acompanhante, muita gente me fez companhia, mas Lúcia e Orlando (tio Pico) como chamamos, revezavam-se nas noites, e com quarenta e seis dias, tive alta do hospital; então fui para casa de tio Pico e Lúcia; eles eram casados e tinham dois filhos: Jaqueline, e Leonardo; chegando lá, a porta não deu para a maca passar pelo corredor, tinha que entrar pela janela do quarto.
Um dia antes de sair do hospital, por não conseguir urinar normalmente e a sonda que usava estar inflamando os ureteres e por não poder ficar por muito tempo, foi feita uma cistostomia, ou seja, uma abertura na direção da bexiga onde se colocou uma sonda; é horrível, mas não te deixa morrer, isso era feito na “idade da pedra”, hoje se usa fazer cateterismo nestes casos.
Naqueles dias começava uma fase que viria ser a pior. Três dias depois começou uma febre que não passavapor nada, chegando aos quarenta graus, com a garganta muito dolorida, alguma coisa incomodava, não era uma simples garganta inflamada, o médico apostava que sim e passava antibióticos e raios-x do tórax e foram muitos, e não dava nada, a não ser um enorme prejuízo, já que eram pagos em URV – de manhã era um preço e a tarde era outro – e se tornavam mais caros, dado ao fato de que eram feitos em casa de meu tio, devido às dificuldades em me remover até um hospital.
Apostando ser uma inflamação de garganta, o médico que acompanhava o caso viajou e deixou outro em seu lugar que usava os mesmos procedimentos e a minha garganta se fechava cada vez mais, meu pescoço já estava muito inchado, eu tossia e expelia uma massa amarelada que parecia catarro, mas não era. Depois de observarmos melhor constatamos que se tratava de um pus muito do esquisito, já não sabíamos o que fazer, e desesperada, Kátia ligou para um dos médicos que havia feito a cirurgia, o mesmo que antes estava em um congresso e ele veio me consultar. Ao examinar-me, ele disse que tinha quase certeza de que a placa ou o parafuso da placa estava comprimindo o esôfago, pediu que fosse feito, imediatamente, um raio-x do local e uma endoscopia, enquanto isto era para colocar umas compressas quentes no local. Na segunda vez em que se colocou as compressas o local veio a furo, saindo uma grande quantidade de pus, isso se deu no décimo quarto dia após sair do hospital.
Não houve um dia sequer que eu não tivesse dado febre, chegando aos quarenta e dois graus; só em fazer um raio-x do local, constatou-se que era o parafuso que fixava a placa que estava comprimindo o esôfago, era preciso fazer uma cirurgia de emergência, para trocar a placa e aquele parafuso; a equipe que havia feito a primeira foi acionada. Com a equipe reunida, ninguém queria assumir a responsabilidade, devido a eu estar com muita febre, eles diziam ser muito arriscado, mas todos concordavam que era preciso fazer a remoção daquela placa, meu pescoço estava aberto, mal conseguia respirar, pois meu esôfago havia explodido com aquela infecção, minha família assumiu a responsabilidade e um dos médicos assumiu a equipe, fui para o centro cirúrgico, durante a cirurgia passei muito mal mas resisti, a cirurgia durou quase cinco horas.
Mas nem tudo era ruim, finalmente uma notícia boa, não precisou colocar outra placa, pois as vértebras fraturadas estavam perfeitas, o neurologista achou por bem retirar aquela placa obsoleta e manter-me com um colete por um período maior, assim que tirasse a tração.
Mas as coisas pra mim não estavam nada boas, a tração havia sido colocada outra vez, agora não conseguia me alimentar oralmente, o esôfago continuava aberto, e os médicos disseram que ele fecharia naturalmente.
Tinha uma sonda pelo nariz que levava uma alimentação líquida até o estômago, não tinha previsão de quando o esôfago iria se normalizar, o que eu sabia era que não conseguia engolir nem a saliva, quando tentava engolir um pouco da saliva para molhar a garganta, que estava muito seca, que com aquela sonda só fazia piorar, mas sempre que tentava ouvia um barulho, que soprava, era parecido com o barulho de uma bola de soprar, uma bexiga, quando você enche e solta a ponta e ela faz barulho e ao mesmo tempo sentia algo quente que escorria em meu pescoço, que precisava trocar o curativo muitas vezes ao dia.
A sonda causava enjôo e vômito, e tinha uma baba misturada com saliva que ficava juntando na boca e precisava limpar com uma gaze, assim não podia sair de perto de mim uma pessoa e essa missão foi de minha irmã Jussara que revezava com Lúcia e tio Pico e os demais da família e ao domingos e feriados, Kátia.
O tempo passava e a cicatrização era muito lenta, havia aqueles que diziam ser preciso fazer uma cirurgia reparadora no local, outros diziam que não e eu ali em um leito de hospital dependendo do desenrolar daquele processo e torcendo para ser o certo. Já tinha uma escara enorme nas costas e se formaram mais duas na região dos glúteos, eu estava em um colchão d’ água, mas não era o bastante para evitar as escaras, os problemas e as dificuldades que apareciam não me deixavam pensar que estava tetraplégico, me sentia um lixo, com aqueles banhos no leito, por muito que o serviço de enfermagem fosse bom, não me sentia limpo.
Certo dia apareceu um médico que foi tirar o plantão de um amigo seu, já que eu agora estava por conta do SUS e era atendido pelos médicos plantonistas do hospital, esse médico ou pelo menos que se apresentou como tal, ao ver meus pés, que por não ter controle, estavam caídos, disse que era preciso engessar e assim o fez. Passados vinte dias e depois que meu tio Pico insistiu muito tiraram o gesso: havia feito duas feridas em minhas pernas e nos dois calcanhares. Esse médico nunca mais apareceu no hospital. Para o desespero da minha família e meu, agora eu estava soltando os pedaços, todo cheio de feridas, e ficava ouvindo os enfermeiros falarem: “Aqui está precisando deblidar, tirar essa carne morta, ficava muito triste quando ouvia isto e mais ainda quando o cirurgião plástico tirava um pedaço de mim e jogava no lixo e eu não sentia dor física. Jussara que estava ali presenciando coisa que ela nunca tinha imaginado ver um dia, passava momentos difíceis, muitas vezes a sonda que passava a alimentação, por ser muito fininha, obstruía e ela tinha que desobstruí-la com uma seringa, pois ela já estava se tornando uma enfermeira na prática.
Como todas as notícias não poderiam ser ruins, aquela fístula no esôfago estava cicatrizando e o médico disse que era para eu ir engolindo a alimentação que fosse líquida, que se tudo corresse bem ele iria me dar alta do hospital, porque ele achava que eu em casa estaria melhor e que as feridas com uma alimentação oral e em um ambiente mais aberto e mais arejado, cicatrizariam melhor e assim foi feito. O médico acreditava que o esôfago estava bom e me mandou para casa, fiquei feliz por Jussara, tio Pico, Lúcia e Kátia e por toda a minha família e meus amigos e em casa não tinha o barulho infernal daquele hospital, que além do movimento de ambulâncias e corpo de bombeiros que poderiam chegar a qualquer momento com feridos, tinha o movimento interno, já que nesse hospital encontrava-se o Pronto Socorro que atendia toda região e ele encontra-se localizado em frente a uma ponte na BR 101, na cidade de Campos dos Goitacazes e a BR contorna o hospital, fazendo assim um barulho insuportável.
Ao sair do hospital, dessa vez fui pra casa de minha mãe que ficava em Quissamã, eu não estava feliz e não tinha motivos para isto, pois pensava comigo mesmo, eu não estava saindo do hospital com minhas próprias pernas, eu estou sendo levado dali e tinha consciência de que financeiramente teria problemas, pois só de pomadas cada vez que fazia um curativo eram gastos dois tubos dos grandes e mais os outros produtos que acompanham um curativo e que agora eu tinha que comprar.
Mesmo com aqueles problemas passei uns dias bem; na casa de minha mãe, estava tudo dando certo, até que começou uma febre que não passava e uma dor no local onde havia cicatrizado, comecei a ficar preocupado, pois este filme eu já havia visto antes e com todos os detalhes, a febre aumentava, a cada momento era mais alta, agora todos estavam preocupados, até que fui ao hospital da cidade em que morávamos e lá fiquei internado, mais uma vez. A febre só passava com medicamentos, o pescoço cada vez mais inchado, o médico mandou colocar compressas no local, com isso apareceu um abscesso, eu já não conseguia me alimentar, a garganta estava totalmente obstruída, mas era preciso me alimentar.
Uma manhã, quando Kátia estava me convencendo de que eu deveria me alimentar um pouco e eu não poderia negar a atender àquele pedido que me era feito com tanto carinho, então fiz um esforço, mas ao tentar me alimentar com um pouco de café com leite, aquele abscesso explodiu, saindo pus misturado com café com leite para todos os lados e Kátia, ao presenciar aquele acontecimento, ficou traumatizada. Eu pensei que iria morrer e naquele momento fui tomado por uma tristeza muito grande; até aquele dia eu não havia chorado, mas naquele momento chorei, pensei que era meu fim, para piorar ouvir dizer que eu seria transferido para outro hospital, para aquele de onde há dezesseis dias havia saído. Imaginei que o mundo para mim tinha chegado ao fim, que era questão de mais alguns dias e seria o fim, cheguei a pensar que aquele médico que previu que eu morreria, estivesse certo, que para mim não tinha mais jeito, que estava se cumprindo a profecia daquele doutor. Já na ambulância para ser transferido, fomos à minha casa para pegar alguns objetos e pela janela da ambulância eu fui me despedindo da minha cidade. Imaginei não mais voltar, uma das maiores tristezas que já senti até hoje foi naquele dia quando pela janela da ambulância eu e Kátia nos despedimos, eu pensei que era para sempre. Chegando ao hospital, depois de muita espera na ambulância e no corredor, não havia vaga. E agora, o que fazer? Decidimos, então, que eu iria para a casa do meu tio Pico para tentar uma internação no dia seguinte e assim foi feito; mais uma vez tive que entrar pela janela da casa dele, já que a maca não passava pelo corredor. Quando meu tio chegou e ficou sabendo do que estava acontecendo, para disfarçar seu choro, dizia: ”Está pensando que aqui é hospital, lugar de doente é lá!”. Ficou muito bravo para esconder sua tristeza. Logo saiu para procurar um daqueles médicos que me acompanharam anteriormente, Mais tarde – à noite – ele chegou e sorrindo disse: ”Se você amanhecer vivo, amanhã terá uma vaga no hospital para você.” Chamou Lúcia, Jussara e sua filha Jaqueline e disse: “Esse rapaz precisa se alimentar, arranjem um leite e vamos dar um jeito para que ele consiga tomá-lo. Ele sabia que era muito difícil pois estava acompanhando tudo desde o início, não só acompanhava como também, muitas vezes, tomava decisões por mim e pela minha família na resolução de problemas.
Mais tarde ele entrou com sua equipe, um com gazes na mão, outra com uma toalha, outra com um jarro de leite. Com as gazes, ele pressionava o local da abertura e mandava que eu engolisse o leite, o qual saía entre as gazes e sua mão, mas ele afirmava “você engoliu bastante”. De tanto ele tentar, consegui tomar uns dois copos do leite e meu tio falou que eu poderia morrer de outra coisa, mas de fome e de falta de carinho, não.
Compreendi, então, o que ele queria dizer, ou seja, é que ele sabia que o médico disse que eu morreria assim que secasse e que seria abandonado pela minha família. Sem saber de nada, eu só via sentido em lutar pela vida porque era cercado de muito carinho.
No dia seguinte de volta para o hospital não tinha enfermaria nem leito, mas ali todos os funcionários, enfermeiros, chefes dos setores haviam se sensibilizado com o meu problema, pois, há poucos dias eu havia saído dali e eles tinham muito carinho comigo e o jeito encontrado foi me colocar em uma enfermaria que era reservada para pacientes, como bandidos baleados, enfim pessoas que precisavam de escolta policial.
Eu adorei a idéia de ter uma enfermaria e um leito para que começasse a ser medicado, só depois fiquei sabendo que as pessoas que visitavam seus familiares internados no referido hospital, tinham como hábito dar sempre uma olhadinha naquela enfermaria para ver o criminoso da vez. Mesmo com a porta aberta e sem a presença da polícia, e depois de ganharem um sorriso meu não se davam por satisfeitos e não continham suas curiosidades, perguntavam: “qual foi o crime que ele cometeu?” Ao certificarem-se da verdade voltavam e diziam “Coitado, tão novo, tão bonito!”; essa foi uma passagem engraçada em um momento de tantas turbulências e muito difícil.
Após a internação era hora de começar os medicamentos e eles só poderiam ser intravenosos, já que o esôfago estava aberto, mas o problema era encontrar uma veia, os meus braços só tinham osso e as veias haviam sumido todas depois de umas vinte ou mais tentativas, pois levar muitas furadas já tinha virado rotina. Decidiram então fazer uma subclávia: pegar uma veia profunda que fica abaixo do pescoço e acima do peito, ouvi quando o médico disse que era para ajeitar o material e chama- lo, ouvi também quando ele falou que o procedimento era para minimizar o meu sofrimento, de levar tantas furadas em vão. Pensei que era um processo rápido e fácil e que não iria mais sentir dor e não teria mais sofrimento, mas quando vi a bandeja de material, a anestesia, o tamanho das agulhas, aquele pano verde que eu não sabia o nome, mas que já tinha visto no centro cirúrgico em outra ocasião, logo mudei meu pensamento e imaginei que não era tão simples assim. E estava certo, foi muito difícil. Para começo de conversa, o médico não tinha nem um pouco de paciência, estava muito nervoso, acho que era por ser muito complicado; quando ele imaginava ter conseguido acertar a veia, pegava uma veia errada e sangue espirrava longe e o médico suava muito, falava besteira e palavrões e eu ali não sentia dor, somente o barulho da agulha furando o meu peito. Porém, a dor psicológica era muito grande, mas sabia que minha vida pertencia a um só que era Deus e eu havia me entregado a ele, eu sempre fui possuidor de uma grande fé. Depois de muito tempo o médico conseguiu finalmente pegar a veia certa.
Dias depois fui transferido para outra enfermaria, sem poder me alimentar oralmente, voltara àquela sonda fininha, bem moderna, mas muito complicada, começando pela hora de colocá-la, pois era conduzida do nariz até o estômago por uma espécie de cabinho de aço chamado “guia”, o qual era retirado, só ficando a sonda que era muito fininha e por isso obstruía com freqüência, sendo preciso uma seringa para desobstruí-la. Passados alguns dias aquela abertura do esôfago só fazia piorar, não cicatrizava, agora todos admitiam que só uma cirurgia poderia resolver aquele problema: as dificuldades aumentaram e era preciso encontrar um especialista na área, um gastroenterologista, e eu estava totalmente debilitado, os antibióticos haviam destruído os glóbulos vermelhos do sangue e o hematócritos estava em dezesseis, caía diariamente e nenhum dos especialistas procurados quis assumir uma cirurgia com um paciente tão debilitado. Ficava mais difícil quando procurava alguém que fizesse particular, ninguém estava disponível e não eram muitos os especialistas da área. Olhando para o teto daquela enfermaria via passar o filme dos meus trinta e um anos de idade que tinham sido tão difíceis e ao mesmo tempo tão bonitos.
Tinha certeza de estar preparado para viver os dez anos mais importantes na vida de qualquer ser humano, até aquele dia em que um louco apareceu em minha direção, mudando toda a história e junto com ela todo o meu modo de pensar. Depois de todo o filme, a realidade, e essa era terrível e implacável. Eu já não dormia se não fosse dopado e aí o filme era outro, quando não tinha terríveis pesadelos, como estar dentro de uma banheira e muitas pessoas em volta, e isto não era preciso estar dormindo, eram tantos pesadelos e tão estranhos que não dá para descrevê-los, só mesmo sentindo.
Sentia muita fome e quando não sonhava com comida, ficava imaginando aqueles pratos que tantas vezes comi. Quando via os comerciais na TV e esses eram coisas de comer, eu ficava com água na boca, aumentando minha fome a aí eu ficava imaginando o dia em que eu pudesse comer uma refeição, a imaginação ia longe, começava sempre com uma grande refeição, mas a minha comida preferida era churrasco com arroz e farofa e uma saladinha caía bem. Mas eu comeria qualquer coisa. Terminava sempre imaginando um prato de feijão com arroz, um bife ou um ovo frito, até mesmo um caldinho de feijão quente para que pudesse tomar e sentir esquentar o peito e pesar no estômago ou um copo de suco que molhasse a boca e refrescasse a garganta, por onde, fazia tanto tempo, não passava nada e estava tão seca, tão machucada.
Com o passar do tempo, conhecia cada funcionário daquele setor e as dificuldades de alguns deles, os problemas do hospital junto com os funcionários, vivia a expectativa de um plantão ruim sempre que aconteciam aqueles feriados chamados feriadões, esses eram os piores momentos para o hospital, por ser pronto-socorro, a chegada de uma ambulância comum ou do corpo de bombeiros anunciava que aquele plantão seria muito movimentado. Eu já me preparava para enfrentar as dificuldades anunciadas pelas sirenes das ambulâncias. Naquele período acontecera a Copa do Mundo de 1994, e na maioria das vezes, o Pronto Socorro do hospital já aguardava as ambulâncias com os feridos, após cada jogo do Brasil, já que o rádio e a TV anunciavam os últimos acontecimentos da cidade e da região. O perfil dos acidentados era de todas as idades, cor e sexo. Uma coisa era certa, todos eram vítimas da violência.
Quando digo que me preparava para aqueles movimentos é por que aumentavam os pacientes, mas não os funcionários e aí atrasava toda a rotina do hospital, era um tal de faltar material, mas os funcionários, como bons brasileiros, davam sempre um jeitinho e eu aguardava a minha vez com muita paciência.
O tempo passava e o impasse continuava, a expectativa de uma cirurgia era cada vez maior, mas esbarrava nas minhas condições físicas e em um especialista que se propusesse a fazê-la. Havia momentos muito difíceis. Quando imaginava que havia planejado tantas coisas, e naquele momento eu me sentia um ser que só tinha cabeça, ficava me perguntando: ”Cadê aquele rapaz que tinha um metro e oitenta e seis de altura, que pesava setenta e nove quilos e que dificilmente tinha um resfriado?” Agora, ali, tinha uma cabeça presa a um monte de ossos cobertos com um couro cheio de escaras.
Mas para minha surpresa e para alegria de todos, comecei a sentir o corpo, a sensibilidade estava voltando, conseguia movimentar só o pescoço, mais nenhuma parte do corpo. Porém, quando era tocado, identificava o local onde estava sendo tocado, o que era um bom sinal. Agora eu podia sentir que a cabeça estava presa ao corpo, mas estava escrito que não era para ser tudo alegria. Junto com a sensibilidade daquele corpo machucado, ferido, cansado de estar preso a uma cama e que agora poderia sentir quando era tocado, vieram as dores, aquelas escaras doíam muito, as costas queimavam, sentia dor por todo
o corpo, os ossos latejavam dia e noite. Se aquilo significava uma esperança, por outro lado, significava um pesadelo; as pessoas esqueciam ou não acreditavam que eu estava sentindo já que há alguns dias atrás eu não reclamava de dor. Na hora de fazer assepsia das escaras era um momento de muita dor, pois tinha que mover o corpo de um lado para o outro e aí doía tudo.
Para completar, a sonda da alimentação começara a ferir o nariz e o esôfago e era preciso retirá-la, o médico foi chamado e disse que só existia uma alternativa, que era colocar uma sonda direto no estômago através de uma micro-cirurgia. Foi marcada para o dia seguinte, o médico havia me convencido de que era muito melhor que a outra que ficava ferindo o meu esôfago e estava sempre obstruída e que a ela não podia ficar muito tempo ali, pois só poderia causar algum problema. Difícil mesmo foi convencer tio Pico, que chorava e dizia “o rapaz já está cheio de furos e vocês vão fazer mais um?” Ele ia me visitar diariamente ao final da tarde. Com isso, levou uns três dias sumido, não apareceu. A sonda havia sido colocada, com anestesia local. No dia seguinte, o médico apareceu e perguntou: ”Como você está se sentindo?” Ao que respondi: “Com fome”. Ele disse que tinha uma boa notícia para mim. Fiquei feliz ao ouvir que teria uma boa notícia, Há quanto tempo eu não ouvia uma boa notícia! Ele continuou: ”Olha, tudo que passar nessa sonda, ou seja, tudo que for dissolvido em água, leite, suco ou que for batido no liquidificador, pode ser utilizado na sua alimentação provisória”.
Mais tarde um auxiliar de enfermagem apareceu com um recipiente, colocou num tripé, conectou a mangueira na sonda e disse que agora era só começar a alimentação. Entregou para minha irmã Jussara tomar conta e ela não perdeu tempo, procurou a copeira e conseguiu uns dois copos de leite e fizemos o teste, foi um momento lindo, mágico e o enfermeiro falou que agora eu iria me recuperar. Eu ficava olhando para o leite que descia rápido e eu sentia fazer volume no meu estômago. Kátia, quando chegou, foi logo comprando muitos enlatados, tudo que se dissolvia no leite, em água ou suco.
Depois de nove meses e meio hospitalizado, e sete meses sem comer nada que pudesse sentir no estômago, eu conseguia sentir o sabor só em sentir o cheiro e em ver o Nescau descendo por aquela mangueira e entrar no meu estômago. O que era estranho era sentir a barriga enchendo sem estar engolindo nada. Senti-me mais tranqüilo, comecei a acreditar que de fome não morreria, mas agora todos acreditavam que as escaras e aquela abertura no esôfago, com uma alimentação melhor, cicatrizariam rapidamente e que o sangue iria recuperar os glóbulos vermelhos. Passados alguns dias a barriga que estava quase grudando nas costas, começara a aparecer, mas o esôfago continuava aberto, a possibilidade de uma cirurgia era cada vez maior, o local havia perdido muito tecido devido ao tempo em que estava aberto, era preciso fechar o esôfago e reconstituir com uma cirurgia toda a área externa do pescoço, isto dito por um clínico geral.
Certo dia, um clínico geral entrou em minha enfermaria, deu bom dia e começou examinar-me e disse: “Dou plantão aqui neste hospital e neste setor, mas nunca lhe consultei”. Perguntou-me o que havia acontecido e por que eu estava naquele estado tão enfermo; contei o que havia acontecido, então ele abriu o curativo que estava no pescoço e examinou, ficou um tempo sem dizer nada, fez umas anotações e depois disse que eu tinha uma abertura no esôfago muito alta junto da traquéia e que só ficaria bom com uma cirurgia muito delicada, pois o esôfago é um tecido muito mole que, muitas vezes, não aceita ponto, e o local estava muito infeccionado e precisando ser reconstituído com um material apropriado para estes casos. E disse mais: “Eu sou cirurgião gastroenterologista, se você quiser, aqui estão esses pedidos de alguns exames para você fazê-los, se nos for favorável, e se você concordar, na próxima quarta feira, vamos fazer uma cirurgia para acabar com esse seu sofrimento.
Eu fiquei sem palavras, há quanto tempo eu esperava por este momento, que encontrasse alguém que fosse especialista, que dissesse o que era preciso fazer, sem sim e talvez, porque eu não agüentava mais ouvir tantas suposições; cheguei até ouvir a possibilidade de colocar um esôfago artificial, de plástico, mas nunca era a palavra de alguém que fosse especializado no problema. Quando o doutor se despediu, disse: ”Fica marcada a cirurgia, qualquer coisa, a adiaremos”.
Passei todos aqueles dias na expectativa da cirurgia, fiz os exames, o resultado não era nada animador, mas era o risco que tinha que correr. Aproximava-se o dia e eu não conseguia me decidir, estava com muito medo. Na terça-feira, contei ao médico que não estava em condições de enfrentar uma cirurgia no dia seguinte, ele entendeu e marcou para a semana seguinte com a maior boa vontade, e disse que me entendia. Naquela semana, em um fim de tarde, Célio Wagner foi me visitar e eu contei a novidade, que teria encontrado alguém que havia se prontificado em fazer a cirurgia e ele perguntou o nome do médico. Quando eu disse, ele retrucou que com aquele sobrenome deveria ser filho de um doutor amigo dele e se fosse quem ele estava pensando, eu também o conhecia, pois já havia feito um projeto de irrigação em sua fazenda.
Ao investigar, Célio Wagner descobriu que se tratava do próprio, seu nome era doutor Carlos Augusto Zucner. Quando ele soube que eu havia feito seu projeto de irrigação, ele veio falar comigo e brincou dizendo que precisava que eu ficasse bom, pois queria fazer mais um projeto em seu sítio. Que eu fosse ficar bom, tinha minhas dúvidas, mas que ele era dono de um sítio, tinha certeza que não, ele estava brincando mesmo, pois tinha uma linda fazenda em uma região privilegiada. Eu não me lembrava mais dele, pois só o vi duas ou três vezes e fazia muito tempo que não o via, pois na época em que fiz seu projeto tive mais contato com seu administrador.
Feitas as apresentações, agora me sentia mais seguro, comecei a acreditar que Deus havia colocado aquele médico para resolver o meu problema, e que eu deveria agradecê-lo e pedir a Ele que tudo desse certo, pois era uma cirurgia muito delicada e eu estava muito debilitado, não sabia precisamente qual havia sido o pior momento até o presente, mas tinha certeza que foi duro e muito difícil suportar tantos problemas e eram de todas as formas, porém, tinha aprendido uma grande lição, e uma delas era que não poderia morrer e que minha vida pertencia a Deus e ele havia dado provas de que eu deveria viver, só movido pela fé e esperanças e por amor que tenho por DEUS, para encontrar forças e acreditar que tudo daria certo daquela vez, já que todas as evidências eram contrárias. Era difícil acreditar que aquele corpo que só tinha pele e ossos e muitos furos no peito, um cateter na subclávia para o soro, um furo no estômago para alimentação, outro na bexiga para drenar a urina, mais o buraco que havia no pescoço e as escaras, que eram só para causar dor e sofrimentos.
Em todo período em que fiquei hospitalizado, mesmo quando estava muito debilitado, recebia muitas visitas de pessoas que representavam todas as religiões, eu era de formação católica, mas recebia todos com o mesmo respeito. Devo confessar que algumas vezes passei mal, pois, o barulho que algumas delas faziam me causava fobia e me faltava ar, já que em situação normal era tão difícil respirar naturalmente, mas nunca fui indelicado com nenhum deles, pois entendia que suas intenções eram as melhores possíveis e que todos acreditavam estar me aproximando de Deus.
Neste período havia um homem que se apresentava dizendo ser capelão, que fazia um trabalho paralelo a uma religião e ele se aproximou muito de mim, de minha família e de Kátia, ele era uma pessoa muito educada e parecia estar muito preocupado com meu estado de saúde, tinha vontade de ajudar.
Em um daqueles dias em que eu estava mal, ele apareceu, eu estava com duas visitas muito especiais que eram Kátia e sua mãe Wilma, por quem eu tinha muito carinho e era recíproco, aquele homem entrou em minha enfermaria pediu licença a Kátia e Wilma, elas gentilmente se retiraram e aquele homem começou com uma conversa muito esquisita, havia mudado o seu discurso totalmente, ele começou me preparando para a morte, suas palavras doíam muito, naquele momento imaginei estar diante da morte mesmo e que não iria escapar e ele dizia que sabia que era difícil ouvir isto, mas a vida é um ciclo e que o meu estava se fechando.
Eu pensei: “Oh meu Deus, isto não pode estar acontecend
Bjinhoss !! De Sua Fã : Bruna ..♥
beijos
beijoss Vitória Maria !
fica Com Deus !
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