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Agora que está tretaplégica tetraplégica paraplégica, a sofrida mocinha Luciana vivida pela deliciosa moçona Alinne Moraes na novela das oito “Viver a Vida” descobriu que para ganhar a sua terá que montar um blog – e, obviamente, viver de hypes. Ninguém pode dizer que probloggers não são portadores de necessidades especiais.

Confira uma prévia dos mais novos Sonhos de Luciana:

sonhos

best_blog_brazil    ibest

shoemoney

O endereço oficial é www.sonhosdeluciana.com.br.

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191 pedradas

adorei é sensacional
amei S2
bjs

Sequer está habilitado os comentarios lá, como eu vou pedir parceria? Nãããão.. uhauah

amei o sue album é lindo maravilhoso sensacional

alini gostaria de di conchencer

Pra ser mais realista, o blog de uma patricinha que há pouco nem sabia o que era um deveria ser no blogger, usando template básico e com gifs cor-de-rosa piscantes.

adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii tudo isso, isso mostra como os caderantes podem continuar sua vida normal,tanto na vida real,quanto de mentira

[...] Ontem à noite, um pessoal estava discutindo no Twitter o blog da Luciana da novela Viver a Vida. Descobri o endereço através de um post no Treta. [...]

oii eu mora no rs os famosos vao ler meu cxomentario??

vc e 10 força total lu

lu seu blog e demais varios vai arrasa aline

lú vç é muito linda
gostaria que vç namorase com o miguel.

lú vc é muito lindade mais vc devi fica com o jorge

oi Lu seu blog e Demais

Luciana vc é o exemplo para toda pessoa naum fica se arrebendendo viu pk vc é tao bonita que quando vc falou do seu blog eu ja vim asesar o sue blog de entao bonita que vc é bjs Vanessa que te Ama do fundo do meu coração bj e a minha mae esta mando bjs´para vc tbm bjão

OI LINDA!!PARABÉNS!!!
VC ESTÁ EMOCIONANDO TODO O BRASIL,SEU TRABALHO REALMENTE MERECE UM PREMIO NO GLOBO DE OURO!!SOU SUA FÃ!BJUS FK COM DEUS!!!

Parabéns por esse trabalho.Já admirava muito o sua carreira. E agora com esse causa respeito e admiro mas ainda.Fica com Deus.

Parabéns por esse trabalho.Já admirava muito o sua carreira. E agora com esse causa respeito e admiro mas ainda.Fica com Deus.(tinha mandado o e-mail errado..rsrs)

oi luciana vc e muito linda na novela viver vida ! alinne moraes me passa seu msn pelo blog ta bom .
bjusss

Lú Parabens pelo blog,continue assim esse exemplo de superaçao e claro fika com o Miguel…Bjos

linda que voce e nao comcorda com as pessoas que ten inveja

lllllllluuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu voce me comvida para fazer uma novela

me comvida para fazer uma novela em

aline(Luciana)eu tenho sido assistidos todas as novelas que voce faz entao por favor se voce ver esta mensagem me reponda

Oi Luciana Voc Estar Arrasando Ass Pessoas So Comentar De Voc Voc É Liinda Euu Assisto A Novela A Parte Que Eu Mais Gosto É A Sua Com Miguel E Voc Soziinha Amei As Fts Q Voc Tirou Com A Manhã De Miguel E Voc Ta Encinando A Outras Pessas Q Tem A Msm Doença Que Voc A Viver A Vida

oi espero que vc melhore para vc lú ser modelo de novo eu tenho assistido todas as novela que vc faz

Aline(Luciana) você me emociona c/ sua delicadesa na interpretação deste personagem pois difente é ser tetraplégica e outra é interpretar .Continue emocionando .
Te admiro!

vocÊ vai vouta a anda

e lojico que ela vai voutar a andar ne joyce

Lú adorei seu blog. vc esta seempre uma gata continue essa menina carinhosa e alegre que sempre é há fala pra mia que ela é muito linda que esta na hora de namora Bjs de um grade admirador lea meu e-mail na novela por favor e me mande um grade bjs vc e a mia techau!!

que bovbeira .nossa novelinha mais chata e sem um minimo de criatividades

Que porra de comentários são esses?

esses comentários são sérios?
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Não acredito que comentaram isso o_o

Voces não viram nada! Leião os comments no blog dela. É pra chorar…

oi lu adorei vc esta sndo muito forte e fica sim com o Miguel o Jorge nao bjos

Maldito Tranceman, porque eu fui ler os comments no blog? PORQUE?

OI Luadorei seu albom e blog

lu eu sou sua maior fa eu ti amor do fundo do meu coracao

amo a novela amo seu trabalho vc é ótima atriz e parabéns vc é d+ d+ d+ d+ …………….sou de bragança pará uma pequena cidade estudo no boliva bordalo da silva tcháu….lu………bjos.

eu gosto muito de novelas e inclusive de viver a vida acho muito interensante a personagem luciana a personagem dela ensina muitas coisas e aprede tbm.

Gosto muito da novela estou torcendo que Luciana de a volta por cima e fique com Miguel.

OI, LUCIANA !!!
EU ESTOU TORCENDO PELO SEU AMOR E PELO AMOR DO MIQUEL, VCS SÃO LINDOS SUA GARRA E SUA FORÇA DE VIVER E MUITO EMOCIONANTE PARABÉNS .BJOS

Oi luciana vc e muito especial pra todos.
vc e a atris mais especial da novela.
vc conbina muito com o miguel.
bjs.

LUCIANA vc vencera essa luta estamos torcendo por vc parabens pelo personagen bjss

oi lulu!!! to loco q vc volte a anda pra gente bate uma “pelada” ok
bjosssss

sou muito apaixonado por vc minha querida ,vc é d + estou louco para um dia ter encontra ,e dizer tudo que tnho para falar para vc .vc esta de parabens pelo o sucesso seja feliz …….. ti AmUUuuUUuuuUUUuuu muito fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Sou profª de deficientes físicos do município. Mas, infelizmente, eles não têm o privilégio de um tratamento adequado para a sua recuperação. O município do RJ não facilita nada. Contudo, a novela, através de sua personagem tem sido exemplo para muitos cadeirantes. Parabéns pelo seu trabalho, querida! Bjs.

OI Lú tudo bem? De casa nova hein? Parabéns, esta casa irá te ajudar na sua repuração, pode ter certeza, e tenha muita fé.
Não consigo achar as fotos do seu álbum, onde está?gostaria de ver…beijossss

Oi Lú PARABÉNS pela sua casa nova !!!
Com toda a fé do mundo vc vai se recuperar ..
Milhões de bjussss sou seu fã …
Vc é LINDAAAAAAAAAAAAAAA…

oi lú amei seu blog …amo sua personagem em viver a vida continue assim batalhadora é muito dificil fazer uma cena cadeirante mas esse e um exemplo que vc está dando para todos os cadeirantes beijoss continue assim

Sou Sua Fã!
Mas Sei Muito Bem O Que Um Cadeirante Passa
Meu Irmão Mais Velho E Um Cadeirante Ele Sofre Bastamte Como Irmãn A Gente Sabe Como É Isso ! Continue Assim Luciana Vc E Uma Pessoa Brilhante Sou Sua Maior Fã… :)

oi lu,moro em portugal e as vezes me bate uma saudade mt grande e fico um pouco triste ai,vejo o seu exemplo d vida e vejo q as vezes sofremos por tao pouco.seu exemplo mostra q vale apena viver.viva a vida…ela e´ bela ++++++++++++

voce e linda e da um jeito na isa bel

oi luciana parabéns pelo seu blog
queira tir conheçer
fika com o miguel ely e muito jente bom
um beijão para vc lu te adoluu
meu msn aceita ai joana.gata.10@hotmail.com

eu sei quer vc e um da quelas atriz gosto muito da sua carrera mais vc e muito linda queira parecer elgual a vc
beijos ti amo muito

oi luciana td bom eu só de salvador mando um beijaõ

luciana serja o que vc e nao o que os outro disse bj !!eu estou adorando o seu papel bj!!!!!!!!!!!linda

eu sou tua fam eu tou emocionado de falar com voce beijos limda por favor fale meu nome na novela thau liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda

lu gosto muito do seu personagem, desde da cor do pecado, bjs zacanti

oi lu como e fazer papel de tretraplegica?
amei seu album
bjin s2

luciana costei muinto da sua personagem mas quando é que vc vai ficar com migel

eu vi voces falando na novela o blog, vim acessar no e que existi mesmo. quero te parabenizar pelo sucesso de teu personagem.voce e linda. bjs. cleia de macapa-amapa.

lu, vc estar mandando muito bem, eu te adimiro muito pela pessoa que vc è, e pela capacidade que vc tem de nos fazer chorar com suas cenas. beijos

lu vc e mto linda, vc merece esse felicidade na sua vida por vc se essa gande atris. Te amo linda. ha,,, agente quer q vc fica com miguel…!

Lu, vc é muito linda, eu tb te amo, apesar de saber diferenciar o campo “Nome” do campo “Comentário” no form.

\o/

eu asisto todo dia a novela viver a vida e so sua fã e o pesonagem que vc esta fasendo e semsasional eu tenho 9 anos mais vou faser 10 bjssss te adoro muinto

acho que a lú devia ser pobre pois ai seria uma superaçao de verdade ela é rica tem tudo do bom é do melho fala serio ne manuel carlos!!!!!!!!!!!!!!

Luciana eu adoro o seu jeito de ser,continue assim alegre estrovestida, tudo de bom pra vc,bjss!

Lú gosto muito de vc,fique com o miguel q ele te ama, continue assim mesmo sorridente e tranparente,adoro vc e suas irmãs,só q a Isabel tem que ser mais simples,bjs de luz!!!

olha eu acho ele uma boa pessoa pq a personagens dela em viver a vida e muito legal pq ele rica tem tudo o que quer /na vida mais eu acho que ela devi ficar com o miquel pq ele faz ela ficar muito feliz pq o jorge so faz ela sofrer
ass>robson

gostei muito!!!!!!!!!!!
isso e´muito legal

se vc começar a conviver com pessoas
da mesma doença concerteza vai ser melhor ,pra qem tem preconceito contraisso….
vc esta sendo fantastica garota….

ola lulu tudo bem com voce mr manda agumas fotos suas fotos sua no meie
* E-mail

oi lu sou sua fãn não perco nenhum dia se quer acho que vc vai voltar a anda lu eu ficaria muito feliz sevc podea mandar para omeu emeil bjsbjsbjsbjsbjsbjsbj

acho que vc prescisa dar uma chance para o jorge . estou adorando o seu trabalho. beijos ….. ah!!!!!!! vc era muito chata com a helena.

eu acho o maximo os cadeirantes, poderem se expressar diante desse blog, sem vergonha e sem medo pois nao é uma coisa que nao exista! é uma coisa real,e muito inteligente.
nao sou cadeirante mas sempre que entro no blog e acho que as pessoas nesse blog podem ser idepentdete. e nao sefrer como a luciana sofre por achar que esta dando trabalho aos familiares
beijao e para ao cadeirantes parabens por serem independentes mesmo na cadeira de rodas
beijos

oie aliine moraes e vc mesmo eu tenho 8 anos meu sonhoo e ver vc na minha frente ler essa mensagem por favor xaau aline morais

oie aline moraes sera que e vc meu son ho e ver vc na minha frente xauu ler essa mensagem por fabvor xau

Luciana vcê é um amor ” Continue esse exemplo de pessoa’ Parabéns por ser essa pessoa tão doce! e que a cada dia que passa percebe que ser cadeirante naum é um problema pois a cadeira é quem te ajuda” ;)
beijinhos Verônica-Muriaé-MG

luciana eu fiquei com muita pena quando vc acindento e a helena de betona ficou desesperada sem fazer nada coitada eu quero que vc seja muito feliz =D

Aline Moraes não sei se vou conseguir enviar um livro que conta toda a minha história antes e depois de um acidente de automóvel…parabéns você estar perfeita na personagem… caso vc receba esta mensagem me de a resposta…beijo PREFÁCIO
Este livro, ‘De Boa Morte a Boa Sorte, Como Prêmio Uma Princesa’, é um livro que merece ser comentado, começando pelo título: Boa Morte é o sobrenome do autor José Geraldo e Boa sorte porque o mesmo conseguiu sobreviver após um acidente de automóvel, em 1994, no qual fraturou três vértebras cervicais deixando-o tetraplégico, pois só movia os olhos. ‘…Como Prêmio Uma Princesa’, sou eu, sua esposa e… princesa como ele diz.
José Geraldo tem uma memória admirável, pois não tem o hábito de fazer registros escritos e conseguiu relatar sua vida através deste livro. Creio não ter sido fácil para ele por não ter nada escrito e por ter passado por tantos momentos difíceis. Todavia, a riqueza de detalhes é uma característica marcante em seus relatos.
Iniciou seu livro falando de sua infância, que não foi fácil, principalmente por ter se passado no interior de Quissamã e, conseqüentemente, distante de tudo e por ter começado a trabalhar muito cedo. Interessante foi perceber o sacrifício que fazia para ir à escola.
Continuando, ele narra sua ida para outro estado e sua admiração por uma paisagem tão diferente da que conhecia, já que anteriormente morava numa praia quase deserta e se mudou para um lugar com muitos morros. Vemos seu relato em relação à expectativa de não mais trabalhar na nova moradia, mas sua missão de trabalhar, mesmo sendo criança, continua.
Veio sua adolescência, na qual começou a definir sua profissão e aos poucos conquistou seu espaço no mundo do trabalho, surgindo, assim, a oportunidade de ir para a cidade e vivenciar outras experiências.
Daí para frente passou a vida entre a cidade e o interior em função do trabalho e ampliou suas vivências. Fazia as coisas que um jovem faz, e em 1989 conheceu aquela que hoje é sua princesa.
Sempre foi envolvido em campanhas políticas, pois se identifica bastante com política. Eu arrisco dizer que a política está no seu sangue. Foi candidato a vereador em 1992, mas não conseguiu se eleger. Continuou levando a vida, em 1994 sofreu um acidente de automóvel que marcou profundamente sua vida. A partir daí teve que viver e contar uma nova história de muitas lutas e sofrimento e de crescimento também. Descobriu a Verdade que deve ser seguida, que é JESUS CRISTO e conseqüentementeaumentou a sua fé. Ficou quase um ano hospitalizado, logo após o acidente, e mais um período na ABBR para se reabilitar. E sua vida continua com muita luta.
Em 2001 se casou e atualmente um dos seus maiores objetivos é ser vereador.
Boa Sorte! Felicidades!
Sua princesa…Kátia.

Nasci em 1963 e na hora de me registrarem, por um erro do cartório, me foi dado mais um ano, pois fui registrado como nascido em 1962.
Até os sete anos de idade não foi muito difícil, mas ao completar essa idade começaram os problemas, pois tinha sete anos e responsabilidade de oito. Além de competir com meus coleguinhas mais velhos na escola, conciliava a tarefa de me levantar às cinco horas da manhã para levar café e almoço para meu pai, que trabalhava em uma fazenda como retireiro e após a ordenha continuava trabalhando, pois tinha de sustentar nove bocas, sendo sete, filhos. Eu sou o quarto deles e herdei o lugar do terceiro que veio a falecer, e as duas mais velhas eram meninas, e naquela época mulher era considerada sexo frágil.
Depois que assumi a responsabilidade de irmão mais velho continuei em minha tarefa, que era levar café e almoço para meu pai, pegar leite para minha casa, pegar o material escolar e ir para a escola. O trabalho do meu pai tinha ficava a, aproximadamente, quatro quilômetros da minha casa, e desta à escola uns cinco quilômetros. Muitas vezes tínhamos que levar nossas roupas nas mãos, pois no caminho para a escola tinha córregos, poças eNasci em 1963 e na hora de me registrarem, por um erro do cartório, me foi dado mais um ano, pois fui registrado como nascido em 1962.
Até os sete anos de idade não foi muito difícil, mas ao completar essa idade começaram os problemas, pois tinha sete anos e responsabilidade de oito. Além de competir com meus coleguinhas mais velhos na escola, conciliava a tarefa de me levantar às cinco horas da manhã para levar café e almoço para meu pai, que trabalhava em uma fazenda como retireiro e após a ordenha continuava trabalhando, pois tinha de sustentar nove bocas, sendo sete, filhos. Eu sou o quarto deles e herdei o lugar do terceiro que veio a falecer, e as duas mais velhas eram meninas, e naquela época mulher era considerada sexo frágil.
Depois que assumi a responsabilidade de irmão mais velho continuei em minha tarefa, que era levar café e almoço para meu pai, pegar leite para minha casa, pegar o material escolar e ir para a escola. O trabalho do meu pai tinha ficava a, aproximadamente, quatro quilômetros da minha casa, e desta à escola uns cinco quilômetros. Muitas vezes tínhamos que levar nossas roupas nas mãos, pois no caminho para a escola tinha córregos, poças encarregado de uma turma em uma fazenda no Espírito Santo, não pensou duas vezes e foi logo aceitando. Entre o convite e alguns acertos foram quinze dias, e então nos mudamos. Lembro-me daquele dia, era um domingo de páscoa, quando chegou um caminhão para pegar a nossa mudança, que era nada mais que um fogão, uma talha, um filtro, umas camas, algumas panelas, uns dois colchões, mais algumas quinquilharias e nós, é claro. Saímos às onze horas e só chegamos lá à noite. Fiquei impressionado com a distância, nunca havia viajado tanto. Outra coisa que me impressionou foram os morros. Já tinha ouvido falar em morros, mas não sabia que eram tão bonitos e também tão altos. As estradas pareciam tão estreitas e os animais eram muito pequenos quando olhados de longe, os bois pareciam uns cabritinhos. Chegamos à noite e no dia seguinte, a surpresa: tinha morro para todos os lados. Senti uma diferença enorme, pois, de onde eu vinha, dava para ver onde a vista alcançava e naquele momento eu não conseguia ver a cem metros.
Passamos alguns dias em fase de descoberta, pois era muito difícil saber o que havia depois daquela curva ou atrás daquele morro. Passaram-se mais alguns dias e tive a minha primeira decepção: em uma tarde, meu pai me chamou e disse: ”A partir de amanhã você vai levantar cedo, pegar o leite e ajudar o moço lá no curral”. Naquele momento fui tomado de grande tristeza, pois havia imaginado ter deixado aquela rotina a quilômetros dali. Custei a acreditar que isso estava acontecendo. Passados alguns dias, comecei a ser remunerado, não precisei ser muito inteligente para perceber que começara a trabalhar.
Era uma fazenda de café e tinha máquinas e tratores. Não passou muito tempo, tornei-me um tratorista considerado muito bom aos olhos dos mais experientes. Aos dezessete anos já dirigia caminhonete, automóveis e outros tipos de máquinas agrícolas. Estava muito feliz, pois tinha aberto um leque enorme de possibilidades. Um grande horizonte de trabalho. Aquele garoto curioso tinha conquistado um lugar que era muito almejado. Agora eu tinha profissão até para escolher qual seguir. Faltavam os documentos e a maior-idade. Comecei a pensar então que o moço do cartório que errou em um ano no meu registro poderia ter errado em dois anos, pois assim eu poderia atingir a maior idade mais rapidamente. Naquele momento adorava a idéia de ser um ano mais velho e comecei a tirar proveito disso.
Este salto dos dez aos dezessete anos contado hoje, pareceter sido muito fácil, mas não foi. Foram dias, meses, anos muito complicados e de muito trabalho. Meus pais tiveram que adaptar–se aos costumes daquele povo, daquele Estado. Meus irmãos e eu não tivemos problemas de adaptação, pois éramos crianças e era uma novidade a cada dia. Crescemos juntos e nos tornamos adolescentes normais.
O tempo passou e havia chegado o momento tão esperado por mim: apresentar-me à Junta Militar para o alistamento. Eu não queria servir, estava muito empolgado mesmo era com o mundo das máquinas, dos automóveis, caminhões; na verdade, o que eu mais queria era ser de maior e tirar os meus documentos.
Eu sempre fui magro e alto. Ao chegar à Junta Militar, fui entrevistado e deixei claro que não queria servir. Depois de todos os exames feitos, daí a alguns dias, recebi a notícia de que havia sido aprovado em todos os requisitos, quando me perguntaram se queria servir, pois poderia ser dispensado já que o número de candidatos era maior que o de vagas. Não pensei duas vezes e quis ser dispensado; saí dali pensando em como era bom ser um ano mais velho; com o documento nas mãos, agora, era só tirar os outros e foi o que fiz, aos poucos tirei todos os outros. Eu tinha um carinho e um amor muito especial pelos meus pais e por meus irmãos, mas sentia necessidade de sair daquele lugar, pois dizem que santo de casa não faz milagres e isso é verdade, muitas vezes fui humilhado por pensar diferente, mas agüentei firme ali, a empresa em que eu trabalhava tinha outros investimentos, e sem precisar me indispor com ninguém aos poucos fui me tornando independente daquele lugar.
Mais tarde meu patrão e eu concordamos em que eu deveria morar em um lugar onde fosse mais fácil evitar que viajasse muito. Mudei-me para uma cidade onde fiquei mais centralizado, exercia varias profissões, viajava com meu patrão e paralelamente trabalhava com terraplanagem. O trabalho me dava oportunidade de conhecer muitos lugares lindos, cidades maravilhosas e muitas pessoas; e ai comecei a fazer uso da educação que recebi dos meus pais, que era respeitar a todos e ser honesto sempre.
Sem esquecer os ensinamentos de meus pais, agora tinha a vida, que é uma excelente escola, a vida é e será sempre uma escola Se você quer aprender o que é bom ela te ensina e o que é ruim se você não tomar cuidados, também acaba aprendendo. Passado algum tempo, decidi só prestar serviço no interior, de segunda à sexta, me sentia um bichinho dividido entre a cidade e o interior, da cidade eu tirava tudo de bom que ela tinha para dar, eu vivia intensamente cada momento, começava na chegada: toda iluminada, muitos carros, muita gente junta sem ser festa, e que muitas vezes nem se conheciam, saía gente de todos os lados, as pessoas eram como ondas iam e vinham com muita rapidez até uma determinada hora da noite. Na cidade, se você tem dinheiro, pode comprar quase tudo. A cidade e o interior tinham e têm uma coisa em comum, que é a violência, e essa não merece ser relatada. Chegada a segunda-feira, era hora de ir para o interior e também de esquecer todo conforto que a cidade nos dá. No interior, na maioria das vezes, não tem luz elétrica, água encanada, TV, geladeira, ventilador, ar condicionado, liquidificador, associando essas faltas à presença dos mosquitos, que existem em todos os lugares, o interior é um luxo.
Eu sempre fui e sou preocupado com o interior, a falta de recursos como: luz elétrica, estradas, escolas, postos de saúde, transporte, assistência técnica, financiamento. Isso faz com que as pessoas venham para as cidades, congestionando–as, pois elas também não oferecem se–quer uma condição mínima de sobrevivência para essas pessoas e, assim, as deixam ociosas e desacreditadas, pois muitas das vezes não têm uma profissão, já que nas cidades as profissões são diferentes das usadas no interior. Vivo torcendo para que os nossos governantes descubram que o interior precisa desses e de outros recursos eles deixaram de ser luxo e se tornaram uma necessidade. Faço este relato com base no que vivenciei, eu senti na pele o que é um interior abandonado.
Dividido entre a cidade e o interior tocava a vida atropelando os problemas.
Certo tempo depois, a minha profissão exigia que eu tivesse um conhecimento em mecânica e não hesitei em fazer um curso de mecânica de automóvel, na teoria, pois na prática eu já tinha um grande conhecimento, e mais tarde me tornei mecânico prático em máquinas pesadas.
Minha família continuava morando no Espírito Santo, e eu às vezes tirava um tempinho para visitá-la; agora meus irmãos já eram rapazes e moças; uma era casada, outra morava com meus avós, os meninos e uma das meninas moravam com nossos pais, os meninos se especializaram em cultura de café e seringueira e os de- -mais afazeres em uma fazenda.
Minha mãe estava muito feliz, morava em uma casa muito bonita na mesma fazenda, e já tinha comprado uma casa na cidade. Para completar, já era avó. Meu pai, este sim tinha motivos para estar feliz: havia criado seus filhos. É claro que não tinha formado nenhum em doutor, mas havia formado todos em homens e mulheres fortes, que poderiam caminhar sozinhos.
Tínhamos respeito, carinho e muita admiração por aquele homem humilde que enfrentou e suportou muitas dificuldades, seu sonho era como o sonho de qualquer pai, que é ver seus filhos criados e comprar a casa própria; com esses dois objetivos realizados, faltava agora só aquilo que usamos chamar de pé de meia e eu não duvidava que ele fosse conseguir, sempre foi um homem muito econômico e era de casa para o serviço e vice-versa, nosso pai é que administrava todo o orçamento, a maior prova disso é que trabalhávamos e muitas vezes não sabíamos quanto ganhávamos, pois nosso pai recebia e era tudo para custear as despesas em nossa casa, nosso pai tinha consciência de sua responsabilidade, que era pagar tudo, e assim o fazia, pagava roupas, calçados, dentista, médico, remédios, enfim, o básico para se viver com um pouco dedignidade.
Quando me ausentei de casa, continuei ajudando financeiramente a minha família, ajudava mais a minha mãe e minha irmã, essa então eu me sentia um pouco pai dela, era a nossa caçula.
Um certo domingo, havia combinado de ir à praia com uns amigos, chegado o dia, não havia dormido direito, perdi o sono, senti-me muito triste, pensei em não ir à praia, meus amigos insistiram e eu fui; chegando lá não conseguia divertir-me sequer tirei a camiseta ou molhei os pés, sentia muita vontade de voltar para casa, deixei meus amigos lá, peguei um ônibus e retornei; chegando à casa de minha tia onde passava fins de semana, ao entrar na varanda as pessoas estavam todas na sala, ouvi quando meu primo falou “Olha ele aqui!”, suas caras eram de espanto e sem nenhum rodeio, ou seja, sem nenhuma outra conversa, da janela mesmo meu tio falou “Seu pai morreu”. Naquele momento, achei a piada de muito mal gosto, mas como meu tio não era de muita brincadeira, eu ouvi novamente “Seu pai faleceu!” e mesmo assim custei a acreditar ou não queria acreditar. Nesses momentos as pessoas tentam nos confortar, dizendo que a vida é assim mesmo, que todos nós um dia iremos morrer, o problema é aceitar quando é com um membro de sua família, ou de alguém próximo.
Minha família havia mandado um mensageiro para procurar-me, só que havíamos nos desencontrado. Naquele momento não sabia o que fazer, daí me veio a idéia de ligar para meu patrão, que também era patrão de meu pai e ele havia saído para procurar-me já que sabia do acontecido, mas ele havia deixado recado para que eu o esperasse em sua casa, e quando ele chegou saímos para comprar uma urna e flores. De caminhonete, viajamos para o Espírito Santo, era domingo, tudo ficou mais difícil; às 17 horas chegamos ao local, nunca tinha visto tanta gente junta na casa de meu pai, a notícia havia se espalhado e seus amigos e conhecidos vieram prestar suas últimas homenagens. Naquela noite mesmo, transladamos o corpo para outra cidade, onde seria velado e sepultado; no dia seguinte, após a burocracia e o sepultamento fui para casa, e agora sim acreditei que meu paizinho havia falecido, agora eu tinha vontade de chorar, fazia muito calor e fui para o banheiro, abri o chuveiro, pus-me debaixo e chorei muito. Naquele momento, consciente do que tinha acontecido, agradeci ao Pai Celestial por ter colocado aquele homem aqui na Terra e por ter sido meu pai. Ele foisem dúvida um excelente ser humano.
Hoje, misturada à saudade, tenho a lembrança da última vez que o vi com vida. Certo dia fiquei sabendo que meu pai estava na cidade, fui ate um terminal rodoviário encontrá-lo; chegando lá o ônibus já estava de saída, conversamos um pouco, e assim que o ônibus saiu, eu peguei seu chapéu pela janela e ele então falou “Opa, opa motorista, pare um pouco!”, e eu então devolvi seu chapéu e ele foi embora sorrindo. Meu pai sempre foi um homem saudável, nunca se queixava de dores ou coisas parecidas, porém foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, sua missão foi do período de 1931 a 1986.
Virando esta página, começava uma outra que era muito difícil e complicada, não tínhamos mais o nosso pai, aquele que tinha o segredo e a magia de como fazer uma família forte e unida, com a certeza de que ele era insubstituível. Tocamos a vida para frente, o tempo foi passando e cada vez que tinha que tomar uma decisão em família eu era chamado, depois de dar a minha opinião, minha família aprovava, eu não gostava do que estava acontecendo. Esse papel nunca foi meu, dar a última palavra, mas ao mesmo tempo, tinha consciência de que deveria, no mínimo, proteger minha mãe e a minha irmã, já que osmeninos eram adultos e independentes. O tempo passou, minha família almejava voltar para o nosso Estado de origem, mas agora era para a cidade. Tínhamos um problema que era vender a casa que ficava em outra cidade e comprar na cidade escolhida; meus irmãos deixaram que eu decidisse tudo. É claro, havia chegado a minha vez de levar vantagem; escolhi a cidade em que morava a minha namorada, eles aprovaram e eu adorei a idéia, havia a possibilidade de morar na mesma cidade que moraria minha família e namorada.
Mas os problemas estavam por vir, e tudo começou quando o dinheiro da venda de uma casa não deu para comprar outra que desse para acomodar toda família já que a que morávamos era muito grande, mas problema mesmo teriam meus irmãos, tinham que arrumar emprego em Quissama onde só existiam duas fontes de empregos que era uma usina de açúcar e a prefeitura municipal, mas, não havia vagas para trabalhar, pois o município tinha somente um ano de emancipado; quanto à usina, não havia vagas e não era a área dos meus irmãos, já que os mesmos mexiam com café e seringueira e com outras funções ligadas à agricultura. Diante disso tive que assumir as despesas de minha casa até que eles mesmos encontras–sem um trabalho. Como eles eram determinados e estavam a fim de trabalhar, por intermédio de um amigo, sucessivamente, ingressaram na construção civil e não se limitaram a aprender uma profissão ligada ao ramo. Hoje, os três têm uma profissão na construção civil e são profissionais liberais, dois se casaram e moram em cidades diferentes.
Lembro-me que sempre fui um sonhador, quando eu era menino ficava imaginando quando eu iria comprar uma bicicleta. A infância passou tão rápido que quando chegou este dia, não curtia mais bicicleta, agora meu sonho era uma moto, então comecei a economizar e certo dia comprei uma moto nova. Com um ano de uso, descobri que não gostava mais de moto, então vendi e comprei um carro usado, mais para o trabalho. Eu continuava trabalhando com terraplanagem, na mesma firma, e tinha meu patrão como um dos meus melhores amigos, com ele aprendi tudo que sei profissionalmente e não posso deixar de dizer que socialmente contribuiu em muito para a formação do meu caráter, já que tive que aprender muitas coisas, aquelas que você só aprende com alguém que queira seu bem e que você contribui aprendendo apenas o que é bom. sou e o que sou, e o que estou fazendo aqui?”. Não sou doutor nem produtor, nem filho de nenhum fazendeiro, depois de analisar o que cada um deles dizia cheguei à seguinte conclusão: dizem que doutor é uma pessoa que estudou e se formou em alguma coisa, que produtor é quem produz alguma coisa, que fazendeiro pode ser um cara que tem muito dinheiro e comprou muita terra e filho de fazendeiro é só o filho de um homem que comprou muita terra. Agora era chegada a minha vez, então me apresentei: “Eu sou José Geraldo, sou funcionário de Célio Wagner, ocupo o cargo de operador de máquinas pesadas e agrícolas e sou profissional em terraplanagem. Se um dia este projeto for colocado em prática, creio estar preparado para contribuir com os senhores”.
Ao término daquela reunião e depois de um saboroso almoço, de volta para casa, questionei com Célio Wagner que ele tinha me colocado em uma prova de fogo, me convidando para a festa errada e ele respondeu que eu tinha me se saído muito bem, que ele não esperava outra coisa de mim, pois já que tinha ouvido muitos elogios dos nossos clientes a meu respeito.
Como um bom profissional e muito educado, depois de ouvir esses elogios, cheguei à conclusão de quenão importa qual é a sua profissão, não importa o que você faz, você tem que ser bom e tentar sempre ser o melhor. Quando você pensa assim, todos ganham com você, ganham porque aumentam seus clientes, ganha seu patrão e ganha aquele que não pode perder nunca que é o cliente. Faço este relato profissional em homenagem a todos os meus ex-clientes e a meu ex-patrão Célio Wagner que apostou e investiu em mim e nunca hesitou em colocar em minhas mãos uma máquina nova, para que eu pudesse aprender uma profissão.
Sempre fui um rapaz bem relacionado com as mulheres e tive algumas namoradas, em 1989 conheci Katia, em 1992 ficamos noivos e começamos a planejar o nosso casamento, combinamos que deveríamos primeiro construir aquela que seria nossa casa, já tínhamos o local e algum material e um amigo estava fazendo a planta.
Era chegado o ano de 1994, decidimos que casaríamos naquele ano, estávamos muito felizes, aquele ano que começara tinha tudo para ser o melhor ano de nossas vidas, e o que nos levava a pensar assim era a expectativa da construção da casa, da compra dos móveis e a realização do casamento. Andamos visitando as lojas, namorando os móveis que iríamos comprar, eu particular-não importa qual é a sua profissão, não importa o que você faz, você tem que ser bom e tentar sempre ser o melhor. Quando você pensa assim, todos ganham com você, ganham porque aumentam seus clientes, ganha seu patrão e ganha aquele que não pode perder nunca que é o cliente. Faço este relato profissional em homenagem a todos os meus ex-clientes e a meu ex-patrão Célio Wagner que apostou e investiu em mim e nunca hesitou em colocar em minhas mãos uma máquina nova, para que eu pudesse aprender uma profissão.
Sempre fui um rapaz bem relacionado com as mulheres e tive algumas namoradas, em 1989 conheci Katia, em 1992 ficamos noivos e começamos a planejar o nosso casamento, combinamos que deveríamos primeiro construir aquela que seria nossa casa, já tínhamos o local e algum material e um amigo estava fazendo a planta.
Era chegado o ano de 1994, decidimos que casaríamos naquele ano, estávamos muito felizes, aquele ano que começara tinha tudo para ser o melhor ano de nossas vidas, e o que nos levava a pensar assim era a expectativa da construção da casa, da compra dos móveis e a realização do casamento. Andamos visitando as lojas, namorando os móveis que iríamos comprar, eu particular-monstro que estava vindo próximo a mim, decidi jogar o carro pra fora da estrada, dei um golpe na direção e fechei os olhos, o carro ao bater no meio-fio voltou para a pista, ouvia muitos barulhos de buzinas, abri os olhos e a carreta não estava mais ali, eu já estava invadindo a contra mão e de olhos abertos controlei o carro; como não dava para parar, sair para o acostamento eu fui devagarzinho e, aproximadamente, a um quilômetro dali, existia um posto de gasolina, onde parei. Agora a tempestade já havia passado, minhas pernas tremiam, não conseguia abrir a boca, meu queixo estava duro, um motorista que havia presenciado o episódio veio até mim para saber se estava tudo bem, aos poucos me restabeleci, não havia acontecido nada com o carro, segui a viagem, e sei que mais uma vez Deus estava ali e me salvou de mais um terrível acidente.
Em fevereiro, época de carnaval, nestes feriados curtia ir às praias e cachoeiras com minha noiva e minha família, me misturando entre os três amores: noiva, família e natureza, passei aquele carnaval, e agora era hora de voltar a trabalhar para quem tinha tantos projetos a serem realizados naquele ano.
Havia combinado com o lanterneiro que após o carnaval iria fazer um serviço em meu carro, já queapresentava algumas ferrugens. Na segunda-feira, após o carnaval, fui à oficina; chegando lá encontrei aquele amigo que estava fazendo a planta de nossa casa, ele havia feito um desenho provisório, eu gostei, mas tinha que ser aprovado por Katia, e depois disto levaria para um desenhista profissional. Diante disso resolvi não mais deixar o carro na oficina, já que naquela sexta-feira próxima, teria que resolver alguns problemas de ordem pessoal, em minha cidade, pensei em fazer as duas coisas ao mesmo tempo, então combinei com o dono da oficina que deixaria o carro na sexta-feira, tinha um amigo que viajava comigo às segundas, quartas e sextas-feiras, como havia decidido que não iria trabalhar naquela sexta-feira, pedi que ele não viesse, pois seu serviço dependia do meu.
Na quarta-feira da mesma semana, meu primo me pediu para ir a uma praia da região para pegar um cachorro e umas pranchas de surf, aproveitei a minha hora de almoço para fazer este favor para meu primo e aproveitei a viagem e trouxe um pouco da mudança de minha tia que passara verão naquela praia, e retornara para cidade, já de volta para cidade por um instante me deu uma tristeza muito grande, não conseguia entender o por que daquela tristeza, tive vontade de chorar, por fora não parecia, mas por dentro, eu chorei, fiz toda viagem distante de mim, não consegui ir para o trabalho, passei a tarde e o dia seguinte muito estranho, no final do dia de quinta-feira, ao terminar o expediente, estive com meu patrão e falei com ele que não iria trabalhar na sexta-feira, e para piorar, ele não gostou da idéia, alegando estar com pressa para terminar aquele trabalho, não tive muitos argumentos, sempre separei os meus problemas particulares do trabalho, e com a convicção de que iria trabalhar no dia seguinte, fui embora, agora triste e também aborrecido. Na sexta-feira, trabalhei o dia todo, já estava mais tranqüilo, bem calmo e até um pouco feliz, era chegado o fim de semana e eu estaria com a minha noiva e minha família, com a certeza que na segunda começava uma outra semana, e que o patrão tinha razão, afinal ele era patrão e eu empregado, mas a nossa amizade e a convivência de dezoito anos às vezes nos fazia esquecer desse detalhe.
Naquele final de tarde, o expediente havia terminado quando Célio Wagner apareceu por lá, acertamos alguns detalhes a respeito do trabalho e fomos embora; combinamos passar na cantina para fazer o pagamento das refeições da semana, ao chegarmos lá, chegou também um casal, que estava com problemas em seu carro e eu me sensibilizei e me propus a ajudá-los, já que eu era mecânico e tinha uma caixa de ferramentas no carro. Célio Wagner e um amigo que estava em sua companhia foram para a cantina e depois de verificar e consertar o carro do casal eles foram embora. Fui até à cantina e Célio Wagner e seu amigo já estava de saída, daí lavei as mãos e tomei uma Fanta laranja e fui embora, assim que peguei o asfalto Célio Wagner estava parado em um galpão que pretendia comprar. Segui minha viagem, era sexta-feira 25 de fevereiro de 1994, trafegava pela BR 101, saí do km 8 em direção a Campos dos Goytacazes, dirigia com muita atenção atrás de uma carreta-cegonha, quando ela entrou para um posto; gostei que ela entrasse ali, assim não precisava ultrapassá-la, o que eu não sabia é que estava indo em direção à imprudência e à irresponsabilidade e que me encontraria com aquele que iria fazer mudar a minha história até aqui contada.
Poderia não ser uma linda história, mas eu só tinha trinta e um anos, e muita vontade de viver, tinha no peito um coração cheio de amor. Até aqui não falei em minha fé, mas tinha muita fé em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas a poucos metros dali eu encontrei aquele que mudou a minha história. Ao fazer uma ultrapassagem, um carro se desgovernou e invadiu a contra-mão e veio em cima de mim, porém, dessa vez não deu para fazer nada a não ser tirar para não batermos de frente, foi muito rápido, eu só vi uma luz em cima de mim e o choque, não vi mais nada, nem senti nada, segundo pessoas que presenciaram o episódio e a perícia técnica, o carro desgovernado bateu na roda traseira do meu carro que era um fusca, com o choque, que só não foi de frente porque mais uma vez Papai do Céu estava ali e eu consegui sair a tempo, porém não totalmente e o pior aconteceu: com o choque, fraturei três vértebras cervicais, C3,C4,C5 e na altura da C3 aconteceu uma lesão na medula fazendo com que eu perdesse totalmente os movimentos do corpo. Tenho a lembrança de que, quando os bombeiros estavam me retirando do carro, ter acordado por alguns segundos e dar o número do telefone do meu patrão e ter apagado em seguida.
O carro, com o choque, saiu da pista e foi parado por uma árvore, tudo foi tão rápido que meu patrão passou e não viu o acidente, quando cheguei ao hospital, logo em seguida chegaram os meus amigos e meu patrão Célio Manhães Wagner.
Depois que tiraram algumas radiografias, ficou
constatado que o impacto havia lesionado as três vértebras e a gravidade do problema. Naquela madrugada voltei a mim, sentia muita dor na cabeça e no pescoço, tentei me levantar e meu corpo não se movia, pensei em pegar em alguma coisa, minhas mãos e braços não se moviam, tentava respirar, não conseguia, quando alguém que estava ali do meu lado, mas eu não conseguia ver, disse-me: “Calma você sofreu um acidente e está em observação”, eu pensei “Como, se eu não vejo, nem respiro direito, comecei a me perguntar cadê meu corpo, pois eu não o sentia”.
No dia seguinte, descobri que havia algo que puxava minha cabeça para trás, com muita dificuldade perguntei à minha tia Lúcia e ela falou que tinha uma tração. Achei estranho, afinal eu conhecia muito bem o que era uma tração, na linguagem de mecânico, motorista, operador de máquinas pesadas, mas daquela tração eu nunca tinha ouvido falar, então perguntei novamente à tia Lúcia: “Como assim, uma tração, como ela é e porque ela está puxando a minha cabeça pra trás?” E ela disse que era um aparelhinho que estava preso em minha cabeça e tinha uns oito quilos que era para manter minha cabeça e meu pescoço imóveis, pois eu precisaria fazer uma cirurgia
e se eu me movesse poderia agravar o problema. A essa altura não sentia mais nada, só a minha consciência estava boa, esta eu nunca perdi.
Naquela noite, tia Lúcia ficou vigiando a minha respiração, pois a qualquer momento poderia precisar ir para uma U.T.I., e fiquei imaginando como minha mãe e Kátia iriam receber aquela notícia, mas elas, assim como eu e toda a minha família não sabíamos da gravidade do problema, apenas três pessoas sabiam: Célio Wagner, tia Lúcia e tio Orlando. O que eu sabia era que, para fazer a cirurgia estava faltando muita coisa, eu ouvi falar que um dos melhores especialistas em neurologia estava em um congresso, que naquele hospital não dava pra fazer todos os exames necessários, ou seja, os pré-operatórios e outros específicos, precisava ser removido para outro hospital; Kátia me fez companhia por três dias consecutivos.
No dia da transferência, nunca tinha visto tanta dificuldade para pegar uma pessoa, “cuidado aí, cuidado aqui”, na hora da remoção, tio Orlando foi dizendo ao motorista da ambulância para ter muito cuidado e ele, já acostumado com a rotina não estava nem aí.
Agora, já em outro hospital e com os exames feitos, a constatação foi que o caso era muito grave, precisava colocar uma placa para fixar uma das vértebras e uma das mais recomendadas precisava vir de São Paulo, mas não havia mais tempo para tanta espera. Hoje eu sei porque tudo precisava ser feito nos mínimos detalhes. De posse dos exames, Célio Wagner, mostro-os a um especialista no assunto que, depois de analisá-los , disse não haver muito o que fazer, que eu iria durar alguns dias, que iria durar o tempo que durasse minhas carnes e músculos e que aos poucos meus órgãos iram parar de funcionar e ainda acrescentou, que eu poderia vir a ser abandonado pela minha família e suas ultimas palavras foram que não via saída. E Célio Wagner respondeu dizendo que iria fazer por mim tudo que pudesse ser feito pelos homens e pela medicina e que Deus faria o resto.
O tempo passava e eu ali imóvel, aquela tração me machucava muito. Certo dia a tração se soltou e aí é que eu fui descobrir que ela era presa por dois parafusos enroscados em minha cabeça. O médico que estava me assistindo, quando foi colocá-la de volta, estava muito nervoso e me machucava muito, se não fosse tia Lúcia para acalmá-lo, ele não teria conseguido.
Agora, imagina, você ver nas mãos de uma pessoa dois parafusos e ela tentando enroscá-los em sua cabeça; podemos até imaginar, o que não podemos é sentir, mas, confesso, dói na alma.
Dias se passaram, era 6 de março de 1994, aquele médico que estava em um congresso, havia retornado e iria fazer a cirurgia, embora tivesse discordado daquela placa que o médico que acompanhava o caso selecionou, mas era a única que se aproximava de uma mais moderna, devido à gravidade da lesão, foi decidido que colocaria aquela e depois substituiria por uma moderna.
A cirurgia durou sete horas e meia, o doutor disse que a cirurgia foi linda, mesmo tendo que fazer um enxerto na vértebra mais atingida, que foi a C3. Até aquele dia nunca tinha feito uma cirurgia, não sabia como era um pós-operatório, foi uma experiência terrível, tive muito vômito e a entubação é algo horrível, pois machuca muito a garganta, o efeito da anestesia te deixa alucinado, tive que usar um colete que entrava em minha cabeça, que doía até a alma, e para completar, havia caído alguma coisa em meu olho que queimava igual ao fogo. Naquela noite, tia Lúcia e Kátia ficaram passando soro em meu olho e limpando uma baba gosmenta que saía de minha boca. Passada aquela noite, eu ficava contando as horas de sair daquele lugar e de ficar logo bom, isso era o que eupensava, imaginava que junto com a cirurgia ia recuperar os movimentos de todo corpo, pois eu não sabia que o problema era tão sério.
Comecei fazendo fisioterapia no leito do hospital mesmo e após duas semanas da cirurgia, certo dia, perguntei ao fisioterapeuta se em dois meses ficaria bom e ele falou: “Pode ser, talvez!”, eu já não agüentava mais aquela situação e queria ouvir, “não, serão apenas alguns dias”.
Porém não imaginava que tantos problemas fossem aparecer, começaram a surgir as indesejáveis escaras, umas feridas nas costas que cresciam a cada dia, deitado em uma só posição, era impossível evitá-las.
Passado um mês da cirurgia, foram feitos novos exames, pois os médicos tinham a intenção de trocar a placa por uma moderna que havia comprado em São Paulo, mas depois que analisaram os exames, decidiram que não era preciso trocar a placa, já que as vértebras que foram fraturadas estavam calcificadas e a placa estava certinha, segundo a equipe médica, descartando assim a possibilidade de substituí-la.
Mas eu me queixava de dor na garganta, eu sentia que tinha alguma coisa arranhando a minha gargantaquando eu fazia movimento para engolir a saliva ou qualquer outra coisa, porém o médico que ficou acompanhando o caso dizia ser porque ainda não havia melhorado totalmente da entubação e que eu estava com a garganta irritada e provavelmente com uma inflamaçãozinha.
Neste período tinha minha irmã Jussara, que era minha acompanhante, muita gente me fez companhia, mas Lúcia e Orlando (tio Pico) como chamamos, revezavam-se nas noites, e com quarenta e seis dias, tive alta do hospital; então fui para casa de tio Pico e Lúcia; eles eram casados e tinham dois filhos: Jaqueline, e Leonardo; chegando lá, a porta não deu para a maca passar pelo corredor, tinha que entrar pela janela do quarto.
Um dia antes de sair do hospital, por não conseguir urinar normalmente e a sonda que usava estar inflamando os ureteres e por não poder ficar por muito tempo, foi feita uma cistostomia, ou seja, uma abertura na direção da bexiga onde se colocou uma sonda; é horrível, mas não te deixa morrer, isso era feito na “idade da pedra”, hoje se usa fazer cateterismo nestes casos.
Naqueles dias começava uma fase que viria ser a pior. Três dias depois começou uma febre que não passavapor nada, chegando aos quarenta graus, com a garganta muito dolorida, alguma coisa incomodava, não era uma simples garganta inflamada, o médico apostava que sim e passava antibióticos e raios-x do tórax e foram muitos, e não dava nada, a não ser um enorme prejuízo, já que eram pagos em URV – de manhã era um preço e a tarde era outro – e se tornavam mais caros, dado ao fato de que eram feitos em casa de meu tio, devido às dificuldades em me remover até um hospital.
Apostando ser uma inflamação de garganta, o médico que acompanhava o caso viajou e deixou outro em seu lugar que usava os mesmos procedimentos e a minha garganta se fechava cada vez mais, meu pescoço já estava muito inchado, eu tossia e expelia uma massa amarelada que parecia catarro, mas não era. Depois de observarmos melhor constatamos que se tratava de um pus muito do esquisito, já não sabíamos o que fazer, e desesperada, Kátia ligou para um dos médicos que havia feito a cirurgia, o mesmo que antes estava em um congresso e ele veio me consultar. Ao examinar-me, ele disse que tinha quase certeza de que a placa ou o parafuso da placa estava comprimindo o esôfago, pediu que fosse feito, imediatamente, um raio-x do local e uma endoscopia, enquanto isto era para colocar umas compressas quentes no local. Na segunda vez em que se colocou as compressas o local veio a furo, saindo uma grande quantidade de pus, isso se deu no décimo quarto dia após sair do hospital.
Não houve um dia sequer que eu não tivesse dado febre, chegando aos quarenta e dois graus; só em fazer um raio-x do local, constatou-se que era o parafuso que fixava a placa que estava comprimindo o esôfago, era preciso fazer uma cirurgia de emergência, para trocar a placa e aquele parafuso; a equipe que havia feito a primeira foi acionada. Com a equipe reunida, ninguém queria assumir a responsabilidade, devido a eu estar com muita febre, eles diziam ser muito arriscado, mas todos concordavam que era preciso fazer a remoção daquela placa, meu pescoço estava aberto, mal conseguia respirar, pois meu esôfago havia explodido com aquela infecção, minha família assumiu a responsabilidade e um dos médicos assumiu a equipe, fui para o centro cirúrgico, durante a cirurgia passei muito mal mas resisti, a cirurgia durou quase cinco horas.
Mas nem tudo era ruim, finalmente uma notícia boa, não precisou colocar outra placa, pois as vértebras fraturadas estavam perfeitas, o neurologista achou por bem retirar aquela placa obsoleta e manter-me com um colete por um período maior, assim que tirasse a tração.
Mas as coisas pra mim não estavam nada boas, a tração havia sido colocada outra vez, agora não conseguia me alimentar oralmente, o esôfago continuava aberto, e os médicos disseram que ele fecharia naturalmente.
Tinha uma sonda pelo nariz que levava uma alimentação líquida até o estômago, não tinha previsão de quando o esôfago iria se normalizar, o que eu sabia era que não conseguia engolir nem a saliva, quando tentava engolir um pouco da saliva para molhar a garganta, que estava muito seca, que com aquela sonda só fazia piorar, mas sempre que tentava ouvia um barulho, que soprava, era parecido com o barulho de uma bola de soprar, uma bexiga, quando você enche e solta a ponta e ela faz barulho e ao mesmo tempo sentia algo quente que escorria em meu pescoço, que precisava trocar o curativo muitas vezes ao dia.
A sonda causava enjôo e vômito, e tinha uma baba misturada com saliva que ficava juntando na boca e precisava limpar com uma gaze, assim não podia sair de perto de mim uma pessoa e essa missão foi de minha irmã Jussara que revezava com Lúcia e tio Pico e os demais da família e ao domingos e feriados, Kátia.
O tempo passava e a cicatrização era muito lenta, havia aqueles que diziam ser preciso fazer uma cirurgia reparadora no local, outros diziam que não e eu ali em um leito de hospital dependendo do desenrolar daquele processo e torcendo para ser o certo. Já tinha uma escara enorme nas costas e se formaram mais duas na região dos glúteos, eu estava em um colchão d’ água, mas não era o bastante para evitar as escaras, os problemas e as dificuldades que apareciam não me deixavam pensar que estava tetraplégico, me sentia um lixo, com aqueles banhos no leito, por muito que o serviço de enfermagem fosse bom, não me sentia limpo.
Certo dia apareceu um médico que foi tirar o plantão de um amigo seu, já que eu agora estava por conta do SUS e era atendido pelos médicos plantonistas do hospital, esse médico ou pelo menos que se apresentou como tal, ao ver meus pés, que por não ter controle, estavam caídos, disse que era preciso engessar e assim o fez. Passados vinte dias e depois que meu tio Pico insistiu muito tiraram o gesso: havia feito duas feridas em minhas pernas e nos dois calcanhares. Esse médico nunca mais apareceu no hospital. Para o desespero da minha família e meu, agora eu estava soltando os pedaços, todo cheio de feridas, e ficava ouvindo os enfermeiros falarem: “Aqui está precisando deblidar, tirar essa carne morta, ficava muito triste quando ouvia isto e mais ainda quando o cirurgião plástico tirava um pedaço de mim e jogava no lixo e eu não sentia dor física. Jussara que estava ali presenciando coisa que ela nunca tinha imaginado ver um dia, passava momentos difíceis, muitas vezes a sonda que passava a alimentação, por ser muito fininha, obstruía e ela tinha que desobstruí-la com uma seringa, pois ela já estava se tornando uma enfermeira na prática.
Como todas as notícias não poderiam ser ruins, aquela fístula no esôfago estava cicatrizando e o médico disse que era para eu ir engolindo a alimentação que fosse líquida, que se tudo corresse bem ele iria me dar alta do hospital, porque ele achava que eu em casa estaria melhor e que as feridas com uma alimentação oral e em um ambiente mais aberto e mais arejado, cicatrizariam melhor e assim foi feito. O médico acreditava que o esôfago estava bom e me mandou para casa, fiquei feliz por Jussara, tio Pico, Lúcia e Kátia e por toda a minha família e meus amigos e em casa não tinha o barulho infernal daquele hospital, que além do movimento de ambulâncias e corpo de bombeiros que poderiam chegar a qualquer momento com feridos, tinha o movimento interno, já que nesse hospital encontrava-se o Pronto Socorro que atendia toda região e ele encontra-se localizado em frente a uma ponte na BR 101, na cidade de Campos dos Goitacazes e a BR contorna o hospital, fazendo assim um barulho insuportável.
Ao sair do hospital, dessa vez fui pra casa de minha mãe que ficava em Quissamã, eu não estava feliz e não tinha motivos para isto, pois pensava comigo mesmo, eu não estava saindo do hospital com minhas próprias pernas, eu estou sendo levado dali e tinha consciência de que financeiramente teria problemas, pois só de pomadas cada vez que fazia um curativo eram gastos dois tubos dos grandes e mais os outros produtos que acompanham um curativo e que agora eu tinha que comprar.
Mesmo com aqueles problemas passei uns dias bem; na casa de minha mãe, estava tudo dando certo, até que começou uma febre que não passava e uma dor no local onde havia cicatrizado, comecei a ficar preocupado, pois este filme eu já havia visto antes e com todos os detalhes, a febre aumentava, a cada momento era mais alta, agora todos estavam preocupados, até que fui ao hospital da cidade em que morávamos e lá fiquei internado, mais uma vez. A febre só passava com medicamentos, o pescoço cada vez mais inchado, o médico mandou colocar compressas no local, com isso apareceu um abscesso, eu já não conseguia me alimentar, a garganta estava totalmente obstruída, mas era preciso me alimentar.
Uma manhã, quando Kátia estava me convencendo de que eu deveria me alimentar um pouco e eu não poderia negar a atender àquele pedido que me era feito com tanto carinho, então fiz um esforço, mas ao tentar me alimentar com um pouco de café com leite, aquele abscesso explodiu, saindo pus misturado com café com leite para todos os lados e Kátia, ao presenciar aquele acontecimento, ficou traumatizada. Eu pensei que iria morrer e naquele momento fui tomado por uma tristeza muito grande; até aquele dia eu não havia chorado, mas naquele momento chorei, pensei que era meu fim, para piorar ouvir dizer que eu seria transferido para outro hospital, para aquele de onde há dezesseis dias havia saído. Imaginei que o mundo para mim tinha chegado ao fim, que era questão de mais alguns dias e seria o fim, cheguei a pensar que aquele médico que previu que eu morreria, estivesse certo, que para mim não tinha mais jeito, que estava se cumprindo a profecia daquele doutor. Já na ambulância para ser transferido, fomos à minha casa para pegar alguns objetos e pela janela da ambulância eu fui me despedindo da minha cidade. Imaginei não mais voltar, uma das maiores tristezas que já senti até hoje foi naquele dia quando pela janela da ambulância eu e Kátia nos despedimos, eu pensei que era para sempre. Chegando ao hospital, depois de muita espera na ambulância e no corredor, não havia vaga. E agora, o que fazer? Decidimos, então, que eu iria para a casa do meu tio Pico para tentar uma internação no dia seguinte e assim foi feito; mais uma vez tive que entrar pela janela da casa dele, já que a maca não passava pelo corredor. Quando meu tio chegou e ficou sabendo do que estava acontecendo, para disfarçar seu choro, dizia: ”Está pensando que aqui é hospital, lugar de doente é lá!”. Ficou muito bravo para esconder sua tristeza. Logo saiu para procurar um daqueles médicos que me acompanharam anteriormente, Mais tarde – à noite – ele chegou e sorrindo disse: ”Se você amanhecer vivo, amanhã terá uma vaga no hospital para você.” Chamou Lúcia, Jussara e sua filha Jaqueline e disse: “Esse rapaz precisa se alimentar, arranjem um leite e vamos dar um jeito para que ele consiga tomá-lo. Ele sabia que era muito difícil pois estava acompanhando tudo desde o início, não só acompanhava como também, muitas vezes, tomava decisões por mim e pela minha família na resolução de problemas.
Mais tarde ele entrou com sua equipe, um com gazes na mão, outra com uma toalha, outra com um jarro de leite. Com as gazes, ele pressionava o local da abertura e mandava que eu engolisse o leite, o qual saía entre as gazes e sua mão, mas ele afirmava “você engoliu bastante”. De tanto ele tentar, consegui tomar uns dois copos do leite e meu tio falou que eu poderia morrer de outra coisa, mas de fome e de falta de carinho, não.
Compreendi, então, o que ele queria dizer, ou seja, é que ele sabia que o médico disse que eu morreria assim que secasse e que seria abandonado pela minha família. Sem saber de nada, eu só via sentido em lutar pela vida porque era cercado de muito carinho.
No dia seguinte de volta para o hospital não tinha enfermaria nem leito, mas ali todos os funcionários, enfermeiros, chefes dos setores haviam se sensibilizado com o meu problema, pois, há poucos dias eu havia saído dali e eles tinham muito carinho comigo e o jeito encontrado foi me colocar em uma enfermaria que era reservada para pacientes, como bandidos baleados, enfim pessoas que precisavam de escolta policial.
Eu adorei a idéia de ter uma enfermaria e um leito para que começasse a ser medicado, só depois fiquei sabendo que as pessoas que visitavam seus familiares internados no referido hospital, tinham como hábito dar sempre uma olhadinha naquela enfermaria para ver o criminoso da vez. Mesmo com a porta aberta e sem a presença da polícia, e depois de ganharem um sorriso meu não se davam por satisfeitos e não continham suas curiosidades, perguntavam: “qual foi o crime que ele cometeu?” Ao certificarem-se da verdade voltavam e diziam “Coitado, tão novo, tão bonito!”; essa foi uma passagem engraçada em um momento de tantas turbulências e muito difícil.
Após a internação era hora de começar os medicamentos e eles só poderiam ser intravenosos, já que o esôfago estava aberto, mas o problema era encontrar uma veia, os meus braços só tinham osso e as veias haviam sumido todas depois de umas vinte ou mais tentativas, pois levar muitas furadas já tinha virado rotina. Decidiram então fazer uma subclávia: pegar uma veia profunda que fica abaixo do pescoço e acima do peito, ouvi quando o médico disse que era para ajeitar o material e chama- lo, ouvi também quando ele falou que o procedimento era para minimizar o meu sofrimento, de levar tantas furadas em vão. Pensei que era um processo rápido e fácil e que não iria mais sentir dor e não teria mais sofrimento, mas quando vi a bandeja de material, a anestesia, o tamanho das agulhas, aquele pano verde que eu não sabia o nome, mas que já tinha visto no centro cirúrgico em outra ocasião, logo mudei meu pensamento e imaginei que não era tão simples assim. E estava certo, foi muito difícil. Para começo de conversa, o médico não tinha nem um pouco de paciência, estava muito nervoso, acho que era por ser muito complicado; quando ele imaginava ter conseguido acertar a veia, pegava uma veia errada e sangue espirrava longe e o médico suava muito, falava besteira e palavrões e eu ali não sentia dor, somente o barulho da agulha furando o meu peito. Porém, a dor psicológica era muito grande, mas sabia que minha vida pertencia a um só que era Deus e eu havia me entregado a ele, eu sempre fui possuidor de uma grande fé. Depois de muito tempo o médico conseguiu finalmente pegar a veia certa.
Dias depois fui transferido para outra enfermaria, sem poder me alimentar oralmente, voltara àquela sonda fininha, bem moderna, mas muito complicada, começando pela hora de colocá-la, pois era conduzida do nariz até o estômago por uma espécie de cabinho de aço chamado “guia”, o qual era retirado, só ficando a sonda que era muito fininha e por isso obstruía com freqüência, sendo preciso uma seringa para desobstruí-la. Passados alguns dias aquela abertura do esôfago só fazia piorar, não cicatrizava, agora todos admitiam que só uma cirurgia poderia resolver aquele problema: as dificuldades aumentaram e era preciso encontrar um especialista na área, um gastroenterologista, e eu estava totalmente debilitado, os antibióticos haviam destruído os glóbulos vermelhos do sangue e o hematócritos estava em dezesseis, caía diariamente e nenhum dos especialistas procurados quis assumir uma cirurgia com um paciente tão debilitado. Ficava mais difícil quando procurava alguém que fizesse particular, ninguém estava disponível e não eram muitos os especialistas da área. Olhando para o teto daquela enfermaria via passar o filme dos meus trinta e um anos de idade que tinham sido tão difíceis e ao mesmo tempo tão bonitos.
Tinha certeza de estar preparado para viver os dez anos mais importantes na vida de qualquer ser humano, até aquele dia em que um louco apareceu em minha direção, mudando toda a história e junto com ela todo o meu modo de pensar. Depois de todo o filme, a realidade, e essa era terrível e implacável. Eu já não dormia se não fosse dopado e aí o filme era outro, quando não tinha terríveis pesadelos, como estar dentro de uma banheira e muitas pessoas em volta, e isto não era preciso estar dormindo, eram tantos pesadelos e tão estranhos que não dá para descrevê-los, só mesmo sentindo.
Sentia muita fome e quando não sonhava com comida, ficava imaginando aqueles pratos que tantas vezes comi. Quando via os comerciais na TV e esses eram coisas de comer, eu ficava com água na boca, aumentando minha fome a aí eu ficava imaginando o dia em que eu pudesse comer uma refeição, a imaginação ia longe, começava sempre com uma grande refeição, mas a minha comida preferida era churrasco com arroz e farofa e uma saladinha caía bem. Mas eu comeria qualquer coisa. Terminava sempre imaginando um prato de feijão com arroz, um bife ou um ovo frito, até mesmo um caldinho de feijão quente para que pudesse tomar e sentir esquentar o peito e pesar no estômago ou um copo de suco que molhasse a boca e refrescasse a garganta, por onde, fazia tanto tempo, não passava nada e estava tão seca, tão machucada.
Com o passar do tempo, conhecia cada funcionário daquele setor e as dificuldades de alguns deles, os problemas do hospital junto com os funcionários, vivia a expectativa de um plantão ruim sempre que aconteciam aqueles feriados chamados feriadões, esses eram os piores momentos para o hospital, por ser pronto-socorro, a chegada de uma ambulância comum ou do corpo de bombeiros anunciava que aquele plantão seria muito movimentado. Eu já me preparava para enfrentar as dificuldades anunciadas pelas sirenes das ambulâncias. Naquele período acontecera a Copa do Mundo de 1994, e na maioria das vezes, o Pronto Socorro do hospital já aguardava as ambulâncias com os feridos, após cada jogo do Brasil, já que o rádio e a TV anunciavam os últimos acontecimentos da cidade e da região. O perfil dos acidentados era de todas as idades, cor e sexo. Uma coisa era certa, todos eram vítimas da violência.
Quando digo que me preparava para aqueles movimentos é por que aumentavam os pacientes, mas não os funcionários e aí atrasava toda a rotina do hospital, era um tal de faltar material, mas os funcionários, como bons brasileiros, davam sempre um jeitinho e eu aguardava a minha vez com muita paciência.
O tempo passava e o impasse continuava, a expectativa de uma cirurgia era cada vez maior, mas esbarrava nas minhas condições físicas e em um especialista que se propusesse a fazê-la. Havia momentos muito difíceis. Quando imaginava que havia planejado tantas coisas, e naquele momento eu me sentia um ser que só tinha cabeça, ficava me perguntando: ”Cadê aquele rapaz que tinha um metro e oitenta e seis de altura, que pesava setenta e nove quilos e que dificilmente tinha um resfriado?” Agora, ali, tinha uma cabeça presa a um monte de ossos cobertos com um couro cheio de escaras.
Mas para minha surpresa e para alegria de todos, comecei a sentir o corpo, a sensibilidade estava voltando, conseguia movimentar só o pescoço, mais nenhuma parte do corpo. Porém, quando era tocado, identificava o local onde estava sendo tocado, o que era um bom sinal. Agora eu podia sentir que a cabeça estava presa ao corpo, mas estava escrito que não era para ser tudo alegria. Junto com a sensibilidade daquele corpo machucado, ferido, cansado de estar preso a uma cama e que agora poderia sentir quando era tocado, vieram as dores, aquelas escaras doíam muito, as costas queimavam, sentia dor por todo
o corpo, os ossos latejavam dia e noite. Se aquilo significava uma esperança, por outro lado, significava um pesadelo; as pessoas esqueciam ou não acreditavam que eu estava sentindo já que há alguns dias atrás eu não reclamava de dor. Na hora de fazer assepsia das escaras era um momento de muita dor, pois tinha que mover o corpo de um lado para o outro e aí doía tudo.
Para completar, a sonda da alimentação começara a ferir o nariz e o esôfago e era preciso retirá-la, o médico foi chamado e disse que só existia uma alternativa, que era colocar uma sonda direto no estômago através de uma micro-cirurgia. Foi marcada para o dia seguinte, o médico havia me convencido de que era muito melhor que a outra que ficava ferindo o meu esôfago e estava sempre obstruída e que a ela não podia ficar muito tempo ali, pois só poderia causar algum problema. Difícil mesmo foi convencer tio Pico, que chorava e dizia “o rapaz já está cheio de furos e vocês vão fazer mais um?” Ele ia me visitar diariamente ao final da tarde. Com isso, levou uns três dias sumido, não apareceu. A sonda havia sido colocada, com anestesia local. No dia seguinte, o médico apareceu e perguntou: ”Como você está se sentindo?” Ao que respondi: “Com fome”. Ele disse que tinha uma boa notícia para mim. Fiquei feliz ao ouvir que teria uma boa notícia, Há quanto tempo eu não ouvia uma boa notícia! Ele continuou: ”Olha, tudo que passar nessa sonda, ou seja, tudo que for dissolvido em água, leite, suco ou que for batido no liquidificador, pode ser utilizado na sua alimentação provisória”.
Mais tarde um auxiliar de enfermagem apareceu com um recipiente, colocou num tripé, conectou a mangueira na sonda e disse que agora era só começar a alimentação. Entregou para minha irmã Jussara tomar conta e ela não perdeu tempo, procurou a copeira e conseguiu uns dois copos de leite e fizemos o teste, foi um momento lindo, mágico e o enfermeiro falou que agora eu iria me recuperar. Eu ficava olhando para o leite que descia rápido e eu sentia fazer volume no meu estômago. Kátia, quando chegou, foi logo comprando muitos enlatados, tudo que se dissolvia no leite, em água ou suco.
Depois de nove meses e meio hospitalizado, e sete meses sem comer nada que pudesse sentir no estômago, eu conseguia sentir o sabor só em sentir o cheiro e em ver o Nescau descendo por aquela mangueira e entrar no meu estômago. O que era estranho era sentir a barriga enchendo sem estar engolindo nada. Senti-me mais tranqüilo, comecei a acreditar que de fome não morreria, mas agora todos acreditavam que as escaras e aquela abertura no esôfago, com uma alimentação melhor, cicatrizariam rapidamente e que o sangue iria recuperar os glóbulos vermelhos. Passados alguns dias a barriga que estava quase grudando nas costas, começara a aparecer, mas o esôfago continuava aberto, a possibilidade de uma cirurgia era cada vez maior, o local havia perdido muito tecido devido ao tempo em que estava aberto, era preciso fechar o esôfago e reconstituir com uma cirurgia toda a área externa do pescoço, isto dito por um clínico geral.
Certo dia, um clínico geral entrou em minha enfermaria, deu bom dia e começou examinar-me e disse: “Dou plantão aqui neste hospital e neste setor, mas nunca lhe consultei”. Perguntou-me o que havia acontecido e por que eu estava naquele estado tão enfermo; contei o que havia acontecido, então ele abriu o curativo que estava no pescoço e examinou, ficou um tempo sem dizer nada, fez umas anotações e depois disse que eu tinha uma abertura no esôfago muito alta junto da traquéia e que só ficaria bom com uma cirurgia muito delicada, pois o esôfago é um tecido muito mole que, muitas vezes, não aceita ponto, e o local estava muito infeccionado e precisando ser reconstituído com um material apropriado para estes casos. E disse mais: “Eu sou cirurgião gastroenterologista, se você quiser, aqui estão esses pedidos de alguns exames para você fazê-los, se nos for favorável, e se você concordar, na próxima quarta feira, vamos fazer uma cirurgia para acabar com esse seu sofrimento.
Eu fiquei sem palavras, há quanto tempo eu esperava por este momento, que encontrasse alguém que fosse especialista, que dissesse o que era preciso fazer, sem sim e talvez, porque eu não agüentava mais ouvir tantas suposições; cheguei até ouvir a possibilidade de colocar um esôfago artificial, de plástico, mas nunca era a palavra de alguém que fosse especializado no problema. Quando o doutor se despediu, disse: ”Fica marcada a cirurgia, qualquer coisa, a adiaremos”.
Passei todos aqueles dias na expectativa da cirurgia, fiz os exames, o resultado não era nada animador, mas era o risco que tinha que correr. Aproximava-se o dia e eu não conseguia me decidir, estava com muito medo. Na terça-feira, contei ao médico que não estava em condições de enfrentar uma cirurgia no dia seguinte, ele entendeu e marcou para a semana seguinte com a maior boa vontade, e disse que me entendia. Naquela semana, em um fim de tarde, Célio Wagner foi me visitar e eu contei a novidade, que teria encontrado alguém que havia se prontificado em fazer a cirurgia e ele perguntou o nome do médico. Quando eu disse, ele retrucou que com aquele sobrenome deveria ser filho de um doutor amigo dele e se fosse quem ele estava pensando, eu também o conhecia, pois já havia feito um projeto de irrigação em sua fazenda.
Ao investigar, Célio Wagner descobriu que se tratava do próprio, seu nome era doutor Carlos Augusto Zucner. Quando ele soube que eu havia feito seu projeto de irrigação, ele veio falar comigo e brincou dizendo que precisava que eu ficasse bom, pois queria fazer mais um projeto em seu sítio. Que eu fosse ficar bom, tinha minhas dúvidas, mas que ele era dono de um sítio, tinha certeza que não, ele estava brincando mesmo, pois tinha uma linda fazenda em uma região privilegiada. Eu não me lembrava mais dele, pois só o vi duas ou três vezes e fazia muito tempo que não o via, pois na época em que fiz seu projeto tive mais contato com seu administrador.
Feitas as apresentações, agora me sentia mais seguro, comecei a acreditar que Deus havia colocado aquele médico para resolver o meu problema, e que eu deveria agradecê-lo e pedir a Ele que tudo desse certo, pois era uma cirurgia muito delicada e eu estava muito debilitado, não sabia precisamente qual havia sido o pior momento até o presente, mas tinha certeza que foi duro e muito difícil suportar tantos problemas e eram de todas as formas, porém, tinha aprendido uma grande lição, e uma delas era que não poderia morrer e que minha vida pertencia a Deus e ele havia dado provas de que eu deveria viver, só movido pela fé e esperanças e por amor que tenho por DEUS, para encontrar forças e acreditar que tudo daria certo daquela vez, já que todas as evidências eram contrárias. Era difícil acreditar que aquele corpo que só tinha pele e ossos e muitos furos no peito, um cateter na subclávia para o soro, um furo no estômago para alimentação, outro na bexiga para drenar a urina, mais o buraco que havia no pescoço e as escaras, que eram só para causar dor e sofrimentos.
Em todo período em que fiquei hospitalizado, mesmo quando estava muito debilitado, recebia muitas visitas de pessoas que representavam todas as religiões, eu era de formação católica, mas recebia todos com o mesmo respeito. Devo confessar que algumas vezes passei mal, pois, o barulho que algumas delas faziam me causava fobia e me faltava ar, já que em situação normal era tão difícil respirar naturalmente, mas nunca fui indelicado com nenhum deles, pois entendia que suas intenções eram as melhores possíveis e que todos acreditavam estar me aproximando de Deus.
Neste período havia um homem que se apresentava dizendo ser capelão, que fazia um trabalho paralelo a uma religião e ele se aproximou muito de mim, de minha família e de Kátia, ele era uma pessoa muito educada e parecia estar muito preocupado com meu estado de saúde, tinha vontade de ajudar.
Em um daqueles dias em que eu estava mal, ele apareceu, eu estava com duas visitas muito especiais que eram Kátia e sua mãe Wilma, por quem eu tinha muito carinho e era recíproco, aquele homem entrou em minha enfermaria pediu licença a Kátia e Wilma, elas gentilmente se retiraram e aquele homem começou com uma conversa muito esquisita, havia mudado o seu discurso totalmente, ele começou me preparando para a morte, suas palavras doíam muito, naquele momento imaginei estar diante da morte mesmo e que não iria escapar e ele dizia que sabia que era difícil ouvir isto, mas a vida é um ciclo e que o meu estava se fechando.
Eu pensei: “Oh meu Deus, isto não pode estar acontecend

Eu pensei: “Oh meu Deus, isto não pode estar acontecendo comigo!”, este homem não pode estar falando sério, ele não tem esse poder nem o direito de estar falando isto comigo, ele deve estar equivocado ou inspirado por um espírito que não é bom, busquei forças para debater com ele e disse: “Moço, eu posso não estar preparado para a morte, pois a gente só se prepara para aquilo que a gente quer e eu nunca quis morrer e nem quero, se você não pode me preparar para a vida que eu tanto almejo neste momento, não vejo muito sentido na sua permanência aqui”. Não sei se ele entendeu que já havia dado o seu recado ou se respeitou a minha decisão e se retirou, mas naquele dia a sua missão era mesmo causar espanto; ao encontrar com Kátia e Wilma no corredor, tentou convencê-las de minha morte; dizia que Kátia deveria aceitar o que estava acontecendo, Wilma não quis ouvi-lo, mas ele acabou assustando Kátia, que ficou muito triste e nervosa, mas nervosa mesmo ficou Wilma quando lhe contei qual foi a sua conversa comigo, ela disse que se ele voltasse ela iria mandá-lo ir embora e disso eu não tinha dúvida. O que me dava essa certeza, na época, era exatamente os cinco anos de namoro e noivado com Kátia e a convivência com sua família, onde eu já conhecia bem a personalidade de cada um. jeito que o Pai Celestial encontrou para me dizer que não havia me abandonado e que tudo iria dar certo, que eu veria o sol muitas vezes ainda neste plano terreno.
Entrei para o centro cirúrgico com a certeza de que daria tudo certo: os momentos que antecederam à cirurgia, até o anestesista conseguir pegar uma veia pra que se pudesse começar os trabalhos, foram de muita descontração por parte da equipe, que brincava o tempo todo; o que achei muito engraçado: eu ali achando que poderia morrer e eles brincavam. Depois pensei: dentro do profissionalismo de cada um, era como se eu estivesse trabalhando de mecânico consertando uma máquina agrícola. Dessa vez a cirurgia durou duas horas e correu tudo bem, eu acordei logo após. Tudo havia corrido tão bem que logo fui para a enfermaria. À noite, o doutor passou por lá para ver se tudo estava bem; no dia seguinte, antes que terminasse o seu plantão, ele foi conversar comigo e declarou: “Olha, vamos contar as horas e os dias, se não inchar e nem inflamar nenhum ponto no prazo de cinco dias, o sucesso está garantido!”, outra providência que tomou foi tirar alguns medicamentos, como calmantes, por exemplo.
Os dias se passaram e no seu plantão seguinte ele apareceu, já haviam trocado o curativo, só que puseram outro muito grande que me deixava o pescoço torto, ele ficou muito bravo, tirou aquele curativo, pegou no bolso de seu jaleco uma fita de um esparadrapo especial, colocou e disse que estava bonita a cirurgia e que agora era aguardarmos os próximos dez dias, se não inflamasse o sucesso estava garantido. No oitavo dia, ele começou a retirar os pontos alternadamente, com doze dias, tirou todos os pontos e disse que o risco de uma rejeição era pequeno, mas havia, pois foi colocado um material para ajudar na reconstituição do local que havia perdido muito tecido. Mas ele disse que o organismo iria absorvê-lo.
Vinte dias após a cirurgia e depois de alguns exames, ficou constatado que tudo havia dado certo, o doutor Carlos Augusto Zucner me garantiu que aquele problema estava resolvido, mas que eu tinha que ficar com aquela sonda e que continuasse me alimentando por ela por mais um mês para não correr o risco de abrir. Fiquei felicíssimo com a notícia, que em trinta dias voltaria a engolir os alimentos, que ficaria livre da sonda e, junto dela, me livraria de mais dois buracos, que eram um no pescoço, e o outro no estômago. Mas era mesmo o mês das boas notícias. No plantão seguinte, o doutor entrou em minha enfermaria dizendo que queria fazer um trato comigo, e disse que se eu prometesse que seguiria as suas recomendações, me daria alta, me mandaria para casa; lá eu não ficaria tão exposto ao risco das infecções, só que eu teria de seguir suas recomendações, que eram: continuar com a sonda e com trinta dias voltar ao hospital para retirá-la. Ele ainda tinha mais uma boa notícia pra me dar, que após dez dias eu começaria a engolir um pouco de líquido; eu deveria escolher um que fosse gostosinho, ir fazendo o teste, e se tudo corresse bem, como meu presente de Natal, no dia 25, poderia pedir que colocassem tudo que depois de triturado no liquidificador ficasse cremoso, bem pastoso e começasse a me alimentar aos pouquinhos, que tudo iria dar certo.
Ele confirmou que iria deixar minha alta pronta para o dia seguinte. Eu fiquei muito feliz, mas assustado, afinal aquele filme eu já tinha visto duas vezes. Saí do hospital e voltei logo em seguida. E cada vez mais complicado. Mas eu tinha que ser otimista, imaginei que estava realmente começando uma nova fase em minha vida, e no dia seguinte, mais uma vez, eu não saia do hospital, mas era levado dali para casa sem mover nada, nem o pescoço mexia mais; por tanto tempo sem poder movimentá-lo e com aquela lesão estava duro e muito dolorido, naquele momento, só dava para mexer com os olhos.
No dia seguinte, já na ambulância de volta para casa, fiz toda viagem com o sol tocando meu corpo pela janela, foi um momento de reflexão, elevei meu pensamento ao Pai Celestial e vendo e sentindo o sol tocar meu corpo, agradeci muito ao Pai porque ele estava me dando a oportunidade de mais uma vez ver e sentir o sol e de poder estar voltando para casa.
Chegamos em casa, em Quissamã, cidade onde morávamos, era cedo, fizemos uma surpresa a todos, não houve tempo para avisá-los que estaríamos voltando. Naqueles dias, minha família e eu vivíamos duas expectativas, que era fazer análise do sucesso da última cirurgia, os trinta dias que o doutor havia previsto para o sucesso absoluto da cirurgia estavam vencendo e estava tudo perfeito, o outro é que no período em que sofri o acidente, mais precisamente no dia trinta de junho do mesmo ano, havia nascido uma sobrinha que eu só tinha visto por alguns segundos quando eu estava internado no hospital de minha cidade, e minha irmã conseguiu uma autorização e levou a Raiane, para sermos apresentados.
Quando disse que vivíamos duas expectativas, é que a princesinha nasceu com as veias do coração e do pulmão trocadas, e já haviam feito vários cateterismos e ela estava em São Paulo para fazer uma cirurgia de preparação para a cirurgia que ira tentar corrigir a anormalidade, porém tudo correu bem e ela voltou para casa e aí pudemos nos conhecer melhor.
Havia chegado o dia em que eu poderia tomar suco, foi maravilhoso quando engoli e percebi que o suco desceu refrescando a garganta e não mais saiu pelo esôfago, aquele buraco que eu tinha no pescoço que por tanto tempo atrasou meu tratamento. No começo, a decepção é que era muito difícil sugar o liquido por um canudinho, meu queixo cansava e doíam todos os músculos do rosto, tirando todo o prazer, mas alguns dias se passaram e era chegado o dia que eu iria comer aquela papinha, era chegado o Natal e Papai Noel não havia colocado meu presente na janela, nem atrás da porta, mas sim na panela. E o bom velhinho não desceu pela chaminé, mas estava o tempo todo na cozinha, pois de lá saiu uma papinha deliciosa. por uma mangueira, e depois de ver tantas vezes a enfermeira ou Jussara com uma seringa para desobstruí-la, cada vez que o líquido não descia, ficava empacado, o que estava vendo era um sonho, bem ali a minha frente, Jussara com um prato e uma colher, e eu com um esôfago novo. No início eu tive muito medo de engolir, quando tentava meu lado psicológico não deixava, e assim ficava com a boca cheia por um bom tempo; de tanto tentar, consegui engolir um pouquinho, e confesso que não consegui sentir o sabor ou tudo estava diferente ou eu não me lembrava mais.
Eram passados o Natal e o Ano Novo e eu estava animado e muito feliz com o resultado da experiência, tudo estava dentro do que o doutor havia previsto, as escaras estavam cicatrizando, eu só pensava no dia em que iria tirar a sonda, que naquele momento não fazia mais sentido sua permanência, ela já havia feito sua parte, me fez sobreviver até ali, agora a história era outra.
No prazo marcado, voltei ao hospital como o doutor havia pedido; ao me ver, ele elogiou dizendo que eu nem parecia o mesmo que saiu de lá, depois que me consultou e tirou a sonda, disse que agora era só melhorar as escaras e partir para a fisioterapia. Esse foi um dia muito especial
Depois de tanto tempo vendo a alimentação descerem minha vida, naquele hospital, no quinto andar, com todos os funcionários de todos os setores, eu tive contato, fiz uma grande família ali, e eles ficaram muito felizes ao ver que aquele moribundo havia sobrevivido e que eles faziam parte da vitória.
A minha felicidade era maior por vários motivos, mas no momento, fiquei mais feliz por ver que eu os havia conquistados com muita perseverança e com compreensão, eu os compreendia e eles a mim, eu conhecia um pouco da vida de cada um deles, e eles contavam seus problemas para mim, e muitas das vezes queriam a minha opinião. Na época, vivíamos a implantação do plano real, que apareceu dizendo ser uma moeda forte, era uma loucura, quem tinha o tal do real, não sabia o que fazer, e quem não tinha não sabia onde encontrá-lo, eles estavam confusos, um queria trocar a geladeira, outro comprar uma TV nova, ou um carro usado, etc. Sei que todos tinham problemas, uns não sabiam o que comprar e outros não tinham como comprar o que precisavam, e assim eu os fui conhecendo melhor. Eu sabia quem eram contratados por prestação de serviço, e quem era funcionário público, não sabia quanto era o salário de cada um, mas sabia quanto a maioria deles ganhava pormês, e assim descobri que eles recebiam pouco, eles mereciam ganhar um salário mais digno, assim eles não precisariam ter mais de um emprego, mas na área de saúde em nosso país, ter dois empregos, se não for uma necessidade, é um hábito.
O doutor Calos Augusto Zucner disse que agora eu precisava de mais alguns dias para me recuperar, engordar um pouquinho, para começar a fazer fisioterapia, e que eu fosse paciente e que não desistisse nunca, eu poderia não ficar bom, mas tem gente que é assim e vive por muito tempo e vive muito bem, você agora tem que se adaptar à sua nova vida e adaptar as coisas do seu jeito e de acordo com suas dificuldades.
As suas palavras naquele momento foram muito importantes, mais uma vez ele estava me incentivando a lutar, a não me entregar. Saí dali com o propósito de fazer tudo que fosse possível para recuperar um pouco de minhas carnes e de meus músculos, que havia perdido naqueles longos onze meses e começar a fazer fisioterapia, mas eu sabia que não iria ser fácil, para o sucesso da recuperação era necessário superar dois problemas, que era cicatrizar por completo as escaras e procurar um urologista para resolver o problema urinário, que era tirar aquela sondaque permanecia em minha bexiga, uma grande fonte de infecções.
Já em casa, passados alguns dias, procurei um fisioterapeuta para saber o que poderia ser feito, mesmo estando tão debilitado, e ele disse que eu deveria começar a ficar sentado porque eu havia ficado deitado por muito tempo, e assim que as escaras cicatrizassem começaríamos com a fisioterapia. Fiquei muito animado e esperançoso com a possibilidade de uma nova fase em minha recuperação, o que eu não sabia é que era tão complicado aquele processo inicial, o que parecia ser fácil na verdade se tornou um grande pesadelo.
Quando me colocavam sentado, tudo começava a rodar e eu desmaiava, ficava desmaiado por alguns minutos, quando voltava a mim sentia muita dor na cabeça e vômito. Eu sabia que estava correndo risco, já que esses eram sintomas de que o sangue não estava circulando bem, devido ao tempo que fiquei deitado; assim, me faltava oxigênio. Começamos então elevando a cabeceira da cama, com o auxílio de algumas almofadas para equilibrar o corpo, que insistia em não ficar na posição desejada e ficava caindo para todos os lados, era o mesmo que tentar colocar um ovo em pé. Mesmo com esses procedimentos, todas as vezes que ficava sentado desmaiava e sentia enjôo e vômito, mas isto não era tudo, aquelas escaras ficavam em um local que ao sentar ficava comprimindo, mesmo não tendo (cem por cento) da sensibilidade, doía muito, não tinha um osso em meu corpo que não doesse, os ouvidos davam uns estalos e eu ia perdendo a audição, chegando ao ponto de não ouvir mais nada. Mesmo com todos esses problemas e com tantas dores, eu não desistia e tentava duas ou mais vezes ao dia.
Quanto menos tempo eu resistia sentado, mais vezes repetia o processo durante o dia, ficava o tempo todo tentando movimentar as mãos e os braços, porque ninguém pode imaginar a falta que faz você não conseguir movimentar os braços e as mãos, pelo menos para coçar a cabeça onde eu sentia muita coceira; eu não podia ver uma pessoa que eu logo pedia “Coça aqui pra mim um pouquinho!”, e eram muitas às dificuldades, você vira um bebê, com pensamento e conhecimento de adulto, você tem que ter uma pessoa ao seu lado o tempo todo.
Nesses momentos, eu só pensava em conseguir fazer, entre tantas coisas, duas que eram prioridade, comer e escovar os dentes com as próprias mãos, porque vocêtem uma sensação horrível quando outra pessoa vai escovar seus dentes, e na hora da alimentação, você não sabe se come ou se fica tentando adivinhar o que a pessoa que está dando a comida na boca está pensando, se você está demorando muito para mastigar e engolir, e muitas das vezes, você ainda não engoliu e a pessoa fica olhando pra você de braço estendido com o talher cheio de comida na direção da sua boca, aí você acaba engolindo muitas vezes sem mastigar direito; tem vezes que ela enche demais o talher, outra vezes põe só um pouquinho, e quando ela fica batendo com o talher no prato arrumando a comida o tempo todo com aquelas batidinhas que te deixa um pouco nervoso, exatamente porque você não sabe o que a pessoa está pensando, e quando você já mastigou e engoliu e a pessoa esta distraída e se esquece que está lhe dando comida, e depois de muito tempo você precisa perguntar se já acabou e ai ela diz que não, que estava distraída, isso faz você perder o apetite e o prazer por mais que seja uma comida gostosa.
Os dias se passavam, eu e minha família vivíamos as expectativas de minha recuperação, e também estava chegando o dia em que minha sobrinha Raiane iria para São Paulo para submeter-se à cirurgia que iria corrigiraquela anormalidade; ela estava uma princesinha, mas a cirurgia era indispensável; apesar dos seus encantos, ela tinha muitas crises e quando isso acontecia, ela ficava toda roxinha, lhe faltava ar, porém nos últimos dias ela estava bem; mas a cirurgia estava marcada e todos nós tínhamos medo de que o problema se agravasse e ela não resistisse.
Mas a tristeza parecia ter nos adotado e não queria nos abandonar, e dessa vez ela exagerou, Raiane fez a cirurgia e nas primeiras horas pós-operatórias teve duas paradas cardíacas e a princesinha não resistiu e veio a falecer, seu reinado durou seis meses, e foi o suficiente para conquistar muitos corações, ela era linda, mas o Pai Celestial estava precisando de uma menininha-princesinha e sua passagem por aqui foi para que mais uma vez soubéssemos o significado da palavra saudade.
Dias depois comecei a fazer fisioterapia nos membros superiores. Nos primeiros dias quase desmaiava de dor, o pescoço, os ombros e os braços, por estarem há muito tempo em uma só posição e sem movimentar, pareciam querer quebrar ou soltar os pedaços nas mãos do fisioterapeuta. Doía para qualquer um chorar e não foi diferente comigo. Eu tinha espasticidade em todo o corpo, ou seja, contração súbita e involuntária dos músculos quetêm a tendência de aumentar quando se tem infecções, e eu tinha muita infecção urinária, pois aquela sonda só fazia piorar. Minhas pernas estavam fininhas, bem magrinhas, tinham uma espasticidade terrível, elas não paravam nem encolhidas nem esticadas, elas se batiam o tempo todo e para todos os lados, não tinham direção nem controle, com esse vai e vem e com quatro escaras, duas em cada perna, aumentava o sofrimento e doía a noite toda, não me deixavam dormir e nem parar quieto, pois usava um colchão d’água e cada vez mais elas se batiam, movimentavam a água do colchão que balançava toda a cama.
À noite, colocávamos uma almofada, colocávamos as pernas em cima, presas com uma coberta amarrada de um lado a outro da cama e assim, quando elas se movimentavam, por pouco não caía da cama, e a água continuava se movimentando e, assim, passava mais uma noite sem dormir. Com tanto sofrimento, ficava imaginando, um outro dia vai amanhecer e pode ser diferente. Mas aquele dia se passava e mais uma noite se aproximava e tudo continuava do mesmo jeito.
Eu ouvi falar que no Rio de Janeiro havia uma clínica de reabilitação chamada ABBR, mas que era muitodifícil conseguir uma vaga e um dos critérios é que o paciente não poderia ter nenhum tipo de ferimento, como escaras, por exemplo, e essas eu tinha cinco. Sendo assim, não daria para tentar uma vaga naquele momento, daí descartei aquela possibilidade, mas eu acreditava e tinha muita fé, que dias melhores estariam por vir, era incansável, tinha muita paciência e ficava tentando movimentar mãos e braços, eu não aceitava aquela situação, não podia, ou melhor, não queria acreditar que aqueles braços e mãos que eram tão ágeis e rápidos pudessem estar, assim, sem responder a nenhum comando, mesmo com os meus repetidos e incansáveis estímulos, eu acreditava que se conseguisse movimentar os braços e as mãos, então poderia pegar em alguma coisa ou em algum lugar e me arrastar de um lado para o outro; pensando assim continuei insistindo e estava certo. Um dia senti que os músculos dos braços começaram a responder aos estímulos, eu mandava mensagem e os músculos movimentavam um pouquinho, mas não tinha músculos, só um filetinho debaixo da pele, os braços estavam muito fininhos. Comecei a acreditar que assim que fossem engrossando, os movimentos iriam aumentando e eu estava tomando vitaminas e estava me alimentando bem. Agora era questãode tempo, tudo era baseado no que o fisioterapeuta me dizia.
Passaram-se uns dias e o dedo mindinho começou a movimentar, eu não acreditava, mas era verdade, era dor que eu começava a sentir, os braços e mãos começaram a doer, a sensibilidade estava voltando. Já podia sentir meus braços e mãos. E junto com o retorno da sensibilidade, também aumentava a dor de todo o corpo. Não dá para descrever onde é que doía mais, o que me fazia acostumar com aquela dor que só fazia aumentar a cada dia, era a certeza de que com a dor estaria vindo a cura para aquele corpo que por tanto tempo estava adormecido.
Mesmo com tanta dor, o que me confortava era saber que ela estava anunciando uma nova perspectiva para minha vida, e agora não era mais uma cabeça e um coração, mas ali havia um corpo e que os três faziam parte de um só ser. Eu era cercado de muito carinho e muito amor, de minha família, de Kátia e de meus amigos. Um certo dia, uma senhora amiga de minha família e mãe de um grande amigo meu foi me visitar e ao me ver, falou que eu estava com uma aparência ótima, estava limpinho, cheiroso e que o sorriso continuava o mesmo. Fiquei muito feliz com as suas palavras, elas vieram confirmar o que exatamente eu estava sentindo que era limpo e cheiroso. Os cuidados eram outros, o ambiente não podia ser comparado a uma enfermaria de hospital público. Não tinha mais aquele barulho infernal. E o sorriso sempre foi a minha marca registrada, onde quer que eu chegasse, a alegria chegava junto e eu nunca perdi a fé e a esperança de que eu fosse superar aqueles obstáculos. Mas tem uma coisa que foge ao seu controle, quando, por exemplo, você está hospitalizado e seu quadro clínico piora muito ou um pouco e surgem aqueles comentários de pessoas que não têm contato com você e não têm uma informação verdadeira, e as poucas notícias que chegam até elas, eram de costume aumentar não sei quantas vezes mais e faziam comentários do tipo “ele não passa de hoje ou amanhã, dizem que sua vida estar por um fio e a qualquer hora ele vai dessa para melhor”.
Tinham muitos amigos que ficavam esperando que eu melhorasse um pouco para irem me visitar, mas ficavam muitos assustados com aquelas notícias das pessoas desinformadas que insistiam em me enterrar vivo, e me matavam cada vez que alguém perguntava por mim; assustados meus amigos iam adiando a visita. Certo dia, um deles não queria mais esperar, convidou sua mãe para acompanhá-lo até o hospital e me fazer uma visita, chegando lá ele ficou no corredor e sua mãe entrou no quarto cumprimentou-me e disse que ele estava no corredor tentando encontrar coragem para entrar; pedi que me deixasse só com o rosto descoberto para que ele não me visse tão magrinho e não se assustasse, sua mãe foi até o corredor e o trouxe até o quarto e eu fiz tudo pra não falar em problemas, respondi suas perguntas muitas vezes com outras, para quebrar o clima e aos poucos ele foi relaxando e entrando no clima do ambiente e já dava risadas com as histórias que eu contava. Ele e sua mãe saíram dali com a certeza de que foi muito difícil tomar a decisão de ir até aquele quarto de hospital visitar-me, mas também saíram prometendo voltar, e disseram que iriam falar com todos nossos amigos que era para eles irem me visitar porque eu continuava o mesmo, apesar de todas as atribulações.
No dia seguinte mais um foi visitar-me e assim cada um que saía dali tinha outra idéia do que estava acontecendo de verdade, e um falava com o outro que falava pra outro, assim todos foram me visitar, e tiveram uns dois que quando estavam tristes e com problemas iamme fazer uma visita, pois diziam que eu era um exemplo de perseverança para eles e que eles saíam dali com forças para enfrentar qualquer problema, e quando eles abriam os seus problemas para mim e me perguntavam qual era a minha opinião, eu falava o que eu pensava a respeito, pois eu os conhecia bastante para isso.
Certo dia foi à vez de Célio Wagner, que estava com problemas, não sabia como resolvê-los e lamentava muito; ao saber do problema dei minha opinião, na verdade eu disse como deveria fazer, já que aqueles problemas eram antigos e eu conhecia os dois lados e se ele fosse fazer como estava planejando, só aumentaria cada vez mais. Tempos depois fiquei sabendo por intermédio de um amigo nosso, que ao lamentar o acontecido comigo ele disse que mesmo com ele naquela cama no hospital resolveu um problema que estava me tirando o sono, eu lamentei que ele só tivesse se lembrado desse fato, pois foram tantos, os que resolvi em outras oportunidades e até mesmo mais complicados.
Ali em minha casa eu estava limpinho e cheirosinho, e o sorriso continuava o mesmo, disse-me aquela senhora, eu era cercado de muito carinho, estava fazendo fisioterapia os braços já apresentavam os primeirosmovimentos, e é claro que os problemas existiam e não eram poucos e com isto eu me sentia triste. Assim, sentia muita vontade de me aproximar de Deus, mas parecia ser tão difícil, cheguei a pensar que não estava fazendo por merecer aquele amor que Deus provou ter por mim, eu sempre tive muita fé em Deus e depois que ele salvou a minha vida por tantas vezes em tão pouco tempo, então não restaram duvidas, só me aproximando do Pai Celestial cada vez mais poderia encontrar a paz para o meu coração e minha alma que estavam passando por uma grande provação.
Certo dia, Kátia convidou-me para ouvir uma mensagem com dois rapazes que eram missionários d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, aceitei o convite e combinamos que o encontro e a mensagem seriam em minha casa; já que eu não poderia ir à casa de Kátia, em minha casa recebemos os missionários, dois rapazes muitíssimos educados que, depois das apresentações só falaram em coisas boas, foi uma conversa mansa, serena, eles falaram em Jesus Cristo com tanto amor que dava para ver em seus olhos o amor que eles tinham pela missão, eles falavam em Jesus Cristo como se eles já tivessem visto ou falado com ele, pudeperceber o tamanho da fé pela qual eles eram movidos, eu me senti muito bem ao ouvir aquela mensagem, só um tempo depois é que eu descobri que a mansidão e a serenidade em suas palavras vinham do espírito do Senhor.
Kátia e eu tínhamos uma formação religiosa que nos foi dada pelos nossos pais e assim sentíamos o desejo de encontrar uma religião que nos aproximasse um pouco mais de Deus, Kátia havia pesquisado algumas religiões mas não tinha se decidido por nenhuma delas, gostamos muito daquela mensagem deixada pelos missionários, eu não havia pesquisado nenhuma religião, mas todas as religiões deixaram mensagens, oraram por mim, Naquele período, quando me encontrava hospitalizado, sei que todos tinham um só propósito, que era orar ao Pai Celestial por minha recuperação, cada qual usava uma doutrina diferente isso me fazia pensar em qual seria a verdadeira, já que todos usavam a Bíblia Sagrada como princípio e cada um interpretava de um jeito; diante de tantos problemas surgiu mais esse que era essa dúvida de como proceder diante de tantas religiões. Decidi então ter como base o que eu já tinha como verdade, que o Pai Celestial e seu filho Jesus Cristo poderiam ouvir minhas orações mediante a minha fé, independentemente da religião.
Eu achava que deveria ter em algum lugar uma outra Escritura que pudesse diferenciar uma religião das outras, e que pudesse junto à Bíblia, para explicar coisas que eu não entendia, quando conheci os missionários ganhei um livro que se chama o Livro de Mórmon e os missionários me pediram que eu orasse e perguntasse se aquele livro e seus ensinamentos eram verdadeiros e se eu o fizesse com fé iria obter a resposta que eu estava procurando.
Ao ler aquele livro fiz descobertas maravilhosas que era o que estava faltando para que eu entendesse o porquê daqueles rapazes falarem em Jesus Cristo com tanto amor, que era como se eles já tivessem visto e falado com ele.
Kátia e eu ouvimos algumas palestras, pesquisamos bastante sobre a doutrina que tem como escrituras a Bíblia Sagrada, O Livro de Mórmom, Doutrinas e Convênio, Pérola de Grande Valor e outras publicações inspiradas, que nos revela a veracidade a cada momento que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e verdadeira que Jesus Cristo vive e é nosso Salvador.
Kátia e eu decidimos nos batizar, Kátia se batizou primeiro e eu demorei um pouco mais, pois não dava para ir até a Igreja onde tinha tudo organizado para essasocasiões. Passados mais alguns dias, não queria mais esperar e me batizei em uma piscina montada em meu quarto em minha casa e assim me tornei membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Passaram-se seis meses desde que sai do hospital e estava em minha casa, daquelas escaras só restava uma que ficava na região do glúteo e havia ficado muito funda que dava para ver o osso e machucava constantemente.
Continuava fazendo fisioterapia, fazia no setor de fisioterapia do hospital e em casa, eu era incansável e mesmo quando estava deitado em minha cama, ficava movimentando os braços que já estavam respondendo bem às mensagens, e eu estava convicto de que se começasse a movimentar os braços já era um bom começo, pois poderia começar a alimentar-me com minhas próprias mãos.
E assim que apareceram os primeiros movimentos, eu ficava todo tempo que estava acordado tentando levar as mãos até a boca, passado uns dias, quando eu estava deitado já conseguia levar as mãos até a boca, mas quando estava sentado não conseguia, porém eu tinha certeza que um dia conseguiria, que era questão de fazer mais tentativas; dias depois faltava um pouquinho só, e maisuns dias, eu já levava as mãos até a boca. Certo dia, pedi à minha irmã que amarrasse uma colher com ataduras em minha mão direita, que naquele dia eu iria comer com minha própria mão. Mas ainda não foi naquele dia, com o peso da colher mais a comida, tornou-se mais difícil, só consegui levar até a metade do caminho, a decepção de não ter conseguido só me fazia acreditar que estava praticando pouco e que deveria praticar mais vezes ao dia.
Quando fui ao setor de fisioterapia nas primeiras vezes, quando o fisioterapeuta começava manipular meus braços eu chorava de dor nos ombros, sua assistente muitas vezes ficava com dó e dizia: “Ele está sentindo muita dor”, mas o fisioterapeuta fingia não ouvir ou não estar entendendo, eu resistia a toda aquela dor porque acreditava que era questão de mais alguns dias, e aquela dor iria ser substituída por movimentos e que logo poderia fazer mais uma tentativa com a colher, eu já estava com outra aparência, tinha engordado um pouco.
Certo dia comentei com o meu fisioterapeuta que ouvi dizer que no Rio de Janeiro tinha um centro de reabilitação que se chamava ABBR, muito bom, mas que era muito difícil encontrar vagas, até para fazer umaavaliação, era muito complicado, e ele perguntou: “Você tem vontade de fazer um tratamento lá?”, Eu respondi que sim, que faria qualquer sacrifício que fosse para mudar o quadro em que me encontrava, que faria tudo que fosse bom e que viesse me reabilitar para a vida.
Dias depois, o fisioterapeuta disse sem fazer muito rodeio: “Olha, marquei uma avaliação para você em um grande centro de reabilitação, o melhor que eu conheço, mas não pode ter nem uma escara, nenhum tipo de lesão aberta”. Mas esse não era meu caso, eu ainda tinha uma escara aberta, comecei a sonhar com a possibilidade, eu tinha quarenta dias para me livrar daquela escara. Junto de uma nova expectativa, vieram também algumas duvidas, e eu me perguntava, se a escara estaria cicatrizada e se não iriam aparecer outras, e essa não era a única dúvida, e o que era uma avaliação? O que significava isso no meu caso? Perguntei ao fisioterapeuta, e ele disse: “Você vai ser examinado por uma equipe de médicos e fisioterapeutas, enfim, uma equipe que vai avaliar e vai dizer se você tem chance de recuperação, o que pode melhorar no quadro em que se encontra, se você for legível a um tratamento, assim que tiver uma vaga, será chamado para se internar e começar o tratamento”,
Depois das explicações, que só fizeram aumentar ainda mais as minhas expectativas, eu passava dia e noite pensando nisso, e mesmo quando estava dormindo sonhava com aquela possibilidade. Nesse período, eram muitos os questionamentos, batia também muito medo do que aquela equipe iria dizer – e se eles dissessem que não tinha mais nada a ser feito no meu caso? – Nestes momentos minha cabeça fervia de tantos questionamentos.
Mas tinha momentos de otimismo, por menor tempo que fosse, era bem mais forte e ai eu era levado ao otimismo, acreditava que tudo iria dar certo, que eu seria legível ao tratamento e que em breve teria uma vaga para iniciá-lo, e quem sabe, pudesse me reabilitar para realizar as coisas mais simples que um ser humano precisa para sobreviver.
Os dias foram passando e aquela escara também estava cicatrizando, os braços estavam mais fortes, já conseguia botar as mãos na cabeça, então, fiz o teste com a colher, bem cheia de comida e dessa vez consegui levar até à boca muitas colheradas, foi um momento de muita felicidade, agora eu poderia mastigar e engolir sem pressa e poderia descansar o queixo que doía muito. Eu digo que foi um momento de muita felicidade, é porque estouescrevendo e todos nós sabemos que não dá para escrever ou descrever tudo que sentimos e o que eu senti naquele momento não dá nem para imaginar, só sentindo mesmo, para saber o significado daquele instante de felicidade.
Os quarenta dias se passaram, as escaras cicatrizaram e eu estava pronto para fazer aquela avaliação. Passei todos aqueles dias orando muito e com muita fé e esperança de que tudo fosse dar certo, de que eu estivesse em condições de fazer a avaliação e ser legível, para uma futura internação e uma tentativa de reabilitação, naquele que era considerado o maior e melhor centro de reabilitação que eu ouvi falar.
Com a aproximação e talvez com a ansiedade, já que o grande dia estava chegando, certa noite sonhei que eu havia sido aprovado na avaliação para fazer o tratamento, e no sonho eu me vi internado lá na instituição, só que me faltavam roupas, fiquei tentando saber o por quê daquele sonho, não cheguei a nenhuma conclusão, mas pedi para minha irmã que colocasse em uma mochila: uma toalha e algumas roupas, escova de dentes, as Escrituras, pois eram a minha leitura favorita, que ia levar um dinheirinho a mais para uma emergência, e assim o fizemos, eu não contei o sonho para ninguém, é claro, pois poderia se tornar uma brincadeira ou uma piada muito sem graça. Chegado o dia, viajamos minha irmã, o fisioterapeuta, o motorista e eu. Chegamos cedo, logo ao entrar, fiquei assustado com o número de pessoas em cadeiras de rodas, fui para um apartamento e de tempo em tempo era visitado por um profissional diferente, eram eles: clínicos, fisioterapeutas, assistentes sociais, enfim de cada setor da ABBR, um representante; esta avaliação durou até o fim do dia.
Ao término da avaliação eu tinha quase certeza de que era legível ao tratamento, com base na expressão dos avaliadores. O que me dava essa certeza é que eu fazia muitas pergunta e suas respostas me deixavam mais tranqüilo, na verdade eu analisava cada examinador, chegando a ser engraçado. Todos me examinavam e eu examinava a todos. Quando eu digo que eu tinha quase certeza é porque eu os avaliava usando critérios, como seus gestos, suas perguntas, suas respostas e as minhas perguntas que não eram poucas. A incerteza ficava por conta das dificuldades que encontrei para entender o que se passava na cabeça de cada um deles, usando aqueles critérios para avalia-los, pois eles eram educadíssimos e tinham um carisma que me chamou a atenção, poispareciam me conhecer há muito tempo.
Lembro-me da última avaliadora, ela não é o que podemos chamar de mulherão, pois era de estatura mediana e provava em cada ato que tamanho não é documento e ocupava um espaço enorme com sua bravura e sua generosidade e simpatia. Sendo ela a última avaliadora, perguntou-me se eu ficaria feliz caso tivesse uma vaga e eu ficasse internado para o tratamento e eu respondi que sim, mesmo sem saber se tinha sido ou não legível ao tratamento, que era a minha maior preocupação naquele momento, pois a vaga era uma questão de tempo e paciência.
Minutos depois a referida avaliadora veio aferir a minha pressão arterial e minha temperatura. Já era noite, ela abriu um pouco a porta, entrou e me disse que iria abrir a porta da esperança para mim, então entrou outra pessoa com toda a documentação da internação prontinha. Eu não acreditava no que estava ouvindo, mas minha irmã e meu fisioterapeuta ajudavam a confirmar, eu não disse nada, apenas agradecia ao Pai Celestial por mais uma vez ele estar sendo generoso comigo e ao mesmo tempo tive uma sensação de muito medo, pois agora eu ficaria ali sozinho e minha família estava a quase trezentos quilômetros dali. Minha irmã e o fisioterapeuta voltaram e eu fui para uma enfermaria que tinha três leitos, dois já ocupados.
Ao nos apresentarmos, um dos pacientes falou que a Instituição era boa, mas que a minha cama era assassina, que ele estava ali há seis meses e já tinha visto a morte de dois e que o último paciente foi para casa no final de semana e não voltou mais, desistindo do tratamento. Então, eu, brincando lhe disse que ainda não tinha falado o meu sobrenome, e ele que parecia muito curioso perguntou qual era. Eu disse que era Boa Morte. Não consegui assusta-lo, pois ele não acreditou. Já o outro paciente era um senhor muito educado que morava numa cidade vizinha da minha, então nos identificamos melhor. Tínhamos mais assuntos, pois conhecíamos lugares e personalidades da região e eu já tinha morado em sua cidade por um período e o acidente ocorreu na chegada daquela cidade.
Nos primeiros dias, assim como na chegada, fiquei muito assustado com o número de pessoas em cadeiras de rodas, mas com o passar do tempo e conhecendo o problema de cada um deles, fui me acostumando com aquela situação. Por mais que a cada dia que passasse eu me deparasse com um caso triste, não era motivo para desistir, vendo que tantas pessoas estavam ali para fazerum tratamento, tentar se reabilitar. Havia pessoas de todas as idades e os problemas eram muitos. Os pacientes mais velhos, muitas das vezes, eram vítimas de AVC (Acidente Vascular Cerebral), alguns eram animados, fazendo fisioterapia e com fé e esperança de que iriam ficar bons, que voltariam para casa e também voltariam a trabalhar; outros, vítimas de acidentes de automóveis e motos, muitos, vítimas de balas perdidas ou vítimas de assalto; mas o que me deixava muito triste eram as criancinhas, vítimas de acidentes de qualquer natureza ou que tinham nascido com problemas.
Eu ficava imaginando quanto sofrimento para aqueles pais que, com certeza, haviam planejado um futuro tão diferente daquele para seus filhos. Todavia pude observar que eles cuidavam com tanto amor e carinho dos seus filhinhos, que dava para ver que eles se doavam em dobro e por esta razão, as crianças eram muito amadas apesar de seus problemas.
Depois que presenciei tudo isso comecei a imaginar que o meu problema era muito difícil, mas não era diferente de muitos ali, pois se eu não movimentava os braços como antes, agora só os movimentava um pouquinho, mas eles estavam ali, eu podia vê-los e senti-los. E aqueles quenão tinham mais braços ou não tinham pernas? Estavam mutilados.E havia aqueles que faziam fisioterapia para a doença não progredir, o que será que eles pensavam da minha situação?
Comecei a acreditar que estava certo, quando não me entreguei em nenhum momento, nem nos momentos em que parecia que tudo estava terminado, que era chegado o fim. Mais uma vez era hora de me apegar na esperança e na fé em Jesus Cristo, que me fez resistir a tantas atribulações e começar uma nova etapa em minha vida. Não precisei de muito tempo para chegar a essa conclusão. Naquela semana eu aprendi e entendi coisas que levaria anos apara entender. Uma hora era um dia, um dia era uma semana, uma semana era um mês e um mês era correspondente a um ano. Você tem duas opções: ou aprende que a vida é muito mais importante do que você imaginava e começa a vivê-la intensamente, como se cada minuto fosse o último de sua vida ou você se apega ao passado e fica imaginando que não vai mais tomar banho de mar ou de cachoeira, que não vai mais jogar futebol, que não vai mais dançar, que não vai mais estudar, que não vai mais arrumar uma namorada ou, se já tem, que vai perdê-la, e se é casado, que vai serabandonado pela esposa ou que seus filhos não te amam mais e que você não consegue viver com limites, ser uma pessoa limitada, com preconceito de você mesmo e que não consegue viver em uma cadeira de rodas ou com muletas para se locomover. Certamente você vai achar que o mundo acabou para você, que a vida não tem mais sentido e, é claro, que não é só a essa meia dúzia de coisas que relatei que você vai se apegar, mas sim a todo o seu passado.
E quanto mais você já viveu, maior é seu passado, e se você se apegar a ele, você vai ser vítima dos seus pensamentos, do seu egoísmo, e de sua falta de esperança, de fé em Jesus cristo o nosso Salvador e aí certamente você vai ser vítima de você mesmo.
Durante um ano eu tentei de tudo para viver, para superar aquela fase ruim que parecia não ter fim, porém, tinha vencido aquela batalha e agora eu só tinha a ganhar, já que estava ali para tentar com a fisioterapia me reabilitar fisicamente para a vida. Nos primeiros dias tudo era novidade, cada dia era diferente do outro na Instituição, mesmo você sendo legível ao tratamento e sendo interno para fazer o tratamento, tem que esperar por alguns dias, até organizar os horários e os setores que você vaifreqüentar e de quem você vai ser paciente.
No início eu não freqüentava muitos setores, porque ainda tinha que ser avaliado por um urologista, que no momento a Instituição não tinha, pois eu usava uma sonda que precisava ser removida. Não procurei um urologista particular, porque fazia parte do tratamento o acompanhamento de um profissional na área de urologia, já que todos os pacientes com lesões medulares são propensos a infecções urinárias. Enquanto aguardava o urologista, eu fui fazendo fisioterapia, mas tinha muitas infecções renais.
Um dia, um dos auxiliares dos fisioterapeutas me colocou muito no meio do tatame, exatamente onde estava uma emenda que unia suas duas partes. Não sabemos como algo me feriu num local em que tinha cicatrizado uma escara. A Instituição não aceitava pacientes com escaras, mas as tratava caso fossem adquiridas lá. Dependendo da gravidade da lesão e não dando para ir para o tratamento nos setores, fazia fisioterapia no leito. Não era o mesmo que fazer nos setores, mas pelo menos não se perdia tudo o que houvesse ganhado na fisioterapia. Porém, se você leva muito tempo só na fisioterapia feita no leito, perde muito tempo, que é muito precioso naInstituição.
Com o passar do tempo a ABBR contratou um urologista. Eu fui seu primeiro paciente. Ele pediu alguns exames, dentre eles uma urografia, através da qual se descobriu que eu tinha três cálculos renais no rim direito, sendo dois médios e um grande, mais ou menos do tamanho de uma castanha de caju e na bexiga tinha partículas indefiníveis no tipo e na quantidade.
O fato de eu não conseguir expelir nem os líquidos nos levou a supor que essas partículas foram se acumulando na bexiga ao longo do tempo. O urologista, que também era cirurgião, disse que só poderia remove-las através de cirurgia e que seriam necessárias duas cirurgias: uma no rim e outra na bexiga, sendo uma de cada vez, num período de tempo mais curto possível, entre uma e outra. Aquelas notícias anunciavam que mais uma vez teria um grande problema.
Mas essas notícias não me abalaram nem me deixaram triste, só fiquei decepcionado porque teria que parar o tratamento fisioterápico por um bom tempo. Eu já estava acostumado com as notícias ruins, pois já tinha passado por tantos problemas que uma ou duas cirurgias a mais não me abalariam, mesmo sabendo que todacirurgia é arriscada por mais simples que seja; mas eu continuava com muita fé e esperança de que mais uma vez o Pai Celestial estaria ali para me salvar, enquanto não era decidido onde e quando faria a cirurgia.
Continuava fazendo fisioterapia e agora com mais vontade, pois sabia que perderia todo aquele trabalho e que tinha consciência de que quanto mais forte estivesse, mais rápido seria a minha recuperação no pós-operatório. O impasse continuava, não sabia onde nem quando seria a cirurgia. Eu me concentrava apenas em uma cirurgia, já que as duas não iriam ser feitas no mesmo dia. E eu já tinha problemas demais para ficar pensando em duas cirurgias. Os problemas começaram quando não tinham recursos para fazê-la, pois era particular.
Eu não tinha nenhum conhecimento de como era fazer uma cirurgia naquela capital, onde eu só ouvia falar que era muito complicado, a não ser que estivesse muito mal e fosse uma emergência e ainda assim era complicado. Digo isto por experiência própria: por duas vezes naquele período fui até um daqueles hospitais nos quais estava previsto fazer as cirurgias, para fazer uma ultra-sonografia e fiquei o dia todo esperando numa maca, na emergência, esperando para ser encaminhado para o tal exame equando isto aconteceu, fui abandonado no corredor esperando que alguém me conduzisse até o local do exame, quando eu pedia a alguém para me conduzir até lá, ouvia sempre a mesma resposta: ”Eu não posso, tem uns rapazes que são responsáveis por este trabalho”. Quando eu perguntava por estes rapazes a resposta era que tinham dado uma saidinha, mas que já voltavam.
Mas o pai Celestial é perfeito, quando eu já não agüentava mais aquela espera e o sofrimento de estar naquela maca dura e com os pés pendurados; apareceu um daqueles enfermeiros da ABBR, acompanhando um paciente deficiente físico e visual e quando me viu, tomou as providências e me conduziu até o local do exame. Depois de muito esperar, foi feito o exame e aí tinha outro problema que era voltar para a emergência e ser liberado para voltar para a ABBR. Fiquei esperando no corredor até às 21 horas e depois fui levado para um cantinho na emergência e fiquei na maca até o outro dia. Quando amanheceu, a assistente social da ABBR entrou em contato e me levou de volta para a ABBR.
Passei 24 horas naquele hospital, com febre, e não tomei nenhum antitérmico. Sei que fui culpado em aceitar ter saído da ABBR sem alguém para me acompanhar, masnão tive escolha, era uma emergência e não deu tempo de avisar a minha família que morava a quase trezentos quilômetros dali e eu achei que não daria tempo de chegar alguém para me acompanhar e me foi feita a promessa de que só faria o exame e voltaria. Isso foi verdade, só fiz o exame e voltei, mas só que 24 horas depois de muito sofrimento. Os dias se passaram e eu estava esperando o urologista decidir o que seria melhor e ele havia sido convidado para assumir o setor de urologia de um grande hospital. Ele estava pensando em aceitar e assim que assumisse, seu primeiro paciente seria eu, porém, eu já estava vivendo a poder de antibióticos fortíssimos, pois tinha infecções constantemente.
Já não fazia fisioterapia nos setores, só no leito e eu era mais um paciente clínico, a Instituição era de reabilitação e só tratava pacientes clínicos e, principalmente, do SUS, se fossem pequenos casos e com medicamentos mais baratos, pois o SUS não cobria estes medicamentos, porque eram muito caros.
Passados alguns dias, o doutor assumiu a setor de urologia de um grande hospital e o serviço social da ABBR organizou a minha cirurgia que seria a primeira. Desta vez eu contratei um enfermeiro particular, que conhecia quase todo o Rio de Janeiro e assim contratou mais um enfermeiro para revezar com ele, porque desta vez eu não queria ficar a mercê dos funcionários do hospital.
A cirurgia foi marcada para uma segunda-feira, só que eu deveria me internar no domingo e assim o fiz. Naquele domingo o enfermeiro chamou um táxi e fomos para o hospital, já fazia muito tempo que eu não andava de carro sentado na frente e muito menos em uma cidade linda como o Rio de Janeiro. Sabia que não estava fazendo turismo, mas pedi ao enfermeiro que não tivesse pressa para chegarmos ao hospital, ele entendeu a minha mensagem e pediu ao motorista que passasse por uma lagoa muito famosa, que tinha uma paisagem linda e não ficava muito longe, era caminho.
Por alguns minutos eu me desliguei dos problemas e curti como se estivesse apenas passeando, fazendo turismo mesmo. Por alguns momentos eu busquei forças para não chorar, não porque homem não chora, nem por vergonha, mas porque não tinha nada a ver com aquele momento, com aquela paisagem que era linda, com o vento que tocava o meu rosto, com aquelas pessoas que caminhavam e pareciam estar tão felizes. Com certeza, o motorista e o enfermeiro não entenderiam que aquele cachoeira de alegria, pois só quem passa por um problema e tem que ficar preso a um hospital, em um leito ou em uma cadeira de rodas e ama a natureza e a vida como eu, pode entender o que é chorar de alegria naquele momento.
Mas tudo isto durou pouco tempo, com a aproximação do hospital mudava toda a paisagem e com certeza só não mudava a vontade de chorar, só que agora era de tristeza e de solidão. Sentia-me muito só.
A chegada ao hospital foi rápida assim como a internação, pois o doutor e a assistente social tinham organizado tudo e não encontramos problema nenhum na internação, até o número do leito nós já sabíamos, assim foi fácil. Porém, ao chegar no hospital e entrar na enfermaria, pude constatar o que era um hospital público e abandonado, quanta coisa faltava ali, numerando apenas o que vi no quarto e do meu leito, faltava forro de cama, termômetro, lâmpadas, as janelas não fechavam, as tomadas não funcionavam, era um emaranhado de fio só, e aí tinha sempre um curioso que dava um jeitinho, emendava um fio dali outro daqui para funcionar um ventilador, por exemplo, o banheiro era um absurdo, o vaso não funcionava, e no lugar do vaso tinha um cano, comum registro que não fechava nem abria, de modo que aquele cano saia água dia e noite, só que o ralo não escoava a água completamente e o banheiro ficava alagado; por muitas vezes o cheiro de esgoto invadia o quarto e fedia muito, e ainda tinha umas baratas bem pequenas, em muita quantidade, que anunciavas que as refeições estavam chegando. Assim que as refeições chegavam, elas faziam um barulhão, pois apareciam de todos os lados, tinha umas que vinham pelos tubos por onde passava os fios de energia, e o barulho que elas faziam, causava espanto parecia que elas vinham combinando, “vamos comer tudo por aqui”, e à noite, com a falta das lâmpadas, elas só faltavam comer os pacientes, já que comiam tudo que encontrassem pela frente.
Naquela tarde, logo que cheguei e ao entrar na enfermaria, um homem que lá estava, perguntou-me: “Você é jogador de futebol? Você se parece muito com jogador de futebol de um time aqui do Rio”. Só que ele falou o nome de um time muito famoso e, brincando lhe respondi: “Já joguei futebol, mas não atingi a fama”. Logo pude perceber que se tratava de uma pessoa simples, pois em sua simplicidade, e até um pouco de ingenuidade, poderia acreditar que um jogador de um time famoso do qual elehavia citado o nome, poderia estar se internando ali para fazer uma cirurgia. Confesso que achei muito simpático o jeito com que fui recebido por aquela inocente pessoa, então pensei: “Logo que me acomodar irei conversar um pouco com ele, saber seu nome e o que faz aqui!”.
Só que eu não imaginava que pouco tempo depois, aquele simples homem fosse ficar aos gritos, pedindo por socorro e se abanando com um pedaço de papelão e gritando: “Eu vou morrer, eu vou morrer, socorro! O enfermeiro que me acompanhava, sensibilizado com o que estava vendo, foi até o posto de enfermagem pedir ajuda, que alguém viesse ajudar àquele pobre homem, e só depois de uns quarenta minutos uma auxiliar de enfermagem chegou na porta e disse para o homem que andava por toda enfermaria, dizendo que iria morrer: “Deite-se aí e fique quieto porque você já foi medicado” E sem entrar na enfermaria voltou para seu posto. O homem, assim, obedeceu, deitou-se na cama, ficou gemendo por algum tempo e depois ficou quietinho, como havia determinado a enfermeira, mas só que quando ele gritava e pedia socorro e dizia estar morrendo e ele sabia o que estava dizendo, pois ficou quietinho não apenas por ser obediente, mas porque havia anunciado, ele acabava de morrer. Sóbem mais tarde a enfermeira apareceu para fazer os medicamentos e viu que o homem estava morto, quando o balançou para acordá-lo para tomar os medicamentos, ele estava duro e gelado.
Fiz de tudo para não me deixar levar por nenhum sentimento que me deixasse triste ou deprimido, pois no dia seguinte tinha que me submeter a uma cirurgia. Porém, não pude deixar de imaginar o que aconteceu com aquele moço. Será que ele estava em estado terminal? E se ele fosse medicado no momento em que gritava socorro não teriam evitado sua morte? Fiquei pensando se a enfermeira não havia sido negligente, mas de uma coisa eu tinha certeza: ela foi desumana, sequer entrou na enfermaria e foi muito severa em sua ordem: ”Deita aí e fica quietinho!”
Da janela do meu quarto dava para ver a hora no relógio da Central do Brasil, pois era todo iluminado. Já tinha ouvido falar e visto na televisão, agora eu contava as horas marcadas naquele gigantesco relógio que estava ali na minha frente. No dia seguinte, o enfermeiro que me acompanharia na cirurgia não havia chegado; puseram-me na maca e fui para o corredor que dava acesso ao centro cirúrgico, o qual tem fila para entrar, e se você não tem alguém que te acompanhe, você vai ficando para trás; e eu ainda cometi o erro de estar de relógio e de aliança e aí chegou a gerente do setor e disse que ali tinha um paciente que estava até de relógio. Ainda bem que ela não viu a aliança, mas foi logo dizendo que era para me tirar dali porque estava atrapalhando. Fiquei muito assustado com o que ela disse, porque sabia que a equipe médica só estava esperando que eu entrasse para iniciar a cirurgia. De repente, alguém me perguntou pelo meu sobrenome “Boa Morte”, o que eu estava fazendo ali. Quando eu olhei, era a mesma doutora que no dia da minha internação na ABBR disse que iria abrir a porta da esperança para mim. Contei o que estava acontecendo e Lea, imediatamente, tomou as providências para que eu entrasse para o centro cirúrgico, pois era a anestesista da equipe que iria me operar.
Já no centro cirúrgico e com muito cuidado, dizia que era para ter muito cuidado ao passar-me de uma maca para outra, pois eu era um paciente muito especial, ou seja, que eu não tinha nenhum movimento, mas tinha espasticidade e por isso a qualquer momento as pernas poderiam movimentar-se sem direção e sem controle, que eu era um paciente muito limitado, que estava ali sozinho e só tinha ela e o doutor de conhecidos. Disse estarpreocupada com a minha reação durante a cirurgia.
Por volta das treze horas, acordei com uma pessoa me chamando, era um enfermeiro responsável pelo setor de pós-operatório e ele dizia que tinha alguém que queria saber como eu estava me sentindo, se eu estava me sentindo bem e que me levaria para a enfermaria. Vendo que eu estava bem, me transferiu para a enfermaria e quem estava me esperando era um mensageiro de Kátia, já que ela não tinha estrutura para enfrentar aquele hospital e sua mensageira era ninguém mais que Dona Wilma, sua mãe e minha grande amiga. Ela ficou um tempinho e foi embora. Só depois fiquei sabendo que ela não tentou, achou tudo muito feio e muito velho. Ainda bem que ela não tentou ir ao banheiro, pois nem o pessoal da limpeza gostava ou até mesmo conseguia entrar, pois dizia que era uma lagoa, só que no escuro.
Fiquei quatro dias após a cirurgia naquele hospital, e o enfermeiro que me acompanhava teve que levar forro de cama de sua casa. Passados esses quatro dias, voltei para a ABBR e enquanto me recuperava da cirurgia, fazia fisioterapia no leito, até ser liberado para os setores. Na cirurgia foram removidas setenta e quatro pedras pequenas de minha bexiga. No começo foi difícil acreditar que nossoorganismo fosse capaz de produzir corpos estranhos assim, mas, passados alguns dias, tudo parecia estar bem e o doutor liberou-me para fazer fisioterapia nos setores. a intenção dele era recuperar um pouco a condição física que eu havia perdido naquele período, e que em breve faria a outra cirurgia para remover os cálculos que estavam no rim direito.
Passados mais alguns dias, comecei a sentir febre muito alta e os exames acusaram uma infecção renal, isso anunciava que os problemas estavam de volta, Eu sabia que era preciso fazer outra cirurgia e que dessa vez seria mais difícil do que da primeira, mas imaginava fazê-la sem ser urgente e sem correr mais riscos que o necessário. Depois de mais alguns exames, ficou constatado que um dos cálculos que estava no rim havia se desprendido e desceu para o ureter e estava obstruindo a passagem dos líquidos para a bexiga, assim fui vitima de uma grande infecção, e cada dia que passava a febre era mais alta e os antibióticos, mesmo sendo fortíssimos, não combatiam a infecção e os problemas cada dia era maiores.
Agora não era questão de um local onde fazer a cirurgia e nem de um cirurgião, e sim que a infecção fosse combatida. Mas em algum lugar estava escrito que nãoera para ser fácil e que o sofrimento havia me adotado para uma experiência, os antibióticos, que eram venosos, já não tinham mais como ser feitos, pois as veias já estavam muito fraquinhas, quando se conseguia pegar uma delas, logo inchava e estourava, e assim eram feitas varias tentativas, todos os funcionários na área de enfermagem davam uma espetadinha, pois um achava que tinha a mão melhor que a do outro e assim levei muitas espetadas, não protestava nem fazia cara de dor, pois já tinha chegado à conclusão de que, na verdade, eram as minhas veias que não prestavam.
Sabendo disso, eu ficava torcendo muito para que um deles conseguisse pegar uma veia, sem explodi-la, para que pudesse ser feito o medicamento para abaixar a febre de 41 graus. Apesar das toalhas molhadas e do álcool com que me cobriam, e eu só faltava cair da cama de tanto que tremia, não tinha mais controle de nada, ora batia o queixo sem parar, ora não conseguia abrir a boca. Na verdade eu estava à beira de entrar em choque, segundo eles falavam. Só não fui transferido para um hospital porque, certamente, não resistiria e todos sabiam que a solução era pegar uma veia, para que eu recebesse o antibiótico que tinha que ser intravenoso, a fim

acontecendo comigo!”, este homem não pode estar falando sério, ele não tem esse poder nem o direito de estar falando isto comigo, ele deve estar equivocado ou inspirado por um espírito que não é bom, busquei forças para debater com ele e disse: “Moço, eu posso não estar preparado para a morte, pois a gente só se prepara para aquilo que a gente quer e eu nunca quis morrer e nem quero, se você não pode me preparar para a vida que eu tanto almejo neste momento, não vejo muito sentido na sua permanência aqui”. Não sei se ele entendeu que já havia dado o seu recado ou se respeitou a minha decisão e se retirou, mas naquele dia a sua missão era mesmo causar espanto; ao encontrar com Kátia e Wilma no corredor, tentou convencê-las de minha morte; dizia que Kátia deveria aceitar o que estava acontecendo, Wilma não quis ouvi-lo, mas ele acabou assustando Kátia, que ficou muito triste e nervosa, mas nervosa mesmo ficou Wilma quando lhe contei qual foi a sua conversa comigo, ela disse que se ele voltasse ela iria mandá-lo ir embora e disso eu não tinha dúvida. O que me dava essa certeza, na época, era exatamente os cinco anos de namoro e noivado com Kátia e a convivência com sua família, onde eu já conhecia bem a personalidade de cada um. jeito que o Pai Celestial encontrou para me dizer que não havia me abandonado e que tudo iria dar certo, que eu veria o sol muitas vezes ainda neste plano terreno.
Entrei para o centro cirúrgico com a certeza de que daria tudo certo: os momentos que antecederam à cirurgia, até o anestesista conseguir pegar uma veia pra que se pudesse começar os trabalhos, foram de muita descontração por parte da equipe, que brincava o tempo todo; o que achei muito engraçado: eu ali achando que poderia morrer e eles brincavam. Depois pensei: dentro do profissionalismo de cada um, era como se eu estivesse trabalhando de mecânico consertando uma máquina agrícola. Dessa vez a cirurgia durou duas horas e correu tudo bem, eu acordei logo após. Tudo havia corrido tão bem que logo fui para a enfermaria. À noite, o doutor passou por lá para ver se tudo estava bem; no dia seguinte, antes que terminasse o seu plantão, ele foi conversar comigo e declarou: “Olha, vamos contar as horas e os dias, se não inchar e nem inflamar nenhum ponto no prazo de cinco dias, o sucesso está garantido!”, outra providência que tomou foi tirar alguns medicamentos, como calmantes, por exemplo.
Os dias se passaram e no seu plantão seguinte ele apareceu, já haviam trocado o curativo, só que puseram outro muito grande que me deixava o pescoço torto, ele ficou muito bravo, tirou aquele curativo, pegou no bolso de seu jaleco uma fita de um esparadrapo especial, colocou e disse que estava bonita a cirurgia e que agora era aguardarmos os próximos dez dias, se não inflamasse o sucesso estava garantido. No oitavo dia, ele começou a retirar os pontos alternadamente, com doze dias, tirou todos os pontos e disse que o risco de uma rejeição era pequeno, mas havia, pois foi colocado um material para ajudar na reconstituição do local que havia perdido muito tecido. Mas ele disse que o organismo iria absorvê-lo.
Vinte dias após a cirurgia e depois de alguns exames, ficou constatado que tudo havia dado certo, o doutor Carlos Augusto Zucner me garantiu que aquele problema estava resolvido, mas que eu tinha que ficar com aquela sonda e que continuasse me alimentando por ela por mais um mês para não correr o risco de abrir. Fiquei felicíssimo com a notícia, que em trinta dias voltaria a engolir os alimentos, que ficaria livre da sonda e, junto dela, me livraria de mais dois buracos, que eram um no pescoço, e o outro no estômago. Mas era mesmo o mês das boas notícias. No plantão seguinte, o doutor entrou em minha enfermaria dizendo que queria fazer um trato comigo, e disse que se eu prometesse que seguiria as suas recomendações, me daria alta, me mandaria para casa; lá eu não ficaria tão exposto ao risco das infecções, só que eu teria de seguir suas recomendações, que eram: continuar com a sonda e com trinta dias voltar ao hospital para retirá-la. Ele ainda tinha mais uma boa notícia pra me dar, que após dez dias eu começaria a engolir um pouco de líquido; eu deveria escolher um que fosse gostosinho, ir fazendo o teste, e se tudo corresse bem, como meu presente de Natal, no dia 25, poderia pedir que colocassem tudo que depois de triturado no liquidificador ficasse cremoso, bem pastoso e começasse a me alimentar aos pouquinhos, que tudo iria dar certo.
Ele confirmou que iria deixar minha alta pronta para o dia seguinte. Eu fiquei muito feliz, mas assustado, afinal aquele filme eu já tinha visto duas vezes. Saí do hospital e voltei logo em seguida. E cada vez mais complicado. Mas eu tinha que ser otimista, imaginei que estava realmente começando uma nova fase em minha vida, e no dia seguinte, mais uma vez, eu não saia do hospital, mas era levado dali para casa sem mover nada, nem o pescoço mexia mais; por tanto tempo sem poder movimentá-lo e com aquela lesão estava duro e muito dolorido, naquele momento, só dava para mexer com os olhos.
No dia seguinte, já na ambulância de volta para casa, fiz toda viagem com o sol tocando meu corpo pela janela, foi um momento de reflexão, elevei meu pensamento ao Pai Celestial e vendo e sentindo o sol tocar meu corpo, agradeci muito ao Pai porque ele estava me dando a oportunidade de mais uma vez ver e sentir o sol e de poder estar voltando para casa.
Chegamos em casa, em Quissamã, cidade onde morávamos, era cedo, fizemos uma surpresa a todos, não houve tempo para avisá-los que estaríamos voltando. Naqueles dias, minha família e eu vivíamos duas expectativas, que era fazer análise do sucesso da última cirurgia, os trinta dias que o doutor havia previsto para o sucesso absoluto da cirurgia estavam vencendo e estava tudo perfeito, o outro é que no período em que sofri o acidente, mais precisamente no dia trinta de junho do mesmo ano, havia nascido uma sobrinha que eu só tinha visto por alguns segundos quando eu estava internado no hospital de minha cidade, e minha irmã conseguiu uma autorização e levou a Raiane, para sermos apresentados.
Quando disse que vivíamos duas expectativas, é que a princesinha nasceu com as veias do coração e do pulmão trocadas, e já haviam feito vários cateterismos e ela estava em São Paulo para fazer uma cirurgia de preparação para a cirurgia que ira tentar corrigir a anormalidade, porém tudo correu bem e ela voltou para casa e aí pudemos nos conhecer melhor.
Havia chegado o dia em que eu poderia tomar suco, foi maravilhoso quando engoli e percebi que o suco desceu refrescando a garganta e não mais saiu pelo esôfago, aquele buraco que eu tinha no pescoço que por tanto tempo atrasou meu tratamento. No começo, a decepção é que era muito difícil sugar o liquido por um canudinho, meu queixo cansava e doíam todos os músculos do rosto, tirando todo o prazer, mas alguns dias se passaram e era chegado o dia que eu iria comer aquela papinha, era chegado o Natal e Papai Noel não havia colocado meu presente na janela, nem atrás da porta, mas sim na panela. E o bom velhinho não desceu pela chaminé, mas estava o tempo todo na cozinha, pois de lá saiu uma papinha deliciosa. por uma mangueira, e depois de ver tantas vezes a enfermeira ou Jussara com uma seringa para desobstruí-la, cada vez que o líquido não descia, ficava empacado, o que estava vendo era um sonho, bem ali a minha frente, Jussara com um prato e uma colher, e eu com um esôfago novo. No início eu tive muito medo de engolir, quando tentava meu lado psicológico não deixava, e assim ficava com a boca cheia por um bom tempo; de tanto tentar, consegui engolir um pouquinho, e confesso que não consegui sentir o sabor ou tudo estava diferente ou eu não me lembrava mais.
Eram passados o Natal e o Ano Novo e eu estava animado e muito feliz com o resultado da experiência, tudo estava dentro do que o doutor havia previsto, as escaras estavam cicatrizando, eu só pensava no dia em que iria tirar a sonda, que naquele momento não fazia mais sentido sua permanência, ela já havia feito sua parte, me fez sobreviver até ali, agora a história era outra.
No prazo marcado, voltei ao hospital como o doutor havia pedido; ao me ver, ele elogiou dizendo que eu nem parecia o mesmo que saiu de lá, depois que me consultou e tirou a sonda, disse que agora era só melhorar as escaras e partir para a fisioterapia. Esse foi um dia muito especial
Depois de tanto tempo vendo a alimentação descerem minha vida, naquele hospital, no quinto andar, com todos os funcionários de todos os setores, eu tive contato, fiz uma grande família ali, e eles ficaram muito felizes ao ver que aquele moribundo havia sobrevivido e que eles faziam parte da vitória.
A minha felicidade era maior por vários motivos, mas no momento, fiquei mais feliz por ver que eu os havia conquistados com muita perseverança e com compreensão, eu os compreendia e eles a mim, eu conhecia um pouco da vida de cada um deles, e eles contavam seus problemas para mim, e muitas das vezes queriam a minha opinião. Na época, vivíamos a implantação do plano real, que apareceu dizendo ser uma moeda forte, era uma loucura, quem tinha o tal do real, não sabia o que fazer, e quem não tinha não sabia onde encontrá-lo, eles estavam confusos, um queria trocar a geladeira, outro comprar uma TV nova, ou um carro usado, etc. Sei que todos tinham problemas, uns não sabiam o que comprar e outros não tinham como comprar o que precisavam, e assim eu os fui conhecendo melhor. Eu sabia quem eram contratados por prestação de serviço, e quem era funcionário público, não sabia quanto era o salário de cada um, mas sabia quanto a maioria deles ganhava pormês, e assim descobri que eles recebiam pouco, eles mereciam ganhar um salário mais digno, assim eles não precisariam ter mais de um emprego, mas na área de saúde em nosso país, ter dois empregos, se não for uma necessidade, é um hábito.
O doutor Calos Augusto Zucner disse que agora eu precisava de mais alguns dias para me recuperar, engordar um pouquinho, para começar a fazer fisioterapia, e que eu fosse paciente e que não desistisse nunca, eu poderia não ficar bom, mas tem gente que é assim e vive por muito tempo e vive muito bem, você agora tem que se adaptar à sua nova vida e adaptar as coisas do seu jeito e de acordo com suas dificuldades.
As suas palavras naquele momento foram muito importantes, mais uma vez ele estava me incentivando a lutar, a não me entregar. Saí dali com o propósito de fazer tudo que fosse possível para recuperar um pouco de minhas carnes e de meus músculos, que havia perdido naqueles longos onze meses e começar a fazer fisioterapia, mas eu sabia que não iria ser fácil, para o sucesso da recuperação era necessário superar dois problemas, que era cicatrizar por completo as escaras e procurar um urologista para resolver o problema urinário, que era tirar aquela sondaque permanecia em minha bexiga, uma grande fonte de infecções.
Já em casa, passados alguns dias, procurei um fisioterapeuta para saber o que poderia ser feito, mesmo estando tão debilitado, e ele disse que eu deveria começar a ficar sentado porque eu havia ficado deitado por muito tempo, e assim que as escaras cicatrizassem começaríamos com a fisioterapia. Fiquei muito animado e esperançoso com a possibilidade de uma nova fase em minha recuperação, o que eu não sabia é que era tão complicado aquele processo inicial, o que parecia ser fácil na verdade se tornou um grande pesadelo.
Quando me colocavam sentado, tudo começava a rodar e eu desmaiava, ficava desmaiado por alguns minutos, quando voltava a mim sentia muita dor na cabeça e vômito. Eu sabia que estava correndo risco, já que esses eram sintomas de que o sangue não estava circulando bem, devido ao tempo que fiquei deitado; assim, me faltava oxigênio. Começamos então elevando a cabeceira da cama, com o auxílio de algumas almofadas para equilibrar o corpo, que insistia em não ficar na posição desejada e ficava caindo para todos os lados, era o mesmo que tentar colocar um ovo em pé. Mesmo com esses procedimentos, todas as vezes que ficava sentado desmaiava e sentia enjôo e vômito, mas isto não era tudo, aquelas escaras ficavam em um local que ao sentar ficava comprimindo, mesmo não tendo (cem por cento) da sensibilidade, doía muito, não tinha um osso em meu corpo que não doesse, os ouvidos davam uns estalos e eu ia perdendo a audição, chegando ao ponto de não ouvir mais nada. Mesmo com todos esses problemas e com tantas dores, eu não desistia e tentava duas ou mais vezes ao dia.
Quanto menos tempo eu resistia sentado, mais vezes repetia o processo durante o dia, ficava o tempo todo tentando movimentar as mãos e os braços, porque ninguém pode imaginar a falta que faz você não conseguir movimentar os braços e as mãos, pelo menos para coçar a cabeça onde eu sentia muita coceira; eu não podia ver uma pessoa que eu logo pedia “Coça aqui pra mim um pouquinho!”, e eram muitas às dificuldades, você vira um bebê, com pensamento e conhecimento de adulto, você tem que ter uma pessoa ao seu lado o tempo todo.
Nesses momentos, eu só pensava em conseguir fazer, entre tantas coisas, duas que eram prioridade, comer e escovar os dentes com as próprias mãos, porque vocêtem uma sensação horrível quando outra pessoa vai escovar seus dentes, e na hora da alimentação, você não sabe se come ou se fica tentando adivinhar o que a pessoa que está dando a comida na boca está pensando, se você está demorando muito para mastigar e engolir, e muitas das vezes, você ainda não engoliu e a pessoa fica olhando pra você de braço estendido com o talher cheio de comida na direção da sua boca, aí você acaba engolindo muitas vezes sem mastigar direito; tem vezes que ela enche demais o talher, outra vezes põe só um pouquinho, e quando ela fica batendo com o talher no prato arrumando a comida o tempo todo com aquelas batidinhas que te deixa um pouco nervoso, exatamente porque você não sabe o que a pessoa está pensando, e quando você já mastigou e engoliu e a pessoa esta distraída e se esquece que está lhe dando comida, e depois de muito tempo você precisa perguntar se já acabou e ai ela diz que não, que estava distraída, isso faz você perder o apetite e o prazer por mais que seja uma comida gostosa.
Os dias se passavam, eu e minha família vivíamos as expectativas de minha recuperação, e também estava chegando o dia em que minha sobrinha Raiane iria para São Paulo para submeter-se à cirurgia que iria corrigiraquela anormalidade; ela estava uma princesinha, mas a cirurgia era indispensável; apesar dos seus encantos, ela tinha muitas crises e quando isso acontecia, ela ficava toda roxinha, lhe faltava ar, porém nos últimos dias ela estava bem; mas a cirurgia estava marcada e todos nós tínhamos medo de que o problema se agravasse e ela não resistisse.
Mas a tristeza parecia ter nos adotado e não queria nos abandonar, e dessa vez ela exagerou, Raiane fez a cirurgia e nas primeiras horas pós-operatórias teve duas paradas cardíacas e a princesinha não resistiu e veio a falecer, seu reinado durou seis meses, e foi o suficiente para conquistar muitos corações, ela era linda, mas o Pai Celestial estava precisando de uma menininha-princesinha e sua passagem por aqui foi para que mais uma vez soubéssemos o significado da palavra saudade.
Dias depois comecei a fazer fisioterapia nos membros superiores. Nos primeiros dias quase desmaiava de dor, o pescoço, os ombros e os braços, por estarem há muito tempo em uma só posição e sem movimentar, pareciam querer quebrar ou soltar os pedaços nas mãos do fisioterapeuta. Doía para qualquer um chorar e não foi diferente comigo. Eu tinha espasticidade em todo o corpo, ou seja, contração súbita e involuntária dos músculos quetêm a tendência de aumentar quando se tem infecções, e eu tinha muita infecção urinária, pois aquela sonda só fazia piorar. Minhas pernas estavam fininhas, bem magrinhas, tinham uma espasticidade terrível, elas não paravam nem encolhidas nem esticadas, elas se batiam o tempo todo e para todos os lados, não tinham direção nem controle, com esse vai e vem e com quatro escaras, duas em cada perna, aumentava o sofrimento e doía a noite toda, não me deixavam dormir e nem parar quieto, pois usava um colchão d’água e cada vez mais elas se batiam, movimentavam a água do colchão que balançava toda a cama.
À noite, colocávamos uma almofada, colocávamos as pernas em cima, presas com uma coberta amarrada de um lado a outro da cama e assim, quando elas se movimentavam, por pouco não caía da cama, e a água continuava se movimentando e, assim, passava mais uma noite sem dormir. Com tanto sofrimento, ficava imaginando, um outro dia vai amanhecer e pode ser diferente. Mas aquele dia se passava e mais uma noite se aproximava e tudo continuava do mesmo jeito.
Eu ouvi falar que no Rio de Janeiro havia uma clínica de reabilitação chamada ABBR, mas que era muitodifícil conseguir uma vaga e um dos critérios é que o paciente não poderia ter nenhum tipo de ferimento, como escaras, por exemplo, e essas eu tinha cinco. Sendo assim, não daria para tentar uma vaga naquele momento, daí descartei aquela possibilidade, mas eu acreditava e tinha muita fé, que dias melhores estariam por vir, era incansável, tinha muita paciência e ficava tentando movimentar mãos e braços, eu não aceitava aquela situação, não podia, ou melhor, não queria acreditar que aqueles braços e mãos que eram tão ágeis e rápidos pudessem estar, assim, sem responder a nenhum comando, mesmo com os meus repetidos e incansáveis estímulos, eu acreditava que se conseguisse movimentar os braços e as mãos, então poderia pegar em alguma coisa ou em algum lugar e me arrastar de um lado para o outro; pensando assim continuei insistindo e estava certo. Um dia senti que os músculos dos braços começaram a responder aos estímulos, eu mandava mensagem e os músculos movimentavam um pouquinho, mas não tinha músculos, só um filetinho debaixo da pele, os braços estavam muito fininhos. Comecei a acreditar que assim que fossem engrossando, os movimentos iriam aumentando e eu estava tomando vitaminas e estava me alimentando bem. Agora era questãode tempo, tudo era baseado no que o fisioterapeuta me dizia.
Passaram-se uns dias e o dedo mindinho começou a movimentar, eu não acreditava, mas era verdade, era dor que eu começava a sentir, os braços e mãos começaram a doer, a sensibilidade estava voltando. Já podia sentir meus braços e mãos. E junto com o retorno da sensibilidade, também aumentava a dor de todo o corpo. Não dá para descrever onde é que doía mais, o que me fazia acostumar com aquela dor que só fazia aumentar a cada dia, era a certeza de que com a dor estaria vindo a cura para aquele corpo que por tanto tempo estava adormecido.
Mesmo com tanta dor, o que me confortava era saber que ela estava anunciando uma nova perspectiva para minha vida, e agora não era mais uma cabeça e um coração, mas ali havia um corpo e que os três faziam parte de um só ser. Eu era cercado de muito carinho e muito amor, de minha família, de Kátia e de meus amigos. Um certo dia, uma senhora amiga de minha família e mãe de um grande amigo meu foi me visitar e ao me ver, falou que eu estava com uma aparência ótima, estava limpinho, cheiroso e que o sorriso continuava o mesmo. Fiquei muito feliz com as suas palavras, elas vieram confirmar o que exatamente eu estava sentindo que era limpo e cheiroso. Os cuidados eram outros, o ambiente não podia ser comparado a uma enfermaria de hospital público. Não tinha mais aquele barulho infernal. E o sorriso sempre foi a minha marca registrada, onde quer que eu chegasse, a alegria chegava junto e eu nunca perdi a fé e a esperança de que eu fosse superar aqueles obstáculos. Mas tem uma coisa que foge ao seu controle, quando, por exemplo, você está hospitalizado e seu quadro clínico piora muito ou um pouco e surgem aqueles comentários de pessoas que não têm contato com você e não têm uma informação verdadeira, e as poucas notícias que chegam até elas, eram de costume aumentar não sei quantas vezes mais e faziam comentários do tipo “ele não passa de hoje ou amanhã, dizem que sua vida estar por um fio e a qualquer hora ele vai dessa para melhor”.
Tinham muitos amigos que ficavam esperando que eu melhorasse um pouco para irem me visitar, mas ficavam muitos assustados com aquelas notícias das pessoas desinformadas que insistiam em me enterrar vivo, e me matavam cada vez que alguém perguntava por mim; assustados meus amigos iam adiando a visita. Certo dia, um deles não queria mais esperar, convidou sua mãe para acompanhá-lo até o hospital e me fazer uma visita, chegando lá ele ficou no corredor e sua mãe entrou no quarto cumprimentou-me e disse que ele estava no corredor tentando encontrar coragem para entrar; pedi que me deixasse só com o rosto descoberto para que ele não me visse tão magrinho e não se assustasse, sua mãe foi até o corredor e o trouxe até o quarto e eu fiz tudo pra não falar em problemas, respondi suas perguntas muitas vezes com outras, para quebrar o clima e aos poucos ele foi relaxando e entrando no clima do ambiente e já dava risadas com as histórias que eu contava. Ele e sua mãe saíram dali com a certeza de que foi muito difícil tomar a decisão de ir até aquele quarto de hospital visitar-me, mas também saíram prometendo voltar, e disseram que iriam falar com todos nossos amigos que era para eles irem me visitar porque eu continuava o mesmo, apesar de todas as atribulações.
No dia seguinte mais um foi visitar-me e assim cada um que saía dali tinha outra idéia do que estava acontecendo de verdade, e um falava com o outro que falava pra outro, assim todos foram me visitar, e tiveram uns dois que quando estavam tristes e com problemas iamme fazer uma visita, pois diziam que eu era um exemplo de perseverança para eles e que eles saíam dali com forças para enfrentar qualquer problema, e quando eles abriam os seus problemas para mim e me perguntavam qual era a minha opinião, eu falava o que eu pensava a respeito, pois eu os conhecia bastante para isso.
Certo dia foi à vez de Célio Wagner, que estava com problemas, não sabia como resolvê-los e lamentava muito; ao saber do problema dei minha opinião, na verdade eu disse como deveria fazer, já que aqueles problemas eram antigos e eu conhecia os dois lados e se ele fosse fazer como estava planejando, só aumentaria cada vez mais. Tempos depois fiquei sabendo por intermédio de um amigo nosso, que ao lamentar o acontecido comigo ele disse que mesmo com ele naquela cama no hospital resolveu um problema que estava me tirando o sono, eu lamentei que ele só tivesse se lembrado desse fato, pois foram tantos, os que resolvi em outras oportunidades e até mesmo mais complicados.
Ali em minha casa eu estava limpinho e cheirosinho, e o sorriso continuava o mesmo, disse-me aquela senhora, eu era cercado de muito carinho, estava fazendo fisioterapia os braços já apresentavam os primeirosmovimentos, e é claro que os problemas existiam e não eram poucos e com isto eu me sentia triste. Assim, sentia muita vontade de me aproximar de Deus, mas parecia ser tão difícil, cheguei a pensar que não estava fazendo por merecer aquele amor que Deus provou ter por mim, eu sempre tive muita fé em Deus e depois que ele salvou a minha vida por tantas vezes em tão pouco tempo, então não restaram duvidas, só me aproximando do Pai Celestial cada vez mais poderia encontrar a paz para o meu coração e minha alma que estavam passando por uma grande provação.
Certo dia, Kátia convidou-me para ouvir uma mensagem com dois rapazes que eram missionários d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, aceitei o convite e combinamos que o encontro e a mensagem seriam em minha casa; já que eu não poderia ir à casa de Kátia, em minha casa recebemos os missionários, dois rapazes muitíssimos educados que, depois das apresentações só falaram em coisas boas, foi uma conversa mansa, serena, eles falaram em Jesus Cristo com tanto amor que dava para ver em seus olhos o amor que eles tinham pela missão, eles falavam em Jesus Cristo como se eles já tivessem visto ou falado com ele, pudeperceber o tamanho da fé pela qual eles eram movidos, eu me senti muito bem ao ouvir aquela mensagem, só um tempo depois é que eu descobri que a mansidão e a serenidade em suas palavras vinham do espírito do Senhor.
Kátia e eu tínhamos uma formação religiosa que nos foi dada pelos nossos pais e assim sentíamos o desejo de encontrar uma religião que nos aproximasse um pouco mais de Deus, Kátia havia pesquisado algumas religiões mas não tinha se decidido por nenhuma delas, gostamos muito daquela mensagem deixada pelos missionários, eu não havia pesquisado nenhuma religião, mas todas as religiões deixaram mensagens, oraram por mim, Naquele período, quando me encontrava hospitalizado, sei que todos tinham um só propósito, que era orar ao Pai Celestial por minha recuperação, cada qual usava uma doutrina diferente isso me fazia pensar em qual seria a verdadeira, já que todos usavam a Bíblia Sagrada como princípio e cada um interpretava de um jeito; diante de tantos problemas surgiu mais esse que era essa dúvida de como proceder diante de tantas religiões. Decidi então ter como base o que eu já tinha como verdade, que o Pai Celestial e seu filho Jesus Cristo poderiam ouvir minhas orações mediante a minha fé, independentemente da religião.
Eu achava que deveria ter em algum lugar uma outra Escritura que pudesse diferenciar uma religião das outras, e que pudesse junto à Bíblia, para explicar coisas que eu não entendia, quando conheci os missionários ganhei um livro que se chama o Livro de Mórmon e os missionários me pediram que eu orasse e perguntasse se aquele livro e seus ensinamentos eram verdadeiros e se eu o fizesse com fé iria obter a resposta que eu estava procurando.
Ao ler aquele livro fiz descobertas maravilhosas que era o que estava faltando para que eu entendesse o porquê daqueles rapazes falarem em Jesus Cristo com tanto amor, que era como se eles já tivessem visto e falado com ele.
Kátia e eu ouvimos algumas palestras, pesquisamos bastante sobre a doutrina que tem como escrituras a Bíblia Sagrada, O Livro de Mórmom, Doutrinas e Convênio, Pérola de Grande Valor e outras publicações inspiradas, que nos revela a veracidade a cada momento que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e verdadeira que Jesus Cristo vive e é nosso Salvador.
Kátia e eu decidimos nos batizar, Kátia se batizou primeiro e eu demorei um pouco mais, pois não dava para ir até a Igreja onde tinha tudo organizado para essasocasiões. Passados mais alguns dias, não queria mais esperar e me batizei em uma piscina montada em meu quarto em minha casa e assim me tornei membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Passaram-se seis meses desde que sai do hospital e estava em minha casa, daquelas escaras só restava uma que ficava na região do glúteo e havia ficado muito funda que dava para ver o osso e machucava constantemente.
Continuava fazendo fisioterapia, fazia no setor de fisioterapia do hospital e em casa, eu era incansável e mesmo quando estava deitado em minha cama, ficava movimentando os braços que já estavam respondendo bem às mensagens, e eu estava convicto de que se começasse a movimentar os braços já era um bom começo, pois poderia começar a alimentar-me com minhas próprias mãos.
E assim que apareceram os primeiros movimentos, eu ficava todo tempo que estava acordado tentando levar as mãos até a boca, passado uns dias, quando eu estava deitado já conseguia levar as mãos até a boca, mas quando estava sentado não conseguia, porém eu tinha certeza que um dia conseguiria, que era questão de fazer mais tentativas; dias depois faltava um pouquinho só, e maisuns dias, eu já levava as mãos até a boca. Certo dia, pedi à minha irmã que amarrasse uma colher com ataduras em minha mão direita, que naquele dia eu iria comer com minha própria mão. Mas ainda não foi naquele dia, com o peso da colher mais a comida, tornou-se mais difícil, só consegui levar até a metade do caminho, a decepção de não ter conseguido só me fazia acreditar que estava praticando pouco e que deveria praticar mais vezes ao dia.
Quando fui ao setor de fisioterapia nas primeiras vezes, quando o fisioterapeuta começava manipular meus braços eu chorava de dor nos ombros, sua assistente muitas vezes ficava com dó e dizia: “Ele está sentindo muita dor”, mas o fisioterapeuta fingia não ouvir ou não estar entendendo, eu resistia a toda aquela dor porque acreditava que era questão de mais alguns dias, e aquela dor iria ser substituída por movimentos e que logo poderia fazer mais uma tentativa com a colher, eu já estava com outra aparência, tinha engordado um pouco.
Certo dia comentei com o meu fisioterapeuta que ouvi dizer que no Rio de Janeiro tinha um centro de reabilitação que se chamava ABBR, muito bom, mas que era muito difícil encontrar vagas, até para fazer umaavaliação, era muito complicado, e ele perguntou: “Você tem vontade de fazer um tratamento lá?”, Eu respondi que sim, que faria qualquer sacrifício que fosse para mudar o quadro em que me encontrava, que faria tudo que fosse bom e que viesse me reabilitar para a vida.
Dias depois, o fisioterapeuta disse sem fazer muito rodeio: “Olha, marquei uma avaliação para você em um grande centro de reabilitação, o melhor que eu conheço, mas não pode ter nem uma escara, nenhum tipo de lesão aberta”. Mas esse não era meu caso, eu ainda tinha uma escara aberta, comecei a sonhar com a possibilidade, eu tinha quarenta dias para me livrar daquela escara. Junto de uma nova expectativa, vieram também algumas duvidas, e eu me perguntava, se a escara estaria cicatrizada e se não iriam aparecer outras, e essa não era a única dúvida, e o que era uma avaliação? O que significava isso no meu caso? Perguntei ao fisioterapeuta, e ele disse: “Você vai ser examinado por uma equipe de médicos e fisioterapeutas, enfim, uma equipe que vai avaliar e vai dizer se você tem chance de recuperação, o que pode melhorar no quadro em que se encontra, se você for legível a um tratamento, assim que tiver uma vaga, será chamado para se internar e começar o tratamento”,
Depois das explicações, que só fizeram aumentar ainda mais as minhas expectativas, eu passava dia e noite pensando nisso, e mesmo quando estava dormindo sonhava com aquela possibilidade. Nesse período, eram muitos os questionamentos, batia também muito medo do que aquela equipe iria dizer – e se eles dissessem que não tinha mais nada a ser feito no meu caso? – Nestes momentos minha cabeça fervia de tantos questionamentos.
Mas tinha momentos de otimismo, por menor tempo que fosse, era bem mais forte e ai eu era levado ao otimismo, acreditava que tudo iria dar certo, que eu seria legível ao tratamento e que em breve teria uma vaga para iniciá-lo, e quem sabe, pudesse me reabilitar para realizar as coisas mais simples que um ser humano precisa para sobreviver.
Os dias foram passando e aquela escara também estava cicatrizando, os braços estavam mais fortes, já conseguia botar as mãos na cabeça, então, fiz o teste com a colher, bem cheia de comida e dessa vez consegui levar até à boca muitas colheradas, foi um momento de muita felicidade, agora eu poderia mastigar e engolir sem pressa e poderia descansar o queixo que doía muito. Eu digo que foi um momento de muita felicidade, é porque estouescrevendo e todos nós sabemos que não dá para escrever ou descrever tudo que sentimos e o que eu senti naquele momento não dá nem para imaginar, só sentindo mesmo, para saber o significado daquele instante de felicidade.
Os quarenta dias se passaram, as escaras cicatrizaram e eu estava pronto para fazer aquela avaliação. Passei todos aqueles dias orando muito e com muita fé e esperança de que tudo fosse dar certo, de que eu estivesse em condições de fazer a avaliação e ser legível, para uma futura internação e uma tentativa de reabilitação, naquele que era considerado o maior e melhor centro de reabilitação que eu ouvi falar.
Com a aproximação e talvez com a ansiedade, já que o grande dia estava chegando, certa noite sonhei que eu havia sido aprovado na avaliação para fazer o tratamento, e no sonho eu me vi internado lá na instituição, só que me faltavam roupas, fiquei tentando saber o por quê daquele sonho, não cheguei a nenhuma conclusão, mas pedi para minha irmã que colocasse em uma mochila: uma toalha e algumas roupas, escova de dentes, as Escrituras, pois eram a minha leitura favorita, que ia levar um dinheirinho a mais para uma emergência, e assim o fizemos, eu não contei o sonho para ninguém, é claro, pois poderia se tornar uma brincadeira ou uma piada muito sem graça. Chegado o dia, viajamos minha irmã, o fisioterapeuta, o motorista e eu. Chegamos cedo, logo ao entrar, fiquei assustado com o número de pessoas em cadeiras de rodas, fui para um apartamento e de tempo em tempo era visitado por um profissional diferente, eram eles: clínicos, fisioterapeutas, assistentes sociais, enfim de cada setor da ABBR, um representante; esta avaliação durou até o fim do dia.
Ao término da avaliação eu tinha quase certeza de que era legível ao tratamento, com base na expressão dos avaliadores. O que me dava essa certeza é que eu fazia muitas pergunta e suas respostas me deixavam mais tranqüilo, na verdade eu analisava cada examinador, chegando a ser engraçado. Todos me examinavam e eu examinava a todos. Quando eu digo que eu tinha quase certeza é porque eu os avaliava usando critérios, como seus gestos, suas perguntas, suas respostas e as minhas perguntas que não eram poucas. A incerteza ficava por conta das dificuldades que encontrei para entender o que se passava na cabeça de cada um deles, usando aqueles critérios para avalia-los, pois eles eram educadíssimos e tinham um carisma que me chamou a atenção, poispareciam me conhecer há muito tempo.
Lembro-me da última avaliadora, ela não é o que podemos chamar de mulherão, pois era de estatura mediana e provava em cada ato que tamanho não é documento e ocupava um espaço enorme com sua bravura e sua generosidade e simpatia. Sendo ela a última avaliadora, perguntou-me se eu ficaria feliz caso tivesse uma vaga e eu ficasse internado para o tratamento e eu respondi que sim, mesmo sem saber se tinha sido ou não legível ao tratamento, que era a minha maior preocupação naquele momento, pois a vaga era uma questão de tempo e paciência.
Minutos depois a referida avaliadora veio aferir a minha pressão arterial e minha temperatura. Já era noite, ela abriu um pouco a porta, entrou e me disse que iria abrir a porta da esperança para mim, então entrou outra pessoa com toda a documentação da internação prontinha. Eu não acreditava no que estava ouvindo, mas minha irmã e meu fisioterapeuta ajudavam a confirmar, eu não disse nada, apenas agradecia ao Pai Celestial por mais uma vez ele estar sendo generoso comigo e ao mesmo tempo tive uma sensação de muito medo, pois agora eu ficaria ali sozinho e minha família estava a quase trezentos quilômetros dali. Minha irmã e o fisioterapeuta voltaram e eu fui para uma enfermaria que tinha três leitos, dois já ocupados.
Ao nos apresentarmos, um dos pacientes falou que a Instituição era boa, mas que a minha cama era assassina, que ele estava ali há seis meses e já tinha visto a morte de dois e que o último paciente foi para casa no final de semana e não voltou mais, desistindo do tratamento. Então, eu, brincando lhe disse que ainda não tinha falado o meu sobrenome, e ele que parecia muito curioso perguntou qual era. Eu disse que era Boa Morte. Não consegui assusta-lo, pois ele não acreditou. Já o outro paciente era um senhor muito educado que morava numa cidade vizinha da minha, então nos identificamos melhor. Tínhamos mais assuntos, pois conhecíamos lugares e personalidades da região e eu já tinha morado em sua cidade por um período e o acidente ocorreu na chegada daquela cidade.
Nos primeiros dias, assim como na chegada, fiquei muito assustado com o número de pessoas em cadeiras de rodas, mas com o passar do tempo e conhecendo o problema de cada um deles, fui me acostumando com aquela situação. Por mais que a cada dia que passasse eu me deparasse com um caso triste, não era motivo para desistir, vendo que tantas pessoas estavam ali para fazerum tratamento, tentar se reabilitar. Havia pessoas de todas as idades e os problemas eram muitos. Os pacientes mais velhos, muitas das vezes, eram vítimas de AVC (Acidente Vascular Cerebral), alguns eram animados, fazendo fisioterapia e com fé e esperança de que iriam ficar bons, que voltariam para casa e também voltariam a trabalhar; outros, vítimas de acidentes de automóveis e motos, muitos, vítimas de balas perdidas ou vítimas de assalto; mas o que me deixava muito triste eram as criancinhas, vítimas de acidentes de qualquer natureza ou que tinham nascido com problemas.
Eu ficava imaginando quanto sofrimento para aqueles pais que, com certeza, haviam planejado um futuro tão diferente daquele para seus filhos. Todavia pude observar que eles cuidavam com tanto amor e carinho dos seus filhinhos, que dava para ver que eles se doavam em dobro e por esta razão, as crianças eram muito amadas apesar de seus problemas.
Depois que presenciei tudo isso comecei a imaginar que o meu problema era muito difícil, mas não era diferente de muitos ali, pois se eu não movimentava os braços como antes, agora só os movimentava um pouquinho, mas eles estavam ali, eu podia vê-los e senti-los. E aqueles quenão tinham mais braços ou não tinham pernas? Estavam mutilados.E havia aqueles que faziam fisioterapia para a doença não progredir, o que será que eles pensavam da minha situação?
Comecei a acreditar que estava certo, quando não me entreguei em nenhum momento, nem nos momentos em que parecia que tudo estava terminado, que era chegado o fim. Mais uma vez era hora de me apegar na esperança e na fé em Jesus Cristo, que me fez resistir a tantas atribulações e começar uma nova etapa em minha vida. Não precisei de muito tempo para chegar a essa conclusão. Naquela semana eu aprendi e entendi coisas que levaria anos apara entender. Uma hora era um dia, um dia era uma semana, uma semana era um mês e um mês era correspondente a um ano. Você tem duas opções: ou aprende que a vida é muito mais importante do que você imaginava e começa a vivê-la intensamente, como se cada minuto fosse o último de sua vida ou você se apega ao passado e fica imaginando que não vai mais tomar banho de mar ou de cachoeira, que não vai mais jogar futebol, que não vai mais dançar, que não vai mais estudar, que não vai mais arrumar uma namorada ou, se já tem, que vai perdê-la, e se é casado, que vai serabandonado pela esposa ou que seus filhos não te amam mais e que você não consegue viver com limites, ser uma pessoa limitada, com preconceito de você mesmo e que não consegue viver em uma cadeira de rodas ou com muletas para se locomover. Certamente você vai achar que o mundo acabou para você, que a vida não tem mais sentido e, é claro, que não é só a essa meia dúzia de coisas que relatei que você vai se apegar, mas sim a todo o seu passado.
E quanto mais você já viveu, maior é seu passado, e se você se apegar a ele, você vai ser vítima dos seus pensamentos, do seu egoísmo, e de sua falta de esperança, de fé em Jesus cristo o nosso Salvador e aí certamente você vai ser vítima de você mesmo.
Durante um ano eu tentei de tudo para viver, para superar aquela fase ruim que parecia não ter fim, porém, tinha vencido aquela batalha e agora eu só tinha a ganhar, já que estava ali para tentar com a fisioterapia me reabilitar fisicamente para a vida. Nos primeiros dias tudo era novidade, cada dia era diferente do outro na Instituição, mesmo você sendo legível ao tratamento e sendo interno para fazer o tratamento, tem que esperar por alguns dias, até organizar os horários e os setores que você vaifreqüentar e de quem você vai ser paciente.
No início eu não freqüentava muitos setores, porque ainda tinha que ser avaliado por um urologista, que no momento a Instituição não tinha, pois eu usava uma sonda que precisava ser removida. Não procurei um urologista particular, porque fazia parte do tratamento o acompanhamento de um profissional na área de urologia, já que todos os pacientes com lesões medulares são propensos a infecções urinárias. Enquanto aguardava o urologista, eu fui fazendo fisioterapia, mas tinha muitas infecções renais.
Um dia, um dos auxiliares dos fisioterapeutas me colocou muito no meio do tatame, exatamente onde estava uma emenda que unia suas duas partes. Não sabemos como algo me feriu num local em que tinha cicatrizado uma escara. A Instituição não aceitava pacientes com escaras, mas as tratava caso fossem adquiridas lá. Dependendo da gravidade da lesão e não dando para ir para o tratamento nos setores, fazia fisioterapia no leito. Não era o mesmo que fazer nos setores, mas pelo menos não se perdia tudo o que houvesse ganhado na fisioterapia. Porém, se você leva muito tempo só na fisioterapia feita no leito, perde muito tempo, que é muito precioso naInstituição.
Com o passar do tempo a ABBR contratou um urologista. Eu fui seu primeiro paciente. Ele pediu alguns exames, dentre eles uma urografia, através da qual se descobriu que eu tinha três cálculos renais no rim direito, sendo dois médios e um grande, mais ou menos do tamanho de uma castanha de caju e na bexiga tinha partículas indefiníveis no tipo e na quantidade.
O fato de eu não conseguir expelir nem os líquidos nos levou a supor que essas partículas foram se acumulando na bexiga ao longo do tempo. O urologista, que também era cirurgião, disse que só poderia remove-las através de cirurgia e que seriam necessárias duas cirurgias: uma no rim e outra na bexiga, sendo uma de cada vez, num período de tempo mais curto possível, entre uma e outra. Aquelas notícias anunciavam que mais uma vez teria um grande problema.
Mas essas notícias não me abalaram nem me deixaram triste, só fiquei decepcionado porque teria que parar o tratamento fisioterápico por um bom tempo. Eu já estava acostumado com as notícias ruins, pois já tinha passado por tantos problemas que uma ou duas cirurgias a mais não me abalariam, mesmo sabendo que todacirurgia é arriscada por mais simples que seja; mas eu continuava com muita fé e esperança de que mais uma vez o Pai Celestial estaria ali para me salvar, enquanto não era decidido onde e quando faria a cirurgia.
Continuava fazendo fisioterapia e agora com mais vontade, pois sabia que perderia todo aquele trabalho e que tinha consciência de que quanto mais forte estivesse, mais rápido seria a minha recuperação no pós-operatório. O impasse continuava, não sabia onde nem quando seria a cirurgia. Eu me concentrava apenas em uma cirurgia, já que as duas não iriam ser feitas no mesmo dia. E eu já tinha problemas demais para ficar pensando em duas cirurgias. Os problemas começaram quando não tinham recursos para fazê-la, pois era particular.
Eu não tinha nenhum conhecimento de como era fazer uma cirurgia naquela capital, onde eu só ouvia falar que era muito complicado, a não ser que estivesse muito mal e fosse uma emergência e ainda assim era complicado. Digo isto por experiência própria: por duas vezes naquele período fui até um daqueles hospitais nos quais estava previsto fazer as cirurgias, para fazer uma ultra-sonografia e fiquei o dia todo esperando numa maca, na emergência, esperando para ser encaminhado para o tal exame equando isto aconteceu, fui abandonado no corredor esperando que alguém me conduzisse até o local do exame, quando eu pedia a alguém para me conduzir até lá, ouvia sempre a mesma resposta: ”Eu não posso, tem uns rapazes que são responsáveis por este trabalho”. Quando eu perguntava por estes rapazes a resposta era que tinham dado uma saidinha, mas que já voltavam.
Mas o pai Celestial é perfeito, quando eu já não agüentava mais aquela espera e o sofrimento de estar naquela maca dura e com os pés pendurados; apareceu um daqueles

enfermeiros da ABBR, acompanhando um paciente deficiente físico e visual e quando me viu, tomou as providências e me conduziu até o local do exame. Depois de muito esperar, foi feito o exame e aí tinha outro problema que era voltar para a emergência e ser liberado para voltar para a ABBR. Fiquei esperando no corredor até às 21 horas e depois fui levado para um cantinho na emergência e fiquei na maca até o outro dia. Quando amanheceu, a assistente social da ABBR entrou em contato e me levou de volta para a ABBR.
Passei 24 horas naquele hospital, com febre, e não tomei nenhum antitérmico. Sei que fui culpado em aceitar ter saído da ABBR sem alguém para me acompanhar, masnão tive escolha, era uma emergência e não deu tempo de avisar a minha família que morava a quase trezentos quilômetros dali e eu achei que não daria tempo de chegar alguém para me acompanhar e me foi feita a promessa de que só faria o exame e voltaria. Isso foi verdade, só fiz o exame e voltei, mas só que 24 horas depois de muito sofrimento. Os dias se passaram e eu estava esperando o urologista decidir o que seria melhor e ele havia sido convidado para assumir o setor de urologia de um grande hospital. Ele estava pensando em aceitar e assim que assumisse, seu primeiro paciente seria eu, porém, eu já estava vivendo a poder de antibióticos fortíssimos, pois tinha infecções constantemente.
Já não fazia fisioterapia nos setores, só no leito e eu era mais um paciente clínico, a Instituição era de reabilitação e só tratava pacientes clínicos e, principalmente, do SUS, se fossem pequenos casos e com medicamentos mais baratos, pois o SUS não cobria estes medicamentos, porque eram muito caros.
Passados alguns dias, o doutor assumiu a setor de urologia de um grande hospital e o serviço social da ABBR organizou a minha cirurgia que seria a primeira. Desta vez eu contratei um enfermeiro particular, que conhecia quase todo o Rio de Janeiro e assim contratou mais um enfermeiro para revezar com ele, porque desta vez eu não queria ficar a mercê dos funcionários do hospital.
A cirurgia foi marcada para uma segunda-feira, só que eu deveria me internar no domingo e assim o fiz. Naquele domingo o enfermeiro chamou um táxi e fomos para o hospital, já fazia muito tempo que eu não andava de carro sentado na frente e muito menos em uma cidade linda como o Rio de Janeiro. Sabia que não estava fazendo turismo, mas pedi ao enfermeiro que não tivesse pressa para chegarmos ao hospital, ele entendeu a minha mensagem e pediu ao motorista que passasse por uma lagoa muito famosa, que tinha uma paisagem linda e não ficava muito longe, era caminho.
Por alguns minutos eu me desliguei dos problemas e curti como se estivesse apenas passeando, fazendo turismo mesmo. Por alguns momentos eu busquei forças para não chorar, não porque homem não chora, nem por vergonha, mas porque não tinha nada a ver com aquele momento, com aquela paisagem que era linda, com o vento que tocava o meu rosto, com aquelas pessoas que caminhavam e pareciam estar tão felizes. Com certeza, o motorista e o enfermeiro não entenderiam que aquele cachoeira de alegria, pois só quem passa por um problema e tem que ficar preso a um hospital, em um leito ou em uma cadeira de rodas e ama a natureza e a vida como eu, pode entender o que é chorar de alegria naquele momento.
Mas tudo isto durou pouco tempo, com a aproximação do hospital mudava toda a paisagem e com certeza só não mudava a vontade de chorar, só que agora era de tristeza e de solidão. Sentia-me muito só.
A chegada ao hospital foi rápida assim como a internação, pois o doutor e a assistente social tinham organizado tudo e não encontramos problema nenhum na internação, até o número do leito nós já sabíamos, assim foi fácil. Porém, ao chegar no hospital e entrar na enfermaria, pude constatar o que era um hospital público e abandonado, quanta coisa faltava ali, numerando apenas o que vi no quarto e do meu leito, faltava forro de cama, termômetro, lâmpadas, as janelas não fechavam, as tomadas não funcionavam, era um emaranhado de fio só, e aí tinha sempre um curioso que dava um jeitinho, emendava um fio dali outro daqui para funcionar um ventilador, por exemplo, o banheiro era um absurdo, o vaso não funcionava, e no lugar do vaso tinha um cano, comum registro que não fechava nem abria, de modo que aquele cano saia água dia e noite, só que o ralo não escoava a água completamente e o banheiro ficava alagado; por muitas vezes o cheiro de esgoto invadia o quarto e fedia muito, e ainda tinha umas baratas bem pequenas, em muita quantidade, que anunciavas que as refeições estavam chegando. Assim que as refeições chegavam, elas faziam um barulhão, pois apareciam de todos os lados, tinha umas que vinham pelos tubos por onde passava os fios de energia, e o barulho que elas faziam, causava espanto parecia que elas vinham combinando, “vamos comer tudo por aqui”, e à noite, com a falta das lâmpadas, elas só faltavam comer os pacientes, já que comiam tudo que encontrassem pela frente.
Naquela tarde, logo que cheguei e ao entrar na enfermaria, um homem que lá estava, perguntou-me: “Você é jogador de futebol? Você se parece muito com jogador de futebol de um time aqui do Rio”. Só que ele falou o nome de um time muito famoso e, brincando lhe respondi: “Já joguei futebol, mas não atingi a fama”. Logo pude perceber que se tratava de uma pessoa simples, pois em sua simplicidade, e até um pouco de ingenuidade, poderia acreditar que um jogador de um time famoso do qual elehavia citado o nome, poderia estar se internando ali para fazer uma cirurgia. Confesso que achei muito simpático o jeito com que fui recebido por aquela inocente pessoa, então pensei: “Logo que me acomodar irei conversar um pouco com ele, saber seu nome e o que faz aqui!”.
Só que eu não imaginava que pouco tempo depois, aquele simples homem fosse ficar aos gritos, pedindo por socorro e se abanando com um pedaço de papelão e gritando: “Eu vou morrer, eu vou morrer, socorro! O enfermeiro que me acompanhava, sensibilizado com o que estava vendo, foi até o posto de enfermagem pedir ajuda, que alguém viesse ajudar àquele pobre homem, e só depois de uns quarenta minutos uma auxiliar de enfermagem chegou na porta e disse para o homem que andava por toda enfermaria, dizendo que iria morrer: “Deite-se aí e fique quieto porque você já foi medicado” E sem entrar na enfermaria voltou para seu posto. O homem, assim, obedeceu, deitou-se na cama, ficou gemendo por algum tempo e depois ficou quietinho, como havia determinado a enfermeira, mas só que quando ele gritava e pedia socorro e dizia estar morrendo e ele sabia o que estava dizendo, pois ficou quietinho não apenas por ser obediente, mas porque havia anunciado, ele acabava de morrer. Sóbem mais tarde a enfermeira apareceu para fazer os medicamentos e viu que o homem estava morto, quando o balançou para acordá-lo para tomar os medicamentos, ele estava duro e gelado.
Fiz de tudo para não me deixar levar por nenhum sentimento que me deixasse triste ou deprimido, pois no dia seguinte tinha que me submeter a uma cirurgia. Porém, não pude deixar de imaginar o que aconteceu com aquele moço. Será que ele estava em estado terminal? E se ele fosse medicado no momento em que gritava socorro não teriam evitado sua morte? Fiquei pensando se a enfermeira não havia sido negligente, mas de uma coisa eu tinha certeza: ela foi desumana, sequer entrou na enfermaria e foi muito severa em sua ordem: ”Deita aí e fica quietinho!”
Da janela do meu quarto dava para ver a hora no relógio da Central do Brasil, pois era todo iluminado. Já tinha ouvido falar e visto na televisão, agora eu contava as horas marcadas naquele gigantesco relógio que estava ali na minha frente. No dia seguinte, o enfermeiro que me acompanharia na cirurgia não havia chegado; puseram-me na maca e fui para o corredor que dava acesso ao centro cirúrgico, o qual tem fila para entrar, e se você não tem alguém que te acompanhe, você vai ficando para trás; e eu ainda cometi o erro de estar de relógio e de aliança e aí chegou a gerente do setor e disse que ali tinha um paciente que estava até de relógio. Ainda bem que ela não viu a aliança, mas foi logo dizendo que era para me tirar dali porque estava atrapalhando. Fiquei muito assustado com o que ela disse, porque sabia que a equipe médica só estava esperando que eu entrasse para iniciar a cirurgia. De repente, alguém me perguntou pelo meu sobrenome “Boa Morte”, o que eu estava fazendo ali. Quando eu olhei, era a mesma doutora que no dia da minha internação na ABBR disse que iria abrir a porta da esperança para mim. Contei o que estava acontecendo e Lea, imediatamente, tomou as providências para que eu entrasse para o centro cirúrgico, pois era a anestesista da equipe que iria me operar.
Já no centro cirúrgico e com muito cuidado, dizia que era para ter muito cuidado ao passar-me de uma maca para outra, pois eu era um paciente muito especial, ou seja, que eu não tinha nenhum movimento, mas tinha espasticidade e por isso a qualquer momento as pernas poderiam movimentar-se sem direção e sem controle, que eu era um paciente muito limitado, que estava ali sozinho e só tinha ela e o doutor de conhecidos. Disse estarpreocupada com a minha reação durante a cirurgia.
Por volta das treze horas, acordei com uma pessoa me chamando, era um enfermeiro responsável pelo setor de pós-operatório e ele dizia que tinha alguém que queria saber como eu estava me sentindo, se eu estava me sentindo bem e que me levaria para a enfermaria. Vendo que eu estava bem, me transferiu para a enfermaria e quem estava me esperando era um mensageiro de Kátia, já que ela não tinha estrutura para enfrentar aquele hospital e sua mensageira era ninguém mais que Dona Wilma, sua mãe e minha grande amiga. Ela ficou um tempinho e foi embora. Só depois fiquei sabendo que ela não tentou, achou tudo muito feio e muito velho. Ainda bem que ela não tentou ir ao banheiro, pois nem o pessoal da limpeza gostava ou até mesmo conseguia entrar, pois dizia que era uma lagoa, só que no escuro.
Fiquei quatro dias após a cirurgia naquele hospital, e o enfermeiro que me acompanhava teve que levar forro de cama de sua casa. Passados esses quatro dias, voltei para a ABBR e enquanto me recuperava da cirurgia, fazia fisioterapia no leito, até ser liberado para os setores. Na cirurgia foram removidas setenta e quatro pedras pequenas de minha bexiga. No começo foi difícil acreditar que nossoorganismo fosse capaz de produzir corpos estranhos assim, mas, passados alguns dias, tudo parecia estar bem e o doutor liberou-me para fazer fisioterapia nos setores. a intenção dele era recuperar um pouco a condição física que eu havia perdido naquele período, e que em breve faria a outra cirurgia para remover os cálculos que estavam no rim direito.
Passados mais alguns dias, comecei a sentir febre muito alta e os exames acusaram uma infecção renal, isso anunciava que os problemas estavam de volta, Eu sabia que era preciso fazer outra cirurgia e que dessa vez seria mais difícil do que da primeira, mas imaginava fazê-la sem ser urgente e sem correr mais riscos que o necessário. Depois de mais alguns exames, ficou constatado que um dos cálculos que estava no rim havia se desprendido e desceu para o ureter e estava obstruindo a passagem dos líquidos para a bexiga, assim fui vitima de uma grande infecção, e cada dia que passava a febre era mais alta e os antibióticos, mesmo sendo fortíssimos, não combatiam a infecção e os problemas cada dia era maiores.
Agora não era questão de um local onde fazer a cirurgia e nem de um cirurgião, e sim que a infecção fosse combatida. Mas em algum lugar estava escrito que nãoera para ser fácil e que o sofrimento havia me adotado para uma experiência, os antibióticos, que eram venosos, já não tinham mais como ser feitos, pois as veias já estavam muito fraquinhas, quando se conseguia pegar uma delas, logo inchava e estourava, e assim eram feitas varias tentativas, todos os funcionários na área de enfermagem davam uma espetadinha, pois um achava que tinha a mão melhor que a do outro e assim levei muitas espetadas, não protestava nem fazia cara de dor, pois já tinha chegado à conclusão de que, na verdade, eram as minhas veias que não prestavam.
Sabendo disso, eu ficava torcendo muito para que um deles conseguisse pegar uma veia, sem explodi-la, para que pudesse ser feito o medicamento para abaixar a febre de 41 graus. Apesar das toalhas molhadas e do álcool com que me cobriam, e eu só faltava cair da cama de tanto que tremia, não tinha mais controle de nada, ora batia o queixo sem parar, ora não conseguia abrir a boca. Na verdade eu estava à beira de entrar em choque, segundo eles falavam. Só não fui transferido para um hospital porque, certamente, não resistiria e todos sabiam que a solução era pegar uma veia, para que eu recebesse o antibiótico que tinha que ser intravenoso, a fim de combatera infecção. Começou-se então a cogitar a necessidade de pegar uma veia no peito ou no pescoço, o mesmo procedimento que há um tempo atrás havia sido feito, quando as minhas veias sumiram.
E as tentativas continuaram sem sucesso por toda tarde, chegou a hora da troca de plantão e o problema foi passado para o plantão da noite. Era uma sexta-feira, início de um feriadão e os pacientes iriam passá-lo com suas famílias; enquanto eles estavam indo para suas casas eu estava ali sem saber se na manhã seguinte estaria vivo.
Os funcionários do plantão da noite assumiram e logo foram se concentrando no meu problema Naquele dia, a doutora do plantão estava substituindo sua amiga que não estava bem de saúde, pois ambas eram médicas da ABBR. Ela formou sua equipe e começou a tentativa de pegar uma veia do meu pescoço, tentou várias vezes e em algumas delas pegava a veia errada fazendo com que o sangue jorrasse longe, deixando toda a equipe muito nervosa; não demorou muito e meu pescoço ficou todo roxo e inchado.
Só depois eu fui descobrir, para nossa falta de sorte, que a doutora havia escolhido o lado que já tinha sofrido três intervenções cirúrgicas, fazendo com que estivessesem condições para este procedimento. Comentei com a doutora o que tinha acontecido com aquele local e ela lamentou e passou para o outro lado do pescoço. Mas a essa altura, ela já estava muito nervosa e suas tentativas continuavam sendo em vão; todavia, ela já tinha entrado em contato com outra doutora, que após analisar os dois lados do pescoço concluiu que não dava nem para tentar e que tentaria no peito, uma subclávia.
O sofrimento e aquela febre alta não me abalavam, enquanto os outros estavam muito nervosos ao ver meu sofrimento há mais de seis horas. Eu sabia que depois de tantas tentativas só o Pai Celestial poderia me ajudar, então, me entreguei a ele e pedi que iluminasse aquela doutora para que ela não ficasse tão nervosa porque as opções estavam ficando cada vez menores.
Não demorou muito tempo e mais uma vez o Pai Celestial mostrou que tinha um grande amor por mim. Quando a doutora se preparava para pegar a subclávia, pois eu já estava com o peito anestesiado, pediu que ligasse para a doutora que estava substituindo naquele plantão tão tumultuado. De repente a própria apareceu, dizendo que estava se sentindo melhor e resolveu passar na ABBR para saber como estava o plantão; ao estacionar, seutelefone tocou e era para avisar que tinha um caso complicado. Subiu para ver o que estava acontecendo e ao ser informada sobre o meu caso, colocou um jaleco cirúrgico e assumiu a responsabilidade de pegar a subclávia. Ela parecia calma, mas fez várias tentativas sem pegar a veia certa, o sangue estava coagulando muito rápido, obstruindo, assim, as agulhas, dificultando ainda mais o que já estava tão difícil.
A doutora suava muito e as outras duas ficavam secando o seu suor, depois de uns quarenta minutos, ela conseguiu pegar a veia desejada, foi um momento de alegria geral, todos ficaram felizes. Era um final de semana, não tinha muito o que fazer, por isso todos estavam ali torcendo por mim e pelas doutoras; um já estava com o soro, outro com os antibióticos, outro com as compressas para o pescoço, que estava todo roxo e inchado. Quando tudo se normalizou, para descontrair, a doutora me perguntou como eu fiz um papelão desses com ela, querendo morrer logo no seu plantão. Para disfarçar o meu sofrimento eu respondi que se eu morresse cercado de tanta gente e nas mãos de três doutoras faria jus ao meu nome: Boa Morte. Com o efeito dos medicamentos, a febre cedeu um pouco e pude, assim , dormir um pouco, pois jáfazia alguns dias que não dormia nada por causa do febrão.
No dia seguinte, a febre já tinha cedido bastante. Comecei a imaginar que fisioterapia eu não iria fazer tão cedo e que assim que ficasse bom daquela infecção, iria enfrentar outra cirurgia e que se corresse tudo bem, dela mesmo eu iria para casa e que aquela vaga que eu almejei tanto eu perderia, pois agora levaria de três a quatro meses para voltar a fazer fisioterapia. Decidi, então, me concentrar apenas na recuperação do estado em que me encontrava e na futura cirurgia.
Dias depois, após mais alguns exames, o urologista que faria a cirurgia achou que talvez fosse preciso retirar o rim direito, que estava causando todo aquele sofrimento. Então, comecei a ficar meio decepcionado e muito triste porque até ali eu não tinha perdido nenhum membro ou órgão do corpo Essa má notícia eu ouvia direto do médico e não tinha ninguém da minha família ali para me dar uma força, mas eu encarei tudo com muita coragem, pois eu preferi esperar que o dia da cirurgia chegasse e depois que ela tivesse terminado eu iria perguntar se foi preciso sacrificar o rim, pois o médico disse “talvez” e eu não estava em condições de sofrer mais do que havia sofrido, eu não poderia me deixar levar por nenhum sentimento negativoporque só iria atrapalhar.
O doutor marcou a cirurgia, agora eu tinha que resolver como ia ser transferido, e dessa vez eu estava saindo da instituição, e assim perderia o apoio do serviço social, que havia sido, até ali, de uma grande importância em todos os momentos em que estive naquele lugar, não só porque as assistentes sociais eram dedicadas, mas por serem funcionarias de uma instituição de referencia no Brasil, e sem nenhum vínculo com a instituição ficaria muito mais difícil.
Eu e minha família achamos melhor, dessa vez, não contratarmos enfermeiro particular para acompanhar-me, meu irmão faria isso. No dia marcado para a cirurgia, o mesmo carro que foi levar meu irmão me transferiu para o hospital, levou embora minha mudança e junto com ela foram embora todas as minhas expectativas e possibilidades de uma reabilitação, pelo menos nos próximos seis meses; e naquela instituição, talvez nunca mais, por vários motivos: era muito difícil conseguir vaga e ela estava tendo muitos problemas com o SUS.
Naquele dia, firmei o propósito de não pensar no que estava ficando pra trás, mas sim no de eu tinha que enfrentar, pois estava sendo transferido para o mesmohospital, aquele que estava em péssimo estado de conservação, mas o que era pior era conviver com o fantasma da possibilidade de ter que sacrificar um rim; neste momento é impossível você não ter uma depressão.
Mas nestas horas sempre aparecia uma voz que me perguntava: “Oh, rapaz cadê sua fé e sua esperança? O Pai Celestial não vai te abandonar, ele já provou que tem um grande amor por você”.
Chegando ao hospital, a cirurgia acabou não acontecendo mais no horário marcado. Enquanto esperava, elevei meu pensamento ao Pai Celestial e pedi que fosse feita a sua vontade. Horas depois fui para o centro cirúrgico, tudo foi muito rápido, pois aquele catéter na subclávia havia sido preservado para o momento; não durou muito tempo, eu não vi mais nada, a cirurgia durou umas quatro horas, não sei ao certo; quando acordei já era noite, e quando fui para a enfermaria, era muito tarde. Foi aí que fiquei sabendo que não foi preciso sacrificar o rim, meu irmão mostrou-me os cálculos que haviam sidos retirados do meu rim, eram enormes.
Mesmo sob efeito da anestesia, agradeci ao Pai Celestial aquela dupla vitória, que foi acordar depois de mais uma cirurgia, e de não ter sacrificado meu rim. Nodia seguinte fui medicado por um medico que fazia plantão e ele disse o que estava escrito no prontuário, que tudo correu bem e que dentro de cinco dias eu teria alta. Essa noticia deixou meu irmão mais preocupado, pois ele estava assustado com tudo que ele havia presenciado de um dia para o outro, mais cinco dias seria um grande pesadelo, pra começar ele não entedia porque deu tanto trabalho para legalizar sua condição de acompanhante, já que o paciente que não tivesse um acompanhante morreria de fome ou de sede, o comportamento dos funcionários naquele hospital era muito estranho, o pessoal que servia o alimento colocavam-no sobre a mesinha de cabeceira, se o paciente comesse bem se não, um pouco depois, eles vinham e recolhiam sem perguntar nada, e quem não comeu ficava com fome; esses eram aqueles pacientes que não conseguiam comer com as próprias mãos e não tinham um acompanhante; assim, só olhavam as refeições entrarem e saírem, e continuavam com fome.
A falta de solidariedade não era restrita apenas ao pessoal da alimentação, mas se estendia a maioria dos funcionários com quem tive contato naquele hospital, com uma pequena exceção, o que dava pra ver por exemplo que o pessoal da enfermagem, seguido do pessoal dalimpeza, quando eles chegavam na porta da enfermaria e davam uma olhadinha e faziam uma cara muito feia e diziam “Hum! Hoje está demais!”, mas não era porque eles estavam preocupados com a quantidade de pessoas que estavam doentes e precisando de cuidados, mas sim porque eles teriam que trabalhar mais um pouco, é redundante, mas era difícil entender porque era tão complicado conseguir uma autorização de acompanhante, já que o paciente que não tivesse alguém por ele ali do seu lado morreria de fome e sede; digo isso porque meu irmão e eu presenciamos alguns episódios que nos chamou a atenção.
No leito ao lado do meu, no segundo dia que ali cheguei, foi internado um homem que aparentava aproximadamente uns sessenta anos, ele tinha muita dificuldade para respirar, não se movimentava, sequer mexia com os olhos. Observando o tratamento dado àquele homem fiquei muito assustado, em ver que uma vida não tinha o mesmo preço para todos ali; na noite seguinte à sua internação, percebi que o homem não respirava mais, então chamei meu irmão, que no momento cochilava em minha cadeira de rodas,entre uma cama e outra, ele tomou um susto, mas mesmo assim foi até o posto de enfermagempara avisar; se não fosse triste seria cômico, ele encontrou outro morto no corredor, ele que já estava assustado, não sabia para onde correr.
Sai daquele hospital torcendo para que todos ali pudessem entender o significado da palavra amor ao próximo, e que começassem a praticar nos próximos pacientes. Como pacientes, esperamos ser tratados com dignidade, sejamos nós pacientes de um grande plano de saúde ou do SUS, é claro que essa minha indignação é restrita a uma meia dúzias de aventureiros, sejam eles médicos ou enfermeiros ou qualquer outro que atue nesta área. Outra coisa que me deixa intrigado e me causa indignação é que o SUS era pra ser o maior, o melhor e mais famoso plano de saúde do Brasil, porém, só é famoso porque não funciona.
Já em casa, depois de mais uma cirurgia e mais uma terrível experiência, confesso ter ficado um pouco traumatizado com tudo que presenciei, e que fui vitima naquele hospital, não só dos humanos, mas também das baratas que só faltavam comer os pacientes, foram oito dias de muito sofrimento, levei muitos dias imaginando, tentando adivinhar o que cada pessoa, entre as que vi sofrendo, já tinham passado na vida, muitas delas já erampessoas que com certeza já haviam vivido bastante, e de quanto foi sua contribuição para o desenvolvimento deste país, e que agora estavam ali abandonadas à própria sorte, e onde estava o respeito ao ser humano neste país, que depois de trabalhar toda uma vida, agora estava ali, implorando um lugarzinho que na maioria das vezes era para morrer e que agora estavam literalmente entregues às baratas.
Depois dessa experiência cheguei à conclusão de que a morte é realmente uma dádiva dada por Deus, pois ouvi de pessoas, parentes de alguns pacientes, que só a morte poderia livrá-los daquele sofrimento, lembrei-me então, que está nas escrituras que no juízo final, o grande milagre será a morte, mas nós não estávamos diante do juízo final; nesses momentos a cabeça da gente gira milhões de vezes por segundo, e aí fiquei: pensando “Será que alguém já pensou que o melhor seria que eu tivesse morrido?” Como esses pensamentos vêm e vão em uma fração de segundos, eu sempre ouvi dos mais velhos, a seguinte frase: – Se a gente não morre na juventude, da velhice não passa! – Só que eu acho que poderíamos ter um pouco mais de dignidade, pelo menos nos últimos momentos de nossa vida terrena. Em casa, os dias se passaram e eu me recuperava da última cirurgia e do trauma psicológico. Passados alguns meses, comecei a sentir muita dor no mesmo rim que havia sido operado, procurei um urologista e depois de muitos exames foi constatado que o ureter estava obstruído, na cirurgia o instrumento cirúrgico causou algumas lesões, assim a cicatrização não foi boa, formando no local algumas fibroses, que estavam obstruindo a passagem da urina, causando a dilatação do rim, então não restava outra alternativa: uma nova cirurgia; e mais uma vez se falava em retirar o rim, mas isso seria decidido durante a cirurgia, o urologista e o cirurgião haviam estudado o caso com uma junta médica, eles disseram que iriam usar todos os recursos para que não fosse preciso sacrificar o rim. Dessa vez eu iria fazer a cirurgia particular, não dava para esperar na fila, enfrentar tudo de novo, para ser atendido pelo SUS, eu não havia ficado rico, nada disso, mas tinha a quantia pedida pelo cirurgião e sua equipe e mais a diária do hospital, e assim foi feito. A cirurgia, estava prevista para durar uma hora, se não fosse preciso tirar o rim, mas durou quase duas horas, assim que acordei fiquei sabendo que o rim havia sido preservado e fiquei no hospital por apenas quatro dias.
Já de volta, em casa, ou outra vez de volta para casa, sabia que se tudo corresse bem naquela cirurgia e se aquela fosse a última, mesmo assim teria de ficar um bom tempo sem fazer fisioterapia. Agora tinha voltado a fase do “senão” e do “talvez”, assim, comecei a me perguntar: “Será que essa é a última cirurgia?”; “E se não fosse preciso fazer tantas?”; “Será que eu estaria melhor fisicamente?”; “E se eu não fosse trabalhar naquele dia como eu havia planejado?”; “E se eu não fosse socorrer aquele rapaz que estava com problemas no carro?”; “E se eu não parasse na Cantina?”; “E se aquela carreta que estava na minha frente não tivesse entrado para o Posto e eu seguisse atrás dela, será que teria evitado o acidente?”; “E mesmo depois do acidente, se aquela placa não tivesse causado uma lesão no meu esôfago, fazendo com que eu voltasse tantas vezes para o hospital, me tirando a oportunidade de me alimentar por tanto tempo?”; “E se o neurologista não tivesse voltado atrás em seu plano de substituição da placa assim que chegasse a moderna, já que tudo começou porque a placa era obsoleta?”.
Perdido entre tantas perguntas, não encontrei respostas para todas, mas cheguei à conclusão de que aquela placa foi o segundo acidente que aconteceu comigo e depois de chegar a esta conclusão, restavam muitas perguntas a respeito do segundo acidente. As respostas eram claras, porém, eu prefiro acreditar que a sorte não me ajudou, talvez porque eu não apostei nela. Mas eu estava diante da medicina e da tecnologia, ambas avançadíssimas. No primeiro acidente não tive tempo para pensar, nem para me defender. Já no segundo, quando me colocaram aquela placa arcaica, eu continuava sem poder me defender, mas tinha a meu favor a medicina e a tecnologia e uma equipe médica, daí ainda ter que apostar na sorte, é questão de sorte.
Depois de refletir sobre tantos problemas, cheguei a muitas conclusões, mas o que não deu para entender e vai levar muito tempo para eu entender é o porquê das camas, das macas dos hospitais, e de algumas ambulâncias serem tão pequenas, que se o paciente tiver mais de um metro e setenta e seis de altura, não pode nem pensar em ficar doentes e precisar ficar em uma cama de hospital; e se eles tiverem que ficar com as pernas estendidas, provavelmente ficarão com os pés pendurados, e se levantarem a cabeceira, ficarão espremidos entre as duas extremidades da cama. No meu caso era muito complicado, pois minhas pernas não tinham controle, umahora elas estavam estendidas outra hora elas estavam encolhidas e muitas vezes elas ficavam fazendo movimentos involuntários, indo e vindo e assim batiam na grade da cama, pois não dava para estendê-las por completo.
E quando imagino o tamanho da maca, principalmente das ambulâncias que eram bem menores, então dá para concluir que os fabricantes não imaginam o que é ficar doente e precisar usar aquela maca tão pequenina; se o paciente for muito grande, com certeza vai sobrar uma boa parte das pernas, porém, quando se trata de maca de ambulância não podemos condenar apenas as macas, porque se aumentar um pouquinho as macas, elas não caberão dentro das ambulâncias. Mas não devemos generalizar, pois se trata apenas de algumas marcas, tem marcas de ambulância que se os pacientes medirem (dois) metros e for preciso ficar com as pernas estendidas, ou tem que andar com a tampa traseira aberta ou tirar a maca do lugar onde ela fica presa e chegar para frente, e aí o paciente ficará espremido entre os extremos da ambulância, e assim a maca ficará solta indo de um lado para o outro, de acordo com os movimentos que a ambulância fizer. Eu tenho um metro e oitenta e seis, e quando viajava de ambulância e eram essas mini-ambulâncias, era preciso colocar um almofadão embaixo das pernas para que elas ficassem um pouco menores, já que não conseguia controlá-las, e se elas ficassem estendidas não dava para fechar a porta traseira da ambulância, Mas as macas, as mini-ambulâncias e algumas ou quase todas as camas dos hospitais por onde passei – e fui hospitalizado em seis deles – o único com as camas com cabeceira baixa ou alta, que tinha um tamanho confortável, foi na instituição onde eu fazia fisioterapia, mas, também, se em um lugar onde os pacientes estão ali para se reabilitar, tiverem de ficar espremidos na extremidade de uma cama, o que esperar dos relatados.
Mas não são só os fabricantes de ambulâncias, macas e camas, que pensam pequeno, mas também os fabricantes de cadeiras de rodas, sejam elas de qualquer marca, as cadeiras de rodas deixam muito a desejar nas medidas, pois não oferecem muitas opções de regulagem. Os fabricantes consideram como medidas apenas a largura, se esquecendo que os usuários de cadeiras de rodas usam por um tempo indeterminado, e elas têm erros imperdoáveis, como por exemplo, se o usuário tiver maisde um metro e setenta, não existe regulagem nas pedaleiras que dê para acomodar as pernas, e se ele tem mais de um metro e oitenta e seis, como eu, quando sentado na cadeira os joelhos por pouco não encostam no peito; e se você tenta levantar um pouco com uma almofada mais alta, aí vai ter problema na altura, que na maioria das vezes o encosto não tem regulagem, e quando tem é muito insignificante.
Sei que existem umas adaptações, mas nestes casos são apenas para o encosto, porque para as pedaleiras não existem recursos, já que qualquer adaptação para aumentá-las tocaria o solo, e sem contar que na maioria das vezes, em muitas marcas de cadeiras, existem erros que me faz pensar que quem projeta as cadeiras não tem idéia do que é ser deficiente físico e depender de uma cadeira para se locomover. Poderia citar muitos defeitos de fabricação, eu tenho duas cadeiras, uma é manual, é nacional, a outra é importada dos EUA e é motorizada, mas mesmo assim elas têm os mesmos problemas, quando falamos em medidas e regulagens. Isso me faz pensar que os fabricantes de cadeiras de rodas, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, pensam pequeno com relação às cadeiras de rodas, e bem menos com relação aosusuários, no caso, os deficientes físicos.
No Brasil ainda é muito pior, pois não são só os deficientes, mas todos os que necessitam de um atendimento relacionado à saúde passam por muitos problemas. Mas, ainda se tratando de deficientes físicos, sejam eles dependentes de uma cadeira de rodas ou de qualquer outro aparelho para se locomover, na maioria das vezes, os melhores aparelhos são importados é são muito caros. São muitos os aparelhos e adaptações que proporcionam ao portador de qualquer deficiência criar um pouco mais de independência.
Mas se tratando daqueles que precisam de uma cadeira de rodas para se locomover, esbarram em muitos obstáculos e não é apenas por não termos acesso a todos os lugares porque não existem rampas.
Certo dia, cansado de ficar em casa, porque a minha cadeira não tinha estrutura para enfrentar os obstáculos encontrados nas ruas da cidade onde eu moro, por ser uma cidade de interior, as ruas são calçadas com pedras de paralelepípedos. Essas pedrinhas são terríveis até para os automóveis, imagine para uma cadeira de rodas; e quando a cadeira é movida pela força dos braços se torna mais difícil; por esse motivo me vi na necessidadde comprar uma cadeira de rodas motorizada, pois só assim poderia enfrentar as ruas e me tornar um pouco mais independente, pois não agüentava mais ficar dentro de casa, e quando saia era preciso alguém empurrar e eu não ia muito longe, eu só saia de casa se fosse muito importante e se outra pessoa não pudesse resolver por mim, e isso me deixava deprimido, porque eu sempre resolvi meus problemas sozinho. É claro que eu sabia que a cadeira motorizada não iria resolver todos os meus problemas, mas onde eu tivesse acesso eu mesmo poderia resolvê-los e assim ocuparia aquele tempo ocioso.
Pensando assim, parecia fácil, então, comecei a juntar dinheiro, porém ganhava pouco e na ocasião eu não precisava comprar muitos remédios, sobrava um pouco, depois de alguns meses economizando, descobri que do jeito que eu estava juntando dinheiro, não conseguiria comprar a tal cadeira, pois já era de meu conhecimento que as que melhor adaptariam às minhas necessidades eram importadas, a nossa moeda era estável, mas o dólar subia todos os dias.
Certo dia comentei com um amigo, da necessidade de comprar essa cadeira, e ele então disse: “Vamos arranjar umas prendas e faremos um leilão”. Fiquei pensando, o
que atrairia as pessoas a participarem de um leilão, o que seriam essas prendas? Entre um pensamento e outro surgiram muitas dúvidas, mas o bom é que eu tinha feito muitos amigos, não sei se ao longo dos meus trinta e um anos ou se apenas com trinta e um anos, mas o certo é que meus amigos estavam ali firmes, e eu querendo comprar a cadeira. Outro dia, conversando com um deles, ele falou: ”Nada de leilão, vamos fazer um bingo beneficente”, e disse mais: “Liga para seus amigos fazendeiros e peça para eles um prêmio”. Aí me veio à cabeça: “Vou pedir logo um sítio com alguns animas”. Foi aí que surgiu a idéia: “Animas, vou pedir para meus amigos novilhas”; fui logo pegando o telefone e ligando pra eles, e eles ficaram felizes em poderem me ajudar e disseram que as porteiras de suas fazendas estavam abertas pra que eu fosse lá e escolhesse.
Essa parte estava resolvida, o resto ficou por conta dos meus amigos da cidade de Quissamã que se envolveram na vendas dos bilhetes, que foi um sucesso; o bingo realizou-se e também foi um sucesso, o dinheiro arrecadado era a quantidade exata que faltava para comprar a cadeira.
Ao mesmo tempo em que tentava arrecadar odinheiro, fui pesquisando, tentando descobrir qual cadeira se adaptaria melhor às minhas necessidades, fosse ela importada ou nacional. Foi aí que começaram os problemas, é que a cadeira que melhor se adaptaria à minha cidade era exatamente a importada, no Brasil tinha representantes e revendedoras da marca, mas custava três vezes mais, que nos Estados Unidos. Mais uma vez meus amigos deveriam entrar em ação, liguei para meu amigo André e para minha amiga Cecília,no Rio de Janeiro, e aí eles, via Internet, fizeram contato com as lojas nos EUA, pesquisaram preço e encontraram uma forma de fazer o pagamento.
E assim foi feita a compra da tão sonhada cadeira motorizada. Até aí tudo tinha dado certo porque as pessoas que foram envolvidas no processo tinham o desejo de ajudar, todo processo de juntar o dinheiro ate a compra da cadeira foi muito fácil, mas o processo de retirada da cadeira em um aeroporto no Rio de Janeiro, o processo alfandegário, os impostos e a burocracia que o governo brasileiro impõe é de tirar qualquer um do sério.
Eu sabia que pagaria impostos, quando eu pesquisei, os impostos eram significativos, mas no tempo entre a compra e a chegada da cadeira ao Brasil, o governomudou tudo, aumentou os impostos, e mexeu no câmbio; quando a cadeira chegou, o dólar estava custando o dobro, e o governo foi impiedoso, a Receita Federal cobrou 15% em dólar ou 60% em nossa moeda sobre o valor total da cadeira, mais transportes e sobre todos os impostos, elevando o custo da cadeira para o dobro, não aceitaram toda documentação que provava que eu não estava comprando uma cadeira para uso próprio, o que me deixou mais intrigado é que enquanto eu pagava tão caro para possuir uma cadeira de rodas, mexeram no câmbio e não era para ajudar os deficientes. Mas tenho esperanças de que um dia os nossos governantes descubram que ninguém compra uma cadeira de rodas tão cara, seja ela importada ou nacional, por luxo ou vaidade ou para enfeitar a copa ou a sala de estar de uma linda mansão, mas sim por uma grande necessidade. Ah, se eles soubessem quanta importância tem uma cadeira de rodas motorizada para quem não pode usar as pernas ou outro aparelho qualquer que venha substituir as pernas, ou que venha dar melhor qualidade de vida a todas essas pessoas, sejam elas portadoras de qualquer deficiência, certamente isentaria os impostos.
Na minha opinião, se o Governo não pode ajudar, que também não atrapalhasse, já que não pode dar uma cadeira de rodas decente ou qualquer outro aparelho, seja ele importado ou nacional, que isentem os impostos, mas o que me intriga mesmo é que quando o Governo isenta de imposto um produto para ajudar, para minimizar o sofrimento de alguém, sempre aparece um pra fraudar e o que é mais intrigante é que quando o Governo descobre a fraude a primeira providência que toma é cortar o beneficio, quer seja por um período ou para sempre como se os dependentes fossem os culpados e nunca pune os fraudadores, esses sempre ficam impunes.
Eu tenho sorte em morar em Quissamã. Por ser uma cidade de interior, não tem os problemas que tem nas cidades grandes, as diferenças começam assim: em Quissamã eu conheço muita gente e todos me tratam com muito carinho, e nas cidades grandes, às vezes não conhecemos sequer nossos vizinhos; eu moro perto de tudo, em uns dez minutos posso ir a todos esses lugares, no hospital, no posto de saúde de qualquer bairro, à Igreja, ao supermercado, farmácia, posto policial, clube, rodoviária, ao Setor de Fisioterapia.
Uma observação: tudo isso em minha cadeira motorizada que eu chamo de “motocleta”, que seria amistura de moto com bicicleta e, ainda, Quissamã me oferece o que está faltando no mundo inteiro que é segurança, aqui a violência ainda não chegou, não tem o trânsito infernal que há nas cidades grandes, não tem aqueles sinais de trânsito que existem nos grandes centros urbanos para conter milhares de automóveis que insistem em sair todos ao mesmo tempo, congestionando toda cidade, não tem passarelas, túneis, não tenho que andar de ônibus ou de metrô ou mesmo de trem, esses são aqueles que têm nas cidades grandes e todos deveriam ter rampas de acesso para o usuário de cadeiras de rodas, não tenho que subir morros, pois a cidade de Quissamã fica em uma planície, assim facilita principalmente quem usa cadeira de rodas; é claro que existem aquelas valas feitas pela fornecedora d’água, que tira o calçamento e faz questão de não repor, deixando sempre a responsabilidade para a Prefeitura, mas creio não ser um preconceito apenas com os usuários de cadeiras, pois muitas vezes atrapalham até os automóveis trafegarem. Quando imagino que não é sempre que encontro uma vala, ou tenho que subir uma calçada ou meio-fio, ou eu não tenho acesso a um lugar ou outro, que muitas vezes nem tem tanta importância, eu fico imaginando como deve serdifícil a vida daqueles que não têm o privilégio de morar em uma cidade igual a Quissamã e têm que enfrentar todos os problemas gerados por uma cidade grande, e pelos desmandos das autoridades responsáveis, e até mesmo pela sociedade, que por serem de uma cidade grande, desconhecem os problemas que ela tem; só quem tem uma pessoa na família que precisa de uma cadeira de rodas ou qualquer outro equipamento para se locomover é que sabe do que estou falando.
Já disse que sou privilegiado em morar em Quissamã, todos me conhecem na cidade, tem meus amigos de antes do acidente e aqueles que se tornaram meus amigos depois e incluímos aqueles que só me conhecem de vista de um “Olá, tudo bem?”. Eu diria que estou legal de amigos, com o acidente e no de correr desses anos de muita luta para continuar vivendo e durante todo esse tempo não teve um dia que não senti dor física causada pelas seqüelas do acidente, já que foram tantos os problemas pelos quais passei, mas as dores mais fortes eram as que vinham da alma, essas eram causadas pelas decepções, pois em uma tarde, em apenas alguns segundos mudou toda a minha história, me doía na alma quando lembrava das promessas que havia feito, quecuidaria de minha família, e quando lembrava das promessas que fiz para Kátia, que não foram palavras da boca para fora, mas sim do fundo do coração, e quando imaginava que tudo poderia estar perdido, ou que tudo não passou de um sonho, nestes momentos meu coração latejava de dor, minha alma era tomada por uma grande tristeza.
Mas o sofrimento me fez chegar a muitas conclusões e a maior delas foi que o Pai Celestial é maravilhoso, é misericordioso para com seus filhos, quando solicitamos o seu amor e somos merecedores, ele nos dá provas porque ele é o dono do mundo e mesmo assim é o único que verdadeiramente pode nos perdoar. Pude também ter certeza de como é bom ter uma família e ser querido por ela, a convicção de que estava certo quando fiz muitos amigos por onde andei e como foi bom descobrir que eu tenho muitos amigos e ter certeza que amizades valem mais que dinheiro. É claro que com relação a amigos eu me enganei com um ou dois, pois quando eu mais precisei fui traído, mas foi bom que eles tenham se revelado deixando cair a máscara e deixando de ser um inimigo anônimo.
Este é o relato mais difícil, porque vou falar sobreuma pessoa muito querida, mas não posso deixar de fazê-lo, pois vou falar em minha princesa. Quando eu tinha vinte e seis anos, conheci Kátia, fomos apresentados por uma amiga, nos tornamos amigos e nos encontramos mais algumas vezes, certo dia nos encontramos em uma festa em sua cidade e ela continuava sem namorado e eu também estava sem namorada, mas tinha uma moça que estava me paquerando, eu não estava afim, e a paqueradora já estava exagerando na paquera, foi quando eu encontrei Kátia e me atrevi em apresentá-la para a paqueradora como minha namorada. É claro que tudo não passava de uma brincadeirinha, mas funcionou, a moça desistiu, me aproximei mais de Kátia, depois ficamos alguns meses sem nos ver e em outra festa nos encontramos e eu não resisti àquela moça linda, nos tornamos namorados depois de muitos encontros como bons amigos, o tempo passou e ela se tornou a namorada que sempre sonhei.
Com dois anos de namoro ficamos noivos, com cinco anos entre namoro e noivado decidimos casar, aí veio o acidente e as conseqüências do acidente já foram relatadas, mas o que não foi escrito foi o quanto eu sofri. Como se não bastassem as dores das lesões e de ter quepassar por tantas cirurgias e por tantos problemas que já relatei, porém nenhuma dor era maior que a que sentia quando imaginava que tivesse que liberar Kátia do compromisso que tinha comigo na condição de minha noiva, nesses momentos meu coração sangrava, ficou em pedaços, doía na alma, vou fazer este relato para colocar no papel, o que com certeza foi o que me causou mais sofrimento em todo aquele tempo, foi por não saber o que fazer ou como fazer com relação ao meu noivado com Kátia.
Hoje as pessoas fazem muitos elogios a Kátia pelo fato de ela não ter me deixado, às vezes chegam a exagerar quando querem intitulá-la “Santa” por ter suportado tantos problemas e não ter me abandonado. O mérito de “Santa” vamos deixar para Jesus Cristo julgar, mas não posso tirar o mérito de uma grande mulher, de uma guerreira, que nos tempos de hoje é muito difícil encontrar.
Quando digo que as pessoas chegam a exagerar nos elogios, estou falando de uma parte da sociedade que é preconceituosa, daqueles que não sabem que em uma pessoa o que vale mais é o caráter e não se ela anda de cadeira de rodas ou de muletas, se falta uma perna ou um braço se falta um olho ou os dois, mas o que não podefaltar mesmo é o caráter; mas com certeza Kátia faz parte de uma sociedade que não é preconceituosa, não sei o que se passava em sua cabeça em todos aqueles períodos mais críticos pelos quais passei, o que eu sei é que em todos os momentos ela estava ali presente e em quase um ano que fiquei no hospital ela ia todos os fins de semana me visitar e só não foi em dois finais de semanas porque não estava passando bem, ela era incansável, se fazia presente de muitas formas, quando não estava junto, lá do meu lado, cercava todos que estavam à minha volta pelo telefone, ligava duas ou mais vezes ao dia e isso todos os dias e sempre que tinha uma oportunidade mandava uma cartinha.
No começo Kátia chegou a ter alguns desmaios nos momentos mais difíceis, principalmente quando ela me via entrando para o centro cirúrgico com poucas chances de vida. Hoje, quando ela conta para alguém a respeito de seus desmaios, ela conta sempre o lado engraçado; teve uma vez que quando ela foi desmaiando ouviu quando uma enfermeira, falou: “Me ajudem aqui, como vou fazer com essa mulher desmaiada? Ela é muito grande!”. Hoje, achamos isso engraçado, mas imagino que tenha sido muito difícil para Kátia suportar toda aquela
situação, porque apesar do seu tamanho e de sua maioridade, ela é calma, doce, meiga e muito inteligente, tem horas que parece uma menina, gosta de bala, pipocas, algodão-doce e é muito extrovertida, mas quando é preciso ser uma grande mulher, ela junta todas as suas qualidades e aí… “sai de baixo”, ela é muito sincera, verdadeira, quase sempre tem razão, ela procura fazer tudo direito para não errar, faz parte do seu caráter e de sua personalidade, e quando zangada, fica mais inteligente; sei que é muito difícil conhecer uma pessoa e entendê-la perfeitamente, nem eu me arriscaria dizer quanto eu a conheço.
Hoje, quando as pessoas fazem elogios a Kátia e estão relacionados ao fato de que ela não me abandonou, fico muito triste, porque a maioria delas são pessoas que desconhecem a nossa história, elas tentam julgar Kátia como se fosse igual a elas e tentam me julgar como se eu fosse diferente delas, assim julgam erradamente, essas pessoas nunca pararam para pensar o quanto eu sofri com tudo isso, por não ser mais aquele rapaz sarado que era o noivo de Kátia e nunca pararam para pensar que quando eu sofri o acidente, Kátia e eu já éramos namorados e noivos há cinco anos, eu conheci muitos casamentos que não duraram um ano, porque eram casamentos porconveniência, quando o motivo não era a situação financeira de um ou do outro ou até mesmo por falta de caráter dos dois, essas pessoas não pararam pra pensar em seus julgamentos; já que julgam conhecer Kátia, deveriam saber que uma pessoa inteligente, independente, linda, como Kátia não ficaria noiva de alguém por cinco anos e estaria de casamento marcado, se ela não o amasse, já que eu não era e não sou rico, nem muito famoso e aqueles que me conhecem, saberiam que eu não ficaria com alguém que eu não amasse, por cinco anos.
Como foi difícil e desumano todo o período mais crítico, como por exemplo, naqueles momentos que os médicos achavam improvável que eu viesse a me recuperar, eu cheguei a pensar em terminar o noivado, mas eu não poderia tomar essa decisão sozinho; tive muito medo de tocar neste assunto com Kátia, diante de tantas indecisões, essa era uma decisão que teria que ser tomada entre Kátia e eu, porém, eu tinha medo de abordar este assunto com Kátia, já que ela estava lutando junto comigo pela minha recuperação e estava sofrendo tanto quanto eu com aquelas previsões catastróficas, se eu viveria ou morreria, ninguém pode imaginar a velocidade dos pensamentos e o tamanho da dor que a gente sente, tendoque tomar uma decisão tão importante e eu ali imobilizado e tendo sempre a mesma imagem que era um teto manchado, com uma luz acesa ou apagada e para ouvir o barulho das sirenes ou dos motores dos caminhões e automóveis nas ruas, sei que quando a gente está sarado e tem que tomar uma decisão importante, a gente deita no sofá, anda pela casa toda, dá uma volta na rua, tem aqueles que invadem a geladeira, outros chutam o balde, esmurram a parede, tem até aqueles que dizem “Que cachorro enjoado, não pára de latir!”, porém, sei que nada disso ira resolver o seu grande problema, mas que dá uma aliviada, isso dá.
Os dias passavam e os conflitos aumentavam, mas mesmo assim cheguei à conclusão de que não deveria terminar o noivado com Kátia, um dos motivos pelo qual tomei essa decisão foi porque “Como ficaria a cabeça de Kátia?”, com o rompimento de um noivado por alguém que estava mais para defunto que para noivo, certamente ela ficaria traumatizada e se eu rompesse o noivado, certamente estaria assinando o meu atestado de óbito, pois eu não iria resistir e certamente seria meu fim, sem Kátia a vida perderia totalmente o sentido. Quero deixar claro que esse relato é restrito aos momentos em que no meupensamento só existiam Kátia e eu, porque em outros momentos a morte só fazia parte de meu sobrenome, pois eram muitos os motivos para continuar vivendo.
Eu não sei avaliar o quanto foi difícil para Kátia passar por tudo isso, o quanto ela sofreu quando via o seu amor ali preso a uma cama de hospital e senti que nossos sonhos, naquele momento, haviam se transformado em um grande pesadelo, com certeza isso exigia que ela fosse muito forte.
Já relatei tanta tristeza e com certeza outras serão relatadas, fiquei muito triste quando fiquei sabendo que por causa de meu acidente, Kátia deixou de ir à Faculdade por muitas vezes, e com isso não conseguiu se formar junto com sua turma naquele ano, a decepção era porque eu dava muita força para ela fazer Faculdade. É claro que no começo, quando ela disse que iria fazer Faculdade eu fiquei preocupado, para não dizer que fiquei com ciúmes. Quem nunca ouviu falar nas paqueras que existem nas Faculdades, onde só estudam maiores de idade prontos para uma paquera ou uma azaração?
É claro que eu não deixei que Kátia percebesse que eu estava com ciúmes, sua família, mais precisamente sua Mãe, não queria que ela fizesse Faculdade, pois estavapreocupada, já que a Faculdade era em outra cidade e, sendo assim, Kátia tinha que viajar todos os dias, daí a preocupação de sua mãe; mesmo com ciúmes decidi apoiá-la em qualquer que fosse a sua decisão, até mesmo porque eu sabia que era muito importante para Kátia que eu estivesse de acordo com sua decisão e naquela oportunidade lembrei-me que eu não tive oportunidade de estudar e isso me faz falta até hoje, portanto, não deveria contrariá-la em sua decisão em fazer Faculdade.
Convicto de que minha opinião não mudaria sua iniciativa, que era fazer uma Faculdade e até mesmo porque ela é muito determinada. Ah, se eu dissesse que era contra, teria que dizer o motivo e daí dizer que eu estava com ciúmes, estaria eu passando recibo de insegurança e correr o risco de uma derrota, porque ela ficaria triste, mas faria a Faculdade, já que era sua vontade e também uma necessidade na sua profissão, daí pensei: “Agora eu tenho que usar a inteligência, ou estarei com um grande problema!”, decidi que a primeira coisa a fazer era passar por cima do ciúme, até mesmo porque eu não tinha motivos para tal, pois eu sempre confiei muito em minha princesa e o meu maior prazer era vê-la feliz. E para isso bastava apenas ser compreensivo e em apenasquinze dias, passei por uma grande transformação, tornando-me um namorado mais inteligente, mais educado e moderníssimo, eu senti que havia feito uma Faculdade de bom comportamento em quinze dias.
Era chegado o dia de fazer as inscrições para o vestibular e eu estava lá, fui levar Kátia. Ah, estava me sentindo moderno e feliz, porque eu estava presenciando a felicidade de minha princesa, é claro que Kátia não sabia que eu estava passando por um período de mudanças, tive que superar em apenas quinze dias, me tornei um namorado moderno, daqueles que sentem ciúmes mas não demonstram, não deixam que as namoradas fiquem sabendo.
Faço este relato onde falo em minha princesa para ficar bem claro que o meu namoro com Kátia não começou no dia em que eu sofri o acidente, mas hoje posso dizer que naquele dia começou uma nova história de amor, uma história de amor que rompeu muito mais que uma simples barreira e que ultrapassou muitas pedras que surgiram em nosso caminho.
Os problemas e as dificuldades já foram relatados, quando fui para o Rio de Janeiro fazer fisioterapia foi o período em que ficamos mais tempo sem nos ver, foi comcerteza uma época em que senti muitas saudades, no início eu não conseguia sequer segurar o telefone para ligar para minha princesa e mesmo se ela ligasse eu não poderia atender, mas ela me mandava cartas de amor, eu ficava mais apaixonado, porém eu não conseguia segurar uma caneta para lhe escrever e nem segurar o telefone, para lhe dizer como era mágico, lindo, receber suas cartas e seus recadinhos por telefone. Um tempo depois, quando comecei a fazer terapia ocupacional, a minha terapeuta, entre muitos exercícios para estimular os movimentos das mãos, um deles era para escrever, era o exercício que eu mais gostava de fazer, pois era a oportunidade que eu tinha para voltar a escrever, só assim poderia responder as cartinhas que recebia de minha princesa.
Dias depois, com uma adaptação que prendia a caneta em minha mão, já conseguia fazer algumas palavras. Quando descobri que já era possível escrever uma carta, não perdi tempo, fiz uma surpresa para Kátia lhe mandando uma cartinha. Essa foi uma das muitas vitórias, porque escrever com adaptações requer muita paciência e dedicação, e no meu caso, eu usava apenas um pouquinho da mobilidade que tinha no braço e no antebraço, pois o punho e os dedos estavam totalmenteparalisados. Tinha letras, por exemplo, que eu tinha que ficar rodando o papel, porque eu tinha mais facilidade para puxar o braço, era quase que desenhar mesmo.
Passados mais alguns dias, devido ao meu esforço, aconteceu que os dedos e os punhos começaram também a corresponder aos estímulos e foi assim que eu comecei a ter braços e mãos funcionais, era preciso ter muita criatividade e muita paciência; mais alguns dias e eu já conseguia segurar o telefone e ligar para Kátia. Naquela oportunidade fiz grandes descobertas, como, por exemplo, descobri que todo ser humano tem que ser possuidor de muita fé e ser um grande sonhador, porque quando você deseja muito uma coisa você sempre é recompensado, quando você não consegue, na realidade, você sempre acaba sonhando com o que deseja, quando está dormindo e no dia seguinte, você encontra forças para continuar lutando por mais alguns dias e quando você pára para pensar vai ver que já conquistou muitas vitórias e às vezes você descobre que muitas coisas que você julgava serem importantes, você já passou por elas e elas por você e não mudou nada em sua vida, que não eram tão importantes assim, mas creio que isso só acontece com quem realmente sonha toda hora, o tempo todo, porque esse s onho doqual eu estou falando é o mesmo que você ter fé, pois ele tem que estar dentro de você e não da boca para fora.
Poderia continuar falando em problemas, mas prefiro falar em saudades, que também me causaram grandes sofrimentos não sei precisamente quantos foram os momentos em que daria tudo para receber um abraço ou um beijo, um carinho de minha princesa. Certo dia, quando ainda estava no Rio de Janeiro, viajava de táxi com destino a um hospital, pedi ao motorista que passasse pela lagoa Rodrigo de Freitas, pois eu só conhecia de nome e pela TV.
Chegando lá pude constatar que a lagoa era linda e tinha uma orla maravilhosa, onde as pessoas faziam caminhadas e vi muita gente caminhando, vi casais namorando, vi crianças brincando, e por ser um domingo havia muitos casais caminhando de mãos dadas e eram pessoas de todas as idades; aquele dia, naquele momento, eu sonhei acordado e nesse sonho fiquei imaginando como seria maravilhoso se Kátia estivesse ali do meu lado e pudéssemos caminhar de mãos dadas e que vivêssemos aquele momento que era tão lindo, mas como sonhar é o momento em que podemos realizar tudo que desejamos, mesmo que tudo não passe de um sonho, dizem que sonharnão custa nada, eu, por exemplo gosto muito de sonhar, dormindo ou acordado, quando sonhamos dormindo e o sonho foi bom, no dia seguinte, encontramos forças para lutar por aquilo que sonhamos conseguir, quando acordados e quando o sonho foi ruim, ao acordar, ficamos felizes porque tudo não passou de um sonho.
Mas naquela mesma tarde, ao chegar ao hospital, da janela da enfermaria, dava para ver o relógio da Central do Brasil, acordado e de olhos bem abertos, fiquei imaginando como seria bom se Kátia e eu estivéssemos passeando na cidade, pois naquela tarde conheci dois pontos turísticos no Rio de Janeiro: a lagoa Rodrigo de Freitas e da janela estava vendo o relógio da Central do Brasil, pois antes eu só tinha visto pela TV e onde estaria a minha princesa no momento em que eu estava ali olhando pra aquele relógio enorme e vendo o tempo passar e imaginando como seria bom se estivéssemos passeando de mãos dadas naquela linda tarde de domingo, eu ficava olhando para aquele relógio gigante o tempo todo, pois devido ao seu tamanho os ponteiros se moviam rápido, houve momentos em que cheguei a pensar que seria bom mesmo se todos os relógios tivessem ponteiros rápidos e que um minuto fosse apenas trinta segundos, só assim otempo passaria rápido e junto levaria todos os problemas, mas aquele relógio marcou momentos de muita angústia, medo, dúvidas, solidão, tristezas e de muita saudade, mas o que me dava forças para lutar era saber que Kátia estava torcendo e orando por minha recuperação e assim eu ia sobrevivendo e sem medo de ser redundante, insisto em dizer que eu tinha muitos motivos para lutar contra aquelas situações de incertezas e o maior dos motivos era a certeza do amor de Kátia por mim, ela demonstrava todos os dias o quanto eu era importante em sua vida, diante disso só me restava lutar para não morrer e não matar o amor de minha princesa.
Antes do acidente, Kátia já estava no último ano de Faculdade, eu aguardava este dia com muita ansiedade, pois havia feito planos de estar presente e que levaria umas flores para minha princesa, por ser um dia tão especial em sua trajetória, pois aquele dia seria a realização de muitos planos, pois até o nosso casamento estava na pendência de sua formatura, já que ela saía de casa às sete da manhã para o trabalho e emendava direto para a Faculdade, só retornando à meia noite, sendo assim decidimos que assim que ela terminasse a Faculdade nós nos casaríamos, mas o destino não quis assim e como se não bastasse todos osoutros acontecimentos e por causa de tantos problemas, Kátia acabou não se formando naquele ano tão conturbado e desumano.
Um ano depois, Kátia terminou a Faculdade, recuperando um pouco do que havia ficado para trás, daquele ano que nossos sonhos haviam se tornado um grande pesadelo, como deveria estar escrito em algum lugar, eu não pude realizar o que havia planejado, que era ir à sua formatura e levar flores. Para muitos esse detalhe pode não ser tão importante, mas desde que eu conheci Kátia, me fiz presente em muitos dos seus momentos de felicidade e no dia de sua formatura, com certeza, ela estaria muito feliz e eu gostaria de estar presente para ver a sua felicidade, porém, no dia da formatura, eu estava na ABBR no Rio de Janeiro, na verdade, fato é que eu poderia sair, ir ao evento e retornar à ABBR, mas houve um imprevisto, pois na semana que antecedeu à formatura, fui vítima de uma daquelas infecções, assim fiquei impossibilitado de ir ao evento.
Naquele dia não consegui me concentrar em nada, o que eu queria mesmo era me transformar em um pássaro daqueles de asas bem fortes e ser livre para voar até o evento. Talvez não pudesse levar um buquê de flores nobico, mas quem sabe uma rosa, com um bilhetinho dizendo “Parabéns, princesa, você venceu!” e daí é que eu não tinha e não tenho o poder da transformação, assim não pude estar presente na festa, que dizem que foi muito bonita.
Passado algum tempo, eu já estava em casa e muito decepcionado por não ter conseguido obter sucesso com a fisioterapia, a decepção era porque eu havia apostado todas as minhas esperanças na fisioterapia, apostei que eu poderia conseguir um pouco mais de independência física, mas com as infecções e as intervenções clínicas, não foi possível atingir o objetivo. Com o apoio de minha família, passei mais algum tempo me recuperando das últimas cirurgias e neste período, Kátia ia a minha casa todos os dias, qualquer tempinho que ela tinha passava em minha casa, assim dava para matarmos as saudades, ela ficava muito brava quando eu dizia que estava cansado de lutar, que as minhas forças já estavam se esgotando, ela argumentava: “Você já venceu tantos obstáculos, passou por tantos problemas, não vá se entregar agora!”, e ela pedia isso com tanto carinho, seus olhos brilhavam tanto, que logo me arrependia de ter dito a frase “cansado de lutar “, após as suas palavras eu tinhacerteza de que a minha vida era muito importante para todos que me cercavam e com a princesa ali me pedindo para ser um vencedor, me dava uma vontade imensa de voltar a fazer fisioterapia. Dias depois comecei a recuperar os movimentos mais importantes.
Para que, com a fisioterapia, pudesse ganhar um pouco mais de independência, Kátia continuava indo a minha casa todos os dias, eu já conhecia o ronco do motor de seu carro e o jeito que ela dirigia e com a aproximação daquele barulho, meu coração batia mais acelerado, pois o barulho que anunciava a sua chegada, trazia também a felicidade, pois os meus

momentos de felicidade já estavam condicionados à presença de Kátia, ao vê-la e ouvi-la, meu coração fazia sempre uma grande festa.
Passou um tempo, e tudo que eu ganhei com relação à independência física era pouco, assim eu tinha que continuar fazendo fisioterapia e aí tudo dependia de muito tempo e quanto tempo seria esse muito tempo? Com esse questionamento, apareciam muitos outros, como por exemplo, o maior de todos: “Será que vou conseguir independência física suficiente para me casar com Kátia?” “E até onde seria justo deixar Kátia esperando?”, na verdade nós sabíamos que tudo iria depender de muitotempo, mas com minha dedicação à fisioterapia e com a sensibilidade do meu corpo que havia voltado, ou seja, eu já estava sentindo todo meu corpo, isso me dava esperanças, mas as palavras “será, talvez, se, senão, quem sabe, não sei”, me fizeram tomar a decisão mais difícil, mesmo amando muito a minha princesa e sendo correspondido.
Certo dia, depois de ter adiado por tantas vezes, decidi falar com Kátia com relação ao nosso noivado e o que deveríamos fazer, na verdade, agora tudo era diferente, eu não era fisicamente o mesmo que havia lhe prometido casamento, e no momento que abordei esse assunto, eu senti que algo havia partido em meu peito, mas não tinha como voltar atrás.
Kátia e eu conversamos por muitas horas e aí chegamos à conclusão de que deviríamos dar um tempo, que ficaríamos uns dias sem nos vermos e depois tomaríamos uma decisão. Então, marcamos um dia para começarmos a dar um tempo, combinamos que faríamos um passeio de carro para marca o início deste tempo ou o final de mais uma história de amor. Na verdade, eu já não sabia o que era começo ou fim, sei que meu coração insistia em bater como se fosse a última vez, batia tão forte queparecia estar lutando para sair do meu peito, que não queria fazer parte de um corpo que estava prestes a perder a sua princesa, pois naquele momento ele era todo de Kátia. Assim, eu entendi que era justo que ele lutasse para ir embora junto com Kátia.
A dor foi maior porque tive muito medo que Kátia não encontrasse forças para voltar no dia marcado pra fazermos o passeio de carro que era para marcar aquele terrível tempo, pensei que tudo estivesse acabado. Fui tomado por uma grande tristeza, o coração continuava batendo, porém, não batia mais tão forte, parecia que não era mais o mesmo, senti que ali existia um coração que apenas estava preenchendo ou ocupando o lugar onde antes existia um coração apaixonado e feliz, mas para alegria daquele coração, Kátia nunca foi de faltar com sua palavra e no dia combinado, ela compareceu para fazermos o tal passeio.
Quando a vi chegar, meu coração que estava triste e adormecido começou a bater forte e não doía mais, pulava de alegria. Se você não é cardiologista, não tente entender o coração, pois antes ele era feliz, depois ele ficou machucado, triste e adormecido, quando viu Kátia começou a bater forte, não sei se de fato Kátia havia levadomeu coração, ou uma parte dele, sei que com a presença de Kátia ele voltou a bater acelerado e muito feliz. Naquele momento ele fez foi uma grande festa e nos momentos em que estamos felizes esquecemos os problemas.
Naquela tarde saímos para fazer o tal passeio, depois que demos umas voltas pela cidade, pedi a Kátia que fôssemos à praia, gostaria de ver o mar em sua companhia e também já fazia muito tempo que eu não via o mar, e o mar nos faz entender como é grande o poder de Deus, nos dá certeza de que Ele existe e como Ele é generoso com seus filhos, o mar é lindo, eu sempre fui apaixonado por mar. Na viagem entre a cidade e a praia, existia um clima de despedida, mas apesar do clima, conversamos sobre vários assuntos, menos sobre o propósito daquele passeio que marcaria o início de um tempo, ou poderia marcar o final de tanto tempo juntos e esse tempo prometia ser de muito sofrimento, porém, eu já havia resistido a tantos, que já estava acreditando na hipótese de ter sido adotado como cobaia de tudo que fosse ruim, por um longo período.
Não posso escrever o quanto foi difícil para Kátia todo aquele tempo, só ela pode fazer isto, mas possode levantar-me do banco do carro e verificar o problema e tentar consertar, assim sendo, Kátia foi até a casa de um amigo que estava ali naquele dia e era bem próximo de onde estávamos; quando Kátia saiu para procurar ajuda, fiquei mais triste e me sentindo um inútil, pois me lembrei de quantas vezes eu resolvi problemas de outras pessoas e de quantos carros eu já havia consertado e a tão pouco tempo atrás, e naquele momento não conseguia sequer me levantar do lugar.
O amigo tentou consertar mas não conseguiu e logo anoiteceu, quando pensávamos no que fazer, já era tarde. Para piorar, começou a chover. Foi quando chegou meu primo Marcos “Pão-de-ló”, que se ofereceu para rebocar o carro até minha casa. Aceitamos a sua ajuda e ele assim o fez, nos rebocou até em casa, chamamos um táxi que levou Kátia para a casa dela e no dia seguinte chamamos um eletricista que finalmente resolveu o problema do carro.
Talvez essa história do carro não tenha tanta importância, mas o importante mesmo é que mais uma vez eu tive que passar por um grande teste de perseverança. No dia seguinte, após o conserto do carro, Kátia e eu ficamos juntos o dia todo e no final do diacombinamos quando nos veríamos novamente. Combinamos que seria no dia seguinte.
E assim o tempo se encarregou de nos mostrar que nós não poderíamos mais nos separar, pois havíamos nos tornado uma só pessoa.
Essa descoberta trouxe-me muita felicidade, naquele momento descobri que o que eu pensava ter perdido era tão pouco, nada, diante do que eu tinha naquele momento. Era tudo que eu precisava para recomeçar, que era a certeza de que eu era amado incondicionalmente; tinha a convicção de que a felicidade de Kátia iria depender da minha, pois ela demonstrava isso em cada momento de minha recuperação.
Diante dessa realidade fiquei um pouco assustado com tamanha responsabilidade: ser feliz, fazê-la feliz, mas ouvi de Kátia a palavra mágica: “Meu amor, você tem que levar a fisioterapia a sério, pois ela será tão importante quanto sua alimentação”, para ser mais preciso, disse “tão importante quanto seu desjejum, almoço e jantar”; com a sua opinião aprovada decidi que seria café da manhã, almoço e jantar e nos intervalos alimentaria-me de fisioterapia. tentar o máximo de independência física e mais uma vez eu estava apostando todas as minhas expectativas na fisioterapia e dessa vez com muito mais fé e esperança já que, clinicamente, eu estava em meu melhor momento, estava bem.
Foi aí que decidi que teria que comprar uma cadeira de rodas motorizada, pois o setor de fisioterapia é próximo de minha casa e quando percorrido de carro fica, aproximadamente, a uns dez minutos. Já relatei a dificuldade que tive na ocasião que comprei e importei a cadeira motorizada. A partir do dia que decidi comprá-la, aumentaram os desafios, pois não tinha o capital e não fazia idéia de onde encontrar a tão sonhada cadeira motorizada e aí fiz uma pesquisa e descobri que a cadeira que melhor se adaptaria às condições do solo em minha cidade e no Brasil teria que ser importada; por intermédio de um amigo consegui entrar em contato com uma loja nos EUA pela Internet.
Juntar a importância para comprar a cadeira foi fácil diante do problema encontrado para liberá-la, quando chegou à Alfândega no Rio de Janeiro, tamanha era a burocracia, os impostos e o transporte foram equivalentes a 80% do valor da cadeira. Mas todos esses problemas se
Agora tinha um propósito e um objetivo que erade independência física é animador. Mas quando isso não acontece, entre outras palavras, é muito chato. Mas não devemos nos deixar levar pela chatice ou cansaço do tratamento e sermos perseverantes em todos os sentidos. Pensando assim, fiz em minha casa algumas adaptações: umas engenhocas que me facilitassem um pouco mais nos exercícios.
Depois de prontas, filmei a execução de todos os exercícios nelas e pedi que os fisioterapeutas que me acompanhavam as avaliassem e eles as aprovaram, somente precisava fazer os exercícios mais lentamente, pois, não é a rapidez que garante sua eficácia, mas sim executá-los de maneira correta. Assim sendo, corrigi os erros e continuei na minha incansável luta, na intenção de conseguir ativar os músculos que estavam inertes por causa da lesão medular. Assim, fui vivendo um dia após o outro; as dificuldades não se resumiam somente ao aspecto físico, mas a vários outros aspectos.
Como já relatei, fiz muitos amigos e entre eles muitos foram ou são políticos, já que eu sempre fui envolvido com política; é claro que só com aqueles políticos que demonstram comprometimento em governar para a maioria e nunca me comprometi com aqueles que fazempolítica exclusivamente partidária, pois esses na minha opinião, não pensam no povo e sim no poder que exercem sobre o povo.
A partir dessa minha concepção de que nem todo político é politiqueiro, quando Quissamã conquistou sua emancipação político-administrativa, decidi trazer minha família para morar aqui e transferi imediatamente meu título eleitoral para cá. E para a sorte do povo de Quissamã, havia dois bons candidatos a prefeito. Optei então por apoiar o que eu conhecia melhor, mesmo sendo na época um apoio anônimo, já que eu ainda não tinha residência fixa em Quissamã. O resultado final é que meu candidato venceu as eleições.
E sem dúvida foi o candidato certo, na hora certa, no lugar certo, dois anos depois Quissamã saiu do anonimato para se tornar uma cidade promissora, eu que já havia participado do processo de emancipação política e administrativa de Quissamã, decidi participar na época concorrendo a uma vaga de vereador, foi uma experiência muito boa, adorei todo aquele processo eleitoral, amei ter subido nos palanques e ter tido a oportunidade de expor as minhas propostas, os meus projetos, para que na lei Quissamã pudesse crescer e se desenvolver ainda mais, porque acredito que uma cidade se faz forte com um legislativo atuante e vigilante.
No contexto político fui muito bem, cheguei até a ser elogiado pelos meus adversários; com relação àquilo que faz um candidato ser eleito, que são os votos, me faltaram alguns para me eleger, também voto era contado à mão e anotado com caneta, assim se tornou mais difícil. Depois dessa experiência já que havia gostado pensava em me candidatar outras vezes, mas não sabia que dois anos depois encontraria aquele carro desgovernado, que mudou toda minha trajetória; e assim, fiquei quatro anos afastado da política.
Após ter comprado a cadeira motorizada, certo dia, recebi a visita de um grande amigo, Amaro de Carvalho Gomes – Cafuri – que era vereador e me fez uma proposta de trabalho, que era ajudá-lo a coordenar sua campanha a reeleição. No início fiquei em dúvida se aceitaria a proposta de trabalho ou se me candidataria, se daria continuidade àquele projeto de concorrer a uma vaga de vereador, porém, essa era uma decisão que não poderia tomar sozinho, depois de ouvir a opinião de Kátia e de minha família decidi aceitar a proposta de trabalho, já que Cafuri era e é um político de renome. Para a minha surpresa, umtempo depois, fui indicado por Cafuri, ao prefeito, para ocupar o cargo de administrador regional, o prefeito era aquele primeiro que agora estava em seu segundo mandato, já era famoso e se tornara um grande líder político usando aquilo que todo político deveria usar: a honestidade, a competência, sem nenhuma exigência. Assumi publicamente a reeleição dos meus candidatos: para prefeito Otávio Carneiro da Silva, para vereador Cafuri, não foi nenhuma surpresa, foram eleitos. Pensei: politicamente falando, será um grande marco na história política de Quissamã a existência dos políticos Octávio Carneiro da Silva e Amaro de Carvalho Gomes.
Em seu terceiro mandato Octávio promoveu-me a assessor de Assuntos de Gabinete. Não procurei saber quais foram os critérios que o prefeito usou para me deixar fazendo parte do seu governo. Sei que foi maravilhoso continuar trabalhando. Faço este relato em homenagem ao prefeito Octávio e ao vereador Cafuri, que fizeram com que eu pudesse sair da ociosidade e me sentir útil; a maioria das pessoas sabe como é ruim não ter uma ocupação e quando você é portador de alguma deficiência isso se torna mais difícil, você fica propenso a só pensar coisas ruins, não sabemos do que somos capazes. Mas para que as coisas boas aconteçam você tem que tomar a iniciativa que é não pensar nas coisas ruins, esse é o primeiro passo, o segundo passo é alguém acreditar em você e lhe dar a primeira oportunidade e isso não tem exceção, vale para todos e depois só depende de você continuar acreditando que você é capaz sim.
Ter voltado a trabalhar foi importante em vários aspectos, principalmente pelo fato de trabalhar com o público, pois, fiz inúmeras descobertas e a que me chamou mais a atenção foi que as pessoas têm muitos problemas, conhecendo melhor as pessoas e seus problemas, percebi que eu não tinha nenhum problema, apenas algumas limitações.
A essa altura dos acontecimentos, Kátia e eu já estávamos pensando em nos casar e aí decidimos primeiro construir a casa. Me entreguei totalmente, da planta ao telhado, foi outra experiência incrível, o processo foi demorado, dado ao fato de que tinha que ser toda adaptada às minhas necessidades e talvez tenha sido um pouco mais difícil porque que não mudei o local da construção, que era no terraço em cima da casa de minha mãe, casa essa que eu já havia ampliado e com infraestrutura para construir a minha em cima, assim, foi preciso planejar uma rampa. Ouvi algumas críticas de pessoas que não tinham nada a ver com a história, pois diziam que era uma loucura eu querer morar no alto usando cadeira de rodas, mas eu não pensava que fosse loucura ou questão de querer, mas de uma necessidade; a princípio já era um projeto, em segundo lugar, eu não estava em boas condições financeiras para comprar um terreno em outro lugar e em terceiro lugar, a casa de minha mãe estava com muitas infiltrações, existia a necessidade de colocar um telhado e com a construção de minha casa esse problema estaria resolvido. E daí, ter que comprar um terreno, colocar o telhado na casa de minha mãe, era uma grande burrice, para não dizer um grande suicídio financeiro e se eu tivesse que avaliar entre a loucura ou a burrice eu diria que o sapo pula não é porque ele gosta ou não sabe andar, mas porque a necessidade obriga.
Nos momentos em que fazia estes relatos, foram surgindo outros, alguns foram acontecendo e outros eu fui recordando, pois fizeram parte do passado. Com a construção da casa me veio à lembrança aquela casinha onde morei quando era garoto, que ficava em uma praia deserta, onde o mar era muito bravo e a casinha ficava localizada entre o mar e uma lagoa, e assim, todas asvezes que o mar dava uma ressaca derrubava a casinha que era feita de madeira e barro e em todas as ressacas ele jogava a casinha dentro da lagoa e logo em seguida minha mãe e eu que tinha 5 ou 6 anos começávamos a construí-la novamente, até que a próxima ressaca a destruísse de novo, o que poderia ser a qualquer momento.
Outras lembranças aconteceram: hoje eu tenho que controlar a alimentação para não engordar e aí me faz lembrar da época em que estava com o esôfago aberto e não conseguia me alimentar e vivia sonhando com comida; hoje tenho um esôfago novo e posso comer de tudo, só não posso é engordar para não atrapalhar o tratamento de fisioterapia.
Ainda falando em comida, me fez lembrar de um passado distante quando nossa mãe abatia um dos animais que criávamos exatamente para nos alimentar dele, mas quando nossa mãe colocava na mesa, o que deveria ser um momento de alegria, era de tristeza, pois todos os animais eram conhecidos e chamados por nome e sobrenome e tinha uns que tinham até apelidos, mas o que prevalecia era mesmo a fome e aí era fácil dar razão e perdoar a mamãe.
Outros momentos que me faziam parar para pensareram as notícias dos jornais e da TV. Lembro-me que um dia as coisas não foram nada agradáveis, todas as coisas deram erradas, quando cheguei a minha casa o que eu queria mesmo era ir para o meu quarto e refletir, buscar uma resposta porque as coisas haviam dado errado; por alguns momentos fiquei calado, apenas refletindo, depois decidi ligar a TV e para a minha surpresa e para que eu pudesse tirar todas as dúvidas do que seria um dia ruim, o que vi e ouvi na TV me fez ver que o meu dia havia sido maravilhoso.
Na TV estava passando uma reportagem sobre a seca no nordeste e vi e ouvi uma mulher dando uma entrevista, que chocaria qualquer um, onde ela dizia que seu marido havia falecido e deixando ela e seus quatros filhos pequenos e fazia dias que eles não comiam e dava para ver que eles estavam fraquinhos, outra coisa que chamava a atenção é que naquele lugar só tinha um chão seco, e ver aquelas crianças em volta da mãe, pedindo o que comer e ela sem ter o que dar, foi algo chocante. E ela ainda confidenciava ao repórter que por muitas vezes chegou a pensar em jogar seus filhos em um poço de 10 metros de profundidade que existia em sua casa e depois pular junto para acabar com aquele sofrimento. E assim, mais uma vez, eu tive certeza de que por mais difíceis que sejam os nossos problemas, existem pessoas com problemas maiores.
Depois de ter chegado à conclusão de que minha tristeza não fazia mais sentido, senti uma vontade enorme de ajudar aquela família, mas, diante da distância entre nós e da urgência, só me restava orar ao Pai Celestial, para que Ele pudesse fortalecer aquela mulher na fé, para que ela ajudasse a sua família.
Mas não são só acontecimentos ruins ou tristes, aconteceram também coisas engraçadas, como por exemplo, já relatei que a gente não se manda mais, tem que sempre ouvir a opinião das pessoas e aí você não consegue escapar daquelas crendices como por exemplo, algumas daquelas receitas caseiras, e sempre aparece alguém com uma.
Certo dia em minha casa chegou uma senhora que era amiga de infância de minha mãe e daí foi logo ensinando uma receita nova. O certo é que eu logo virava cobaia, mas dessa vez abusaram na dosagem, eu ouvi quando aquela senhora dizia para a minha mãe: “Sabe, você pega sebo de carneiro, derrete no fogo e todas as tardes, ao cair da noite, a senhora passa em todas as juntase nervos dele que é um santo remédio, que ele vai ficar bom”. Fiquei preocupado com o resultado daquela receita, já que se tratava de sebo derretido, fiquei pensado que pudesse ser muito do fedido.
No início, minha mãe procurou com os vizinhos, com alguns amigos, mas para minha sorte não conseguiu com ninguém. Certo dia, quando minha mãe e eu já havíamos nos esquecido daquela receita, chegou em minha casa aquela senhora. Antes de dar bom dia, foi logo dizendo: “Dona Cacilda aqui está o sebo de carneiro para a senhora passar no José”, e ao cair da tarde minha mãe seguiu a receita direitinho, passando em todas as minhas juntas e nervos. Eu imaginava que fosse fedido, mas fedido era pouco, quando a mamãe pôs para derreter, surgiu no ar um fedor de bode insuportável. Moral da história: fiquei sem dormir a noite toda, hoje isso é engraçado, mas naquela noite foi um pesadelo fedido.
E assim deve ser a vida de quem passa por essas experiências, saber que para o seu problema aquele sebo fedido não tinha efeito medicinal, mas se submeter à experiência apenas para respeitar a opinião de duas senhoras, que em sua humildade não faziam idéia, ou seja, não sabiam qual era a diferença entre uma lesão medularou uma torção no tornozelo. Durante a noite, em meio ao fedor, chorei quando me flagrei pensando quantos filhos teria aquela senhora, e como é grande o amor de uma mãe que é capaz de cometer grandes sacrifícios pelos seus filhos, naquele momento chorei, porque pude perceber que aquela receita não tinha nenhum efeito medicinal, mas sim maternal.
Nos momentos em que paro pra refletir é que tenho percebido o quanto foi importante Deus não ter permitido que eu tivesse morrido no momento do acidente nem das conseqüências, assim posso dizer como sou grato ao Pai Celestial, pela oportunidade de presenciar, ver e ouvir tantos acontecimentos no Brasil e no mundo, fatos estes que me deixaram em muitos momentos, feliz, e em outros, triste.
Os primeiros acontecimentos, para variar, foram quando ainda estava muito enfermo, e nesse dia eu estava com 40 graus de febre, havia uma TV ligada e era um domingo de Fórmula Um, ouvi quando o locutor esportivo dizia ter acontecido um acidente que envolvia o nosso Ayrton Sena, eu não sabia se eu estava ouvindo uma coisa e entendendo outra, porque eu estava com muita febre, eu não sabia da gravidade do acidente, nem tampoucoque pudesse tirar a vida do nosso Sena, chamei a minha tia e perguntei se o que eu estava ouvindo era verdade. Sem muitos detalhes, ela disse que sim, comecei então a prestar mais atenção aos noticiários da TV.
Já que ela não ficava em meu quarto, não sei precisamente quanto tempo depois ouvi quando o apresentador esportivo disse: “Morre Ayrton Sena Da Silva, do Brasil”, sem querer acreditar, mas ciente da realidade, mais uma vez senti o gosto amargo da derrota, porque aprendi a gostar de Fórmula Um com o Sena, desse dia em diante esse esporte não me prende mais em frente à TV, tenho muitas saudades do tempo de Sena.
Não sei precisamente a ordem dos acontecimentos dos quais vou relatar, mas sei que foram tristes. Depois da passagem do Sena e da princesa Daiana, outro momento marcante foi quando ouvi pela TV que puseram fogo em um índio vivo. Vi e ouvi pela TV os conflitos daqueles que não têm nada e que são chamados de “sem terra”, contra donos de terras ou daqueles que se dizem donos delas, daí um processo que deveria ser tão simples que era só dar terra para quem gosta, precisa e sabe cuidar dela.
Quando pensei que o que eu tinha visto de triste era o suficiente, na manhã de onze de setembro de 2001, vi pela TV dois aviões serem jogados sobre dois dos maiores prédios do mundo.
Refletindo sobre o bem e o mau, eu tenho motivos para acreditar que o bem sempre vence o mau, aja vista que depois de tantas atribulações, altos e baixos e depois dos relatos que fiz até aqui e estando na condição de deficiente físico, que também poderia ser chamado de portador de necessidade especial – por mim poderiam me chamar de aleijado – porém, antes, respeitar os meus direitos constituídos, assim o dia em que o direito do deficiente físico for respeitado, poderei me sentir portador de necessidade especial, enquanto o respeito não for colocado em prática, chamar deficiente de especial é demagogia política e social, para não dizer preconceito.
Digo isso porque me sinto deficiente quando não consigo ajudar a uma pessoa, porque não tenho o poder de aumentar o salário mínimo, combater a fome, alfabetizar todas as crianças do Brasil, me sinto deficiente por não poder tirar todas as crianças das ruas, cuidar dos idosos, por não dar segurança à nossa população, por não poder acabar com a prostituição infantil, eliminar as drogas, os seqüestros, por não conseguir acabar com a poluição de rios, lagoas e mares, por não poder evitar as queimadas, os desmatamentos, me sinto deficiente por não ter o poder de decidir se quem tem direito à terra é quem nela trabalha e dela tira o seu sustento, ou quem vive especulando, me sinto totalmente deficiente porque não tenho o poder para fazer valer a lei segundo a qual quem rouba os cofres públicos como a Previdência Social, deveria ser preso e o crime ser inafiançável, um dos momentos em que me sinto deficiente é quando não tenho acesso a todos os lugares, tem sempre uma calçada, um meio fio ou uma escada ou qualquer outro obstáculo que me impede de chegar aos lugares desejados, sinto-me deficiente porque não tenho poder para fazer uma lei e fazer com que ela seja respeitada, lei essa que é isentar de impostos todos os produtos, e equipamentos que venham a dar mobilidade, conforto e bem-estar aos deficientes, sendo este produto, nacional ou importado.
Penso que se eu tivesse o poder para mudar essas coisas que relatei e muitas outras mais, certamente me sentiria um ser humano bem melhor e quem sabe até uma pessoa normal.
Pensando assim tenho dado a minha contribuição em relação ao deficiente ter acesso a todos os lugares em minha cidade. Quissamã, por ser uma cidade de interior eter aproximadamente 14 mil habitantes, e entre eles alguns serem portadores de alguma deficiência, eu fui o primeiro a comprar uma cadeira motorizada e enfrentar as dificuldades de não ter acesso a todos os lugares e assim comecei a mudar o perfil da cidade; quando ia aos lugares eu sempre brincava com os comerciantes, dizendo: “Se tivesse uma rampinha de acesso seria bem melhor, sua loja esta tão bonita!”, e assim, começou a mudança. Primeiro, foi a farmácia, depois os restaurantes, algumas lojas e os prédios públicos.
Certo dia, o secretário municipal de obras e serviços públicos, o senhor Jonas de Siqueira César, pediu-me que o ajudasse, para que todas as obras a serem construídas no Município tivessem acesso, para deficientes, fiquei muito feliz com o convite e mais ainda por saber que o secretário estava atento a este detalhe tão importante na vida de quem usa cadeiras de rodas, muletas ou qualquer outro aparelho para se locomover. Dessa forma, Quissamã tem avançado muito, hoje já existe um grande projeto da Secretaria de Planejamento e Urbanismo onde toda área urbana vai ser modificada e até onde eu sei, o acesso ao portador de deficiência, ao idoso, à mulher grávida, ao carrinho de bebê está garantido. Vou trabalhar para que Quissamã, no futuro, venha ser uma referência no respeito ao deficiente, dando-lhes o direito de ir e vir, com dignidade. Ficarei torcendo para que nesse mesmo futuro seja bem menor o número de pessoas em Quissamã que dependam destes artifícios.
Já relatei que foram muitas as minhas vitórias, assim também relatei que Kátia e eu estávamos pensando em nos casar e assim que a casa ficou pronta, compramos os móveis essenciais e marcamos o casamento. E aí surgiu um problema, nossos familiares são muitos, e mais nossos amigos, que também são muitos e todos só falavam em nosso casamento. Quando eu digo problema é porque nós não estávamos em condições financeiras de fazer uma festa em que pudéssemos convidar a todos, sendo assim, decidimos fazer uma festinha apenas para nossos familiares, nossos vizinhos e para alguns colegas de trabalho.
Confesso que eu não sabia que era tão difícil fazer uma lista de convidados, e quando você tem muitos amigos, isso fica bem mais difícil, sei que alguns amigos ficaram tristes, pois eles dizem que queriam ir ao nosso casamento e não a uma festa, mas quem iria decidir, quem deveria ir ao casamento, e quem deveria ir à festa, se naverdade todos eram nossos amigos e nós gostaríamos de compartilhar com todos, um momento que prometia ser muito especial em nossas vidas, não sei se todos entenderam o motivo pelo qual não foram convidados, porém faço esse registro, porque creio ser um desafio para quem quer que seja, organizar uma lista de convidados, para qualquer que seja o evento. O casamento realizou-se no dia 28 de dezembro de 2001.
No momento em que aguardava a entrada de Kátia, me veio a lembrança de que não foi assim que eu havia imaginado entrar na Igreja, quando noivei e marquei o casamento com Kátia pela primeira vez, digo, antes do acidente, eu havia imaginado que entraria na Igreja ao lado de minha mãe e com minhas próprias pernas, mas não foi assim, entrei na Igreja de cadeira de rodas, não consegui nem olhar para os convidados ao lado, pois fiquei preocupado em não passar com a roda da cadeira em cima do pé de minha mãe, que caminhava a meu lado.
Mas quando vi Kátia saindo do carro, não houve espaço para qualquer pensamento que não fosse de felicidade, Kátia estava muito mais do que linda, para uma princesa não faltava nada, pois eu comecei a me sentir um príncipe. Depois do sim e convicto de que começavauma nova etapa em minha vida e convicto de que aquele momento era muito especial, na verdade mais uma vitória, só que dessa vez eu estava levando para casa como prêmio uma linda mulher, que naquele instante era muito mais que uma princesa, mais que uma linda mulher, era meu amor. Disse-me um amigo certa vez, que os dois momentos mais felizes na vida de um homem são quando ele se casa e quando nasce seu primeiro filho, no primeiro caso só quem ama e se casa pode sentir essa felicidade. Quanto à emoção do primeiro filho ainda não sou pai, mas quando for, creio que será uma linda emoção, pois um filho advém do Senhor, é uma dádiva de Deus.
Já se passaram nove anos do acidente, tenho feito fisioterapia, por minha conta, ou seja, em minha casa, às vezes vou ao Setor de Fisioterapia para fazer avaliação, para ver se está tudo bem. Hoje estou muito bem fisicamente, já ganhei músculos, estou com o físico que tinha antes, talvez com uns cinco quilos a mais, já sinto todo meu corpo, já sinto o toque do sol e do vento em todo meu copo, já consigo movimentar as pernas um pouco, tenho mãos funcionais, as coisas maiores eu consigo pegar e manusear, as pequeninas dão um pouco mais de trabalho e, é obvio, as muito pesadas também. Às vezes tenho a sensação de que vou amanhecer andando, pois todas as noites eu sonho que estou andando, mas nos sonhos acontecem coisas que eu só vejo na ficção, como por exemplo, no momento em que estou andando, no sonho, dentro desse mesmo sonho eu acordo, é uma sensação maravilhosa e exatamente o que mais me aproxima do real, e é o momento em que eu começo a questionar: “Será que eu volto a andar, ou estou sonhando?” E nesse momento eu me assusto e acordo para a realidade, é tudo muito louco, porque eu não acordo apenas de um sonho, eu acordo de dois sonhos, pois eu sonho que estou sonhando e quando tento acordar para ver se estou sonhado é exatamente o momento em que acordo.
Quando eu acordo, sinto um impacto enorme, talvez porque no sonho eu estou sempre em movimento, meu corpo está sempre leve e com a rapidez que isso acontece entre estar sonhando duplamente e acordar, me causa um grande impacto e me dá a sensação de ter andado de verdade. Não sei dar uma explicação pra tudo isso. Sei que o impacto que eu sinto, por exemplo, é como se eu estivesse no banco do carona de um automóvel e o motorista desse uma daquelas freadas que a gente, mesmo preso ao cinto de segurança, tem a sensação de que vaialgo mais. Outra coisa que deveria existir é uma aproximação de idéias entre quem constrói as estradas e quem fabrica o carro, pois o carro atinge até trezentos quilômetros por hora, as estradas, na sua maioria, só permitem a velocidade de oitenta quilômetros por hora.
Assim, penso que se fabricassem os carros, pelo menos os que fossem rodar nas estradas brasileiras, com a capacidade de cento e cinqüenta quilômetros por hora, ficaria o carro mais barato, pelo menos, cinqüenta por cento, no quesito potência. Mas isso iria contrariar a tecnologia e ai daquele que tentasse diminuir a potência e, conseqüentemente, a velocidade dos automóveis, certamente seria chamado de retrovisor e acusado de viver preso ao passado, mas o que deveria ser levado em consideração mesmo são as pesquisas que apontam o trânsito como o maior assassino dos últimos tempos.
E se refletirmos bastante, veremos que é melhor vivermos presos à velocidade do passado, do que morrermos presos nas ferragens da velocidade moderna. Nos últimos tempos perdi muitos amigos em acidentes de automóveis, quatro deles foram os meus primeiros amigos. Quando vim morar em Quissamã, eram pessoas ainda muito jovens, talentosas, todos chefes de família e comcerteza deixaram muitas saudades e junto dela a certeza de que o trânsito tem destruído muitas famílias e que precisamos nos atentar para isso.
Faço este relato em homenagem aos meus amigos falecidos em acidentes de automóveis, pois eu sei o quanto é difícil viver preso em uma cadeira de rodas. Porém, tiro dessa frase duas palavras: EU e VIVER; creio que os familiares dos meus amigos gostariam que eles estivessem em minhas condições, mesmo que fosse numa cadeira de rodas, mas vivos.
Pois eu penso que temos muito para aprender com a vida, mas também sei que morreremos velhinhos e não aprenderemos tudo que a vida tem para nos mostrar, nos ensinar. Assim, quando se morre muito jovem, não aprende quase nada. E esse é meu maior desafio, hoje. É saber qual o propósito de eu estar aqui na Terra e de ter sobrevivido ao acidente e às conseqüências de onde eu vim, o que devo fazer, e para onde eu vou. Sei que é difícil encontrar todas as respostas.
Mas creio ter encontrado algo muito importante e que não é nenhum segredo, sei que sou filho do Pai Celestial, sei que Ele é maravilhoso e tenho certeza absoluta de que Deus é o dono de tudo no mundo e nóssomos donos apenas do livre arbítrio. Assim, se o usarmos com dignidade, o Pai Celestial, em sua infinita bondade nos acrescentará todo o resto. Hoje me sinto feliz por reconhecer isso. E descobri também que, quando entramos na contramão da vida e fazemos uso do livre arbítrio não para fazermos o bem, parece que ligamos uma sirene, chamamos tanto a atenção, que até os hipócritas dizem que estamos errados.
E assim, somos levados para o abismo com falsas promessas. Devemos nos atentar para isso, pois sentimos um falso prazer e uma falsa felicidade quando fazemos coisas erradas, assim a necessidade de sentir prazer e ser feliz se torna uma obsessão e podemos passar toda nossa vida terrena na busca incessante da felicidade. Penso que a felicidade é o acúmulo dos momentos de prazer que sentimos quando praticamos boas ações para com o próximo.
Essas ações são abençoadas. Assim, vamos sentindo mais desejos de praticar o bem e quando o praticamos, somos mais abençoados e vamos sendo mais felizes. Mais que isso eu não me atreveria dizer o que é felicidade. Mas sei que não e fácil, a porta para a felicidade advém de Deus e é muito estreita e apertada; e a porta domundo é enorme e todos somos donos do livre arbítrio; e a sociedade, moderna ou não, diz que Deus é um só. Eu concordo, quando se trata do Deus vivo e verdadeiro e de seu único e verdadeiro Evangelho e acredito que Jesus Cristo vive e reina até os dias de hoje. Nós é que somos diferentes, apesar de sermos criados a sua imagem e semelhança. Devemos refletir muito sobre isto, pois eu tenho certeza de que a porta é estreita e apertada, mas está sempre aberta para nos acolher e se entrarmos por esta porta, não teremos apenas uma promessa, mas sim felicidade.
Colocar a minha história de vida no papel, aos quarenta anos, foi uma grande experiência, pois busquei na memória todos os acontecimentos, já que nunca tive um diário e com isso fiz muitas viagens ao passado e fiz muitas descobertas e uma delas, muito importante, foi descobrir que somos donos de tudo que já vivemos está gravado em nossa memória e se a gente não quiser, ninguém poderá nos tirar nenhuma informação, ou seja, nada.
Fuxicando meu passado descobri histórias bonitas, outras tristes, outras que na época não tiveram importância nenhuma e que hoje fazem sentido. E com essas viagensao passado descobrimos que já fomos fracos ou que já fomos fortes, por exemplo, eu só me dei conta de que quando meu pai faleceu eu só tinha vinte e três anos, em uma dessas viagens. No começo eu sentia um vazio enorme, na medida em que ia passando para o papel as experiências que estavam arquivadas na memória, eu sentia como se alguém estivesse me tirando algo muito importante, esse era o momento em que eu me sentia vazio. Mas com o tempo comecei a sentir prazer em colocar as minhas experiências no o papel, sempre que me acontecia algo de novo. Depois comecei a sentir que a minha memória fazia meus olhos de câmera, tudo que via filmava e meus ouvidos de um gravador, tudo que ouvia gravava. Assim, eu tinha sempre a necessidade de escrever.
Confesso que no inicio fiquei um pouco assustado, pensei até em procurar um psicólogo, para me ajudar a entender aquele sentimento de vazio e a sensação de estar perdendo algo muito importante. Desisti de procurar o psicólogo porque eu mesmo fui encontrando as respostas e elas me satisfaziam. Quando eu nem pensava em passar para o papel as minhas experiências eu fiz psicoterapia. Quando se fala em fazer psicoterapia, as pessoas ficamlogo preocupadas.
Mas isso faz parte do preconceito. Quando eu fiz psicoterapia, pensei que já conhecia a psicóloga há muito tempo. Na época fazia parte do tratamento algumas sessões de psicoterapia. Embora eu nunca tenha ultrapassado a linha que divide o certo do errado, gostei muito de conversar com a psicóloga, os psicólogos nos transmitem muita confiança, são excelentes profissionais.
Hoje, 20 de julho de 2003, quero deixar registrado que a minha família já é bem maior que em 1990, quando nos mudamos para Quissamã. Já tenho seis sobrinhos, antes só tinha Cleide, hoje são eles, Cleide, Ícaro, Luis Felipe, Ana Clara, Riaggo, Analhia e a sétima que já está a caminho. Minha família continua unida, mérito que nos foi dado pelos nossos pais. Apesar de termos ficado sem o nosso pai em um momento tão importante de nossas vidas, em que nós precisávamos continuar ouvindo os seus ensinamentos. Mas creio que de todos os seus ensinamentos, existiam duas frases que em todas as oportunidades ele nos dizia: “ser pobre não é defeito, defeito é não ter caráter”. Eu sou muito orgulhoso por meus irmãos e eu não termos esquecido essas duas frases e de não termos esquecido de nosso pai. Digo isso porque nós sentimos muita saudade dele, eu particularmente tenho tanta coisa que gostaria de dizer para ele, e só para ele. Saudade. Não posso deixar de registrar a braveza e grandeza e o amor de nossa mãe, que abraçou a sua dupla função de mãe e pai, o que não deve ter sido nada fácil, pois ficou viúva aos 46 anos e por uma opção dela não mais se casou, preferiu continuar cuidando de sua família e eu sou testemunha de que ela é perfeita em sua dupla função, com certeza digna de parabéns. Quero registrar que tenho muito orgulho de ser seu filho e que eu a amo. Continuo trabalhando na Prefeitura de Quissamã, onde ocupo um cargo de confiança, que toma uma boa parte do meu tempo. Tenho me sentido muito feliz por contribuir para o desenvolvimento da minha cidade, que tem crescido a olhos vistos.
Tenho sofrido um pouco de ansiedade, sou visual e a cadeira de rodas não me dá a mobilidade necessária para acompanhar a velocidade dos acontecimentos, tenho me policiado muito a respeito, talvez as respostas estejam ligadas ao fato de que comecei a trabalhar aos cinco anos de idade. Fiquei independente de meus pais muito cedo, sempre amei a liberdade, procurei fazer tudo certo paranão perder o direito de ir e vir, mas a cadeira de rodas, mesmo sendo motorizada, nos dá limites. Às vezes, me sinto preso e com o direito de ir e vir roubado, ainda mais sendo visual e perfeccionista. Daí a necessidade de estar sempre cobrando um pouco mais de mim.
Continuo fazendo fisioterapia e tenho conseguido cada dia mais independência física, a sensibilidade já é total, o que me faz sentir muitas dores e por incrível que pareça, as dores são a maior prova de que estou melhorando, estou preparado fisicamente e psicologicamente e com esperanças de um dia ouvir a fantástica notícia: “Atenção, cientistas descobrem a cura para a lesão medular, tetraplégicos, paraplégicos e hemiplégicos, todos voltarão a andar”.
Enquanto isso não acontece, vou vivendo com o que sobrou e com o que eu conquistei. Não sei precisamente quantas foram as conquistas até aqui, mas, sem dúvida, a maior foi ter conhecido Kátia, com quem estou casado a um ano e meio, eu já disse para ela que Deus concebeu-me aos meus pais, eles me criaram, Deus me protegeu e Kátia me reinventou. Essa é minha historia até aqui. E ninguém vai me tirar nada, daqui para trás. Qualquer coisa que venha a acontecer daqui para frente, só poderá ser acrescentada.
Meus projetos para o futuro: pretendo voltar a estudar, ingressar definitivamente na política, já nas próximas eleições, concorrendo a uma vaga no Legislativo Municipal, como vereador. Quero dar uma contribuição maior para o desenvolvimento da minha cidade, Quissamã. E eu tenho uma dívida com o povo desta cidade. Pois participaram por duas vezes de eventos beneficentes, onde eu era o beneficiado, isso se deu quando comprei a primeira cadeira de rodas, a simples, e depois quando comprei a motorizada. E desde então, eu os tenho como uma grande família e é para essa grande família que eu vou me dedicar daqui para frente. Na certeza de que será mais um grande desafio na minha vida. Mas eu já aprendi a gostar dos desafios porque, na verdade, são eles, os desafios, que nos dão as vitórias.
Não sei quando vou lançar este livro, mas sei que muita coisa mais poderá acontecer. Mas isso já é uma outra história.

ESTOU ADORANDO A SUA PERSONAGEM NA NOVELA. PARABENS….

pqp, o tal do Boa Morte acha que alguém vai ler esse post de 500k linhas?

lu amei o teu albooul de fotos vc saiu dezzzzz e estou adorando tua personagem na novela vc esta se saindo dezzzzzz vc è um exemplo na vida do meu primo q è defisiente fizico

lu pode ter serteza q vc vai sair desta vc esta representando como q è a vida de uma pessoua tetra plegica no dia dia vc è o masimo bjkssssssss na ”xexa” te amo

lú você já teve muitas dificudades mas qual foi a pior de todas ou não teve pior foram todas iguis

lu eu estou adorando sua recuperação de cada capitulo tomare que vc volta a andar beijooooo te adoro

lúu to aconpanhando sua recuperação bjs

lu gosto muito do seu papel te adoro e fala para sua irmae isabel parar de se emtrometer na vida dos outros ta bjs thalita

LU A CADA DIA Eu estou ToRCENDO POR VC A CADA DIA seu papel esta maravilhosovc e tao linda que eu te confundo com minha mae

luciana gosto muito do seu papel espero que no final de tudo vc ficara feliz uma boa semana pra vc e sua familia bjss na bochexa de sua amiga LEIA

poxa to achado otimo que vc mostre as dificudades que eles tem de se locomover pelos os lugares pena que nosso dinheiro nao e em vestido em melhoras para os cadeirates valeu lu.

LU BEJA O MIGUELITOOO LOGO POR FAVOR VC E UMA OTIMA OTIMA ATRIZ BJSSSSS DE SUA AMIGA MARCIA

.. Oiie Luh !! Eu Seii K A Novela Nãõ Se Passa Em Vida Real Mais A Luciana Da Novela Sofre!! Mais Com Seu Amor ‘ Miguel ‘ Vooçes Poderam Serem Felizes ..
Sem O Chatoo Do Jorge … E Mostra Pro Brasil .. K Deus Existe E Faz Milagres .. Lindoss ..Maravilhososs ..

Bjinhoss !! De Sua Fã : Bruna ..♥

oi lu adoro muito voce mais nao pence que a helena e mais bonita que voce ce e mais bonita que ela beijo

Estou perplexa de como o povo viaja…

oi Lu espero que vc fica com Miguel!
ela lindo bjj Lu

oi Lu espero que vc fica com Miguel!
ela lindo bjj Lu

oi lu como voce se sete fasemdo este papel de trataplegica .voce ira votltar a andar em quero saber voce é uma menina sonhadora tudo a voce se realisa para o seu anor com miguel si realisar

oi lu adoro vc fica com miguelido…..bjs

oi ju meu nome émilena é eu asito todos os dias e eu adoro o seu papel.
eu acho vc ta bonita q eu queria ser i qual a vc.
TE ADORO BBJJSSSSSSSSSSSSSS

oi Lu adorei o ceu papel na novela viver a vida a esqueci de falar a minha idade eu tenho 8 anos, então vou continuar. isso mostra que os cadeirantes tem que ter o mesmo espaço na sociedade.
torço por vc e pelo miguel.

eu assisto essa novela todos os dias eu gostei daquela parte vc estava desfilando

Gostaria de comentar sobre as cadeiras de rodas dos cadeirantes, ja estamos no seculo 21 e nada mudou nas formas das mesmas não é possivel que não poderiam mudar de cor e formato mais moderno

vc é muito linda parabéns pelo seu trabalo como atriz bj viva a vida bj amor

voceis so estao mostrando a realidade de um cadeirante ”rico” pois um cadeirante pobre muda totalmente a realidade ,nao tenho contato mais conheço varios cadeirantes pobre que passam por muitas deficulddade tudo isso pela falta de dinheiro.

adoro sua personagem nessa novela continue assim pois parece tudo real isso faz com que muitas pessoas que c encontra nessa situaçao tome atitude de viver a vida como vcesta fazendo ve c fisga omiguel logo to esperando ew bjinhus xauzim

Oiee luciana meu nome é vera lucia chamada por vera ou verynha euu entrei aki no seu blog hoje pq vie passando no video show agora eu vou te dizer vc é muito linda e faz o papel perfeito na novela viver a vida continue assim pois eu torço por vc é miguel seja felizes viw!!!!!

adoro vc tenho10anos fasso anivessario no dia 23de julho leia minha mensagen e responda bois te amor quero ser vc quando creser DE;mia PARA;luciana

oi parabéns vc é muito boa ,porque não sei como cosegue ficar a gravação inteira com poucos movimentos.

beijos

Vc faz 1 papel muito interessante porque vc ensina muito as pessoas com deficiencia,vc ajuda as pessoas a superar a deficiencia,compreende sei que as pessoas fica mais alegre,impurrar as pessoa dizendo eu vou consiguir,continue assim seja uma pessoa mais alegre e superando tudo en sua frente um grande a bracos e seja maravilhosa te desejo milhoes e milhoes de susseso para vc e um grande abraco e muitos e muitos beijos!!!!!!!

olha meu nome e joelma e assisto todos os dias a novela estou adorando sua personagem bjs e boa sorte

adoro muito vs
seja feliz

oi lu em primeiro lugar saiba q eu te adimiro muito e vc é uma mulher super corajosa por te enfrentado essa sua deficiência vc é um grande cimbolo para as mulheres q tem esse tipo de problema e q essa sua história deixa qualquer um emosionado esse problem ana sua vida significa q vc é muito batalhadora por um lado foi bom esse acontessimento pq vc soube q vc é realmente corajoza sou sua fã n1 parabens te adoorooo muito bjusss e acredite vc é um simbolo muito importante para todos bjosss

Oi Luciana quero dizer que a sua idéia foi muito boa e que a sua história e um exemplo para muitos não desanimarem .
sei que existe muitas deficuldades mais com a sua força de vontade e com fiança em vc mesma e em Deus tudo vai dar certo estou acompanhando passa a passa bjuss lú muita forçapra ti fica com Deus !

Admiro muito a força de vontade de uma pessoa com qualquer deficiencia,que muitas vezes produz mais na vida que qualquer pessoa que não tenha deficiencia. Parabens.

Oi como vc se sente sendo uma tretaplegica na novela?bjs

Lu le o meu comentario na novela

lu eu queria te ver no espirito santo

oi luciana estou amando seu personagem vc entãõ com miguelito mande um beijoca para ele viu bom trabalho beijoss

gostei do seu personagem e muito real vejo que a vida nunca deve parar um abraço tchaul! linda.

luciana está muito bonita nessa foto isso está muito interessande

oi lu eu te adoro so uma criança de 08 anos ! como vc esta ?
lu adoro seu trabalho
lu fala com a globo para eu fazer um teste por favor meu sonho é ser atriz para ajudar minha familia eu te amo se vc fazer isso para min eu não sei como te agradecer bjsssss sou sua fã

lu vc e muito legal na novela volte andar para vc casar com o miguil

Lu vc é modelo na vida real

luciana eu queria ver vc andando na novela porque da uma pena ver vc na cadeira de rodas

oiii lú parabéns pelo seu trablho ta….
te adimiro muito vc faz um papel muito importante nessa novela é bem dizer uma lição de vida para as pessoas que estão nessa mesma situação ou ate mesmo pior. te assisto todos os dias e sou muito adimirada pelo seu papel parabens…

lu vc é tão bonita porque não se casa com o miguel

oi luciana!!Você é um grande exemplo para muitas pessoas,você é um ótima atriz parabéns…..bjãoooo

lu vc é uma atriz muito bonita se eu fose trabalhar ai com vc eu me casaria com vc eu tenho 23 anos

AMO O PAPEL Q VC FAZ NA NOVELA .NO É QUALQUER ATRIZ Q CONSEGUE FAZER UM PAPEL DESSE Ñ E VC É UMA GRANDE ATRIZ.ADOROO MUITO VC UM DIA AINDA QUERO LHE CONHECER PESSOALMENTE ………BJS TE AMO

luh fica com miguel não vejo a horas de vcs ficarem juntos vc são muito lindo amo vcs de coraçao ♥

oi lu esperoque vcmelhore na sua perconagem eu admiro muitovce sua irma mia boa sorte no trabalho♥♥♥♥

como voce fais para fazer xixi

como faz para fazer namora

como voce faz para namorar

meu nome é vitória , eu sou de pernambuco e tenho 8 anos assisto todo dia a novela (viver a vida ) espero que vc leia meu comentario .. aviso rsrsrs ( eu não sou deficinte ) tá , as papes que vc fas nas novelas não muito enteressante ! rsrs espere que vc voute a andar e arrazar na passarela , SUsseso para vc tá

beijoss Vitória Maria !
fica Com Deus !

LU , suas fotos estam lindas ,boa sorte!! bjs

oi Lu eu me chamo Williany e tenho 11 anos, como vc esta ?
vc esta indo muito bem!!!
vc esta sendo um exemplo de vida para todos nós, principalmente para as pessoas deficientes…
e nós que temos tudo estamos reclamando do que temos…
é por isso que adimiro muito vc, por ser assim e não achar ruim do jeito que vc é,quando estiver só e triste, pense nas pessoas que te amam e que te adimiram por vc ser assim…
BjOooos!!!! *de:sua Fã que te adimira muito
*para:uma pessoa maravilhosa…
*TxIiii AmOooo MuiitOoooo….

as pessoas que nao tem as condiçoes igual a luciana congue se recuperar mais rapido. adorei o seu papel na novela vc encina as pessoas se reanimarem.eu ea minha mae kelly nao perdemos um capitulo dessa novela e adoramos a sua parte. beijos da suas maiores fans gabi e kelly.

lú vc tem o site de carros para tetrapegico,o meus esposso e eu queriamos saber,pra ver se ainda ta pra ele dirigir,ele ja tem 15 anos de cadeira,mas ele faz tudo …bjos

adoramos o seu papel ta sendo d++++..manda um beijo pra ele …Mario jorge, (manaus-am)…beixinhooos

lu tenho 10anos e adoro voce te admiro muito
sei que foi muito dificil oque voce passou mais voce se superou te adoro .nao fica cm medo de casar com miguelito pois ele e lindo fofo;muito gato se voce demorar p/r casar eu caso com ele.beijos

(Aline Morais)Luciana parabens pela sua luta e forca de vontade para lutar pela vida;ha manda sua sogra catatar coquinho,beijo,
Claudia,
Sao Jose do Rio Preto-SP

Lu adoro voce
Claudia
RioPreto

oi lù você è muito linda

luciana não tenho nem palavras pra dizer o quanto vc é linda ….não perco nem um capitulo da novela te adoroo

adorei suas fotos beijos….

lu o tel papel na novela e lindo eu nao sei como vc consege fazer o brilho dos teus olhos brilharen nese papal vc e linda beijos nicole

adoroooooooooo suaa novela vem pra ca lu pra vitoria da conquista

nossa! é muito legal esse blog. vc ajudou a outras pessoas a saber que andando ou nao elas sao as mesmas

lu vc muito linda gostei de vc .,…

petrolina pe

gostei muito!!!!!!!!!!!
isso e´muito legal

lu vc e muito legal

Lu vc é modelo na vida real

eih luh assistu sua novela
todos os dias eu adoro vc
vc e muito querida no meu coraçao
viu

oi lu adoro vc, todo dia assisto a novela so pra te ver, va em frente que vc consegue.
BJAOOOOO

luciana na ssua primeira ves com miguel foi difissio pra vc ? sou tambem cadeirante e queria saber .

oi lu vou sentir muitas saudades pena que a novela vai acabar né mais ñ tem problema
eu tenho uma irmã que é a sua cara
parecida demais te amo bjs ei lu manda uma mensagen pro meu email bjs é snckatinha@hotmail.com me add e manda bjs

te amo lú tenho uma irmã que é sua cara bjs pena que a novela vai acabar bjs isabel vc é dez e vc tbm lu

eu tambem sou deficiente fisica tenho ARTROGRIPOSE MULTIPLA CONGENITA,moro em Guaratingueta SP,tenho 10 anos sempre q eu te vejo eu choro,vc se supera a cd dia,tb ja sofri muito preconceito na minha escola, mas estou superando, faço tratamento na AACD, de Ibirapuera SP, faço nataçao na AACD e pretendo ser atleta!vou toda sexta-feira pr SP è cansativo mas sa for para o meu futuro vale a pena!quem sabe vc n me ve em 2016 nas OLIMPIADAS,me add meu email è livia_dematos@yahoo.com.br
e o meu MSN è liviacardoso.m@hotmail.com
te adoro!vc è um exemplo pr mim!bjs!me add!te amo Lu

lu eu quero ser atris de novela igual a vc o meu sonho é ser atriz eu tenho 8 anos espero um dia li conhecer so sua fam beijos pra vc ..

oiiiiii lu eo a novela viver a vida acabou ep gostava muito dela mais vc e a aline ne vc mora em rio de janeiro

lú parabens pelo seu perdonagem , eu tenho apenas 9 anos ii me emocionoo quando vejo vc na novela , quero q vc mande um bj para mim alvivo por favor . mande para mim ,para minha avó , minha tia ,minha mae todos da minha familia , é o meu sonho lhe conhecer . i conhecer o jesto do povoo da novela . se eu podesse iria ate rio de janeiro para lhe ve i conhecer a casa amarela , amuu essa casa . sonhoo eu la , mas o meu sonho mt garndo num tem como eu realizar , eu quero q vc mande um bj para mim , te amoo .

lú te amoo mt bjs ! amuu a mia tb a izabel , a sua mae a todos .. de ; ingridy para ; luciana . lú te amoo

lu vc é super linda vc é a garota q todos nós cidadão de bem ama ter lado.miguel e luciana uns dos poucos personagens que existe neste mundo pq vcs são dedicados a seu elenco. parabens gostei muito
bjusss..
di eu

adorei seus gemeos que lindo casal o menino parecido com o miguel e a menina com a mamae luciana te amo so nao gostei do seu acidente

ola luciana eu te adoro vc é muito lindA

gostei muito do fim da novela obrigado por voces fazerem esse trabalho de entreterimento gostei muito do seu trabalho eu sou aqui de coari-amazonas beijos.

gostaria que vc respondeçe pra mim

oi luciana adorei o papel na novela! assim pode mostrar quer todos deficientes pode fazer muito mais do que uma pessoa normal

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