Outro dia me peguei  construindo uma linha de raciocínio que já me ocorrera na época da escola: com o passar dos últimos séculos, décadas e anos, numa aceleração proporcional à minha capacidade de percepção histórica enquanto ente da humanidade contemporânea, o mundo tem convergido mais e mais para a supremacia da liberdade e dos direitos individuais, com a flexibilização de comandos morais outrora tidos como inequívocos por muitas gerações.

Simplificando o parágrafo acima, o que quero dizer é que, na medida em que a civilização evolui historicamente, a sociedade parece caminhar para uma condição cada vez mais democrática e mais tolerante à diversidade cultural.

Digo isto porque minha avó acredita ter sido uma mãe liberal, especialmente em comparação com a rígida educação que recebera no começo do século XX, ao tempo em que minha mãe me criou nos anos 80 e 90 de forma mais liberal do que foi criada nos anos 60 e 70, e na mesma medida em que eu pretendo promover a meus filhos uma educação mais liberal do que a que recebi – isto lá pra 2040, frise-se.

Ninguém pode negar a evolução obtida nos últimos tempos em relação às minorias oprimidas. Negros libertaram-se da condição de subespécie, mulheres conseguiram quase equiparar-se juridicamente aos homens, homossexuais desfilam as cores do arco-ires e exibem seu orgulho gay para o mundo em eventos cada vez mais apoteóticos, e quase todos os grupos em desvantagem social (por exemplo: trabalhadores informais, detentos, deficientes físicos, diabéticos e usuários de entorpecentes) têm obtido sucessivas vitórias na ainda longa e sofrida jornada rumo a uma civilização plenamente livre e justa.

O que dizer das questões comportamentais? Beijo de língua e amassos entre jovens de 11, 12 anos, na porta de casa, com a bênção dos pais? Sexo, inclusive, antes do casamento, fora do casamento, com pessoas de ambos os sexos, em grupo, com menores de idade, na micareta, no baile funk, com animais, com objetos, com anões besuntados em maionese, enfim. A perversão sexual humana está (quase) toda documentada nos melhores websites do gênero.

Seguindo uma linha de raciocínio não muito complexa, me atrevo a dizer que o avanço do pensamento liberal e democrático se deve essencialmente ao avanço das tecnologias que promovem a circulação de informação e a comunicação entre as pessoas. Com maior destaque, obviamente, às tecnologias que democratizam o acesso livre e multidirecional do conhecimento. Na era da internet, pra não sair do lugar-comum, está ficando cada vez mais difícil se surpreender com o dinamismo dos debates sobre as mais variadas questões.

Sustentabilidade ambiental, amplitude estatal, acessibilidade, inclusão social, regulamentação do aborto, eutanásia, união homossexual, legalização das drogas, pesquisas com células embrionárias, entre outras, são tidas como questões certamente colocadas em pauta nos ordenamentos jurídicos ao redor do planeta.

Eu espero ainda estar vivo pra ver um planeta completamente revolucionado pela tecnologia e pela priorização da liberdade individual, onde “convergência” e “colaboração” fazem mais sentido que a mera competição materialista, onde a religião seja um novo conceito – mais filosófico que político – e onde cada indivíduo possa contar com o pleno apoio da humanidade para explorar todo o seu potencial e conquistar cada uma de suas aspirações, vivendo à sua maneira e assim contribuindo da melhor forma possível para  a sociedade.

Das poucas certezas que nós temos, contudo, nada se extrai: amanhã vai ser outro dia, o mundo dá muitas voltas e o futuro a ninguém pertence. Mas gosto de ser otimista.

A propósito, será muito bom também se daqui há alguns anos o exame de próstata já for realizado através de ultra-sonografia.


 

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