Preza a sabedoria popular que, assim como a rapadura, LSD é doce mas não é mole, não!

Como entusiastas do debate aberto sobre entorpecentes e redução de danos, nos sentimos na obrigação de compartilhar aqui no TRETA uma história real de alguém que enfrentou uma badtrip extrema – que podia ter lhe custado a vida.

 

Com limites

Autor: Ricardo Azzi Silva

 

Quando você começa a vida você não imagina a quantidade de lutas que vai precisar passar, nem as coisas que vai precisar viver, basicamente quando você é criança nada é muito ruim, não existem responsabilidades, nem problemas muito sérios.

Eu me chamo Ricardo Azzi Silva, e sou TDAH desde criança, infelizmente esse transtorno não passou quando passei para a fase adulta, como é normal que aconteça (pelo menos de acordo com os artigos que li), então fui buscando pelo decorrer de minha vida algumas formas de administrar não só esse transtorno, mas também problemas de ansiedade e uma depressão apática que se instalou em minha alma.

 

LSD com estampa de onça.

 

Tudo começou há mais de um ano atrás, quando conheci uma droga chamada LSD. Quando usei a primeira vez uma onda de hiperatividade possuiu minha mente. A hiperatividade já é uma coisa natural de um TDAH, a droga potencializou a hiperatividade que eu já tinha, e percebi que conseguia conversar usando argumentos mais inteligentes, que pensava mais rápido. Algo que sempre lutei para conquistar durante minha vida eu tinha acabado de descobrir naquela droga: auto controle sobre meu corpo. Eu percebi que aquilo não era algo que deveria ser utilizado para se divertir, mas era algo que eu poderia utilizar para produzir, e essa ideia ficou na minha mente.

A desconcentração de um TDAH não é constante, ela é apenas na maior parte da vida, mas existem algumas situações onde um modo de hiperfoco é ativado, e normalmente esse modo é quando um TDAH é colocado para executar uma tarefa sob pressão, no meu caso, sempre que eu fico com muita raiva eu também me torno capaz de ativar esse hiperfoco.

 

Tomar LSD me estimulava a desenhar.

 

O tempo passou e conheci um rapaz que revendia os doces (apelido de LSD, LSA, LSH e algumas anfetaminas) e resolvi começar a comprar para usar no trabalho, fiz alguns testes com pequenas quantidades em casa, para desenvolvimento de softwares que me auxiliariam no trabalho, e os testes realmente surtiram efeito: toda a euforia, hiperatividade, desconcentração, ansiedade, carência e depressão eram anuladas de meu corpo, assim como também o sono e a fome, além de me colocar no estado de hiperfoco, garantindo que meu corpo se tornasse uma máquina produtora muita mais eficiente.

Com esses resultados eu resolvi começar a usar dentro da empresa.

 

Você lutar 24 anos para parar de roer as unhas e um belo dia encontra um selo mágico que remove toda a ansiedade de seu corpo.

 

O tempo foi passando e, eu fui ficando mais otimista, eu me sentia bem com todos os meus amigos (a droga tem um efeito de você sentir uma emoção / felicidade muito grande pelas pessoas que te cercam) e, não tinha mais anseio de conquistar nenhuma garota para estar comigo, por que também é um efeito colateral perder toda a sexualidade, ver todos somente como outras pessoas, não homem ou mulher.

Eventualmente eu parava de tomar, usar drogas todos os dias para trabalhar não é algo que soa bem de se dizer, mas a remoção disso fazia com que eu me sentisse carente novamente, a depressão voltava, então eu lembrava que a minha mente não era um local agradável de se ficar e ficava feliz de saber que sempre poderia contar com minha boa e velha Dietamina de Ácido Lisérgico.

O meu espírito está amargurado e a vida me deixou cansado, eu fui vivendo dia após dia movimentado pelos pequenos selos. Eu passei vários meses tomando ácido todos os dias, até começar a calcular uma dose ideal para garantir minha produtividade, foi quando iniciei a estratégia do “dia sim, e dia não”, onde eu passava um dia sóbrio, sendo o TDAH atacado que todos sempre conheceram, também chamado de “Taz-Mania”, e no dia seguinte eu tomava dois selos, me tornando um profissional sério e controlado, o fim de semana passava sóbrio para que a dose da segunda tivesse um efeito melhor. Eu segui dez meses nesse ritmo, dez meses chapado…

 

Uma postagem que fiz alucinado em uma página minha, há muito tempo.

 

Um dia descobri que existia um nível diferente de LSD, um nível alucinógeno de verdade: a quantidade que eu utilizava só me dava alguns alucinações simples e fazia com que eu visse alguns vultos correndo ao meu redor (com o tempo eu comecei a ignorar os vultos, apesar de dar nomes para alguns), a quantidade para criar uma alucinação real seria um pouco mais do que eles chamam de 200ug. Entre os testes de dose que fiz com meu corpo, o foco da história está na última vez: 3 selos de 330ug cada, com estampa de onça (isso quer dizer que fiz vários testes, cada vez aumentando mais a quantidade que eu usava), eu estava sóbrio de ácido já há um mês, porque a operação que me fornecia havia caído, um dos rapazes havia sido preso pela polícia na fronteira do país e toda a droga havia sido confiscada, a LSD que eu adquiri havia sido com outro contato que cobrava bem mais caro pelos selos, mas sempre trazia coisas de maior qualidade.

Eu estava saindo com alguns amigos de meu primo em uma chácara e somente eu tinha usado aquilo lá, eu tomei duas, eu senti a minha mente analítica se montando e o meu sentimentalismo natural sumindo, mas eu não queria isso, eu queria alucinar, então voltei ao quarto e tomei mais um. Eu fiquei muito louco. Eu comecei a suar muito e chamei um amigo para que chamasse meu primo, quando sentei na cama de meu quarto eu perdi toda minha memória e, então meu primo entrou.

 

Um cogumelinho com a pupila dilatada tomando conta do meu cérebro.

 

Eu não fazia ideia de quem era aquela pessoa, que havia entrado e fechado a porta atrás de si, ele entrou no quarto com uma postura de bronca, perguntou se o que eu tinha usado era o que eu usava para trabalhar, eu não fazia ideia, não só não tinha memória como todo o universo que se resumia àquele quarto havia acabado de existir, eu não sabia com o que eu trabalhava, ele mexeu em minha mochila e pegou as drogas que eu tinha comigo – eu sentia um apego pela mochila e, das poucas coisas que eu sabia, era que aquela era minha mochila e que eu havia trazido algumas roupas, então eu deduzi que provavelmente estava em algum tipo de albergue, eu lembro de me perguntar para ele:

– Eu sou um noia?

Cheio de medo, por que não fazia ideia do que estava acontecendo.

– Eu trapaceio pra ganhar?

Meu primo começou a falar o nome de meu pai, de minha mãe, dizer o nome dele, e eu comecei a recordar de tudo, com um problema: para mim tudo que havia existido se tratava apenas de uma memória dentro da minha cabeça e ele dizer o nome de meu pai e o nome de minha mãe, era como se estivesse citando coisas que somente eu tinha conhecimento, de um sonho recente que eu tinha acabado de ter dentro de meu quarto, ele disse que era meu primo e eu o percebia como parente. Ele se aproximou de mim e disse que era minha família e que estaria sempre comigo, eu não tinha certeza de nada e estava apavorado de medo.

 

A caveira mexicana, cada selo tem 260ug de LSD, seja lá o que isso significa.

Quando ele disse que tínhamos viajado entre amigos para uma chácara durante um feriado de quatro dias, a minha conclusão foi que eu estava lá com eles, eu havia sido dopado para ser, provavelmente estuprado, e por isso ele estava naquele quarto comigo, minha estratégia natural foi arranjar um jeito de sair do quarto com meu primo andando rápido, por que ele provavelmente era o estuprador, quando sai e vi que fora do cômodo havia outro cômodo, e depois disso outro cômodo e etc, percebi que na verdade não existia sol, nem lua, nem grama, nem nada, que tudo eram coisas que estavam na minha memória, eu lembro de ter andado no meio das pessoas, de ver todos no meio do rolê ao redor da mesa, olhando assustados para mim, todos estavam sentados e eu só consegui pensar que eles estavam ali esperando o meu primo conversar comigo para depois servir a minha carne na mesa – naquele momento eu já não tinha mais noção de sexualidade, assim como também não tinha noção de diferença de um homem para um animal, eu só via mamíferos.

Então eu corri, corri para fugir de todos e lembro de ter me escondido, na minha mente eu não conseguia distinguir se eu realmente estava fazendo aquilo ou se eu estava apenas pensando em todas aquelas coisas – mas eu estava fazendo. Não tenho certeza, mas acredito que estava deitado atrás de um carro, via luzes das lanternas deles me procurando e chamando pelo meu nome – provavelmente para depois me sacrificar e se alimentar de minha carne, eu fiquei lá, chorando, desesperado, sujo no chão.

Um deles disse que estava tudo bem, eu não teria como sair mesmo, foi ai que eu percebi que eu tinha sido comprado para ser caçado, foi então resolvi pular o portão, eu não lembro dos detalhes, eu pulei o portão rendendo diversos arranhões em minha barriga, para mim eu havia escalado o muro, mas o que me contaram depois foi que eu dei um salto e segurei a parte de cima com os braços, então eu puxei meu corpo com tudo e saltei por cima do portão, caindo de pé do outro lado, e então corri, ouvia meu primo gritando meu nome e dizendo ser meu primo, eu sentia vontade de voltar, para que ele me levasse pra casa, mas ai eu me recordava que o sentimento de família que eu tinha por ele e as memórias que eu tinha eram na verdade resultado de alguma coisa que eles haviam me dado para me estuprar, eu corri, eu corri e todos os rapazes eram fortes e atléticos lá, então logo me alcançaram.

Na minha mente eu era um antílope fugindo de lobos que a qualquer momento iriam devorar meu corpo, eu não olhava para frente, eu só corria, desesperado pela minha vida.

 

60 selos de LSA com a imagem de Ganesh oferecendo coxinha, me sustentou por um mês e meio.

 

Me disseram que eu parei de correr e os acompanhei de volta, mas eu só lembro do momento encerrar e eu estar sentado em um banheiro, provavelmente com um chuveiro ligado sobre mim, não tenho certeza. Eu estava apavorado, eu não lembro quem estava na porta, mas eu lembro de começar a implorar para que me matassem – na minha mente eu via muito sangue, ossos e carnificina, para mim eles estavam brincando com minha vida como uma criança brinca de afogar uma formiga antes de matá-la, eu não queria ser torturado e dizia que havia desistido, eu não aguentava mais. Lógico que nenhum deles iria me matar, eles estavam todos tentando me ajudar, mas na minha mente eles estavam planejando me torturar, fatiar a minha carne comigo em vida para servir para todas aquelas pessoas. Eu não vi solução, quando o primeiro saiu de perto da porta eu entendi que o único jeito de evitar tudo aquilo era se eu me matasse ali mesmo.

De acordo com a versão do meu primo, eu tranquei a porta do banheiro e então eu bati com minha cabeça com força, duas vezes seguidas contra a privada, depois de um tempo ele ouviu mais um golpe, e então outro golpe, de acordo com ele, depois disso eu abri a porta com a cabeça aberta, pedindo ajuda, o que eu consigo lembrar é apenas de bater uma vez a cabeça e depois disso eu estava no carro, indo para o hospital, também lembro de ter tomado a decisão de me matar, consciente de que não havia outra saída para fugir dali.

Eu acordei, para o meu desespero, com quatro rapazes fortes no carro comigo, me segurando, eu não fazia ideia de quem eram eles, um deles segurava um pano em minha cabeça: eu havia acabado de arregaçar minha cara na privada, estava sangrando muito e eles estavam me levando para o hospital. Eu olhava para mim, barrigudinho, e para eles fortes e tinha entendido que eles estavam me levando para algum lugar para abusar de mim. Eu olhava pros lados e não tinha saída. Eu estava preso dentro do carro e não tinha o que fazer. Em algum momento mencionaram novamente de eu usar algo pra trabalhar, na minha cabeça eu era um lobo de caça assim como eles, e eu devia estar usando algum tipo de esteroide e então eles iriam me dar uma lição. No meio da viagem eu comecei a achar que na verdade eles pegavam os lobos gordos e usavam de alimento, já que não dariam nenhum rendimento em uma caçada.

Eu viajei para longe com eles, com um milhão de coisas se passando pela minha cabeça, vários pensamentos diversificados mudando rapidamente o foco.

 

Não só saí com vida da brincadeira como consegui não trincar meu crânio.

 

“A Intermédica, solicito auxilio ao paciente Ricardo Azzi Silva, que fez uso de drogas, e causou um trauma na região frontal, sem perda de consciência, nega dor local”. É a carta do médico do SUS para meu plano de saúde, não tenho certeza se é isso que está escrito, a letra dele é muito difícil.

 

Eu me acalmei quando me levaram para o hospital, apenas um dos rapazes estava comigo agora, ele estava comigo na sala com um doutor e uma moça. Estavam todos muito calmos no quarto, com exceção do doutor que parecia estar com raiva de mim, que não parava de me mexer perguntando se ele estava enfiando um chip no meu cérebro enquanto ele me costurava, na hora eu já estava voltando a mim, eu ainda achava que havia sido sequestrado, o hospital me parecia mais um ambiente onde eles haviam levado a caça deles para consertar, para depois usar novamente, mas esses pensamentos estavam cada vez mais leves em minha cabeça e quando voltamos de carro eu fui tentando conversar com eles, balbuciava as palavras e não conseguia explicar por tudo o que eu havia passado, toda a chacina que eu havia visto em minha mente, como eu havia me sentindo sendo um animalzinho, como eu acreditei que todo o universo que existe tinha sido apenas coisa da minha cabeça o tempo todo, acreditar que pai e mãe eram apenas uma memória de algo que nunca aconteceu, sem ter certeza se existia grama ou sol, o desespero de ver que não importa para onde correr, haviam cercas em outros lugares com outras pessoas provavelmente sequestrando outras pessoas.

Eu passei por uma experiência horrível que só existiu na minha cabeça, e agora eu vou carregar as marcas no meu corpo como consequência de todas as porcarias que fiz.

 

A abertura na cabeça, de todos os ferimentos, foi apenas o pior.

 

Eu ainda estou muito assustado, muito perturbado com tudo. Não quero mais químicas dentro de minha cabeça, sejam legais ou não, continuar preso dentro da depressão apática e da desatenção de uma mente TDAH, mas pelo menos mantenho meu crânio inteiro.

 

Texto escrito por Ricardo Azzi Silva e originalmente publicado em seu blog.