Calminha aí, leitor de títulos desesperado!

Se você achou a chamada deste post um absurdo, sendo incapaz de relacionar contextos e perceber ironias, é com você mesmo que eu quero falar. Mas para isso é preciso que você leia tudo até o final, algo que certamente não está acostumado a fazer…

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Desde que começou a temporada brasileira de House Of Cards crise política nacional, tenho rascunhado alguns textos que gostaria de publicar aqui no site, mas logo me dou conta de que atualmente seria preciso anexar alguns livros no post para que o interlocutor afegão médio possa ter a mínima compreensão dos pressupostos de qualquer argumentação. E evitar a pororoca de chorume usual nos comentários.

Mas este texto eu tive que encarar como uma missão: através de um episódio ocorrido comigo, mostrar como as discussões sobre qualquer assunto ligado a política estão sendo escrotizadas por uma aparente cegueira ideológica, onde argumentos não importam, mas apenas “de que lado você está”.

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Mas e a Bethania?

Bem, o pivô da discórdia em tese não foi diretamente a cantora baiana, mas o atual colecionador de polêmicas José de Abreu.

Contextualizando, já que esse texto é sobre isso, o ator da TV Globo, notório esquerdista, se envolveu recentemente em uma confusão enquanto jantava com sua esposa em um restaurante japonês. Um outro casal sentado próximo à sua mesa proferiu diversas ofensas graves contra o artista, de 70 anos de idade, e a mulher, quando José de Abreu perdeu a compostura e cuspiu no rosto de ambos. Tudo registrado em vídeo e debatido à exaustão em rede nacional.

Não obstante o debate sobre a proporcionalidade de reagir a ofensas com um cuspe, alcoolizado e enervado, não resta dúvida de que o fato de um homem agredir uma mulher, em qualquer situação (a não ser obviamente na medida certa para repelir uma agressão atual ou iminente), é inaceitável. Um comportamento machista que deve ser condenado, mesmo que se trate de uma agressão mais “branda” e “simbólica” como um cuspe, mesmo que se trate de uma reação a ofensas e agressões verbais.

Pelo menos, com o episódio, algumas coisas foram esclarecidas, como a famigerada Lei Rouanet.

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Mas e a Bethania, porra?

Pois é. Ocorre que nessa onda de discussões e reações ao cuspe, muitas novas ofensas fizeram o ator “apagar” (despublicar) – pela “enésima” vez este ano, diga-se – seu perfil no Twitter.

E enquanto sua conta estava fora do ar, alguém trouxe à tona o print de dois tweets antigos de José de Abreu, denunciando uma aparente incoerência, além de “preconceito” e “homofobia”:

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Os tweets em questão eram os seguintes:

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Então ele xingou a Bethânia?

Agora que o ator reativou sua conta, foi possível verificar, em primeiro lugar, que as imagens eram reproduções de publicações autênticas, feitas por Zé de Abreu no Twitter aquiaqui.

Mas o que será que está por trás da frase “Bethania é feia, nordestina e lésbica”?

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Abaixo, alguns comentários (feitos em 2016) sobre o tweet (de 2011):

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Tem algo estranho aí… O que será?

Ocorre que qualquer pessoa informada sobre as posições políticas do ator, inclusive no que diz respeito ao preconceito contra nordestinos, homossexuais e mulheres tachadas como “feias” pelos padrões de beleza do senso comum, conseguiria detectar a ironia contida no tweet pseudo-ofensivo.

Mas quando tentei questionar a acusação feita a partir de uma frase isolada fora de contexto, fui imediatamente achincalhado:

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Confira a sequência de “pérolas” e “gentilezas”:

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Pois é. Burro, hipócrita, bandido, passador de pano, petista, putinha, pedófilo, gordo, maconheiro e viado. Adjetivos que ganhei por ter prestado atenção nas aulas de interpretação de texto da escola. Ou será que eu estava mesmo chapado de mortadela tentando bancar o advogado do diabo e defendendo o indefensável?

Curioso é que, quando a blogueira Cynara Menezes me respondeu comentando a acusação absurda baseada em um tweet descontextualizado, um sujeito a chamou de “vagabunda”.

Até então eu achava que as pessoas estavam justamente acusando o ator José de Abreu de ser machista e preconceituoso, mas as coisas acabaram ficando confusas…

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Mas e aí? A frase era uma ofensa mesmo ou tinha contexto?

Depois de tentar argumentar mais algumas vezes, a solução do impasse sobre o derradeiro tweet tinha ficado para quando o ator reativasse sua conta, pois aí seria possível verificar se houve outros tweets na sequência que justificassem o “feia, nordestina e lésbica”.

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E sabe o que aconteceu depois disso?

Pois é, o Zé de Abreu reativou sua conta. Vamos fazer uma pesquisa rápida pra ver se a gente encontra alguma explicação à época do tal tweet?

Os resultados de busca do Twitter são exibidos em ordem cronológica decrescente, claro, mas dá pra entender claramente a sequência:

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Pois é, ele estava justamente defendendo a cantora Maria Bethânia das ofensas e acusações feitas na época em que foi autorizada a captação de 1,3 milhão de reais para a criação de um blog de poesia através de incentivos fiscais.

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E ainda tem mais tweets relacionados – por “acaso” nenhum que desse a entender que a frase “feia, lésbica e nordestina” tenha sido usada para ofender, mas ao contrário.

A única conclusão possível é que a acusação feita contra Zé de Abreu diz mais sobre o que seus acusadores pensam de pessoas “feias”, nordestinas e lésbicas do que o próprio ator.

 

No episódio de hoje aprendemos como é importante perceber contextos e figuras de linguagem para interpretar uma frase ou uma informação, por mais evidente que ela aparente ser, e não cometer acusações levianas ou até mesmo caluniosas (lembrando que calúnia é o nome dado ao crime de acusar alguém de ter cometido um crime sem provas, com pena de detenção, de seis meses a dois anos, e multa).

Na busca incessante por emitir uma opinião lacradora, e denunciar atrocidades cometidas “pelo pessoal do outro lado”, seus adversários no tal “fla-flu ideológico”, as pessoas têm perdido excelentes oportunidades de ficarem caladas – para não passar recibo de idiota.

 

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Este post é dedicado aos meus amados professores de língua portuguesa.


 

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