Detesto abrir um texto com obviedades, mas é preciso. As redes sociais romperam a mordaça de diversos grupos sociais até então excluídos do debate público – definido pela pauta dos grandes meios de comunicação. Vozes e opiniões que nunca fizeram parte do nosso dia-a-dia passaram a encher nossas timelines com demandas e campanhas de que muitas vezes sequer havíamos tomado conhecimento, quiçá poderíamos compreender.

Como numa utopia democrática, pela primeira vez na história grupos civis articulados podem comprar briga contra grandes interesses econômicos, revelando as atrocidades de uma megacorporação, ou de um político, ou de um comportamento tão equivocado quanto estabelecido na nossa cultura. Neste panorama, penso que antes mesmo de falarmos sobre racismo, homofobia ou intolerância religiosa, o machismo apresenta-se como um grande problema a ser combatido, inclusive por interesse direto de pelo menos metade da população mundial.

Contra milhares (milhões?) de anos de completa dominação patriarcal, algumas iniciativas aqui e ali se colocam contra abordagens que reforçam os estereótipos machistas e lutam pela igualdade entre os sexos, inclusive no aspecto da liberdade sexual. O problema é que este movimento tem extrapolado sua vigilância, e alardeado denúncias gravíssimas contra tudo e todos que destoam um pouco do mais politicamente correto dos pensamentos. Tal "exagero", na minha modesta opinião, não tem outra utilidade além de minar a relevância e credibilidade do próprio feminismo.

Uma dessas polêmicas agudas diz respeito ao blog de humor Testosterona, constantemente atacado por tais grupos feministas (inclusive desligado do Portal MTV por força destas reclamações). Minha opinião específica sobre o assunto ficou registrada nesta resposta a um email de um leitor.

Para jogar uma luz mais generosa sobre a questão, transcrevemos abaixo o excelente texto da Anna Ingrid, do blog Caderno Insone, publicado originalmente no O Fim da Várzea:

Eu não sei se é porque Pepeu Gomes construiu meu caráter com aquela coisa de ser um homem feminino não ferir o lado masculino, ou porque eu sempre me dei muito mais valor do que dava ao que eu não queria para mim.

Eu concordo com a coisa da censura de mamilo no Facebook, mas não que eu seja machista, é por ter muita criança lá mesmo. Muita. E é melhor deixar pra expor essas coisas quando tiverem mais idade. Sei lá, gosto de preservar as mentes inocentes mais um pouquinho, sabe?

Eu vejo meninas de 4 anos dançando até o chão com o show das poderosas e eu acho aquilo tão bizarro que me dá vontade de nunca reproduzir.

E quanto à objetização da mulher… aquelas… eu sempre fui gorda, e se eu fosse deixar chegar em mim tudo o que se espera que se chegue a uma gorda, eu ia tá louca da vida roendo o pé da mesa e saindo na rua pra morder o cachorro.

Eu posso reclamar de mim, dos meus amigos, dos meus irmãos, da minha família, o resto do mundo que reclame dele mesmo. A gente tem que aprender a barrar o que chega até a gente e se quer que aquilo lá se enraíze e mude a gente. E é a gente que decide isso, não é o mundo.

O mundo está apenas sendo o mundo e o papel dele é não facilitar para ninguém mesmo.

Eu acredito que a grande beleza do feminismo não é derrubar no braço um comportamento arraigado, se fosse assim a gente nem dirigia e nem votava ainda e era sempre painho quem escolhia o marido.

A gente é muito melhor que essa briga sobre depilação e mamilo. É mais inteligente também. Quando a gente entender que foda-se essa merda a merda vai ser obrigada a ir pro ralo. É você que precisa não se vender por pouca coisa e não aceitar aquele salário menor que o do seu colega com culhões que faz exatamente a mesma coisa.

Não vejo com maldade os comentários de pedreiro que são sempre tão malvistos. Incomoda mais quando é para alguém que é inapropriado, como uma criança de 12 ou 13 anos, mas os comentários normalmente funcionam para eles quando são dirigidos a gente mais socialmente adequada.

Sou eu que tenho que ser melhor e aprender a reagir e não me desgastar com essa coisa menor. Eu olho o Channing Tatum e tenho certeza que coisifico o cara tanto ou mais que os pedreiros comigo, mas como eu li mais e tenho um vocabulário um pouco melhor, consigo fazer isso ser até bonito. Às vezes até transformo em literatura. E isso é mais que o que um “gostosa” de um pedreiro jamais fará.

Pode ter sido também da minha educação que foi toda baseada no meu próprio senso crítico e na minha necessidade patológica de ter a minha própria verdade, minha própria opinião e o que eu penso a respeito da coisa e se aquilo ali se aplica a mim ou não.

Eu sempre fui muito sozinha, sabe? Não gostava das bandas que “deveria” nem tinha aquela vaidade esperada e só fui fazer sobrancelha e depilação com uns 18, 19 anos.

Não era um grito de protesto nem um gesto político. Era falta de interesse mesmo. No dia que eu quis eu fiz e até hoje se não quiser fazer não faço e a preguiça toma de conta e ainda não é política e protesto. É o meu próprio desejo motivado pelo meu direito que eu mesma me dei de ter preguiça.

Não, eu não acho que seja bonito essa naturalidade toda, não curtia naturalidade nem nos livros do José de Alencar e meus pensamentos sobre Iracema eram sempre que ela devia feder muito e deu pro primeiro cara branco que viu porque era novidade, e daí?!?

Eu gosto mesmo é de me sentir com a pele macia e hidratada e bem cuidada. Eu me sentir, não a sociedade me exigir isso. A sociedade faz muita convenção idiota e não idiota, cada um escolhe aquilo com que pode lidar. Existe espaço para todo o mundo, esteja ele depilado, tatuado, tingido, raspado e tendo ou não um time do coração.

O Testosterona não me ofende. Não que eu considere o blog bom, porque para o meu interesse ele não é. Mas é um blog que atende o seu público de maneira adequada. Tem blog para tudo e para todo mundo. Tem o meu com literatura ruim, tem sobre mangas e animes e tecnologia e listas e maquiagem e cachorros e sobre nanotecnologia. Tem o Testosterona pra gente com esse pensamento. Vai mudar o que tirar do ar?

Não deixemos de usar o shortinho por causa de pedreiro e do medo do estupro. Não é você de calça que vai começar a extinção da babaquice e no máximo se fica morrendo de calor. Vão falar da tua bunda no jeans. Vão falar se aperta, se está folgado, se apertando você fica com “pata de camelo”.

A gente tem que se fortalecer psicologicamente para não se incomodar com isso ou andar de burca, que se for preta e com esse calor tropical até era uma boa por causa da proteção solar mesmo. Mas e o vento no cabelo, vai deixar que a estultice lhe tire também?

Se puder evitar se colocar em risco de estupro, evite. Não que você nunca possa usar minissaia, mas por que há lugares mais perigosos que outros. Não é só o machismo que é problema, é a falta de segurança pública que atinge mais forte mesmo. Até porque a maior parte dos estupros é cometida por gente de confiança da vítima. Dentro de casa.

Feminismo é uma ferramenta ótima que dá a mulher uma escolha. Se depilar ou não, de certa forma ou de outra, estudar ou não, casar ou não, parir ou não, trabalhar ou não, nisso ou naquilo.

O que é absurdo é forçar o resto do mundo a achar que todas as escolhas são lindas e maravilhosas porque elas não são. E são, mas não para todo mundo e do mesmo modo e intensidade.

Quando uma moça é estuprada e vem alguém e diz que se a vítima estivesse na igreja rezando não teria acontecido me dá um dó danado da pessoa e depois eu me pego num debate interno querendo descobrir se é ignorância ou só falta de caráter mesmo.

Está aí a internet ao molho de notícia de pastor evangélico que cobra para permitir que as fiéis lhe façam boquetes em seu pau ungido e para resolver o problema do “cospe ou engole” ainda dizem que é sêmen que funciona como escritura de vaga no céu, em nome de Jesus, claro. A vida se encarrega de mostrar a verdade.

Sempre existiu gente que não sabe lidar com o novo, com o diferente, que tem medo e que por isso destrata. Não acredito em uma sociedade sem gente com esse tipo de retardo.

O que se deve fazer é entender que se é mais que o mamilo, mais que o seio, mais que seu shortinho, que a culpa não é sua, não interessa se a sua calcinha fio dental aparece por cima daquele shortinho com 6 cm de comprimento do cós à barra e você voltava do baile funk 3h da manhã numa rua escura, se é estuprada é por que tem gente doente no mundo e as políticas públicas nesse setor andam sempre capengas.

E é melhor e mais eficaz brigar por políticas públicas que funcionem que se deixar levar por respostas de sites machistas. Você se aborrece, tem câncer, tem úlcera de ódio e não resolve a estupidez humana.

Há pessoas que só aprendem quando passam na pele. Esse tipo de gente que diz um absurdo desse tipo só vai aprender quando for na casa deles. Não se deixe coisificar porque você não é uma coisa. Só por isso. É muito mais fácil você mudar como reage do que evitar que o resto do mundo pare de agir do jeito que age.

Salários iguais me parece um tema melhor para debate e possui um efeito mais direto que o Testosterona. Não adianta querer tirar do ar, é que nem cabelo branco que você arranca um e nasce oito no lugar. Você pinta e ele desbota e cresce. A nossa luta tem que ser melhor que isso. Tem que ter mais consistência.

Você sai na rua com a perna peluda e recebe olhares de reprovação? Vai ter quem olhe e quem reprove, quem não ligue e quem ache bonito. Tem gente pra todo gosto. Tenho certeza que você também tem pensamentos impuros, imagina assassinatos perfeitos, como todo o resto do mundo. O pensamento ainda é livre.

O mundo sempre vai ser um lugar horrível. Sempre. Se não tiver uma consciência feminina disposta a se dar valor e a não tratar a questão dos próprios ovários como trata briga de namorado, nunca vai passar desse movimento de ódio e debates sobre mamilos e depilação.

É muito mais eficaz criar um site que fale o que se deve fazer do que ficar com notinha contra site masculino estereotipado. Isso no máximo dá audiência pra eles.

Acredito mesmo que a voz deveria ser mais prática. Claro que todos esses assuntos precisam ser debatidos, mas não vamos esquecer que, infelizmente, não dá pra erradicar a estupidez.

Mas dá pra ter um movimento mais relevante que os pentelhos da Nanda Costa e um site cuja única preocupação é porn e não respeita nem rede social cheia de criança num mundo que tá cheio de Xvideos.

Ser uma mulher masculina também não fere meu lado feminino. Somos todos masculino e feminino.

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Texto de autoria de Anna Ingrid, originalmente publicado aqui.

Crédito das imagens: Pedreiro Online, reproduções.


 

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