Gabriel, autointitulado “O Pensador”, pode até ser considerado um rapper brilhante com todas as suas letras repletas de críticas sociais consistentes, mas certamente não é um feminista convicto. Em sua música “Lôraburra”, inclusive, é obrigado a se defender: “Não, eu não sou machista, exigente, talvez…”, e suas críticas a alguns comportamentos femininos são retomadas em outra canção “Nádegas a Declarar”, sempre guardando certo ranço do patriarcado entre seus versos implacáveis com as mulheres.

Contudo, outro dia, ouvindo novamente a discografia do cantor, me chamou a atenção o fato dele ter gravado a música “Ai Que Saudades De Amélia” com o grupo Fundo de Quintal. Dá o play aí pra ir ouvindo enquanto continua lendo:

Comecei a prestar atenção no “Hino da Mulher Perfeita” com a má-intenção acusatória de uma feminista no Twitter, já trazendo à tona todo o peso histórico que tal canção possui no imaginário popular. E qual não foi minha surpresa quando descobri, perplexo, que todo o mito construído ao redor da personagem não encontra qualquer respaldo na letra de Ataulfo Alves e Mário Lago.

O samba-canção foi escrito em 1942, época em que a sociedade atravessava importantes transformações no contexto sócio-cultural em todo o mundo. Na medida em que se consolidava o modelo urbano-industrial, percebia-se os primeiros momentos de transgressão ao paradigma da submissão feminina à estrutura patriarcal.

Pela primeira vez na história, começava-se a admitir a (remota) possibilidade da mulher não servir apenas para atividades domésticas e fins reprodutivos, e obviamente esta nova configuração do sexo feminino no contexto familiar enfrentou desde essa época alguma resistência.

A letra da música trata do desabafo de um homem para quem se compreende ser sua atual companheira, sobre as virtudes incomparáveis de sua ex-mulher, Amélia, possivelmente falecida – já que à época os divórcios não eram tão comuns. Um desabafo deveras depreciativo para a pobre interlocutora que “só pensa em luxo e riqueza”, diga-se de passagem. Mas o fato é que a preferência do “eu lírico” pelos traços de personalidade da antiga companheira em detrimento da atual ilustrava convenientemente a figura do machista inconformado com a insurgência da mulher moderna, num processo que perdura ao longo das décadas.

A fama da Amélia homenageada no samba excedeu a dimensão da excelente dona-de-casa (que já era uma fantasia interpretativa, já que a musa descrita não encosta em um utensílio doméstico sequer durante o texto) para adjetivos menos honrosos como “submissa”, “trouxa”, “corna”, ícone de uma sociedade machista, uma civilização machista. Nas atuais e democráticas circunstâncias ninguém poderia em sã consciência (isso excluiu os comentaristas de portais) render graças a alguém que aceita de bom grado uma situação de abuso de poder evidente.

A cantora Pitty encarregou-se de atualizar o contexto da relação em sua música “Desconstruindo Amélia”:

Mas será que a letra do samba original diz realmente isso tudo sobre a personagem-título ou a interpretação do senso comum foi além das intenções dos versos?

Para tentar elucidar a questão, vamos analisar “Ai Que Saudades de Amélia”, por partes:

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê você quer
Ai meu Deus que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Nas duas primeiras estrofes, dirigidas diretamente à atual parceira do narrador, percebe-se um enunciado de críticas à personalidade da mulher, que faz muitas exigências, e age inconsequentemente, aparentando ignorar as circunstâncias financeiras do parceiro e o orçamento familiar.

Conclusão: Não existe aqui alvo mais atingido pelas críticas dos autores do que o consumismo desenfreado da sociedade capitalista contemporânea.

 

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia “meu filho o que se há de fazer”

Na terceira estrofe, referindo-se às características de seu amor do passado, Amélia, o narrador conta um pouco de sua própria história, contextualizando suas condições sociais insatisfatórias. Não está escrito em lugar nenhum que Amélia passava fome ao lado do companheiro por ser subserviente ou masoquista. Uma interpretação mais pura poderia considerar a hipótese da mulher ser solidária, afinal de contas. E quer prova maior de que ela, sim, sabe o que é consciência? Somente uma alma muito nobre e iluminada é capaz de encontrar beleza na miséria.

Conclusão: Sua resignação não advém de qualquer relação de submissão, pelo contrário, a mulher se coloca em posição de superioridade e se encarrega de, em tom maternal, aquietar as angústias do parceiro perante as injustiças da vida.

 

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

A última estrofe enterra qualquer possibilidade de dúvida sobre a crítica central da obra. Não adianta espernear: por mais que o cérebro humano trabalhe com este tipo de associações convenientes e interpretações extensivas, não há uma letra sequer na canção que negue a possibilidade de Amélia ter sido uma mulher politizada e engajada na causa feminista, enquanto a atual não passa de uma marionete do sistema capitalista.

Conclusão: Amélia não tinha a menor vaidade porque não precisava se submeter aos padrões de beleza impostos pelo patriarcado, exatamente como as feministas atuais que condenam a depilação e a chapinha.

Obviamente eu não sou nenhum especialista em nenhum dos temas aqui abordados e pode ser que tudo isso não passe de uma viagem psicotrópica, mas em última análise nosso exercício cognitivo pode servir pra ilustrar como estamos sempre envolvendo nossos próprios preconceitos na interpretação de uma mensagem.

Na versão defendida pelos autores o samba seria originalmente uma singela homenagem à saudosa dona Amélia dos Santos, lavadeira da cantora Aracy de Almeida e famosa por ser extremamente competente em diversas funções do serviço doméstico. Uma ode legítima ao proletariado.

Conclusão: Amélia pode muito bem ter sido feminista, mas certamente não era sindicalizada.

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Dedicado à Maria Amélia, meu eterno amor.


 

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Sobre o autor

Ivo Neuman
Fundador

Fundador do TRETA e consultor de ginástica laboral do Não Salvo.