Dia primeiro de maio foi o dia internacional do trabalhador. Para quem não sabe essa data foi escolhida como símbolo da luta dos trabalhadores a partir de uma manifestação que ocorreu na cidade de Chicago nos Estados Unidos em 1886 com o objetivo de reivindicar a diminuição da jornada de trabalho para 8 horas diárias. Três anos depois um grupo sindicalista francês resolveu decretar anualmente manifestações em prol dos trabalhadores em Paris, usando essa data como símbolo e apoio aos manifestantes de Chicago. Pelo que pesquisei brevemente essa é a origem do feriado, que depois de muitas bombas de gás lacrimogênio, mortes e confrontos com policiais de diferentes países (sim, aquela velha atual história que conhecemos bem) marcaram essa data como o dia que simboliza internacionalmente a luta pelos direitos trabalhistas.

Primeiro de maio de 2015 no Brasil foi feriadão (oba!) Isso porque nosso querido país, assim como a França, Espanha e Rússia, resolveu declarar essa data um dia de folga, para que sempre nesse dia o trabalhador brasileiro ficasse tranquilão em casa, de pernas para o ar, celebrando a sua luta. No entanto, o que me preocupa especificamente nessa data é que enquanto ficamos de boa curtindo nosso feriadão, um projeto de lei segue a passos silenciosos para ser aprovado pelo senado.

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Para atualizar quem está por fora disso, vale lembrar que na quarta-feira (22 de abril) o texto que propõe o projeto de lei 4.330, que regulamenta a terceirização das empresas não só apenas para atividade-meio mas também para atividade-fim, foi aprovado pela câmara dos deputados com permissão total para terceirizar qualquer atividade e sem nenhuma alteração do texto inicial, que pelo que eu entendi não continha muitas restrições e regras claras sobre o jogo. Assim como o texto do projeto, as consequências desse projeto também não estão claras e mensuráveis, caso o senado aprove e a Dilma não vete.

Existem diversos estudos que comprovam que a terceirização gera uma precarização dos trabalhos, um exemplo é o estudo do DIEESE (2009), realizado com 40 empresas de diversos ramos econômicos e instaladas na região sudeste do país, que revelou que em 67,5% das empresas os níveis salariais nas subcontratadas eram bem inferiores aos da empresa contratante. Em 72,5% dos casos os benefícios sociais eram também menores que os praticados pelas contratantes. Além disso, em 32% das empresas, a terceirização estava associada à ausência de equipamentos de proteção individual, menor segurança e maior insalubridade. Outro exemplo dos resultados da terceirização é o Relatório de Estatísticas de Acidentes do Setor Elétrico Brasileiro, produzido pela Fundação Comitê de Gestão Empresarial (COGE), que verificou que os trabalhadores terceirizados morrem 3,4 vezes mais do que os efetivos nas distribuidoras pesquisadas.

Se para alguns advogados e especialistas o projeto de terceirização é uma oportunidade para resolver a precarizarização dos trabalhos terceirizados, para outros o projeto irá aumentar a precarização dos trabalhadores do país. A figura abaixo é de uma matéria que o Estadão publicou explicando um pouco a situação atual dos trabalhadores terceirizados no Brasil hoje.

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O que significa esse projeto de lei na prática para a precarização do trabalho na sociedade brasileira? Não sei, não faço a menor idéia. Mas quero compartilhar alguns questionamentos que andam passando pela minha cabeça nos últimos dias sobre a possibilidade desse projeto ser aprovado. Quais serão os reflexos emocionais em uma sociedade que possui um grande número de trabalhadores terceirizados? Quais os impactos dos sentimentos desses trabalhadores no seu dia a dia e convívio social? E quais os impactos nas habilidades emocionais desses trabalhadores sobre a produtividade da nossa sociedade?

Dos 7 anos que trabalhei em empresas multinacionais, 3 deles foram como terceirizada, e embora nas duas experiências que eu pude vivenciar esse tipo de contrato não existisse diferenciação em relação a forma e local de trabalho dos outros colegas que eram efetivamente funcionários, existia para mim um impacto emocional sobre aquele tipo de relação trabalhista: um sentimento vazio de falta de identidade e não pertencimento aquele grupo. Aos poucos esse sentimento foi impactando as minhas motivações e competências emocionais, e além de não me sentir pertencente aquele grupo de trabalho, eu já não me sentia pertencente a mim mesma. Mas como naquela época eu estava também em um processo de desconstrução pessoal acredito que esses sentimentos tenham se misturado.

Hoje como eu trabalho como pesquisadora, traficando informações de comportamentos sociais e de consumo, resolvi terceirizar esse texto e colocar não os meus sentimentos mas os sentimentos de algumas pessoas que conversei pelas ruas de São Paulo, que trabalham ou trabalharam de alguma forma nesse tipo de relação trabalhista.

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Entre algumas pessoas entrevistadas em campo, conversei com uma mulher de 29 anos que trabalhava como gerente em uma rede de supermercados. Ela não era terceirizada mas gerenciava uma equipe terceira. A sensação que ela tinha era de que o seu trabalho de gerenciar essa equipe era exaustivo: “é cansativo gerenciar uma equipe terceirizada, ao mesmo tempo que eles tem que realizar os trabalhos que eu peço, eles não se sentem parte da empresa, utilizam outro uniforme e se sentem desanimados pois não possuem uma visão de crescimento profissional e não se sentem parte do grupo. A rotatividade é muito grande nas equipes terceirizadas, e isso gera bem mais trabalho pra mim”.

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Para outra mulher de 49 anos, que possuía familiares que trabalhavam como terceiro, a terceirização era uma forma de objetificar o trabalhador: “as pessoas se sentem como objetos, não importa quem é a pessoa que está ali, e se ela estiver ruim é só trocar e colocar outra, é uma relação fria que só é benéfica para as empresas ganharem mais”.

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Conversei também com um homem de 38 anos que trabalha como terceiro em uma empresa de telecomunicação, e que explicou que o sentimento dele é de como ser um filho adotivo de uma família que não dá os mesmos direitos e a mesma atenção do que dá para os outros filhos legítimos, ao mesmo tempo em que seus pais verdadeiros também não estão presentes.

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Para outro homem de 36 anos que também trabalhava em uma empresa de telecomunicação, a pior parte era lidar com a diferenciação que as próprias pessoas da empresa tinham com ele: “meu salário é bom, não é ruim, mas você conviver em um ambiente onde você sabe que a pessoa do lado ganha 3 vezes mais benefícios que você, mas que trabalha tanto quanto você e você perceber que ela te trata e te olha diferente por você ser terceirizado é muito ruim, é terrível…mas não tem o que fazer”.

O bate-papo com esse homem fez eu lembrar de uma citação feita pela professora Maria da Graça Druck, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, no qual ela destaca: “Estas condições de gestão das empresas subcontratadas impõem uma cultura do trabalho bastante especial e singular. Trata-se de trabalhadores inferiores, em condições de trabalho inferiores, que recebem um tratamento diferenciado e que convivem e trabalham com outros trabalhadores de estatuto superior, em condições de trabalho superiores, incluídos nos quadros da empresa, em cuja planta a imensa maioria trabalha, já que 94% das empresas declararam realizar suas atividades no sítio da contratante. Em muitos casos, o trabalho realizado pelo empregado subcontratado é o mesmo do empregado contratado na empresa, principalmente nas atividades de manutenção. Esses empregados trabalham lado a lado, realizando as mesmas tarefas e, entretanto, portam estatutos diferentes: são os de primeira e os segunda categoria”.

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Conversei também com uma senhora de 55 anos que disse ter trabalhado anos como como terceirizada: “olha, eu trabalhei por muitos anos como terceirizada, e isso faz bastante tempo. Na época eu lembro que eu não aguentava mais aquela sensação de não ser nem de uma e nem de outra empresa, e ao mesmo tempo ganhando muito pouco… na primeira oportunidade que eu tive eu resolvi ir pra luta, peguei um dinheirinho que tava guardado e fui pra luta, abri um trailer de comida e hoje eu já tenho dois trailers e vou te falar que eu sou muito mais feliz”.

Durante a conversa com essa senhora, coincidentemente outra mulher de 28 anos, ouviu nosso papo e falou: “eu sou terceirizada hoje e estou guardando dinheiro e fazendo curso com a minha cunhada de como fazer bolos e cup cakes. Eu vou fazer que nem a senhora, vou pra luta também porque é humilhante você trabalhar em um lugar onde você não tem gerente, não é ouvida pelos outros, e de vez em quando alguém passa e te comprimenta por educação, mas no fundo nem te enxerga como parte da empresa, você é como se fosse invisível…e pode tirar uma foto minha que eu vou pra luta e não tenho problema nenhum de mostrar a minha cara e dizer o que eu acho”.

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Um dos pontos que essa entrevistada trouxe, e que me deixou bastante instigada, foi o fato do quanto que essa situação estava fazendo mal emocionalmente para ela: “nossa, tem dias que eu chego em casa mal, brigo com todo mundo, e no fundo eu sei que é nervosismo disso”.

Depois de conversar com diferentes pessoas que possuíam diferentes relações de trabalho com a terceirização, ler alguns artigos e dados de pesquisa sobre o assunto, eu me pergunto: será que conseguimos mensurar o impacto emocional que esse projeto de lei, se for aprovado, pode causar na sociedade? Se por um lado esse projeto pode a longo prazo estimular muitos trabalhadores a buscarem seu pertencimento e identidade profissional empreendendo seu próprio negócio, por outro lado aumentará também a porcentagem de pessoas emocionalmente impactadas. A terceirização dentro das empresas é mais uma afirmação e um reflexo da desigualdade que é característica forte do Brasil: cada vez teremos um menor número de pessoas detendo bons salários e benefícios, e cada vez um número maior de trabalhadores com menos salários e benefícios. Poucos com muito, muitos com pouco. Bem Brasil né?

Se o bater das asas de uma borboleta em Nova York pode causar um furacão no Japão, fico pensando no furacão que esse projeto pode causar para a sociedade pois ter uma sociedade com mais trabalhadores que não se sentem pertencentes aos seus trabalhos, é ter uma sociedade mais desconectada, sem identidade e não pertencente a si mesma.

E se continuarmos pensando no efeito cascata disso tudo, lembro de uma frase que uma diretora de uma escola pública me falou certa vez em uma entrevista: “eu tenho feito palestras para pais aqui na escola para mostrar a importância deles olharem para os seus filhos quando chegam em casa, perguntarem como eles estão, se interessarem genuinamente pela vida do filho mesmo que o dia de trabalho tenha sido cansativo, desanimador e cheio de problemas, como eles costumam se justificar..eu tenho dito pra eles que o que as escolas mais tem hoje são filhos orfãos de pais vivos.”

Texto originalmente publicado em:
http://ingsss.com/2015/05/04/sentimentos-terceirizados/

Fontes:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/04/1618842-pl-da-terceirizacao-cria-carcacas-de-empresas-afirma-juiza-do-trabalho.shtml
http://economia.estadao.com.br/blogs/descomplicador/entenda-a-lei-que-regulamenta-a-terceirizacao-no-pais/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_do_Trabalhador
http://www.suapesquisa.com/datascomemorativas/dia_do_trabalho.htm
http://www.toxnet.com.br/download/ataque-miranda.doc

Pesquisa de Campo realizada nos dias 23 e 24 de abril. Média de 25 entrevistados entre Paulista, República e Sé.


 

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Sobre o autor

Majda Asad
Autora

Pesquisadora dos sentimentos do mundo e especialista em temperos árabes