A gente evita começar mais um editorial emotivo com choramingos, mas como bem sabe o amigo Bobolhando, o ofício blogueiro é invariavelmente árduo e usualmente inglório. Qualquer migalha de sucesso obtida por uma publicação independente custa umas boas horas de labuta diária por um período que instituições financeiras definiriam como “longo prazo”. Obviamente não se poderia esperar que fosse diferente. Em quase duas décadas de internet já assistimos algumas bolhas estourarem e as lições são sempre claras sobre competência, dedicação e sorte.

Como fazemos parte de um mercado superlativamente dinâmico, em que os recursos circulam de forma experimental e errante, precisamos reinventar o ofício blogueiro a todo momento, dançando conforme a música da grande rede. Nosso grande desafio aqui no TRETA sempre foi tentar impedir que tais transformações tecnológicas não afetassem a essência da nossa missão editorial subversiva. E talvez justamente por não cedermos ao neomoralismo patológico ocasionado colateralmente pelo debate democrático, conseguimos conquistar a atenção e a fidelidade de alguns milhares de leitores.

Por isso fico tão feliz quando alguém rompe a barreira do estranhamento e deixa um comentário, manda um email, ou me aborda no Twitter, Facebook ou até pessoalmente pra dizer que se identifica e acompanha o blog, que curte a putaria, dorgas, vida loka, mas também se amarra nas postagens mais sérias, de cunho cultural ou político.

E absolutamente mais incrível ainda é descobrir que a nossa singela “obra” serviu como objeto de estudo para um excelente trabalho – “Blogs de entretenimento: um estudo exploratório da circulação e legitimação”tese dissertação de mestrado de Ana Carolina Silva Biscalchin dentro do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da USP.

O trabalho pode ser baixado em PDF na íntegra, mas transcrevemos abaixo o item “4.2” (hmmm….), dedicado a uma análise atenta do nosso blog e de uma de nossas maiores contribuições para a blogosfera: a campanha “Usura Não!”.

4.2 DESCRIÇÃO E HISTÓRICO DO BLOG TRETA.COM.BR

O Treta.com.br, conhecido como Treta, foi criado em 26 de novembro de 2005 e seu criador, o blogueiro que atende pelo pseudônimo de Ivo Neuman, relatou que na época os principais sites do gênero eram o Kibe Loco, Cocadaboa e Jacaré Banguela, e que serviram de inspiração. Um site com formato de blog, ou seja, apesar de estar hospedado como site, possui caraterísticas próprias do formato blog, como ordem cronológica inversa, home, blogroll e permalinks. A Figura 1 ilustra a página inicial do site, na qual se pode observar o formato blog por conter data de entrada no inicio da postagem, no canto esquerdo ficam os botões de compartilhamento e a rolagem da tela permite visualizar o blogroll e as seções (tags, marcadores) das postagens.


Figura 1: Visualização da página inicial do Blog Treta

No topo da página, podem ser vistos os links dos blogs pertencentes ao Portal Não Salvo, ao qual o Treta faz parte desde 2011. Logo abaixo, o mascote do site, a face de uma tomada, e no lado direito os títulos das páginas: Home, onde estão as mais recentes atualizações; FAQ (Frequently Asked Questions) seção dedicada a responder perguntas frequentes; Expediente, no qual encontra-se uma foto e a descrição do perfil de cada integrante da equipe; Anuncie é um link para um release em números e modos de atuação para veiculação de publicidade e Contato com formulário de envio de mensagem para a equipe.

A seguir a descrição das intenções encontrada no próprio blog:

com o intuito de reunir o melhor do conteúdo irreverente que circula na internet sob a forma de um blog (site com atualizações diárias na capa). Tendo a originalidade e a polêmica como conceitos-chave, levamos aos nossos leitores um bocado de conteúdo relevante e outro tanto de assuntos meramente cômicos, na forma de notícias, fotos, imagens, passatempos, artigos, arquivos para download, vídeos e montagens de humor, sempre sob uma linguagem leve e descontraída – como pensamos que deve ser o dinâmico entretenimento virtual. [grifo nosso] (TRETA, 2012).

O autor do site afirma que o título “Treta”, ao contrário do que muitos pensam, não se origina do sinônimo confusão, mas de uma sigla que ele encontrou na internet, referente à Texas Real Estate Teachers Association, uma associação de professores do Estado do Texas, nos Estados Unidos. Desde o início do blog as atualizações são diárias e hoje já conta com mais 5.200 artigos publicados, e apesar de uma interrupção nas atualizações em 2006, em 2007 volta com vigor e produz em média três postagens por dia.

As tarefas diárias do blog englobam a produção de postagens, vídeos, imagens, revisão, curadoria das informações que chegam pelos canais com o público, divulgação via sites de redes sociais, atendimento às agências de publicidade, entre outras. A divulgação do Treta é feita nos de sites de redes sociais como o Twitter, o Facebook e Orkut, e também pelo estabelecimento de parcerias com outros blogs, trocas de links, banners e promoções.

Desde 2011, o criador do blog recebeu uma proposta de trabalho e passou a integrar a equipe do blog Não Salvo, com essa nova etapa o Treta passou a integrar um portal com 19 blogs que são alimentados pela equipe e parceiros. De acordo com Ivo Neuman, pela época de fundação e proporções alcançadas, o blog possui “certas semelhanças com o Sedentário & Hiperativo, Chongas e Omedi, uma geração logo acima de Bobagento, Haznos e Não Salvo, por exemplo”. As gerações a que ele se refere são temporais, como “safras” de bons blogs que surgiram e se consolidaram na blogosfera.

Tratando de variados assuntos, o Treta, utiliza categorias ou seções para agrupar alguns temas, como podem ser vistas na Figura 2 as categorias podem ser acessadas pelo menu da coluna esquerda do blog além de mais duas categorias, “Genéricos”, na qual estão agrupados todos os temas que não se enquadraram nas categorias elencadas, e “Promoções”.


Figura 2: Categorias de postagens do Blog

Em números apresentados no blog e referentes ao primeiro trimestre de 2012, o Treta se apresenta com uma média diária de 48.709 visitas únicas e com 2.201.317 de exibições na média mensal contadas via Google Analytics. Índice 5 no PageRank do Google, aproximadamente 12.500 assinantes de RSS, 16.500 seguidores no Twitter e 26.000 “curtiram” e 43.000 comentaram via Facebook.

A retomada das atividades do blog em 2007 é marcada por dois acontecimentos, o lançamento do “Super Treta Blogs” e da Campanha “Usura Não!”, ambos interligados. O “Super Treta Blogs” é uma paródia com blogs do famoso jogo Super Trunfo distribuído no Brasil pela empresa Grow, que consiste em tomar todas as cartas em jogo dos outros participantes por meio de escolhas de características de cada carta, cada característica tem uma pontuação, a maior pontuação é a vencedora da rodada. No “Super Treta Blogs” a estratégia é a mesma, mas as características escolhidas para representar cada blog são pontos relativos à blogosfera, como número de assinantes de RSS, seguidores no Twitter, notas para o layout, para os textos, influência, originalidade e monetização, esses números são característicos da visibilidade e potencial comercial de cada blog, são os números que os situam dentro da blogosfera como mais ou menos populares, relevantes, visíveis.

A brincadeira continha uma página com as cartas que podiam ser impressas e recortadas, assim como, uma carta em branco que podia ser editada para que os usuários criassem seus jogos personalizados. O debate estava aberto, blogs insatisfeitos com suas pontuações e desmentindo  algumas  atribuições  de  pontuação, querendo retratação ou desqualificando a ação (alguns por não estarem elencados como parte da blogosfera),  fizeram repercutir a brincadeira e aumentar consideravelmente o número de acessos ao blog.

4.2.1  A campanha Usura Não!

A campanha teve início no final de 2007 e tinha como objetivo mobilizar os blogueiros a usar um link como forma de citação ou referência da fonte da informação veiculada na postagem. O link também poderia ser um endereço para a publicação original, ou servir como uma menção de crédito ao autor da ideia, oferecendo um link para o blog do autor como forma de dar visibilidade.

A explicação inclui uma crítica aos sites de grandes portais que se negam a referenciar e utilizam termos gerais na redação:

O caso dos grandes editoriais online é clássico. Seguindo a velha prática do jornalismo mão-de-vaca terceiro-mundista, os grandes portais têm o péssimo hábito de publicar matérias envolvendo ocasiões em que um simples link soaria adequado, eficiente e esclarecedor. Mas não. Como se abrir um tag “a href” fosse pecado mortal nas redações profissionais, na maioria das vezes as notícias desses jornais virtuais preferem omitir a referência,  mencionando  apenas  “um  site”  ou  “um  famoso  blog  da internet” – reparem no uso indiscriminado do artigo indefinido.

Ainda mais deprimente é ver um autêntico blogueiro, alguém que nasceu na várzea do Blogspot e conhece muito bem a relevância de um link recebido, amarrando miséria na hora de fazer referência ao trabalho alheio. (TRETA, 2008)

Traduzindo do internetês, “abrir  um  tag  ‘a  href'” se refere ao procedimento técnico para atribuir um link e um blogueiro que “nasceu na várzea do Blogspot“, é uma referência à hospedagem oferecida pelo serviço Blogger que dá ao blog o endereço “nomedoblog.blogspot.br”. Aqui se configura uma chamada à consciência coletiva que os blogueiros compartilham, “nascer blogspot” e se tornar um blog de sucesso é uma tarefa que inclui a troca de links para gerar visibilidade.

Os demais blogs que aderiram à campanha o fizeram de acordo com o convite e utilizando uma estratégia muito comum entre blogs, utilizando o “selo” da campanha, um banner disponibilizado para ser copiado e colado em seu blog. Uma busca por imagens no Google mostrou aproximadamente 437 resultados de páginas na internet brasileira que contém esta imagem. A dimensão alcançada com a campanha não pode ser exemplificada em números exatos, mas sua repercussão pode ser verificada pelo termo inventado pela  campanha: “kibar” como sinônimo de plágio. São aproximadamente 1.840 resultados de pesquisa no Google para a associação dos termos “kibar”+”plágio” em páginas em português. Os primeiros resultados são, principalmente, artigos escritos pela blogosfera que explicam o significado do verbo que nasceu da associação ao ato praticado pelo Kibe Loco.

É preciso ressaltar que não se solicita na campanha que não se copie o conteúdo, de outro blog ou site. Essa atitude é naturalizada conforme a citação a seguir:

Na  grande  caixa  de  reverberação  de  conteúdo  que  se  tornou  a blogosfera de resultados dos dias atuais, é comum vermos assuntos do momento  (os  famosos  hypes)  ou  mesmo  postagens  inteiras  se replicarem como clones nos mais variados blogs. A gente aqui do TRETA mesmo tá cansado de fazer isso. Se a ideia é boa o suficiente pra não morrer  em  um  único  site,  torna-se  conveniente  e  necessário  dar repercussão ao tema publicando uma nota curta ou até desenvolvendo o assunto com conteúdo derivado. A blogosfera se alimenta dessa política de escambo editorial. (“Usura Não!”, 2008)

O  que se objetiva é que o conteúdo seja seguido de uma referenciação que deixe claro que não foi criado pelo blogueiro que o postou.

Na construção dos links o texto ou a figura que irá acionar o link não precisa ser o endereço, ela aciona o endereço, portanto, é comum observar um nome, um termo ou uma chamada com características de destaque que a distinguem do restante do texto e que simbolizam o link, o destaque mais praticado e comum na web é o sublinhado  azul.

Durante a pesquisa foram identificadas diferentes práticas de citação na blogosfera, algumas delas mais presentes em blogs de entretenimento são: a) citar quem deu a ideia: o blog/site ou o nome do autor; b) a contribuição: quem traduziu, editou ou montou a imagem, vídeo ou material publicado; c) a fonte: remetendo ao blog, site ou instituição como um todo; d) a postagem: uma cópia integral de uma postagem de outro endereço; e) a referência: a postagem que está sendo contestada e/ou debatida; f) uma indicação de boa leitura: seria como uma gentileza do blogueiro para dar visibilidade a outro blog, que não tem ligação direta com a postagem; g) coletivo de links: geralmente usados em uma  publicação semanal, são links escolhidos pelos blogueiros que podem seguir ou não uma temática, funcionam como listas de indicações para outros blogs com conteúdos interessantes.

A campanha conclama os blogs a usar o link como forma de dar visibilidade aos criadores dos conteúdos originais, mesmo que a apropriação tenha gerado um outro produto, um link é uma tarefa a ser cumprida como parte de um compromisso com o bom funcionamento e a manutenção da blogosfera.

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Confira a íntegra do trabalho de Ana Carolina Silva Biscalchin:
“Blogs de entretenimento: um estudo exploratório da circulação e legitimação”


 

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