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Eu estava devendo esse texto, principalmente pra mim mesmo. Assim como aprendi que as mulheres falam tanto porque é colocando pra fora que conseguem desenvolver uma linha de raciocínio, sempre busquei compartilhar por escrito aqui no blog as minhas experiências mais significativas, principalmente de olho no egoístico propósito de com isso estabelecer um balanço mais aprofundado e completo da situação.

Eu havia me prometido escrever sobre as mudanças profundas que permiti tomarem de assalto o meu destino tão logo eu completasse um ano morando em São Paulo; do alto de uma insistente ingenuidade, acreditei que 365 dias de pauliceia desvairada seriam suficientes para concluir qualquer coisa – e como não são, apresento-lhes o resultado parcial de um trabalho em andamento (talvez apenas ligeiramente congestionado na marginal).

Como tantas outras coisas muito mais importantes na minha vida, este meu anuário de bordo foi guardado na gaveta das procrastinações inevitáveis, um canto obscuro e empoeirado da minha lista de prioridades onde deixo repousar ideias que precisam ser amadurecidas – e onde eventualmente flerto com a vontade de devorá-las, ainda verdes.

E mesmo titubeante, cá estou eu, falando de tons de cinza não necessariamente eróticos.

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Este um ano passou, frenético como não poderia deixar de ser na terceira maior cidade do mundo, e levou junto, num piscar de olhos, mais um bimestre. Portanto, se eu pudesse começar a minha resenha turístico-existencial com a metáfora mais cretina possível, compararia viver em São Paulo com a onda da metanfetamina, ou alguma outra droga sintética (da boa): o tempo passa voando, as tarefas mais simples exigem atenção e coordenação extremas para serem realizadas em tempo hábil, o corpo se tensiona (e se liberta em espasmos), os olhos vidram, a boca seca, e fatalmente alguma coisa acontece no coração. Em quaisquer dessas esquinas rabiscadas.

A despeito do que se poderia esperar de um relato como esse, contudo, não vou enchê-los com pedantes testemunhos de gloriosas aventuras pela noite ensandecida da cidade, informações não-solicitadas sobre pontos turísticos, monumentos históricos e roteiros gastronômicos. Até porque devo confessar que vivi mais aventuras no corredor de casa que na Avenida Paulista. Aliás, sinceramente, como tudo que presenciei por aqui o fiz de certa forma distraído ou embriagado, não me sinto capacitado sequer para deixar alguma dica de point imperdível ou lugarzinho secreto escondido nas ruas da cidade – e em tempos de Foursquare nem mesmo acho que eu poderia ser mais desbravador que seus 738 amigos.

Também me abstenho de redigir uma crônica metereológica falando sobre como um carioca naturalizado capixaba enfrenta o frio catatônico da terra da garoa (um inverno de três estações, um verão primaveril e a amplitude térmica de um São Pedro diariamente bipolar). No máximo poderia dizer que nesse ponto a atmosfera paulistana me ensinou a jamais sair de casa sem levar equipamento de montanhismo (ou pelo menos um moletom com capuz), a dormir e cagar vestido (requer prática) e, principalmente, a comprar uma variedade de camisas, casacos e agasalhos que possam ser sobrepostos – sem parecer um baiano perdido em Nova Iorque. Felizmente, entre o preto e o branco existem muitos tons.

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Definitivamente, o tema principal de qualquer avaliação que eu poderia me atrever a preencher sobre esta cidade maravilhosa (OH WAIT!) e este belo estado bandeirante só poderia ser um: pessoas. Físicas ou jurídicas, de todas as naturezas, formas e procedências, são as pessoas e seus recursos humanos que fazem valer a pena os mil quilômetros que separam minha querida Vila Velha do abençoado Butantã (atravessando minha pátria amada carioca), e se bobear fazem valer até as 18 multas que acumulei em 14 meses, entre pecados de rodízio, excesso de velocidade e até umas duas ou três por furar sinais vermelhos de madrugada (Onde já se viu? Que país é esse?!!).

Tais pessoas, antigos ídolos com quem agora tenho a honra de trabalhar e conviver, e novas conexões que expandiram minha rede ao infinito, despertaram em mim uma devota gratidão a esta metrópole, que me permite trabalhar profissionalmente com o que efetivamente gosto de fazer, enquanto percorro uma escadaria cada vez mais sólida – e rolante – rumo aos meus ulteriores escopos de plenitude.

As pessoas daqui são todas pequeninos personagens engolidos pela assombrosa imponência da cidade cinza sob o céu cinzento. Talvez por isso dificilmente você consiga que uma delas converse olhando diretamente nos seus olhos. São tantos elementos disputando atenção o tempo todo que quase sempre os atos de singela humanidade passam desapercebidos. Mas não à prova de contemplação.

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Resumindo esse discurso que tenta dizer o indizível, posso tentar sintetizar em definitivo o que me impressiona e me emociona de verdade na selva de pedra. Mais que a imobilidade angustiante das 12 horas de rush em qualquer via da cidade. Mais que a constante sensação de progresso pulsante que emana das ruas agitadas desde as 4h20 de qualquer manhã. Mais que a estranha comodidade de estar no epicentro da urbanidade do meu país, buscando o que buscam tantos outros caipiras migrados. O que me comove mais profundamente nessa Babilônia de aba reta é o brilho que salta aos olhos de qualquer um que percebe o quanto São Paulo fica bem perto dos seus sonhos.

Topar diariamente com centenas de outros olhares determinados em suas próprias trajetórias alimenta ainda mais a expectativa de que até as mais ousadas pretensões pessoais possam se cumprir naturalmente.

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E quando a saudade das pessoas que ficaram distantes começa a liquidificar os órgãos internos, eu corro pro sol, da forma que ele se apresentar, pra dar uma esquentada nas articulações da alma e deixar essa cidade e seus tons de cinza brilhando eternamente dentro da minha pupila dilatada.


 

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