“Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida!”, daqueles tempos remotos em que eu, inocente, quando perguntado sobre o que queria ser quando crescesse, respondia oscilando entre astronauta, piloto de Fórmula 1 e presidente da República.

Naquela época, eu não fazia a menor idéia do que era a N.A.S.A., só pensava em fincar a bandeirinha brasileira no solo lunar. Era essa a imagem que eu tinha de um astronauta. Nada de Física, cálculos matemáticos, nada de formação militar. Seria só vestir aquelas roupas, andar que nem um jabuti bípede e espetar a Lua com nossa flâmula verde-e-loura-imponente. Não devia ser muito difícil.

Essa mesma bandeirinha eu bem poderia empunhar quando cruzasse a linha de chegada de um Grande Prêmio, chegando em primeiro. Cansei de ver o Senna fazer isso. Todo santo domingo era a mesma história: o nosso herói, com o boné do extinto Banco Nacional e a bandeira brasileira, no lugar mais alto do pódio, tomando banho de champanha. Aquela musiquinha tocando ao fundo e o Galvão Bueno se esgoelando. Que criança nunca sonhou com a Fórmula 1? Pilotar não devia ser assim tão complicado, afinal, se a minha mãe rasgava o asfalto com o nosso Fiat 147, nada me impedia de voar ao volante de um daqueles carrões. Se eu tivesse tido o Rubinho como exemplo, talvez eu me convencesse logo de que automobilismo é coisa para alemães, e pudesse esquecer mais facilmente esse meu sonho.

Outros foram os motivos que me levaram a desejar ser presidente da República. Não devia ser nada mau um cargo disputado à unha pelos políticos mais importantes do Brasil. O verde-e-amarelo, neste caso, viria em forma de faixa presidencial, mas estaria lá. O impeachment de Fernandinho quebrou um pouco o encanto, mas de todos os meus sonhos de infância, este é o único que ainda permanece. Talvez seja uma inocente vontade de mudar o mundo que eu ainda não tenha conseguido eliminar totalmente em mim.

businessman in blue room with doors open

Quando me vi no pré-vestibular, já estava com todos os meus conceitos sobre profissões totalmente dilacerados. Aprendi a levar outros fatores em consideração para fazer minha escolha, como o mercado de trabalho e as possibilidades salariais. Sei que o mundo não é tão fácil quanto fincar uma bandeira na Lua parecia ser. Fazer opção por um curso, decidir a universidade, escolher um caminho a seguir… parece até a “Porta dos Desesperados”, aquele extinto quadro do antigo programa do Sérgio Mallandro, onde atrás da porta que se iria abrir poderia ter um prêmio ou um monstro.

Alguns dizem que a idade com que se encerra o Ensino Médio e se escolhe o curso universitário é muito prematura para que os indivíduos, adolescentes, tomem uma decisão tão relevante para seus próprios futuros. Dizem que ainda não há maturidade suficiente para tal escolha profissional. Eu acredito que, pelo contrário, é muito tarde. Todos deveríamos decidir nossas futuras profissões quando fôssemos crianças, “no despertar da existência”. Talvez assim houvesse mais prêmios do que monstros atrás das portas, e – quem sabe? – o mundo fosse melhor.

 

Texto originalmente escrito e publicado em meu livro de crônicas, no ano 2000, quando eu ainda estava no Segundo Grau e não sabia nada da vida.


 

2 comentários