ATUALIZAÇÃO:
Acabou de sair o episódio do podcast Rebobinando com a minha participação falando sobre raves, festivais e baladas de música eletrônica (ouça aqui), e eu acabei topando com este texto que escrevi em 2009 sobre a minha percepção desse universo, quando foi lançado o primeiro livro sobre as festas brasileiras, três anos antes do lançamento do filme Paraísos Artificiais – que colocou a psicodelia e o consumo de drogas em destaque para apreciação do senso comum.

Aproveitando o ensejo, tem um texto meu sobre o tema que gosto muito, publicado no Papo de Homem em duas partes nessa mesma época. Pra quem quiser se aprofundar no debate sobre a cultura dos eventos de música eletrônica: “Rave, o aumentativo de festa” (parte 1 | parte 2).

 


 

Quando recebi a notícia de que enfim alguém havia tido a perspicácia de escrever um livro inteiro dedicado ao fenômeno popular da música eletrônica no Brasil, senti os pelos da perna roçarem na calça, numa sensação que possivelmente se reproduziu inúmeras vezes diante do jornalista Thomás Chiaverini nos últimos meses.

Durante as pesquisas e investigações que se transformaram no livro “Festa Infinita” (2009, Ediouro, 304 páginas), o jovem autor mergulhou de cabeça num universo que até então lhe parecia absolutamente tosco, provavelmente irrelevante e fatalmente carnavalizado pelo entusiasmo de seus adeptos – jovens elitizados cuja principal fonte de entretenimento é o consumo de substâncias entorpecentes. Partindo desse prisma relativamente alheio ao universo que envolve as festas rave por todo o mundo, Chiaverini começa a desvendar o comportamento de boa parcela dos jovens contemporâneos, tratando de registrar em seu intrépido bloquinho de anotações as impressões instantaneamente trazidas a cada passo adiante em sua jornada psicodélica.

Ao contrário do que poderia esperar a ala conservadora do “movimento” retratado no livro, os fatos e histórias narradas entre dados relevantes sobre a cena trance permitem ao leitor compreender a mais importante questão sobre o assunto: assim como ocorre em qualquer segmento cultural, comportamental, religioso ou filosófico, não é possível pretender generalizar a conduta e o estilo de vida de todos os seus membros sem se incorrer na mais pura distorção da realidade. Cada pessoa é única em sua essência e ainda que reproduza comportamentos de seus pares e opiniões apregoadas no senso comum, segue sendo exclusivamente singular em sua história, sentimentos e proposta existencial.

Mesmo o consumo deliberado e desenfreado de todos os tipos de drogas, lícitas e ilícitas, que me parece ser o ponto mais polêmico de todo o debate, não pode ser encarado como uma simples estatística temerária à Saúde Pública. Conforme o próprio autor pôde descobrir no contato com as raves e seus frequentadores, a postura contrária às proibições e regras que regem o convívio social exige de seus participantes que mantenham uma virtuosa conduta de respeito e solidariedade para com os demais humanos e seu meio ambiente. Seria uma espécie de rebeldia transversa compensacional, digamos assim.

Obviamente, nem todos os evangélicos do culto rogam a deus com o mesmo ardor. Alguns estão ali só para aliviar as tensões de uma vida medíocre, e além disto sempre tem um pastor de sacolinha em riste para recolher a contrapartida pecuniária do pedacinho do Reino oferecido aos fiéis. E nem por isso, a mão divina deixa de operar milagres.

Entre meus amigos e conhecidos, o contato com as substâncias psicotrópicas coincidiu cronologicamente com a fase de amadurecimento que vem na segunda metade da adolescência – e que para alguns pode durar a vida inteira. Graças às circunstâncias globais e às suas particulares condições sociais, essa galera pôde e pode usufruir de eventos cada vez mais destinados a promover a plena comunhão de toda forma de prazer ilícita e promíscua, na mais completa ignorância das leis físicas, biológicas e jurídicas.

Para alguém que se viu retratado em cada página do “Festa Infinita”, afirmo desinibidamente que estar na vanguarda do hedonismo contemporâneo é uma condição restrita somente àqueles que conseguem ver algum sentido em tamanho egoísmo. A química, assim como a música e os demais elementos exógenos são meros acessórios dedicados a nos fazer penetrar no próprio umbigo e extrair dali as respostas mais esclarecedoras àqueles profundos receios existenciais que invariavelmente nos angustiam ao nos depararmos com uma sociedade repleta de ganância, ódio e frustração.

O mundo está do jeito que está graças à partícula única e indissolúvel que compõe cada peça e grupamento da coletividade: o indivíduo. Estamos errados a maior parte do tempo, e ocupados demais para percebermos e corrigirmos nosso próprio comportamento. Ao contrário, por puro reflexo condicionado, nos dedicamos a nos incomodar e a denunciar (em vão) os atos alheios a que nos opomos. Só falta percebermos enfim que, tanto agora quanto ao longo de toda a história da civilização, a única revolução que se mostra plenamente viável é a individual.

E por mais que você não queira, todos somos um.

 


 

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