Afinal de contas, o que é ser “coxinha”?


Descubra na charge abaixo:

Se você concorda com alguma das afirmações acima, além de precisar se informar melhor, pode se considerar um legítimo “coxinha” ou, mais sofisticado, “coxa creme”.

Ser “coxinha” é uma daquelas expressões brasileiras que, se você tentar explicar para um estrangeiro, corre o risco de ser deportado. “É um salgado. Mas também é uma pessoa. Mas não uma pessoa salgada. Quer dizer…” — e nesse ponto você já perdeu o francês que só queria entender o Brasil além da bossa nova.

Mas voltemos. O que é ser “coxinha”?

Do ponto de vista gastronômico, é um dos maiores feitos da engenharia brasileira. O formato aerodinâmico, a casquinha crocante, o recheio que varia do sublime ao suspeito — tudo isso é um triunfo da física culinária. Porém, como adjetivo social, a coisa complica.

Originalmente, chamava-se “coxinha” aquele sujeito de comportamento certinho, roupas discretas, opiniões previsíveis e playlists de pop internacional com Coldplay em posição de destaque. Frequentemente encontrado em cafeterias com wi-fi gratuito e discurso meritocrático.

Mas como toda palavra boa demais para ficar parada, “coxinha” expandiu seu repertório. Hoje pode significar:

  • o tio que compartilha corrente no WhatsApp com foto de Jesus segurando a bandeira do Brasil;

  • a colega que diz “não sou contra vacina, mas“;

  • o vizinho que considera Black Friday um atentado aos valores ocidentais.

Coxinha, veja bem, não é uma ideologia. É um estado de espírito. Um modo de ocupar o mundo com um leve desconforto em relação a tudo que fuja do condomínio mental da infância. É viver com a alma em um churrasco de domingo onde todos votam igual.

Agora, atenção: todos temos um pequeno coxinha dentro de nós. Eu, por exemplo, só me dei conta que estava flertando com o conceito quando passei a achar que “as músicas de antigamente eram bem melhores” — frase que automaticamente ativa uma assinatura vitalícia no clube coxinha. Outro sintoma: falar mal de reality show no Twitter enquanto assiste escondido. Quem nunca?

E há nuances. Existe o coxinha gourmet, que troca o tênis branco pelo sapato Oxford e o carro importado pelo patinete elétrico. Existe o coxinha vegano, que é contra tudo mas a favor da quinoa. E existe o coxinha vintage, que sente saudade de uma época em que nem ele mesmo sabe se era melhor, mas parecia.

Em resumo: ser coxinha não é um problema, é um diagnóstico. O importante é acompanhar com molho e uma boa dose de autocrítica.

Agora, se você chegou até aqui balançando a cabeça e pensando “esse papo tá meio esquisito, prefiro um texto mais objetivo”… parabéns. Você já sabe quem é nessa história.

O termo “reaça” também se aplica.

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Carlos Latuff desenhando pra quem não entende.