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Quando alguém demonstra certa flexibilidade moral para se dar bem através de um relacionamento com outra pessoa, logo identificamos (e condenamos) este comportamento como sendo realizado por mero interesse.

O jovem e viril namorado da viúva ricaça certamente está tentando dar o “golpe do baú”. A loira escultural que deu para o quarto-zagueiro reserva do Flamengo só pode ser uma boa “biscate”, uma típica “maria-chuteira”. E os políticos, então? Se amam loucamente a ponto de tecerem discursos fidélicos enaltecendo as qualidades dos excelentíssimos colegas? Claro que não. Trata-se obviamente da famosa “puxação de saco” ou, em bom português, o conhecido “jabaculê” (aquelas mesmas posturas que você se vê obrigado a adotar diariamente no seu trabalho, seja ele qual for).

São todas atitudes interesseiras, comportamentos estrategicamente elaborados com objetivos proporcionais aos variados níveis de interesse em jogo. Alguém discorda?

  Cachoeira Alta (83)

Eu penso, contudo, que a expressão “amizade por interesse” é uma redundancia daquelas bem pleonásticas. Toda amizade, que eu saiba, deriva de um completo e absoluto interesse. Num raciocínio meramente matemático, poderíamos dizer que todas as condutas humanas seguem uma trajetória delineada tão somente pelos seus interesses. O que há de errado nisso?

Já disse certa vez nosso ex-ministríssimo guru Gilberto Gil que a hipocrisia é uma “ferramenta social” e se eu discordasse, não passaria de um hipócrita.

Negar é inútil. Saiamos do armário!

Ecologic 3 Anos (2)

Eu sou um grande interesseiro, um oportunista barato que seleciona criteriosamente (ou pelo menos tenta) as pessoas com quem se relaciona de acordo com seus objetivos pessoais. Nunca neguei isso pra nenhum dos meus amigos e sempre soube que todos eles também mantinham-me em seus círculos de amizade por mero interesse.

É assim, meu amigo. Uma mão lava a outra.

Como todo mundo, tenho alguns contatos interessantes. Acontece naturalmente enquanto você estuda, trabalha, vai pra faculdade, troca de empresa ou sai pra beber. Quem é esperto vai acumulando toda a rede social de pessoas com quem se relaciona ao longo da vida para estar bem amparado nas mais diversas situações. E para garantir que eu consiga ter sempre um bom acesso àquelas pessoas ainda mais especiais, procuro me aproximar e ser também para elas o mais interessante possível.

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Quando a vantagem é mútua e não se vê mal nenhum nisso, as coisas ficam mais claras, e proporcionalmente mais justas. Com a intimidade e os interesses revelados sobre a mesa, aí sim podemos chamar esta relação de “amizade”.

Ecologic3Anos57

Se faço amigos diariamente por interesse, é porque meus interesses soam razoáveis para aqueles que andam comigo. Eu tenho um amigo publicitário que me arruma uns ingressos pra festas de vez em quando. Tenho um outro amigo advogado que sempre me salva quando eu tenho alguma dúvida – e um amigo gerente do banco que sempre me salva quando eu tenho alguma dívida.

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Tenho amigos que me concedem cigarros, goles de cerveja, ou pelo menos têm sempre um isqueiro à mão. Tenho amigo que acha meu celular quando eu perco no meio de uma rave, e outro que se responsabiliza civilmente pelos meus atos quando eu misturo licor de pêssego com uísque e saio dançando “Macarena” nu em cima da mesa numa festa de formatura.

A amizade só existe se houver algum interesse. E alguns dos seus interesses somente serão satisfeitos através de uma verdadeira amizade.


 

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