Autor: Walter Carrilho

Juquinha, eu tento gostar de alguns músicos brasileiros. Mas eles insistem em lançar disco com bula de remédio para explicar as referências. São 70 minutos de música e 30 páginas de manual de instrução.

Otto é um exemplo gritante. Ele anunciou o lançamento do novo disco, “Moon 111”. E já explicou que a obra foi inspirada por "Fahrenheit 451", de François Truffaut. Sim, cinema francês sempre pega bem. E também combina com vinhos da Alsácia e lagosta grelhada. Chique.

A lista de referências do disco é um resumo das citações cult que um universitário faz para comer uma mina do grêmio: Fela Kuti, Pink Floyd, pitadas de candomblé e até Odair José. Você sabe, reverenciar artistas bregas dá um tom “roots” e garante o sorriso da turma de sociologia.

Ouvi algumas faixas. Olha, é até legal. A voz continua uma merda e ele segue fazendo aquelas rimas panacas proto-inteligentes (eu ouvi, juro, “Dalai Lama” rimando com “grama”). Mas o som é moderninho, bonitinho. Vai bem como fundo de vernissage ou lançamento de livro de poesia. Servir Chardonnay chileno na temperatura certa, por favor.
A obra deveria ter sido lançada em 11/11/2011 (ah, sacou o porquê do nome do disco?). Um ano para decidir se é melhor homenagear Sidney Magal ou Patativa do Assaré. Tem que ficar atento ao que está mais na moda nos barzinhos da Barra da Tijuca. Aposto uma grana que no próximo disco ele vai citar Glauber Rocha. Gláuber é batata.

Por causa dessa demora, a imprensa faz questão de falar no “tão aguardado novo disco de Otto”. Quem estava aguardando o disco? Você, Juquinha? Ou aquele seu amigo que estuda filosofia na PUC e se diz fã de comida etrusca?

Gosto dos comentários dos críticos: “é um disco solar”. No dicionário do crítico pedante, “solar” é sinônimo de “otimista”. Isso deve ser bom. E tem ainda as próprias palavras de Otto: “o disco tem como fundamento abrir as portas da percepção, do novo, uma experiência cabalística, meu mais profético disco”. Não entendi porra nenhuma, mas que é bacana, é.

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Ah, sim, Otto tem patrocínio da Natura, porque artista brasileiro tem sempre que entrar no jogo com a grana já garantida. Não dá para correr o risco de ficar sem aqueles livros sobre arte rupestre espanhola que enfeitam a sala de estar. Que, por sinal, combinam super bem com sushi.

Otto: eu até quero curtir tua música. Mas se na próxima vez você misturar Tarkovsky com arte pré-colombiana eu desisto de vez, beleza?

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