Felipinho
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Um dos maiores prazeres que um podcaster pode ter é saber que seu trabalho influenciou de alguma forma o surgimento de novos projetos, eventualmente até novos programas, trazendo ao mundo novos debates.

Foi o que aconteceu quando o Pedro Tirelli entrou em contato para comentar que as pautas levantadas pelo nosso podcast TRETA Talks o haviam inspirado a escrever um texto sobre o tema, e a lançar seu próprio podcast.

Com apenas dois episódios no ar, o Ondas Psíquicas já está nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify, e vale ser ouvido com atenção!

Abaixo, transcrevo o texto-manifesto que deu início a essa jornada:

Prazer, eu sou Pedro e eu escolhi isso.

Olá,

Meu nome é Pedro, eu sou filho de uma mãe e filho de um pai, eu tenho irmãos, amigos e colegas.

Eu sou estudante, tenho um trabalho, frequento locais da minha cidade, tento contribuir com todos e estou consciente e presente.

Eu tenho uma condição mental de alteração de humor.

Bipolaridade esse é o nome desta condição.

Condição essa que descrita de forma simples se apresenta com alterações rápidas e as vezes constante de humor, alternado entre estado depressivo e euforia.

Euforia – Sentimento de excitação que baixa meus filtros sociais e me dá a sensação de poder e grandeza, mas que me coloca em movimento parecido como um trem acelerando que irá descarrilhar a qualquer momento.

Depressão – Me coloca em estado de inercia e apatia prejudicando minhas relações, vida ativa e trazendo ideias de aniquilação própria.

Eu não sabia disto antes e foi um processo longo para chegar neste diagnóstico. Houve muitos erros e danos possivelmente perigosos como resistência ao uso de medicações e aversão aos efeitos colaterais.

Aparentemente eu lidava com isso desde muito jovem e eu não sabia, e com isso em muitos momentos eu não estive presente com minha família, amigos etc.

O desconhecimento desta condição e o stress da vida levaram a um surto psicótico e uma internação de um mês em uma instituição psiquiátrica. Foi um período horrível para mim e a minha família e após a alta e liberação eu tinha um novo tratamento em minha vida e o uso continuo de medicações.

Estive isolado em casa durante um período de um ano sem condição de trabalho e estudo por causa da minha fragilidade mental. Após o recebimento da alta medica essa condição melhorou, mas ainda não tinha forças para buscar mudanças.

Por causa da condição depressiva em alguns momentos muito intensos eu me isolava e pensava em formas em como eu poderia acabar com a minha vida.

Inferno mental, já visitei algumas vezes e ainda visito as vezes para rever meus demônios e lembrar o que passei, não gostei antes, não gosto hoje e não recomendo.

Foi necessário o uso de medicações para tratar essa situação. Em alguns momentos tomando cerca de 5 medicações diárias que não modificavam muito o estado depressivo.

O cansaço e a esperança de não machucar a minha família e amigos ao optar pela morte, me fez buscar alguma alternativa. Assim sendo busquei conhecer e estudar e a alternativa chegou.

Sem consultar ou ter orientação medica profissional eu optei em fazer uso combinado disto com a minha medicação a cerca de 2 anos.

Hoje em dia eu tomo 1 comprimido diário combinado com a outra substância esporadicamente.

Minha oscilação de humor já não é um problema, a minha relação afetiva com todos melhorou e eu sou uma pessoa melhor.

Eu já não tenho vontade de me matar, eu quero viver e explorar o mundo.

Quero prover para mim…minha família, amigos e a sociedade.

Cerca de 10 anos ou mais de isolamento, insegurança e ódio próprio porque eu precisei passar por isso?

Olá, eu sou o Pedro tenho 30 anos e hoje eu quero viver. Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro, foi isso que aquele moço da canção disse né?

Ah desculpa, eu esqueci de falar eu consumo maconha.

Eu entendo que algumas pessoas não gostam disso por n motivos diferentes, eu não exponho ninguém em minha proximidade a isso se não for do seu interesse.

Eu ainda não planto maconha, eu gostaria de ter esse direito por que até onde sei jardinagem nunca foi e nunca será crime, mas não havendo opção eu me direciono muitas vezes a favelas ou bairros pobres para buscar o que eu preciso.

Fornecido por uma população vulnerável que cansou de esperar soluções para sua pobreza e falta de condições e busca uma melhora vendendo um produto proibido afim de alcançar algo melhor para sua vida. Um produto proibido que pode tratar a vida de muitas pessoas e dar esperança e conforto para pessoas que antes não tinham.

Uma planta que nasce no solo com facilidade em um país tropical de forma gratuita, mas que é proibida e criminalizada por motivos que eu só consigo acreditar serem intencionalmente maldosos em uma busca incessante pelo lucro no capitalismo.

Uma criminalização bizarra que não segue uma regra clara e se baseia em classe, cor e gênero além de utilizar como prova a visão subjetiva e bom humor da força de segurança envolvida na abordagem.

Gerando casos de abuso excessivos no quais uma pessoa negra portando 1g de maconha é presa e julgada e submetida a um período de reclusão extenso no qual extermina com seus planos de vida.

E no outro lado um jovem branco portando kilos expressivos da droga considerada “gourmet” é liberado após medida socio educativa ou então nem é submetido ao processo de julgamento e reclusão.

E assim enfiam pílulas goela abaixo para dopar a tristeza de uma população que não tem condição de comprar os comprimidos e que muitas vezes não precisa de remédios e sim de melhores condições de vida.

Sujeitando-me e outras pessoas a depender de medicações caras e as vezes ineficazes.

Tirando valores da nossa renda muitas vezes sem ter condição e expondo a nossa família a problemas financeiros desnecessários. Uma renda que poderia ser investida em melhora no bem estar do lar e família e por exemplo proporcionar condições de ensino melhores para todos. Ensino esse que modificaria a forma de pensar e causaria mudanças no mundo todo, mas estranhamente parece que não querem que isso aconteça.

E enquanto isso nós assistimos em muitas mídias diariamente o enaltecimento a guerra as drogas.

Guerra as drogas, batalha essa que é vencida ano após ano pelas drogas por que a população não aceita ter sua liberdade limitada por valores morais retrógrados, preconceitos diversos e interesses financeiros maléficos.

Moralismo, preconceito e lucro, a tríade que tenta massacrar qualquer tipo de subjetividade divergente tentando lobotomizar a todos afim de que sejamos uma máquina de produção na qual não existe pensamento e sirvamos para atingir as metas incessantes de poucos que estão no topo.

O fluxo de ideias cria formas – Direito, saúde, bem estar social, três indicadores entre muitos que se unem e criam a militância em busca de uma vida melhor através do uso da maconha. Dando vida para os corpos andantes que antes não tinham vida por causa da depressão, gerando alegria para crianças autistas que não conseguiam se expressar e amenizando a dor daqueles que não aguentam mais chorar implorando para morrer por que seu corpo está doente. Militância de pessoas que escolhem serem vistos como detratores e perseguidos por governos, mas não aceitam a indiferença frente ao sofrimento das pessoas ao seu redor.

Militância que também é discriminada e julgada por pessoas que não fazem uso da maconha, mas que diariamente ou aos finais de semana buscam substancias para se entorpecer, como exemplo o álcool que é consumido até a perda dos sentidos.

Sentidos esses que são ignorados porque o peso da rotina é insuportável, a jornada de trabalho é excessiva e os ganhos são poucos.

Pessoas que não se olham mais nos olhos para reconhecer a existência do outro.

Gerando um ambiente toxico e vazio de amor, criando relações danosas e sobrevivendo de migalhas de afeto e reciprocidade de sentimentos positivos.

“Não existe amor em SP cantou Criolo”, mas na verdade falta amor no mundo.

“Atitudes boas devemos samplear”, também cantou Criolo e isso é oque busco seguir agora porque o mundo está saturado de energia negativa.

Eu não ignoro os problemas eles devem ser vistos e corrigidos, mas em nome da boa saúde mental estou tentando mudar o que transmito.

Agora meu sentimento positivo vai para a Militancia e Nação Maconhista – Minha gratidão seu trabalho é essencial. <3 <3 <3

A maconha não é uma solução para todos os problemas, ela não é indicada em muitos casos por causa de condições psicopatológicas diagnosticadas ou não. Pessoas menores de 24 anos não devem consumir por ainda apresentar um sistema neurológico e cerebral em construção e crianças não devem consumir e nem serem expostas a esse ambiente de forma alguma. Ela pode agravar sintomas em pessoas doentes e causar mais dano invés de ajudar.

Mas ela pode ser uma opção e deveria ser considerada havendo acompanhamento médico especializado.

Como mercado ela também não é uma solução, mas poderia contribuir muito com as diversas crises financeiras que nosso país atravessou ao longo dos anos.

Através da revisão de alguns estudos científicos e observação eu pude constatar que o seu plantio não é uma condição tão fácil, afim de obter excelentes resultados é necessário condições controladas o que gera custos elevados para um usuário comum.

Sim, ela pode nascer utilizando uma semente e terra de forma simples, mas não vai atingir grandes resultados comparado ao cuidado e observação constante de um profissional qualificado em sua criação.

Algumas condições necessitam uma maior concentração das substâncias da planta para surtir efeito positivo no tratamento da pessoa. Existem diversos compostos na planta que podem ser extraídos para controle de aspectos da bio química corporal e alterações de humor.

Isso possibilita um grande mercado que pode ser explorado, mas isso não vai transformar nosso país em paraíso. A maconha não causa dependência química, mas algumas pessoas criam uma dependência psicológica que pode ser comparada a outras drogas que causam o vício e alterações cognitivas.

Gerando problemas em todos os âmbitos no qual está pessoa estiver inserida.

É um erro gravíssimo deixar de fazer tratamento médico especializado em condições de conflitos emocionais, afetivos e orgânicos do corpo. Em momento algum durante esse relato eu deixei meu acompanhamento especializado, eu apenas optei por não comunicar.

De formar nenhuma eu incentivo seu uso para fins medicinais ou recreativos, eu estou apenas relatando minha vivência e fazendo ponderações sobre o período vivido, eu sou apenas uma pessoa que escolheu usar a maconha e como consequência encontrou a vida.

Vida essa que é plena, cheia de belezas e infinita.

Infinito que agora eu escolho preencher com minha voz e estar presente.

Minha voz que espero alcançar pessoas neste mundo que se sentem isoladas por condições adversas e não acreditam mais na vida. Você não está sozinho deixe as pessoas te ajudarem e busque se ajudar, sua vida importa e esse momento irá passar.

Eu sou apenas um estudante minha visão é rasa e pode conter erros, mas eu acho importante essa discussão para modificar tabus criados em nossa sociedade.

Pedro Henrique Rodrigues da Costa Tireli

30 anos
Estudante de Psicologia
Bipolar em descobrimento
Maconhista e Psiconauta em construção.

 

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