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Mostrando que o jornalismo sensacionalista é uma ferramenta em diversas redações ao redor do país, a bola da vez é o portal R7/Rede Record. Numa matéria parcialmente feliz, deduziram que o "funk de luxo" – que eu chamaria de gangsta funk ou simplesmente "funk da ostentação" – é a nova moda na internet. Vejamos:


Pode clicar aqui para observar a matéria, retorne em seguida!
 

O que provavelmente eles esqueceram foi a parte explícita de apologia ao crime e à violência. E não é preciso ser nenhum especialista em psicologia ou algo assim para notar essa parte deixada de lado pela matéria. As próprias letras dos funks nos trazem isso, em rimas ornamentadas com marcas caras e jóias luxuosas.

Nasci e cresci em São Paulo. Diferente de muitos, tive acesso a escolas e aos pequenos luxos da vida moderna, que incluem três refeições diárias e tempo ocioso para brincar na rua, jogando bola ou brincando de bolinha de gude. Na minha infância não tinha videogame, nem internet, mas nos divertíamos com o que tínhamos. E foi nela que eu conheci a periferia, amigos com menos sorte do que eu e o crime.

Desde aqueles tempos, a ostentação já existia. Eu já tive amigos que roubavam tênis, apenas porque não podiam comprar mas queriam usar. Já tive amigos que roubaram carros e com a venda deles no mercado negro compraram carros mais luxuosos, porque não poderiam fazê-lo de forma diferente. Essa é a lei de muitas periferias ao redor do mundo.


 

Talvez falte aos jornalistas essa dose de realidade. Ouvir uma letra do MC Rodolfinho que diz "Pé no chão, consciente / Na melhor hora nós ataca / Imbicamo na agência / E saímos de veloster sem placa" não me mostra que ele foi ao banco sacar os lucros e dividendos de seus investimentos financeiros. A ostentação tem um preço e nem sempre ele é pago com o trabalho daqueles jovens. Procure outras músicas, preste atenção nos detalhes das composições. Eu já fiz isso, diversas vezes.

A curiosa relação do "funk do luxo" com a classe mais favorecida, no entanto, é a de chamar mais atenção. Ter em letras aquelas coisas que fazem parte da rotina de um jovem rico morador da capital é divertido, provavelmente. Ouvir essas letras sem atenção ou um entendimento mais profundo do que elas querem dizer é comum. Assim como "tirar onda" com a ode à ostentação ouvida no funk.

Ok, não quero ser chato. Também quero ser "vida loka" e andar "forgando" de "navona" do ano. Mas eu tenho trabalhado mais do que a média em busca de algo menos luxuoso, como o próximo carro que vou comprar. Mas eu pago meus impostos e faço tudo dentro da lei. Pode não ser tão rápido, fácil e divertido o caminho desses que escolhem por andar dentro da legalidade.

Mas… como é bom ser vida loka, né?!


 

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