Perdi a conta de quantas vezes ouvi, de diferentes fontes filosóficas, que a morte é a única certeza da vida. Que a morte é uma certeza, creio que não temos dúvida, mas acho talvez não seja a única. Com um pouco de observação podemos adicionar mais uma boa lista de constatações definitivas que aparecem na medida em que se vai vivendo. Dentre elas, a certeza de que todo mundo mente.

Quase no fim do ano passado, um dos meus melhores amigos, o blogueiro Luide, front man do Amigos do Fórum e braço direito do Não Salvo, me presenteou com um box espetacular contendo todas as temporadas da série House (dispenso o “Dr.” porque já me considero íntimo) em blu ray.

Vai vendo.

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Eu tinha sido apresentado à série por um amigo que estuda medicina, no dia seguinte a uma rave, e não sabia se a história do médico Sherlock era mesmo espetacular ou se era apenas uma impressão oriunda de resquícios de dopamina ainda circulando pelo sangue. O fato é que assisti a uns cinco ou seis episódios seguidos antes de finalmente dormir por duas eras cristãs.

O foda era que eu sempre parava pra assistir House quando via que estava passando na televisão, mas não tinha tempo – nem disposição – de baixar e assistir às oito temporadas com vinte e tantos episódios caralhudos de emoções intensas em um hospital.

Aceitei o presente, e o desafio. Prometi ao Luide que eu não só iria assistir a todos os episódios na sequencia como também faria uma resenha completa no TRETA, em agradecimento por mais uma dica valiosa da cultura pop. E eu não estava mentindo.

Ou não sabia que estava.

 

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Iniciei minha jornada de 130 horas sem nenhum tipo de pressa, como deve ser o verdadeiro entretenimento. Já que a vida é sempre uma correria, a solução foi diluir a empreitada em doses homeopáticas. Mesmo sem tempo nem pra me olhar no espelho, consegui, sem muita dificuldade, introduzir dois a três episódios por dia na minha rotina.

Eu que (como bom vocacionado para as ciências humanas) sempre detestei médicos e hospitais, passei a frequentar voluntariamente o hospital universitário fictício de Princeton, na companhia de um infectologista quase detestável.

 

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Pra quem não ligou o nome à pessoa, o personagem interpretado por Hugh Laurie foi criado por David Shore com clara inspiração no clássico personagem de Sir Arthur Conan Doyle, o detetive infalível Sherlock Holmes – com quem Dr. Gregory House divide o apartamento 221B, a adicção às drogas, o temperamento mordaz, o fato de terem um fiel amigo com as iniciais J.W., e, claro, o método dedutivo perspicaz.

Com tal grau de protagonismo do personagem-título, mesmo as mais dramáticas emoções possíveis de serem vividas em um hospital atuam como meros coadjuvantes para o super-sincero e autodestrutivo anti-herói desfilar sua sagacidade suprema, em conluio com o roteirista.

E o preço pago por tamanho virtuosismo parece ser mesmo apenas uma certa inaptidão para o convívio pessoal demonstrada pelo médico monstro em diversos momentos da trama.

 

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É de House a frase que considero mais simbólica de toda a série. Todo mundo mente. Everybody lies (leia com sotaque americano proferido por um excelente ator britânico).

A regra de ouro é apresentada algumas vezes como um lembrete para sua equipe sempre desconfiar das afirmações feitas pelos pacientes. Certas mentiras e seus motivos persistem até mesmo – ou principalmente – num leito de hospital.

E como uma legítima regra de pretensões universais, acaba sendo aplicada contra seu próprio formulador. Mesmo alguém com tanto desprendimento, vez ou outra, se vê obrigado a “manipular a verdade” para obter certo resultado na conduta alheia.

Afinal de contas, como reza o ditado, a hipocrisia é um lubrificante social.

 

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Para a maioria dos mortais, o personagem funciona como um espelho que reflete o oposto: a dificuldade que House encontra em mentir é a dificuldade que todos nós encontramos para falar certas verdades.

“Tudo bem?” “Tudo bem.” A pergunta cumpre mera função fática, ninguém quer saber dos seus problemas no elevador.

“Amor, estou gorda?” “Claro que não!” Não existe outra resposta possível.

“Gostou do presente?” “Gostei tanto que vou até fazer um post no blog.” Mas ninguém falou em prazo.

 

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Lá pelo final da penúltima temporada o destino interrompeu minha maratona.

Quis o ocaso do acaso que mudanças na configuração da minha vida impossibilitassem o hábito de assistir àqueles dois ou três episódios diários por algumas semanas. E quando eu pude finalmente voltar a comandar o controle remoto da minha vida, senti vontade de guardar a temporada final para o momento certo. Sim, sou desses que economiza episódio de série boa pra não acabar logo.

A sensação é a de que enquanto eu mantiver o season finale inassistido terei sempre a melhor equipe médica – e seu líder superlativo – de plantão na estante de casa. Guardado para uma ocasião especial como um bom vinho, mas disponível para uma situação de emergência como um bom desfibrilador. Não seria fantástico se tudo na vida pudesse ser eternizado em uma caixa?

 

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Para os otimistas inveterados como eu, com este texto, a promessa que fiz ao meu amigo está meio cumprida. Para os pessimistas – ou “realistas” – como Dr. House, a promessa está meio descumprida. Apenas uma mentira de perna curta escorada por outra mentira de bengala.

Agora que o diagnóstico está feito, todo mundo mente, só nos resta tomar nossa dose diária de resignação para diminuir os sintomas.

Eu poderia até falar em cura, mas seria, obviamente, mentira.


 

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