Desde que terminei a quarta série lá em 1994 eu já desconfiava que o editor chefe da revista Veja fosse esse cara (ou um parente próximo), mas parece que a publicação decidiu escancarar ainda mais suas posições políticas conservadoras através de matérias cada vez mais absurdas contra as liberdades individuais.

Numa edição recente, contrariando a evolução do pensamento sobre a questão ao redor do planeta e o vanguardismo de alguns ordenamentos jurídicos pioneiros na descriminalização, legalização e/ou regulamentação da maconha, Veja dedicou uma matéria de capa a enumerar os malefícios da droga e condenar categoricamente a erva como uma das maiores ameaças da civilização.

Seu último exemplar, contudo, conseguiu superar as nuances reacionárias da famigerada capa com as novidades da medicina coxinha, trazendo um compilado de falácias e axiomas oriundos do mais superficial (ou capiscioso) dos intelectos para melindrar as reivindicações mais autênticas e justificadas da causa homossexual.

O escritor Carlos Orsi desarticulou alguns dos "argumentos" da matéria da Veja neste excelente texto, mas reproduzo abaixo, na íntegra, o texto de outro Carlos, o Cardoso, em seu blog Contraditorium:

A Revista Veja publicou hoje um artigo sobre o estado do homosexualismo no Brasil. Não, não é o Rio Grande do Sul. A matéria aparentemente discutiria os avanços, conquistas e problemas daquele pessoal com hábitos estranhos, como identificar mais de 3 tons de branco e saber a data do Tony Awards.

Só que não foi por aí, resolveram chamar o Silas Mafalaia, Rick Santorum e Celso Russomanno, colocar tudo em um liquidificador, adicionar 2Kg de ignorância e estupidez, voltar o relógio 50 anos e se saíram com um texto basicamente idiota.

Um exemplo assustador:

“Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias”

Isso mesmo. Na incrível lógica deles uma restrição por um motivo válido justifica uma restrição baseada em julgamentos morais ultrapassados. Faz MUITO tempo que não existe mais “grupo de risco”, as únicas categorias que apresentam índice insignificante de DSTs são blogueiros e humoristas do Casseta.

Eles argumentam que se algo não é direito constitucional, proibir não é discriminação? Vá dar uma festa particular com um cartaz “Crioulo não entra”, pra ver se a lógica da Veja é válida.

Sangue hoje só perde para tinta de impressora em termos de substância controlada, cara e tratada com cuidado. TUDO é testado, a contaminação acidental é virtualmente zero. Aceitar doações gays não afetará em NADA o processo, exceto que terminaremos com mais sangue nos bancos.

O artigo da Veja prossegue com argumentações mais estapafúrdias, comparando a proibição de dois gays se casarem com a proibição de um hetero (imagino) se casar com uma cabra. Imagino que ele não esteja se referindo ao Zimbábue, onde comeu, tem que casar.

O material é tão mal pesquisado que logo no começo solta a pérola:

"É a velha história do Projeto Apollo. Foi feito para levar o homem à Lua; acabou levando à descoberta da frigideira Tefal."

Será mesmo? Vamos pesquisar.

1 – Teflon – Descoberto acidentalmente por um químico de Nova Jersey em 1938. Patenteado em 1941, marca registrada pela DuPont em 1945. Foi usado inclusive no Projeto Manhattan.

2 – Tefal – Empresa francesa criada para comercializar a panela criada pelo engenheiro, também francês, Marc Grégroire. Ele projetou a panela coberta de Teflon a pedido de sua esposa. Em 1954.

Ou seja: Em 3 minutos de Google eu descobri (na verdade já sabia) que o Teflon NÃO foi criado pelo projeto Apollo. Seu uso em panelas SEQUER começou nos Estados Unidos. Lá só chegou em 1961.

Se o redator da Veja não se dá ao trabalho de pesquisar 5 minutos antes de falar de PANELAS, com que moral quer discorrer sobre estilo de vida, orientação sexual, convenções sociais e discriminação em geral?

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Texto de autoria de Carlos Cardoso.


 

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