Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morreu em Paris aos 56 anos. A notícia foi confirmada nesta semana e deixou um buraco enorme na conversa sobre resistência, memória e o que uma graphic novel consegue fazer que um jornal não consegue.
Se você nunca leu Persépolis, o resumo é o seguinte: Satrapi desenhou a própria infância no Irã, desde antes da Revolução Islâmica de 1979 até o exílio forçado na Europa. Com traço preto e branco e uma voz de criança que via tudo, ela transformou trauma político em uma das histórias mais lidas do mundo. O livro virou animação indicada ao Oscar em 2008 e entrou no currículo de escolas em vários países.
“Aos 10 anos, eu me preparava para ser prisioneira política”, ela disse em entrevista. Não era exagero. Era o relato de uma menina que cresceu vendo adultos desaparecerem, fronteiras fecharem e o próprio guarda-roupa virar campo de batalha.
O que tornava Satrapi incomum era a recusa de simplificar. Persépolis não é panfleto. Tem humor, vergonha, contradição, uma adolescente que ama Iron Maiden e também chora pela revolução que prometia ser diferente. Ela contou o Irã como alguém que amava o país e detestava o regime, e essa distinção, que parece óbvia, custou muito pra ela manter no mundo ocidental que queria um vilão único e bem desenhado.
Depois de Persépolis, ela dirigiu a adaptação animada ao lado de Vincent Paronnaud, escreveu outros livros e fez o longa Frango com Ameixas. Nunca parou. Vivia em Paris há décadas, mas o Irã aparecia em tudo que ela fazia, como quem carrega um endereço que não existe mais no Google Maps mas está gravado no corpo.
Ninguém sabe ainda a causa da morte. Tinha 56 anos.

Vai dizer que você conhecia uma autora que desenhou a própria prisão política aos 10 anos e ainda conseguiu ser engraçada nisso. Satrapi conseguia. Esse é o legado que fica: não a mártir, a cronista que preferiu a ironia à reverência, e provou que quadrinhos aguenta qualquer história que a gente tenha coragem de contar.
Persépolis vai continuar sendo lido. Isso ela garantiu antes de sair.






