Série do Globoplay resgata o pagode dos anos 90 como o movimento que reconfigurou o samba

Série do Globoplay resgata o pagode dos anos 90 como o movimento que reconfigurou o samba

A série documental “Anos 90 – A explosão do pagode”, disponível no Globoplay, não trata o pagode dos anos 90 como um capítulo simpático da memória afetiva brasileira. Ela trata como o que foi: um movimento que virou o samba de cabeça pra baixo e arrastou o país junto.

Dirigida por Emílio Domingos e Rafael Boucinha, com roteiro de Raul Perez, a produção recebeu cinco estrelas na crítica do G1, e quem assiste entende o motivo. A série não é um álbum de fotos com trilha sonora. Ela organiza um argumento: o pagode daquela época não foi uma moda, foi uma ruptura.

O nome mais comentado até agora é Netinho de Paula, revelado como vocalista do Negritude Junior. Os depoimentos dele são o tipo de coisa que faz parar de rolar a tela e prestar atenção de verdade. Ele fala da época com a precisão de quem viveu aquilo por dentro e ainda tem muito a dizer sobre o que significou.

E o que significou foi bastante. O pagode dos anos 90 não era só festa. Era uma reconfiguração de quem ocupava espaço na música brasileira, quem tinha contrato, quem enchia arena, quem aparecia na TV. Grupos como Negritude Junior, É o Tchan, Raça Negra e outros nomes que a série deve abordar não chegaram ao topo por acidente. Chegaram porque o público cansou de ser ignorado.

A produção do Globoplay enfrenta esse ponto sem eufemismo. O pagode dos anos 90 foi um fenômeno de mercado e, ao mesmo tempo, uma afirmação cultural que as análises da época preferiram não fazer. Décadas depois, alguém decidiu registrar direito.

Literalmente, a crítica mais honesta que a série recebe é a própria nota: cinco estrelas numa produção documental sobre gênero popular brasileiro não é algo que acontece toda semana.

O formato funciona porque não tenta disfarçar o entretenimento de exercício acadêmico. Deixa os personagens falarem, deixa a música tocar, e constrói o argumento através do que as pessoas que estavam lá têm a contar. Depoimento bem coletado vale mais que narração bem escrita, e parece que a direção entendeu isso.

O pagode dos anos 90 esperou trinta anos por uma série que levasse ele a sério. Chegou.