Funk de direita: Flávio, Nikolas e Pavanato dançam o gênero que criticam

Funk de direita: Flávio, Nikolas e Pavanato dançam o gênero que criticam

Flávio Bolsonaro dançou funk em cima de um trio elétrico em Vitória, com Nikolas Ferreira do lado. Lucas Pavanato celebrou sua eleição à Câmara ao som do gênero. Das 50 músicas mais ouvidas no Spotify no domingo do segundo turno das eleições de 2026, seis eram funks de apoio ao candidato do PL ou com críticas a Lula. O estilo virou trilha oficial da campanha conservadora.

O problema é que esses mesmos nomes têm histórico de atacar o funk como vetor de “narcocultura”. Pavanato, por exemplo, foi relator da CPI dos Pancadões em São Paulo, que investigava os bailes e concluiu que funcionam como “espaços de difusão e normalização da chamada narcocultura”. MC Ryan SP e MC Dricka foram convocados a depor. Dois anos depois, Pavanato celebrava a eleição no mesmo ritmo.

A justificativa padrão do campo conservador é que o problema está na letra, não no beat. “O problema com o funk, por óbvio, é a letra, não o ritmo”, disse o próprio Pavanato. Só que os jingles usaram exatamente a estrutura dos funks que eles criticam, com refrão para pular e dançar. Um deles: “Quem ficar parado é petista disfarçado.”

Ninguém comentou muito, mas tem uma figura chamada Renan Santos, ligada à direita, que criticou publicamente o uso do funk nas campanhas conservadoras, dizendo que “as pessoas viam o Pavanato dançando e achavam mais repugnante que um petista clássico. Soa muito escroto.” Crítica vinda de dentro do próprio campo.

O contexto ajuda a entender o movimento. Em 2024, produtoras e MCs grandes como Henrique Viana, da Love Funk, e MC Ryan SP apoiaram Pablo Marçal. A associação do funk com a direita já tinha sido testada e funcionou para engajar jovens. Em 2026, a estratégia foi replicada pelas campanhas, mesmo sem adesão expressiva de artistas do gênero, que desta vez ficaram neutros ou foram para o lado de Lula.

O funk não tem dono, isso é real. Mas usar o ritmo como ferramenta eleitoral enquanto sua CPI investiga os bailes onde ele toca é um tipo de coerência que merece pelo menos uma explicação.

Pavanato relator da CPI dos Pancadões dançando funk na festa de vitória é o tipo de cena que dispensa legenda.