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Penso, mas logo desisto.
 

Já faz algum tempo que não escrevo nada com o mínimo de consistência aqui no blog que valesse incluir no nosso depositório de Textículos, e para não me dar ao melindre de castigar os queridos leitores com vazias divagações sobre os percalços que permeiam a minha própria e exaustiva vida, vou manter o foco deste editorial nos problemas gerais com que se deparam diariamente todas as pessoas dotadas de alguma capacidade cognitiva.

Logo que acordo (o que geralmente não é um processo muito simples), sou obrigado a me convencer que eu não voltei ou avancei no contínuo espaço-tempo, não adquiri superpoderes inesperados como a capacidade de materializar chocolate meio amargo através do umbigo e, o que é muito pior, não ganhei na MegaSena acumulada. Antes que a depressão tome conta da minha existência, agradeço ao Senhor meu plano de saúde pelo fato de ainda estar vivo e dou início à minha jornada involuntária contra a estupidez humana.

A que pese o exagero, convivemos diariamente com as mais injustificadas condutas alheias que explicitam a falta de Jesus inteligência coletiva em nossa sociedade. Os exemplos vão do espertinho que fura a fila do engarrafamento ao idiota que ouve funk proibidão eletrobrega qualquer coisa que seja no auto-falante do celular em pleno busão lotado. Não existe respeito, consideração, gentileza. Ao contrario, parece existir um consenso tacitamente instituído de que a civilidade não é algo que possa vir a funcionar no contexto em que vivemos.

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Há que se manter a cabeça acima do pescoço.
 

Se a competição capitalista tem sua origem na batalha de egos inerente à condição humana, habita a ignorância aquele que pretende afirmar-se perante os demais antes de conseguir identificar as próprias virtudes e vir a considerar os prórpros defeitos.

Acho interessante quando ouço uma pessoa derreter-se em autoelogios e acreditar que naquele momento está de fato vendendo o próprio peixe. Vivemos em um mundo onde as relações interpessoais, se não se intensificaram, ao menos podemos dizer que ganharam novas possibilidades, e a consequente demanda de novas precauções. Independente do quão maravilhoso você realmente acredite ser, à exceção de gostosas desinibidas e profissionais de hipnose, não basta afirmar em voz alta com extrema convicção para que as pessoas com quem você se relaciona acreditem. Ao contrário, além de perecer de credibilidade para falar de si mesmo, você ainda corre o risco de virar o mais recente ápice da vergonha alheia no YouTube.

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“Brains!”
 
 

Em busca de informação, logo somos bombardeados pela bestialidade humana em exposição nos melhores veículos de comunicação da praça, apenas para nos lembrarmos de que Deus o Sistema não é justo. Sim, porque a despeito do que venha a ser “justiça”, uma palavra que abrange um conceito muito mais complexo do que aparenta aos seus usuários, não pode ser justa uma realidade que permite a propagação de tanto lixo cultural enfiado goela abaixo pelas emissoras, editoras e corporações estabelecidas, sob o pretexto de forncer ao povo o entretenimento que lhe apetece.

A repetição do óbvio na programação das instituições, contudo, é o menor dos problemas num regulamento que garante o direito universal de competir, mas se abstém de fornecer maiores explicações sobre as regras do jogo – e elas são muitas. Falta investimento? Ou seria melhor dizer, “alocação de recursos coletivos”? Falta vontade política para sequer provocar cócegas no status quo? Falta atravessarmos mais alguns processos evolutivos e galgarmos novos degraus na busca da construção de um ser humano à imagem e semelhança do que idealizamos ser a força mais poderosa do Universo? Falta muita coisa.

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O homem é o lobo do homem.
 

Pra começar, não nos damos ao trabalho de rejeitar tudo aquilo que ultraja a nossa própria inteligência. Deixamos de fazer comentários sobre o que pensamos e nos omitimos em situações que ofuscam a razoabilidade, quase sempre por acreditarmos que seriam esforços desperdiçados. Não digo que a solução de todas as coisas prescindem de um debate racionalizado entre as partes interessadas, mas chego a cogitar se este não seria um mundo mais aprazível aos telepatas, capazes de perceber a verdade ao invés do que se diz.

Na prática, esta é uma habilidade que se aprimora com a experiência, mas nem todos parecem dispostos ou sensíveis a perceber o verdadeiro contexto das situações cotidianas, ou como se diz, “ler nas entrelinhas” e estacionam o intelecto ante à superficialidade das interações sociais. É o que acontece, por exemplo, cada vez que você dá uma resposta pronta a uma pergunta nova, deixando escapar a oportunidade de reformular a própria opinião.

O mesmo comando compulsório que nos ordena a recolher tributos ao erário ao tempo em que nos impede de estrangular os desafetos é também responsável por garantir que cada coisa permaneça em seu devido lugar. Ninguém será conduzido à própria transformação senão pelos próprios méritos. Portanto, da próxima vez em que você se propuser a exercer o livre arbítrio, em qualquer circunstância, tenha em mente que abandonar o senso comum é o primeiro passo para se libertar de uma existência reacionária.

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