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Apesar de ter certeza que os maias têm tanta autoridade sobre o destino da civilização quanto o profeta Nostradamus (ou a vidente Mãe Dinah), o que há entre o céu e a terra talvez não seja suficiente para explicar estes primeiros dias de 2012. Se o apocalipse não estiver às portas, ainda sou obrigado a suspeitar que as trombetas não estejam sendo tocadas à toa.

O ano começou com as enxurradas e enchences características do verão brasileiro, acompanhadas de um tsunami de assuntos em generalizado debate, como se o mundo simplesmente tivesse decidido fervilhar de fatos aleatórios, em diferentes níveis de relevância, disputando a atenção da humanidade. Ou, é claro, pode ser simplesmente que tudo esteja como sempre esteve, em seu lugar, e a nossa percepção dos acontecimentos e suas repercussões é que tenha mudado, definitivamente.

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Um exemplo escandaloso do que quero dizer é o fenômeno (Ronaldo?) Michel Teló e sua Anna Júlia sertaneja-universitária. Nossa, nossa… Quão mais fácil não é “virar meme” do que os antigos “fazer sucesso” ou “ter seu talento reconhecido”? Pra repercurtir nos dias de hoje, como diria o amigo Fausto (que não por acaso também é Silva), mais do que nunca, não é preciso ser erudito ou sequer contemplar qualquer complexidade. O tosco, o bizarro, o trivialmente interessante e o incompreensível, seguem sendo igualmente divertidos, só que agora eles podem estar sob os holofotes – da nova mídia, mas dali pra antiga em matérias sobre “o poder da internet” infestando os noticiários, e vice-versa, como um mamão, num ciclo contínuo.

Quando no passado outras músicas idiotas estouravam nas rádios e chegavam aos programas vespertinos havia todo tipo de comentários engraçadinhos, observações impertinentes, paródias e versões esdrúxulas, mas distribuídos isoladamentes em grupos desconexos. Hoje, com o grande chat coletivo que virou a web mundial, todo mundo sabe, por exemplo, que a piada do pavê é um ícone da infâmia em família. Daí, mencionar a piada do pavê como uma chatice é que virou a piada (já igualmente manjada, diga-se).

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A isto costumávamos dar o nome de “piada interna”. Algo inusitado que aconteceu num grupo, numa festa, sala de aula, excursão, etc., e que depois é mencionado de forma recorrente em diversas situações, trazendo à baila as lembranças hilariantes do fato que lhe dá contexto e graça. A única diferença é que no universo multimídia contemporâneo qualquer história dessas pode ser muito melhor contada através de um post em um blog, um vídeo no YouTube ou alguns links e piadinhas no Twitter e Facebook. De acordo com a carga emocional e os valores compreendidos no assunto, estabelece-se a polêmica, mãe da evolução do conhecimento.

E quando algo tão aparentemente frívolo e ignóbil quanto um ruído de comunicação numa propaganda provinciana (ou uns amassos embriagados em rede nacional) ganha o centro das atenções da pseudo-intelectualidade de todos nós, logo surgem os heróis da resistência reacionária, alardeando o apocalipse da inteligência e do bom senso.

“Boa noite! Assista agora o Programa do Ratinho”
 

Infelizmente não está óbvio para todo mundo que o “fenômeno” aqui não é uma garota chamada Luiza que está no Canadá, mas a evocação de uma petulância característica das aspirações pretensiosamente aristocráticas da classe-média brasileira. E, claro, a vastidão de reações que um pequeno detalhe como este pode ocasionar, se jogado no ventilador das redes sociais.

Pessoas que não conseguem entender “como uma coisa tão idiota pode virar mania nacional” são as mesmas que insistem em esmurrar o faqueiro das modernidades, quase sempre acreditando que “algo deve ser feito para frear o caos”. Nos Estados Unidos, agora todos já sabem, este “freio” recebeu o nome Stop Online Piracy Act e foi rechaçado categoricamente pela comunidade online por contemplar dispositivos que possibilitariam o controle subjetivo da comunicação na internet.

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Sopa

O mundo está mudando sob o ritmo cada vez mais alucinante dos novos processadores de informação, desencadeando a repercussão de múltiplos elementos inusitados da nossa cultura. Valorizar o que é essencialmente positivo e cuidar para que as propriedades imateriais não sejam lesadas são desafios destes novos tempos.

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Só não me venham convocar a legião de macacos a voltar para a caverna.

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O Luide ainda vai ter um treco.