Um ano depois de publicar o vídeo que pautou o debate nacional sobre exploração de crianças na internet, Felca voltou ao YouTube na terça-feira, 20 de outubro de 2026, com um conteúdo completamente diferente. Sem o formato investigativo que o projetou, o influenciador Felipe Bressanim Pereira passou o novo vídeo contando a própria história.
E a história é pesada. Felca relata que sofreu agressões físicas recorrentes entre os 12 e os 18 anos, incluindo um espancamento por colegas no banheiro da escola. Humilhações públicas, exclusão social, o pacote inteiro. Segundo ele, esse período contribuiu diretamente para o desenvolvimento da fobia social que carrega até hoje.
O detalhe que chama atenção: o sucesso na internet não resolveu nada. Felca conta que, mesmo após viralizar, continuava tendo reações físicas intensas em situações sociais, com batimentos cardíacos passando de 130 por minuto só de estar cercado de pessoas. A solução que encontrou por anos foi o álcool. Ele afirma que bebia para conseguir participar de gravações, eventos e entrevistas.
Isso culminou num acidente durante uma produção em Londrina. Depois de beber durante todo o dia, desmaiou em casa, caiu sobre o próprio braço e fraturou duas costelas. O cara que denunciou exploração de menores pra milhões de pessoas mal conseguia aparecer em público sem beber antes.
O vídeo também entra em saúde mental. Felca fala sobre períodos de ideação suicida na adolescência e cita Viktor Frankl e conceitos da logoterapia pra defender que dar sentido à dor é o que ajuda a atravessá-la. Ninguém esperava que o retorno fosse por esse caminho.
Na reta final do vídeo, ele apresenta o projeto #sinfel: 90 dias dizendo “sim” a convites e situações que normalmente evitaria por causa da fobia social. A proposta é enfrentar gradualmente espaços públicos e interações sem recorrer ao álcool. Ele também anunciou palestras gratuitas em escolas públicas e privadas sobre os impactos do bullying.
Vale lembrar o tamanho do que veio antes. “Adultização”, publicado em agosto de 2025, denunciou exploração de crianças e adolescentes por criadores de conteúdo, citou diretamente o influenciador Hytalo Santos e gerou investigações, medidas judiciais e debate no Congresso. O então presidente da Câmara, Hugo Motta, defendeu o avanço de propostas sobre proteção de menores. Meses depois, o Senado aprovou um projeto de lei que cria obrigações para plataformas digitais e prevê multas de até R$ 50 milhões em caso de descumprimento.
Felca cita parte desses resultados no novo vídeo como motivo pra acreditar que experiências dolorosas podem ter propósito. Vou falar uma coisa: poucos criadores de conteúdo no Brasil conseguiram transformar um único vídeo em legislação federal. Agora ele quer transformar os próprios traumas em 90 dias de terapia ao vivo.






