Flávio Bolsonaro é flagrado em áudios vazados mamando Daniel Vorcaro do Banco Master


O Brasil tem dessas delicadezas históricas. Depois de anos ouvindo sermão contra artista vagabundo, mamata cultural, Lei Rouanet, globalismo cênico e a ameaça comunista escondida nos editais de teatro experimental em Sorocaba, descobrimos que a extrema direita pode tropeçar justamente num filme.

Não numa delação. Não num PowerPoint. Não numa mala de dinheiro entrando num estacionamento subterrâneo. Num filme. Uma cinebiografia. Uma obra audiovisual aparentemente destinada a transformar Jair Bolsonaro em personagem épico, estrelada por Jim Caviezel, que já interpretou Jesus Cristo e agora parece condenado a uma espécie de via-crúcis curricular.

A República brasileira, que já foi abalada por pedalada fiscal, triplex metafísico, rachadinha, minuta golpista e joia saudita, agora balança diante de uma produção chamada Dark Horse. O nome, por si só, parece ter saído de uma reunião em que alguém disse “precisamos de algo forte, internacional, com cavalo, ocultismo e testosterona”. Faltou só subtítulo: The Mito Rises, dirigido por um algoritmo conservador com rinite.

Segundo as reportagens, Flávio Bolsonaro teria pedido a Daniel Vorcaro um aporte milionário para o filme sobre o pai. Vorcaro, por sua vez, não era exatamente aquele tio discreto que investe em curta-metragem universitário porque acredita na juventude. Era o dono do Banco Master, investigado num escândalo bancário de proporções amazônicas, preso, cercado de acusações de desviar dinheiro da aposentadoria de idosos servidores públicos e com aquele aroma institucional de quem transforma auditoria em gênero literário.

O detalhe mais bonito, no sentido mais feio da palavra, é que tudo aparece por áudio.

O áudio de WhatsApp, esse pária da comunicação moderna. O mesmo áudio que sua tia manda com dois minutos e quarenta para perguntar “qual era mesmo o nome daquele remédio?”, o mesmo áudio que começa com vento, latido e uma criança gritando no fundo, o mesmo áudio que fez a civilização desistir da escrita depois de cinco mil anos de evolução.

Pois agora ele vive seus dias de glória.

Durante anos, o áudio de WhatsApp foi visto como prova de preguiça, intimidade excessiva e falta de educação digital. Mas eis que, na hora decisiva, ele se levanta do pântano da informalidade e diz: “deixa comigo, eu seguro a democracia”. A Constituição poderia ter sido impressa em papel timbrado, mas a República brasileira, pelo visto, depende mesmo é de um playzinho azul.

Existe uma humilhação profunda em precisar de prova cabal para que o senso comum caminhe três centímetros na direção do óbvio. É como se o país inteiro estivesse diante de uma casa em chamas, com fumaça, labaredas, bombeiros, gente pulando da janela, e ainda assim alguém exigisse perícia para confirmar se aquilo ali é fogo ou apenas uma manifestação térmica com forte viés ideológico.

Mas o Brasil exige recibo da realidade.

Não basta o sujeito flertar com ruptura institucional, defender torturador, atacar urna, estimular turba, paparicar milico ressentido e posar de paladino moral enquanto a família acumula episódios que fariam uma quitanda parecer mais transparente que um conselho de administração. Não. É preciso áudio, print, documento, geolocalização, extrato, ata notarial, confissão em libras e, se possível, uma encenação em biscuit.

A sorte, se é que ainda podemos usar essa palavra sem ofender a meteorologia, é que a conspiração brasileira costuma ser administrada por homens que se acreditam protagonistas de thriller geopolítico, mas operam com a sutileza de grupo de condomínio discutindo vaga de garagem.

Eles querem derrubar instituições, mas deixam rastro como quem esquece pão francês no banco de trás do carro. Planejam o destino da nação com a discrição de um churrasco de deputado. Falam em comunismo internacional enquanto negociam filme heroico por mensagem de aplicativo. O fascismo tropical, felizmente, tem uma relação muito ruim com o modo silencioso.

E há uma ironia quase barroca no fato de que o bolsonarismo, tão dedicado a transformar artista em inimigo público, possa ser ferido por sua própria fantasia cinematográfica. A turma que passou anos tratando cultura como desvio moral agora aparece orbitando um filme caríssimo sobre o próprio patriarca, um monumento audiovisual à autopiedade épica, financiado, segundo as reportagens, por um banqueiro em apuros.

Claro, dirão que era dinheiro privado. Sempre dizem. O problema nunca é só a origem declarada do dinheiro, mas a coreografia inteira: quem pediu, quando pediu, quanto pediu, por que pediu, pra onde foi, quem sabia, quem fingiu não saber e quantas vezes a palavra “patriotismo” foi usada como detergente espiritual.

O mais engraçado, e aqui “engraçado” deve ser lido com a mesma alegria de quem encontra um escorpião dentro do sapato, é que a estética toda já nasceu paródica. Um filme sobre Bolsonaro com ator de Hollywood, orçamento mastodôntico, aura messiânica e bastidores mais interessantes que o roteiro. A realidade brasileira tem essa mania irritante de humilhar a ficção. Nenhum roteirista sério escreveria isso sem ser acusado de exagero. A vida, irresponsável como sempre, escreveu.

E o Intercept, mais uma vez, fez aquilo que parte do jornalismo ainda lembra que deveria fazer: cutucar a ferida antes que ela cicatrize por conveniência. O veículo já tinha causado um terremoto com a Vaza Jato e agora volta a abrir uma caixa que muita gente preferia deixar trancada no depósito das narrativas incômodas. Dá para discordar de linha editorial, de timing, de ênfase, de tudo. Mas é difícil negar o valor de colocar documento na mesa enquanto o país discute se quer mesmo olhar.

E agora vem a temporada por episódios.

Porque não basta vazar. É preciso vazar com dramaturgia. Um áudio hoje, um print amanhã, uma nova camada depois do almoço, uma reação desesperada no fim da tarde, um aliado fingindo serenidade às 19h. A política brasileira descobriu o modelo de streaming. A diferença é que, no Netflix, a gente reclama quando a temporada tem oito episódios. Na República, a gente implora pelo próximo vazamento como quem espera o resultado do paredão, só que com risco institucional e possível lavagem de dinheiro.

A esquerda festiva festeja. Esse bloco carnavalesco de baixa organização e alta capacidade de deboche respira por alguns instantes. Não porque o perigo acabou. Não acabou. O perigo nunca acaba, ele apenas muda de terno, ajusta o vocabulário e reaparece num jantar dizendo que é moderado. O próximo candidato aceitável pode vir com cara de terceira via, voz de gestor, planilha colorida e alma de quem sentaria à mesa com Hitler e pediria sobremesa sem constrangimento, desde que o garçom fosse eficiente.

Esse é o risco real. A extrema direita raramente desaparece quando passa vergonha. Ela troca a embalagem. Sai o berrante, entra o PowerPoint. Sai o tio do zap, entra o rapaz do mercado financeiro que fala “responsabilidade fiscal” como quem esconde um porão. Sai o golpe com coturno, entra o golpe com loafer marrom.

Mesmo assim, há momentos em que a decência merece um pequeno brinde. Não um brinde ingênuo, porque ingenuidade no Brasil deveria exigir alvará. Mas um brinde breve, quase clandestino, feito com a alegria mesquinha de quem vê o sujeito escorregar na própria casca de banana cenográfica.

O bolsonarismo queria um épico. Tá aí o épico. Com making of e tudo.

E, sinceramente, talvez seja o primeiro material realmente bom desse filme.