A dancinha que virou ouro e a treta que veio junto

A dancinha que virou ouro e a treta que veio junto

Em 2023, abrir o TikTok ou o Instagram sem ver o Xurrasco fazendo aquela coreografia era praticamente impossível. O influenciador carioca pegou “Lovezinho”, da cantora Treyce, e transformou uma faixa de funk em fenômeno de algoritmo. Semanas depois, a música era trilha sonora obrigatória nos blocos de Carnaval do país inteiro.

A letra era direta: um encontro, maconha, um refrão grudento prometendo carinho em sequência. Seguia a cartilha bem-humorada do funk brasileiro, na linha dos clássicos do gênero. Funcionou porque era simples, e simples, quando o timing é certo, domina.

Mas o que fez “Lovezinho” ir mais longe do que a maioria dos hits sazonais foi a cadência sonora. Treyce recorreu a uma base familiar ao ouvido do público, daquelas que parecem que você já ouviu antes mesmo de terminar o primeiro verso. Isso não é elogio vazio: é a engenharia exata de uma música feita pra viralizar.

E foi aí que começou a treta de verdade.

A familiaridade sonora chamou atenção de mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Produtores e detentores de direitos autorais lá fora identificaram semelhanças com outras obras e a disputa foi aberta. Uma dancinha do TikTok tinha acordado gigantes do mercado musical internacional dispostos a discutir quem era dono do quê.

Ninguém comentou isso na época, mas a trajetória de “Lovezinho” é um manual completo de como a internet funciona: a coreografia viraliza, a música sobe, o dinheiro aparece, e o dinheiro traz advogados.

Treyce saiu de 2023 como nome do ano. A faixa entrou para a lista de 20 hits em 20 anos do GloboPop, aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, que está mapeando os maiores fenômenos pop do período. Merecido, considerando que poucas músicas daquele ciclo conseguiram juntar bloco de Carnaval, disputa jurídica internacional e uma coreografia que até avó tentou reproduzir.

A moral da história é simples: às vezes uma dancinha não é só uma dancinha.