Tinha gente no Rio esperando por Shakira. Tinha gente esperando pela parte em que todo mundo xinga o Piqué junto, em português, com sotaque carioca.
A turnê Las Mujeres Ya No Lloran chegou ao Brasil carregando o que qualquer show de ex-traído carrega: a multidão já escolheu seu lado antes de a luz apagar. No caso dela, essa escolha foi feita há dois anos e não deu sinal de que vai mudar.
No palco, Shakira fez o que Shakira faz. O corpo que virou meme de resistência, o quadril que virou resposta política, a voz que atravessou um divórcio ao vivo na internet e saiu do outro lado com mais streams do que entrou. Não foi um show de superação. Foi uma demonstração.
A cada música que tocava nas feridas da separação, o público brasileiro entrava junto, com a energia específica de quem assiste a um jogo de futebol onde um dos times já está eliminado. Piqué não estava lá, mas foi citado o tempo todo, pelas letras, pelos gestos, pelos comentários que tomaram as redes durante e depois da apresentação.

O que aconteceu nas redes tem um padrão que vai além do fandom comum. Brasileiros entraram na narrativa como se fosse deles. Criaram memes, dublaram trechos, transformaram a ex-Clara Chía em piada recorrente e o zagueiro aposentado em personagem de novela das nove. O tipo que aparece no capítulo ruim e some sem redenção.
Tem algo ali que vai além da solidariedade à colombiana. O show funcionou como um ritual coletivo de catarse para quem já foi deixado, traído ou simplesmente ficou do lado errado de uma história. Shakira emprestou o palco. O público trouxe a própria bagagem.
Do lado de cá do Atlântico, ela dança, canta e lucra. Do lado de lá, ele vai a jogos de hóquei e tenta construir uma carreira de empreendedor com a namorada que virou estopim de tudo. A assimetria de atenção entre os dois, nesse momento, é o tipo de placar que dispensa narrador.
O show acaba. As luzes voltam. E o maior vilão da noite não pisou no palco uma vez sequer.
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