Larissa Luz lança “Desmonte” nesta sexta-feira, 29 de maio, e a pergunta que fica depois de ouvir o álbum é: quem autorizou essa mulher a fazer tudo isso ao mesmo tempo?
O quarto disco solo da cantora baiana chega sete anos depois de “Trovão” (2019) e dois depois de “Fio Pavio” (2024), o EP que serviu de antessala. Se naquele projeto as fagulhas já apareciam, aqui o negócio pegou fogo mesmo. Literalmente.
O que muda em “Desmonte” é o equipamento. Larissa Luz sempre trabalhou com percussão, com a fúria do tambor, com o corpo como instrumento político. Agora ela botou guitarra em cima disso. Rock. Distorção. Volume. O tambor não saiu, só ganhou companhia mais barulhenta.
O contraste é o ponto. Uma artista formada no samba e na tradição rítmica afro-brasileira usando o rock como ferramenta de confronto é um gesto que a própria história da música popular brasileira ainda processa com dificuldade. Vira essa combinação, e metade do auditório não sabe se aplaude ou se recalcula a rota.
O álbum tem quatro estrelas na crítica do G1, o que no universo das resenhas de música popular brasileira equivale a “vai durar”. Alta voltagem ideológica é o termo usado, e nesse caso não parece exagero de press release. O disco aparentemente não economiza em discurso.
Vou falar uma coisa: tem algo muito específico em ver uma cantora levar o tambor pra dentro do rock em vez de levar o rock pra dentro do samba. A direção importa. Larissa não foi buscar legitimidade na guitarra. A guitarra foi convocada a servir ao que ela já fazia.
Esse detalhe muda tudo na leitura do projeto. “Desmonte” parece menos uma reinvenção e mais uma escalada. O som ampliou, o discurso também, e o nome do álbum já entrega a intenção sem cerimônia.
A cantora estreia o disco ao vivo ainda neste ano, e a questão que fica é como esse material vai se comportar no palco. No papel, ou melhor, no stream, a combinação de percussão afro-brasileira e rock com letra política já é bastante. Com corpo, luz e plateia, pode ser outra coisa.
Tambor com distorção. O recado foi dado.






