Jornais egípcios usam tom transfóbico na cobertura da prisão de Malévola Alves

Jornais egípcios usam tom transfóbico na cobertura da prisão de Malévola Alves

A influenciadora Mariana Alves, conhecida como Malévola Alves, foi detida em Alexandria, no Egito, na terça-feira (20 de outubro de 2026), junto com a amiga Bruna Mercatelli. A acusação: gravar vídeos com “comportamento obsceno” nas ruas do país. A repercussão na imprensa egípcia, no entanto, foi além da acusação.

Segundo o Ministério do Interior egípcio, os vídeos mostram as duas brasileiras “fazendo movimentos obscenos e provocativos, com insinuações sexuais e assediando pedestres” em diferentes províncias. A prisão aconteceu após os conteúdos viralizarem nas redes sociais, mostrando as duas interagindo com homens locais dentro de um carro e nas ruas.

Os jornais egípcios não perderam a oportunidade. O site “Newsroom” colocou em destaque na manchete que Malévola “era um homem” e ainda a apontou como pivô da “polêmica”. O “Al-Wafd” falou em vídeos com “movimentos de exibição e assédio a transeuntes”. Já o “Al-Raees News” chamou os conteúdos de “ofensivos” e disse que o material “fere o pudor”.

Vou falar uma coisa: a identidade de gênero da influenciadora não tem nada a ver com a investigação em curso, mas os jornais locais tornaram isso o centro da cobertura.

Antes do anúncio oficial da prisão, Malévola já havia contado nas redes que ela e Bruna tinham sido levadas a uma delegacia durante um passeio por Alexandria e que os policiais retiveram os passaportes das duas e perguntaram sobre suas identidades de gênero. Esse detalhe diz bastante sobre o clima da abordagem.

O Egito não condena expressamente a homossexualidade ou a transexualidade em lei, mas tem um histórico de repressão à população LGBTQIA+ usando legislação de moralidade pública e proteção dos valores familiares para investigar e deter pessoas da comunidade. As duas se enquadram nesse contexto sem precisar de nenhuma lei específica.

A defesa de Malévola informou nesta quarta que estava em contato com a Embaixada brasileira e que a influenciadora seria liberada em breve. Até a última atualização da reportagem original, o governo egípcio não havia confirmado a soltura nem respondido ao pedido do g1 por mais informações.

A manchete que chama uma mulher de “era um homem” enquanto cobre um caso de suposta indecência pública resume bem o que está acontecendo aqui: a treta não é só com a lei egípcia.