Malévola Alves desembarcou em Guarulhos na noite de 22 de outubro depois de dois dias presa em Alexandria, no Egito, e foi direto ao ponto: “A gente foi tratada como lixo.”
Em entrevista ao portal LeoDias logo após o desembarque, ela contou que foi detida junto com a amiga Bruna Mercatelli na última terça-feira, 20 de outubro, depois de vídeos delas dançando e fazendo gestos em espaços públicos circularem. As autoridades egípcias enquadraram as cenas como obscenas. A soltura veio depois do pagamento de cerca de R$ 10 mil de fiança.
O relato mais pesado é o da transferência de Alexandria ao Cairo. Sem passaporte, sem celular, sem banheiro e sem saber para onde estavam sendo levadas, as duas ficaram mais de três horas trancadas na parte traseira de uma viatura policial, apenas entre homens. “Tive que mijar dentro do camburão”, disse Malévola. Tem horas em que o fato dispensa comentário.
Ela também descreveu uma mudança de tratamento que diz muito sobre o que estava em jogo. Quando as autoridades perceberam que ela tinha vagina, o tom mudou. “Quando eles viram que eu tinha uma vagina, o tratamento mudou. Começaram a tratar a gente bem”, contou. Antes disso, segundo ela, foram tratadas como criminosas por serem trans em um país islâmico.
O relato mais grave envolve assédio sexual durante o trajeto de volta. Malévola afirmou que policiais colocaram as mãos no corpo delas dentro do camburão com a promessa implícita de dar acesso ao celular em troca. “A gente teve que deixar o assédio acontecer pra ter acesso ao celular, mas foi mentira. Não aconteceu nada disso. Colocaram as mãos nos nossos corpos e, depois disso, a gente foi levada pra outra salinha do aeroporto”, relatou.
Visivelmente indignada, ela também veio rebater quem tentou justificar o episódio pela roupa que usava ou pelos vídeos gravados. “Muito se fala na internet que foi por conta dos nossos atos, mas não. Foi porque somos trans”, disparou. Sobre o conteúdo filmado, garantiu que tudo foi feito com consentimento das pessoas envolvidas e que nenhuma mesquita foi desrespeitada.
Ninguém vai dizer que estava esperando por isso quando comprou a passagem pro Egito.






