Mapeamos o status quo:

O problema da zona de conforto é que ela é muito bem decorada. O sujeito entra lá, coloca um tapete de crochê, instala um roteador de última geração e, quando percebe, já está pedindo o jantar por aplicativo porque atravessar a rua virou um esporte radical.
A imagem é clara: vivemos em uma espécie de panóptico invertido. No projeto original de Jeremy Bentham, as guardas vigiavam os presos. Na nossa versão moderna, a “Guarita das Convenções Sociais” não está lá para nos impedir de sair, mas para garantir que ninguém estranho entre e mude o canal da televisão.
Somos arquitetos fenomenais. Para cada convite de aventura, empilhamos um tijolo de justificativa:
“É muito longe.”
“Vai chover.”
“Meu joelho não é mais o mesmo desde o verão de 98.”
“Amanhã eu tenho que acordar cedo para não fazer nada.”
O “Grande Muro de Pretextos” é a obra de engenharia mais sólida da humanidade. É uma muralha da China construída com o cimento da procrastinação. E o arame farpado? Ah, o “Alambrado de Medos”. Ele não é feito de aço, é feito de “E se?”. E se der errado? E se eu passar vergonha? E se o sinal do Wi-Fi não chegar lá fora?
Lá no fundo, sentadinho com o laptop no colo, o homem moderno é um monarca de um reino de dois metros quadrados. Ele tem o mundo nas pontas dos dedos, desde que o mundo não exija que ele use sapatos de cadarço. O Wi-Fi grátis é o ópio do povo confinado. É o que nos convence de que estamos “conectados” com o Himalaia, enquanto nossas pernas estão atrofiando debaixo da mesa de centro.
O perigo, diria o cronista com um sorriso de canto de boca, não é o muro cair. O perigo é ele ficar tão alto que a gente esqueça que existe um céu lá em cima. Mas, por enquanto, deixa o muro aí. Tá passando a reprise do jogo, a pizza está chegando e a senha do Wi-Fi ainda é a mesma. Amanhã a gente pula o muro. Ou depois de amanhã. O importante é que o sinal está com todas as barrinhas cheias.
“A liberdade é maravilhosa, mas a gente sempre acaba voltando para onde tem tomada.”
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