
Não há nada mais comovente, mais nobre e mais profundamente humano do que a nossa capacidade de celebrar a natureza… matando-a um pouquinho para que ela caiba no nosso figurino.
A lógica da passista é impecável, quase poética: para conscientizar o povo sobre a importância da preservação da fauna, nada melhor do que arrancar a roupa da própria fauna e colá-la com cola quente num biquíni de lantejoulas. É o que eu chamo de “sacrifício pedagógico”. Afinal, quem precisa de um faisão ou de um pavão andando por aí com suas penas originais, esbanjando arrogância biológica, quando essas mesmas penas poderiam estar “agregando valor” ao rebolado de uma celebridade na Marquês de Sapucaí?
É a definição suprema de homenagem. Nós amamos tanto a biodiversidade que queremos vesti-la. Literalmente. É como dizer que você ama tanto o seu avô que decidiu fazer um abajur com a pele dele para “homenagear a ancestralidade da família”.
E olhem para os pássaros no sofá. Que ingratos! Em vez de se sentirem honrados por terem suas bundas depiladas em prol do entretenimento televisivo e da “mensagem ecológica”, ficam aí reclamando. Onde está o espírito de equipe? Onde está o patriotismo animal? Vocês não perderam as penas; vocês ganharam visibilidade! Aquele rabo que antes só servia para atrair fêmeas no mato agora está brilhando em HD para milhões de espectadores.
No fim das contas, a tirinha nos ensina a lição mais valiosa da humanidade moderna: o discurso é lindo, engajado e verde. Mas, nos bastidores, alguém sempre acaba pelado, com frio e xingando a mãe de quem está no palco recebendo os aplausos.
Viva a folia! Viva a natureza! (Desde que ela combine com o adereço de cabeça).
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Tirinha do Renan Lima.





