Existe um certo talento em subir ao palco cantando “chuva miúda não mata ninguém” exatamente no momento em que um temporal desaba em cima de todo mundo. O BaianaSystem tem esse talento.
No domingo (6), a banda baiana se apresentou no Palco Sunset do Rock in Rio desta edição com um show batizado de “O Ciclo”, dirigido pela atriz Alice Carvalho. A abertura foi com “Água”, de 2019, enquanto a cidade do Rock virava literalmente isso. Russo Passapusso, o vocalista, tentou transformar o caos meteorológico em ritual: “Deixa molhar, people, é bênção.”
A chuva não foi embora. Piorou. E o show continuou.
Logo emendou com “Sulamericano”, também de 2019, outro hit do catálogo que funciona como grito coletivo. “Não passa disso, não me engana, que eu sou sul-americano lá de Feira de Santana.” Debaixo de temporal, com público encharcado, a frase ganhou uma camada extra de algo que é difícil de nomear mas fácil de sentir.
Em pouco menos de uma hora, a performance passeou por boa parte do que construiu a história do grupo desde 2009: sound system jamaicano, guitarra baiana, samba, reggae, cumbia, rock, música de orquestra. Tudo no mesmo set, sem parecer salada. É exatamente esse tipo de coisa que a banda faz bem e que o palco do Rock in Rio evidenciou com força.
A direção de Alice Carvalho jogou a favor. O show tinha estrutura de espetáculo, não de apresentação de festival. Quando você nomeia um set como “O Ciclo” e convida uma atriz pra assinar a direção, o recado é que o que vai acontecer ali pretende ser mais do que repertório e luzes.
Ninguém comentou isso ainda, mas a chuva praticamente codirigiu.
O resultado foi um daqueles momentos de festival que as pessoas descrevem depois tentando explicar por que funcionou, sem conseguir exatamente. O público molhado, o temporal constante, a banda tocando como se o clima fosse parte do roteiro. A meteorologia colaborou sem ser convidada, e o BaianaSystem aproveitou cada gota.
Russo Passapusso pediu pra deixar molhar. Todo mundo deixou.






