Biquíni faz 80 anos: da bomba nuclear ao símbolo máximo de brasilidade


Em julho de 1946, um estilista francês chamado Louis Réard apresentou ao mundo uma peça de roupa tão pequena que ele teve que contratar uma dançarina de cabaré para desfilá-la. Nenhuma modelo profissional topou. Ele batizou a criação com o nome do local onde os Estados Unidos acabavam de detonar uma bomba nuclear: Bikini Atoll. A lógica era essa: a peça ia causar o mesmo tipo de impacto. Ele estava certo.

Oitenta anos depois, o biquíni virou sinônimo de Brasil. Não da França, não dos Estados Unidos onde era proibido em várias praias nos anos 1950. Do Brasil, país que transformou um escândalo europeu em cartão-postal, símbolo de liberdade e, convenhamos, em argumento turístico.

A chegada ao país não foi suave. Na década de 1950, biquínis eram confiscados em praias do Rio. Havia fiscais para isso. A roupa considerada imoral demais para Copacabana foi, nas décadas seguintes, exatamente o que Copacabana vendeu para o mundo inteiro.

O que aconteceu no meio é a parte interessante. O Brasil não só aceitou o biquíni. Ele o reinventou. O fio dental dos anos 1970 e 1980 reduziu o tecido ao mínimo geometricamente possível e transformou o ato de ir à praia em algo que o resto do mundo observava com uma mistura de admiração e desconforto.

Tem algo revelador nisso tudo: o país que pegou um objeto batizado em homenagem a uma explosão nuclear e decidiu usá-lo como identidade cultural. Literalmente abraçou a bomba.

O subtexto da história também não é pequeno. O biquíni chegou ao Brasil como símbolo de subversão e foi sendo, ao longo de décadas, associado à autonomia feminina sobre o próprio corpo. As discussões que a peça gerou em 1946 na França são as mesmas que ainda aparecem hoje em debates sobre o que mulheres podem ou não vestir em espaços públicos. A roupa mudou de tamanho. O debate, nem tanto.

Hoje o Brasil é o segundo maior mercado de moda praia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Marcas brasileiras exportam biquínis para mais de 60 países. Aquela dançarina de cabaré que topou o desfile em Paris provavelmente não imaginou que a peça ia parar nas araras de todo shopping de São Paulo.

Oitenta anos, da bomba à beira-mar. Nenhum outro país teria feito isso com mais naturalidade.