Desde que a internet se consolidou como meio de comunicação democrático, especialmente com o advento dos blogs e redes sociais, alguns ícones da cultura pop foram se fortalecendo ainda mais e alcançando status de divindades. É o caso da saga Star Wars, das séries Breaking BadGame Of Thrones, dos atores Nicolas Cage e Scarlett Johansson, do Lego, do bacon e da Nutella. E, claro, de Chuck Norris. Mas se existe uma entidade que exerce pleno fascínio sobre os produtores de conteúdo deste milênio são as princesas Disney.

Que Walt Disney construiu seu império revisitando contos de fadas ancestrais que contam histórias encantadas de belas princesas, já era mais do que notório, mas somente em 1990 a reunião das mocinhas protagonistas dos longa-metragens de animação da Disney virou marca registrada. Desde então, como manda o politicamente correto desses novos tempos, uma índia, uma árabe, uma oriental, uma negra e, vejam vocês, até mesmo uma moça de cabelos encaracolados (e sem chapinha ou progressiva, pasmem) ingressaram no grupo de heroínas caucasianas europeias à espera por um príncipe encantado. Por falar nisso, até a postura das delicadas donzelas se transformou, em roteiros com ares um pouco mais feministas – ou “menos machistas”, se preferir.

Com um grupo agora tão heterogêneo – e relacionado a obras populares do universo infantil – a internet encontrou sua musa inspiradora principal para exercer esta aparentemente compulsiva mania de “remixar” elementos culturais. De todas as formas possíveis.

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Um rápido passeio pela blogosfera brasileira e você vai conhecer infinitas versões diferentes das princesas: nuas, peladas e sem calcinha, para maiores, de lingerie, hipsterszumbis, étnicasrealistashistoricamente corretascelebridades, 50 tons de cinza, Suicide Girls, gordinhas, barbudas, retocadas, medievais, orientaissinistras, Star Wars, Game Of Thrones, Vingadorastreinadoras de Pokémon, noivas indianas, com looks corrigidos, fazendo cosplay, passeando por Nova York, explodindocontra vilões do cinemaNicolas Cagebetoneiras, pizza, cachorros defecando e, claro, sem o tal “final feliz”.

Contudo, uma versão nunca antes imaginada das adoráveis princesas jogaria o feitiço contra o feiticeiro: e se elas fossem… blogueiras?

Parece que o jogo virou, não é mesmo?

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Pra começar, a primeira coisa que poderíamos especular, neste livre exercício imaginativo, é que pra serem blogueiras, as moças certamente teriam que ter um lado nerd. Nada de cantar ao ar livre com os pássaros e roedores da floresta. Nada de grandes bailes no palácio real. Nada de aventuras. E, principalmente, nada de beijos de príncipes encantados.

Mais do que a vivência de experiências intensas, a legítima vocação blogueira vem da sua ausência. Ou, melhor dizendo, da vivência de experiências não tão intensas quanto em um comercial de energético, mas eventualmente tão ou mais interessantes quanto.

Portanto, num universo paralelo em que princesas se registram em uma ferramenta de publicação de blogs, o tom alvo da pele não seria exclusividade da amiga dos anões. Dormir descompensadamente como se tivesse sido vítima de um feitiço seria comum e rotineiro, e a clausura traria longas tranças a todas.

Musical, que nada! Quem topa uma partidinha de RPG?

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Pensando bem, até que este universo hipotético até então impensado guarda certos paralelos.

A blogueira Cinderela, que nos tempos de mIRC usava o nickname Gata_Borralheira, por exemplo, deixou sua vida sofrida na cidade do interior por um impulso para exibir sua figura num evento de social media e voltou sem o sapatinho de cristal, mas cheia de contatos pra finalmente monetizar o seu blog de moda. E mesmo assim ainda teve que enfrentar a concorrência desleal daquelas que se diziam suas irmãs.

Tiana é outra que teve que beijar – e até engolir – alguns sapos para conseguir o que queria: um logo, um layout e uns links de referência aqui e ali. O mesmo vale para Ariel, jornalista da “velha mídia”, que teve que abandonar seu oceano de comodidade para se aventurar em outro mundo, mesmo sem saber se iria conseguir andar com as próprias pernas.

 

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Na busca por audiência em seus blogs, Rapunzel atira suas longas tranças nas redes sociais, com manchetes e títulos apelativos para atrair leitores. Já Merida capricha na pontaria segmentando minuciosamente o seu conteúdo.

Seguindo outra estratégia, Jasmine se deu bem porque o namorado, um hacker malandro, atende a todos os seus desejos. Os tutoriais de maquiagem de Bela também ganharam visibilidade em parte graças ao namorado temido e respeitado pelo mercado.

E enquanto as irmãs Anna e Elsa seguem sua jornada – let it go – para não entrarem numa fria, Pocahontas montou um e-commerce pra vender suas artes das coisas que a natureza dá pra gente.

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O convívio entre elas, claro, não é muito pacífico. Afinal, além de mulheres (e princesas), são blogueiras. Competindo em um turbilhão de egos.

Algumas, inclusive, certamente decidiriam abandonar os frufrus cor-de-rosa e clichês de feminilidade para assumir uma postura mais ousada e cheia de atitude – ou seja, criando novos clichês de feminilidade com seus muitos piercings e tatuagens à mostra no Instagram, no Tumblr e no Pinterest.

Com um pouco de sorte e as referências certas, conseguem atacar de DJ na balada hipster depois de participar da inauguração de uma nova hamburgueria gourmet e fazer aquelas fotos pro ensaio sensual inspirado em Kafka.

O grande perigo, em todos os casos, é que nossas princesas blogueiras acabem mordendo a maçã envenenada da vaidade, e esqueçam que, para ser feliz para sempre, mais importante do que ser a mais bela do reino é oferecer um bom conteúdo.

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Nem só de aparências e tendências, contudo, viveria a blogosfera encantada.

Bons conteúdos certamente não faltariam em blogs de verdadeiras guerreiras como Mulan, ambientalista perseguida por suas denúncias. Houve um tempo, inclusive, em que a autora fazia-se passar por homem para ser respeitada na blogosfera.

Algumas princesas parecem ter escolhido o caminho das pedras e se desdobram para efetivamente contribuir com um pouco mais do que dicas de design de sobrancelha.

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No fim, o fato é que cada uma, ao seu estilo, compõe a miscelânea que faz da internet um espaço democrático. Quem é de cantar, canta; quem é de dançar, dança; quem é de cantar e dançar ao mesmo tempo, puxa o musical.

Juntas e misturadas no cyberespaço, as blogueiras compartilham suas experiências pessoais, suas opiniões, suas vidas, enfim. Integrando desta forma os diversos fragmentos desta “princesosfera” hipotética, que talvez em muito se pareça com a blogosfera da vida real.

Afinal, convenhamos, “blog” é apenas uma ferramenta. Todo o resto é que define.

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Mas não sem antes entoar uma bela canção, ecoando pela floresta encantada, num musical dirigido pelo Kondzilla.


 

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