Tenho uma certa mania de organização – e sei que muitas pessoas compartilham da mesma paranoia – que deve liberar alguma substância de prazer no cérebro quando as coisas estão dispostas conforme um sistema aparentemente lógico de normas. E, ao contrário, provoca imediata repulsa quando algo está fora do prumo.

Por exemplo, se você tem quatro filhas chamadas Ana Maria, Ana Luiza, Ana Carolina e Zélia, eu espero que esteja juntando dinheiro pra pagar o analista da pobrezinha que foi batizada com uma regra diferente. Ou que tenha logo outras filhas e as chame de Zenilda, ou Zelda, para consolidar o novo padrão. Ah, a beleza simétrica da coerência!

Não preciso nem dizer que eu espero que o Felipe Neto pretenda dar ao seu herdeiro o nome de Felipe Bisneto. E que precisam urgentemente oficializar “Sandy” como feminino de “Júnior”, para quando uma mãe quiser colocar o próprio nome em sua filha.

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Portanto, se tem uma coisa que me deixa puto é quando ficam alterando critérios de classificação, de modo a interromper sequências. Faz lembrar o Sílvio Santos mudando as regras do jogo na Casa dos Artistas. Ora, se tivemos a “geração X” e a “geração Y”, por que não podemos esperar chegar na “geração Z” para inventarmos um novo sistema? Não. Os filhas da puta já determinaram que esses são os “millenials“. Temo que a próxima geração possa receber um nome ainda mais aleatório, como “jujuba” ou “pôr-do-sol”.

Inclusive quero saber se podemos dar continuidade ao critério que cunhou o termo “web 2.0” e chamar esta nova fase da internet, com seus aplicativos e plataformas móveis, de “web 3.0”. É um dos termos mais cretinos da história da civilização, eu sei, mas funciona bem pra fins didáticos.

Quem possivelmente reconheceu o valor de uma lógica singela é a Microsoft. Tanto que, depois daquela loucura de “NT”, “XP”, “Vista”, etc., voltou a ser simplesmente “7”, “8”, e até pularam o “9” pra arredondar logo pro “Windows 10”. Aguardamos a Adobe Hitler fazer o mesmo com o nome das versões de suas ferramentas.

Na verdade não seria nada mal se padronizassem essa histeria de números usadas para determinar versões de softwares e aplicativos – com a expressa proibição do maldito sufixo “beta”, muitas vezes empregado como eufemismo de “mal-acabado”.

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Nutro o mesmo desprezo por continuações de filmes que não assumem seus números e saem com subtítulos pretensiosos. Tirando James Bond, que tem autorização real, franquias que se prolongam, como Missão Impossível, Jogos Mortais e Atividade Paranormal, deveriam ser obrigados por lei a ostentar uma sequência aritmética de algarismos. Menos “O Retorno”, “A Missão”, mais “4”, “7”, “12”. Pelo bem da arquivologia.

Não vou nem falar no trabalho cognitivo desnecessário criado por reboots, remakes e prequels oportunistas inventados pelos grandes estúdios para confundir as mentes dos jovens.

Da mesma forma, ver ruir um grande monopólio da comunicação televisiva brasileira não teria a mesma graça se não fosse pra acabar com aquela disparidade promíscua entre o nome da faixa de horário e o efetivo horário em que o programa ia ao ar. Maldita “novela das oito” que começava depois das 21h, denunciando o atraso geral da nação.

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Mas, definitivamente, no que diz respeito a nomeclaturas e padrões de classificação, nada é mais perversamente confuso do que os nomes inventados para as categorias de produtos ou serviços comerciais.

Podiam simplificar o parâmetro qualitativo dos itens para “standard”, “premium” ou “deluxe”, mas o capitalismo inventou todo tipo de eufemismo para fazer tudo parecer melhor do que é. Que o digam os “almoços executivos” e a “classe executiva”, os cartões de crédito “golden”, “platinum” e “black”, os complexos pacotes de TV a cabo e telefonia, os ingressos “VIP” que não dão direito a nada, as versões “gourmet” de alimentos e os tamanhos de pizza intitulados como “família” e “maracanã”, claramente fora das normas da ABNT.

Ou até mesmo o nome das divisões das escolas de samba, que viraram “Grupo Especial” e “Grupo de Acesso”, pra não menosprezar o espetáculo.

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Posso levar essa minha implicância com padrões inconsistentes também para uma eventual conferência das Nações Unidas, contra certos nomes de países. Não me importa se a colônia declarou independência, enquanto existir uma “Guiana Francesa”, a outra não pode simplesmente se chamar “Guiana”, deveria ser “Guiana Inglesa”. Aliás, o “Reino Unido”, com suas Grã-Bretanha, Irlanda do Norte (cadê a do Sul?), País de Gales, Escócia e etc., é uma suruba muito mal resolvida com o lance da divisão das terras e soberanias políticas – mas se deixassem eu arrumava rapidinho… “África do Sul”, sem uma “África do Norte”, é outra coisa que jamais passaria pelo meu crivo. E a “Velha Zelândia”? Onde fica? Pois é.

Na geografia política do Brasil as coisas não são diferentes. Não me conformo que a região Norte não se chama região “Noroeste”, e a Centro-Oeste não se chama “Sudoeste”. Se um Mato Grosso é “do Sul”, o outro tem que ser o “do Norte”, como fazem bem os Rios Grandes, mesmo de longe. E que porra é um “Distrito Federal”? Sério, qual a função prática disso existir, a não ser nos obrigar a contar separado dos 26 estados?

Nada, contudo, é mais obceno do que São Paulo ser a capital de São Paulo e o Rio de Janeiro ser a capital do Rio de janeiro. Coincidência? Acho que não. Tem algo muito errado aí. Ainda bem que pelo menos acabaram com aquele surto psicótico que era o estado da Guanabara.

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Irregularidades ainda mais arraigadas em nossa cultura também me dão a impressão de que a civilização errou em diversos momentos cruciais.

Que o diga o calendário gregoriano, com seus meses de 30 e 31 dias, aquele fevereiro deficiente e um evento grotesco de quatro em quatro anos chamado “ano bissexto”. Ou o sistema numérico inventado para contar a passagem do tempo, esta fantástica quarta dimensão da realidade conhecida. Quem foi o corno que fez o minuto ter 60 segundos e o dia, 24 horas? Não dava pra trabalhar com o esquema de dezenas, que vinha indo tão bem com seus zeros redondinhos?

E o sistema de medidas americano? E a tabela periódica? As fórmulas de física e símbolos matemáticos? Idiomas? Dialetos? Um nome de cor que também é um nome de uma fruta da mesma cor. Certeza que em algum lugar do universo alienígenas fizeram melhor.

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Minha legítima revolta não diz respeito apenas a um capricho em desagrado, nem tampouco configura qualquer transtorno obsessivo-compulsivo. Talvez obsessivo-repulsivo.

Meu incômodo com  tantas incongruências do mundo pesa na medida em que me faz refletir que a inteligência coletiva e a sabedoria das massas não são infalíveis, e que muitas decisões supostamente democráticas podem ser quase tão ruins quanto disparates tirânicos. Em última análise, vai ser preciso muito diálogo e muito trabalho pra colocar um pouco de ordem nas coisas.

Até lá, espero que estejam ensinando programação nas escolas.


 

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