Ana Paula Maia é finalista do Booker Prize 2026 com terror literário


Ana Paula Maia é finalista do International Booker Prize 2026 com Assim na terra como embaixo da terra, disputando um dos prêmios literários mais prestigiosos do planeta. Se ganhar, será a primeira brasileira a levar o troféu.

Ela cultiva terror literário há 23 anos. No Brasil, esse tempo foi suficiente pra construir uma obra sólida e também pra ouvir, por décadas, que o que ela fazia não encaixava direito no mapa da literatura nacional.

A própria escritora resumiu bem: “sempre estive muito na contramão da literatura brasileira”. Dito assim, parece queixa. Lendo o contexto, parece orgulho.

O terror literário nunca foi exatamente o xodó dos festivais e listas de mais importantes do país. A Ana Paula foi construindo o trabalho dela meio à margem disso tudo, num gênero que o establishment local tratava como coisa menor, de prateleira secundária. Vinte e três anos depois, o Booker enxergou o que boa parte da cena literária brasileira demorou pra ver.

Vou falar uma coisa: tem uma certa ironia gostosa em uma escritora que passou décadas sendo considerada deslocada no próprio país agora representar esse mesmo país num dos maiores prêmios literários do mundo.

O International Booker é dado anualmente a um livro traduzido para o inglês e publicado no Reino Unido. A tradução também concorre, e o prêmio é dividido entre autor e tradutor. A presença de Ana Paula na lista final já é, por si, um marco: nenhum brasileiro chegou tão longe nessa disputa.

O livro lida com morte, trabalho e os limites do humano num registro que mistura brutalidade e lirismo. Exatamente o tipo de coisa que não cabe em categoria simples, o que provavelmente explica tanto o quanto foi ignorada aqui quanto o porquê chamou atenção lá fora.

A contramão, no fim, tinha um destino.