Jon Batiste transforma o Rock in Rio em culto: do samba a Beethoven sem parar

Jon Batiste transforma o Rock in Rio em culto: do samba a Beethoven sem parar

Jon Batiste abriu o show desta edição do Rock in Rio na segunda-feira cantando a capella. Sem banda, sem base, sem intro dramática. Só a voz, como uma espécie de louvor. O que veio depois foi, nas palavras dele mesmo, “uma prática espiritual”.

A frase não foi metáfora vaga de artista querendo parecer profundo. Batiste disse isso durante “Freedom”, já com um grupo de percussionistas cariocas no palco, depois que a congregação já estava em pé. “De onde eu venho, quando a gente toca esse tipo de música, as pessoas não ficam paradas. Preciso sentir sua liberdade”, pregou, literalmente.

O repertório foi do gospel americano ao samba, de Beethoven a Jorge Ben, sem que nada soasse forçado. Tocou escaleta, bateria, piano. Puxou coro. Deixou a banda brilhar nos momentos em que qualquer outro artista estaria roubando o holofote. No piano, emendou “Mas Que Nada” com Nêgah Santos nos vocais, numa entrega que arrancou reação da arquibancada.

Ingrid Silva, bailarina brasileira de carreira internacional, entrou no palco para uma performance ao som de “Butterfly”. Ali ficou claro o que Batiste estava montando: menos setlist, mais ritual. Cada convidado entrava como parte de uma cerimônia, não como feat de divulgação.

Vou falar uma coisa: é raro ver alguém no palco do Rock in Rio que parece estar se divertindo de verdade. Batiste sorriu durante o show inteiro, dançou sem parecer ensaiado, e fez aquela transição de Beethoven ao samba com cara de quem faz isso no churrasco de domingo.

O detalhe que resume a noite: ele nunca parou de se mover. Piano, bateria, escaleta, chão do palco, frente do palco. A energia de pastor em culto de avivamento, mas o repertório de quem passou a vida inteira convencido de que música erudita e samba bebem na mesma fonte. O público foi levado junto, sem resistência.

Jon Batiste não precisou de telão gigante nem de pirotecnia. Trouxe percussionistas do Rio, uma bailarina, uma cantora brasileira, e transformou o Palco Mundo numa catedral de improvável.