Gilberto Gil entrou no Palco Mundo na segunda-feira 7 caminhando devagar, conjunto branco cravejado de pedrinhas em prata, guitarra na mão. Antes de tocar a segunda música, já tinha dito tudo: “Eu estive aqui no primeiro Rock in Rio. Talvez esse seja o meu último. Estou cansado, vamos ver.”
Direto assim. Sem rodeio, sem drama. Do jeito que só quem tem 84 anos e cinco shows no festival se dá ao luxo de falar.
A declaração veio logo na primeira vez que ele se dirigiu ao público, depois de abrir com “Cérebro Eletrônico”, de 1969. A cabecinha branca dele rodando em 360° no telão enquanto os versos tocavam foi uma das imagens da noite. O homem sabe montar uma cena mesmo sem tentar.
Gil esteve no Rock in Rio inaugural de 1985, voltou em 2001 e em 2022. Essa edição de 2026 é a quinta aparição dele no festival. Para quem disse que estava cansado, emendou 16 faixas: “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana”, “Realce”, “Pela Internet”, “Palco” e mais. Andou pouco pelo palco, voz mais fraca do que em outras edições, mas o domínio do espaço estava intacto.
O contraste é que ninguém avisou ao show que ele estava cansado. A plateia do Palco Mundo não parecia muito convencida de que era uma despedida, e Gil também não soou como alguém encerrando ciclos. Soou como alguém sendo honesto sobre a idade, o que é uma coisa completamente diferente.
Ninguém comentou, mas o look de pedrinhas cravejadas num momento de declaração tão crua é exatamente o tipo de contradição elegante que faz de Gilberto Gil um artista impossível de resumir numa manchete.
Vamos ver, como ele mesmo disse.






